Categorias: LITERATURA

Sobre o Autoritarismo Brasileiro e nossos fantasmas do presente

Saber o porquê de estarmos onde estamos nem sempre é tarefa fácil — olhando para a atual conjuntura do país, esse estranho, violento e frágil momento político brasileiro, demonstra que é, na verdade, bem o contrário. Entender porque estamos onde estamos requer aprendizado, consciência social e reiterados lembretes. É sob essa ordem que, despido de linguajar acadêmico e ainda assim muito didático, Sobre o Autoritarismo Brasileiro foi lançado no último maio pela editora Companhia das Letras.

Da historiadora, antropóloga, professora, curadora do MASP e colunista Lilia Moritz Schwarcz, o livro, que utiliza pesquisas, estatísticas e muita história, pinta um passado que explica o presente e parece, de certa forma, prever o que pode estar por vir. Porque nada é fato isolado em um país criado à base da exploração. Dividido em oito capítulos, que buscam elucidar o caminho que nos levou ao momento atual do Brasil, o livro é uma tentativa de aproximar a academia, muitas vezes reclusa em sua própria bolha, de um público mais abrangente e popular. E, assim sendo, acertou. Sobre o Autoritarismo Brasileiro figurou por semanas nas listas de mais vendidos no Brasil, sendo um dos destaques da Flip 2019 e também da Bienal do Livro.

O brasileiro nunca foi tolerante” é o mantra de Lilia, que ecoa em diversas entrevistas concedidas pela escritora. E o véu, que costumava enganar, ou negar, a intolerância do brasileiro — intolerância essa que vem ganhando força desde o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff — caiu nas últimas eleições. Com a utilização do anonimato, de robôs virtuais e notificações em massa, a internet, para além de se tornar um grande ringue virtual, onde as lutas permearam (e permeiam) as relações interpessoais, também é a ferramenta escolhida para deixar a verdade de lado em prol daquilo que melhor soar aos ouvidos, ou aos olhos. O véu caiu, pessoas próximas se demonstraram intolerantes, e agora em palanque para todo mundo ver e ouvir; as polaridades ganharam força, e o ódio e o afeto contaminaram, também, as instituições públicas (para mais, ler sobre a Vaza-Jato).

“As questões que assolam os brasileiros são bem mais complexas e estão ligadas à nossa renhida desigualdade social. A tolerância da brutalidade policial, a redução da maioridade penal e o incentivo ao armamento dos cidadãos representam grandes doses de um xarope sem prescrição médica e que atende pelo nome de autoengano.” (pág. 158)

Em entrevista concedida para o jornal O Tempo, Lilia afirma que “muitas vezes nós localizamos o autoritarismo no país em uma só pessoa ou um contexto. O que eu proponho é algo contrário disso. A ideia é que nós compartilhemos a responsabilidade de refletir como o Brasil sempre foi um país autoritário. Isso está na base, em suas estruturas”. No livro, conhecemos um pouco mais das estruturas que sustentam o autoritarismo no país: escravidão e racismo; mandonismo; patrimonialismo; corrupção; desigualdade social; violência; discrepâncias entre raça e gênero; e, por último mas não menos importante, a intolerância. Sem mencionar a figura do presidente como causa única do momento social e político, a escritora é certeira em apontar em como escolhas feitas lá atrás e que, com novas roupagens, se repetem ainda hoje, dão conta de explicar por que nossa democracia encontra-se tão fragilizada e atitudes autoritárias têm ganhado espaço.

Quando fala sobre escravidão e racismo, ataca de pronto. A escravidão, para além de moldar condutas, afirma a escritora, definiu desigualdades sociais, fez de raça e cor marcadores de diferenças fundamentais. Histórias que perpetuam o racismo são persistentes, não terminam com a mera troca de regimes, mas ficam encravadas nas crenças, costumes e práticas sociais, razão pela qual o racismo ganha novas formas. Ao pincelar sobre o patrimonialismo, que considera ser o primeiro inimigo da República, fala do passado e do futuro de uma só maneira — porque encravado está na estrutura do país:

“A saúde da democracia é medida pela robustez de suas instituições e, no nosso caso, desde os tempos coloniais boa parcela de tais instâncias foi dominada por interesses de grupos de poder, que se apropriam de parte da máquina do Estado com fins particulares. A teoria de que os brasileiros são mais informais e ‘alheios à burocracia’ ganha aqui outra ‘roupagem’, quando expedientes como esses acabam resultando no benefício de alguns e no malefício de muitos.” (pág. 87)

Não podia passar sem nota a corrupção, prática herdada dos primórdios do Brasil Colônia. Com a distância da administração lusitana e a promessa de grandes oportunidades, o “jeitinho brasileiro” foi tomando forma — seja no “dar o tapa e esconder a mão” ou no simples ignorar, ambos igualmente responsáveis por deixar com que a prática se disseminasse e, hoje, ainda se dissemine. A violência brasileira, já considerada pela Organização Mundial da Saúde uma patologia específica, com código CID (Classificação Internacional de Doenças) e tudo, para além de seus números epidêmicos, tem cor e raça: 75% das vítimas por homicídio são jovens negros. Com grandes passagens que apontam o racismo (e os ecos da escravidão) como um dos grandes, senão o maior, pilares da desigualdade social no Brasil, é dessa desigualdade, muito comum em países de passado colonial e países periféricos, que surge a maior parte dos nossos problemas.

Ao todo, são duzentos e vinte e uma páginas dedicadas ao escrito de Lilia. Quatorze páginas são do epílogo, um grande e certeiro apanhado que coloca todos os dedos em uma ferida muito aberta, de um momento e um país onde não são poucos os que sangram — mas também são muitos os que sonham. Em miúdas letras, mais de dez páginas são de referências. Estruturado como um grande grito contra as mentiras, as fake news, as saídas fáceis e imediatistas, a recessão democrática, e o flerte, descarado, do atual governo com práticas autoritárias, Sobre o Autoristarismo Brasileiro é uma leitura fluída, sem ser superficial, indicada para quem já sabe, quem quer saber, e, principalmente, para aqueles que não querem saber o que está acontecendo nesse nosso país tropical e de tamanho continental. Aqui ninguém cai no conto da sereia. Seguimos.

“Direitos conquistados nunca foram direitos dados, e os novos tempos pedem, de todos nós, vigilância, atitude cidadã e muita esperança também. […] Toda crise pode ser deletéria quando produz um déficit não só econômico como social, político e cultural. Mas toda crise é capaz de abrir uma fresta, pequena que seja, de esperança.”

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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