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Gentleman Jack, Anne Lister e a trajetória sensível de uma figura pouco comum

Para falar sobre Gentleman Jack precisamos, primeiro entender sua protagonista. Anne Lister sempre foi uma figura descrita como peculiar: apesar de ser uma mulher em uma época que não era nada gentil com as mulheres, já que elas só podiam pensar em cultivar maridos e se conformar com as regras ditadas pela sociedade patriarcal, ela comandava sua família. Ao lado do pai e da tia, já idosos, e da sua irmã Mary, Anne vivia em Halifax, na Inglaterra, na década de 1800, na propriedade chamada de Shibden Hall. Apesar da sua alma aventureira e suas grandes viagens para fora do seu país (algo que ela apreciava profundamente), Anne passou a amar a propriedade da família, construindo um lugar aconchegante e elegante, algo que combinava com todas as experiências que tinha tido ao redor do mundo. Ela também ficou conhecida por seus grandes amores (todas mulheres, uma vez que nunca teve grandes dificuldades em reconhecer a complexidade da sua sexualidade) e como uma grande empreendedora, já que conseguiu explorar as minas da sua propriedade, provando ter um olhar afiado também para os negócios.

Como se sua personalidade não fosse interessante o suficiente, sua aparência física não ficava muito atrás. A moda de 1800 para mulheres era, para dizer o mínimo, limitadora. A sociedade passou por uma pequena revolução no começo do século, quando o estilo da “corte” foi deixado de lado dando abertura para roupas que combinavam mais com o estilo de vida na zona rural, muito baseada no que era chamado de “silhueta neoclássica”, com corsets, chapéus e cores alegres e claras. Mas, para Anne Lister, isso jamais seria o ideal. É por isso que ela, uma mulher mais alta do que o normal e de ombros largos, andava apenas com roupas pretas e peças feitas de tecidos pesados, com penteados bem contidos.

Os detalhes da sua trajetória, da forma como ele vivia, dos seus amores e principalmente dos seus sentimentos foram descobertos por meio de diários escritos por ela, que continham todos os detalhes de sua jornada, até sua morte, em 1840, aos 49 anos de idade. Seus escritos eram tão fascinantes e cheios de emoção e vida que, de uma forma tímida e concisa, ela reformulou o modo como as mulheres lésbicas conheciam suas histórias. Os relatos, que demoraram a ser tornados públicos, continham partes da sua infância; como era a vida na escola ao lado das outras meninas; seu amor pela medicina, pela filosofia e até mesmo pelas artes; sua primeira experiência sexual; seus grandes amores; e até mesmo sua necessidade incansável de tentar entender seus próprios sentimentos.

Mais do que isso, o diário era excelente por causa do seu uso de códigos. Anne não apenas escrevia tudo de forma tradicional, mas detalhava os eventos em pequenos códigos que misturavam línguas diferentes (como grego e latim), matemática e eventualmente até diferentes pontuações e símbolos do zodíaco. Mais uma prova de que Lister tinha uma mente excelente, algo fora do comum.

Por causa da vida fascinante e da precisão com que escrevia sobre os sentimentos que nutria pelas pessoas e situações ao seu redor, a HBO resolveu criar uma série baseada nas suas experiências. Gentleman Jack foi lançada pela emissora no começo de 2019 e abordou um período bem específico da vida de Anne Lister: a época em que ela queria expandir as minas da sua família e quando se apaixonou por Ann Walker, uma menina que conheceu quando tinha apenas 20 e poucos anos, mas com quem só veio a se relacionar anos depois. Passagens no seu diário revelam que a própria Lister não lembrava muito bem da garota, mas que Walker nutriu sentimentos fortes por Anne desde o momento em que se conheceram. Sally Wainwright, que possui várias obras de época no seu currículo, como As Irmãs Brontë, ficou responsável pela produção e assumiu o papel de showrunner.

Atenção: este texto contém spoilers

Gentleman Jack

Assim como Anne Lister (vivida por Suranne Jones na série) e suas descrições detalhadas (ela falava até mesmo sobre o que comia, bebia e sonhava) e sensíveis no seu diário, Gentleman Jack deixa uma impressão positiva em quem está assistindo desde o começo. Em um primeiro momento, isso acontece porque a produção carrega aquele ar da HBO: grandiosa, com um roteiro afiado e ambientações perfeitas. A trilha sonora é intensa e a música tema, cantada por pela dupla O’Hooley and Tidow, é mais do que satisfatória.

Apesar da força de Gentleman Jack vir praticamente da personalidade de Anne Lister e do que ela representou como uma figura histórica, a obra também encontra sua essência na hora de conduzir as cenas entre Lister e Ann Walker (Sophie Rundle). Quando elas se conhecem (definitivamente, e não apenas como vizinhas), elas passam todos o tempo que têm sobrando juntas, se encontrando em um chalé que fica na floresta de Shibden Hall, bem afastado da casa principal. Durante esses pequenos momentos, que são cheios de delicadeza e ternura, como todo bom romance, é possível esquecer que elas vivem em uma época em que o termo “lésbica” nem sequer era reconhecido e que ser homossexual era crime na Inglaterra.

Ao contrário de Anne, que sempre lidou de forma brilhante com a sua sexualidade (ainda mais para uma mulher daquela época), Ann tinha certa dificuldade em aceitar os sentimentos que nutria por ela. Apesar de ter admitido mais de uma vez que o pensamento de se envolver romanticamente (ou apenas por conveniência) com um homem fosse algo abominável para ela, e aos poucos descobrir que nutrir sentimentos sexuais por uma pessoa do mesmo sexo é completamente possível (algo que ela não entendia completamente no começo), a pressão externa da sua família e amigos acaba influenciando muito na forma que ela via a si mesma e, por consequência, seu relacionamento com Anne.

Essa, com certeza, é a parte mais complicada da série — que nunca parece entender muito bem os sentimentos de Ann ou seu medo de assumir uma vida ao lado de Anne. Sua parceira, no entanto, é uma mulher que entende os seus problemas e oferece suporte — apesar de tentar sempre proteger seus sentimentos. O desfecho da relação é otimista e subverte a narrativa tanto quanto o resultado de praticamente toda relação lésbica retratada TV até agora — que a série sirva como exemplo.

É possível argumentar também que a produção passa muito tempo focada no romance entre Anne Lister e Ann Walker. A série da HBO, aliás, foi vendida como um seriado que contava a história da “primeira lésbica moderna”. Por isso, para ver mais sobre o que Anne fez como uma mulher de negócios, que comandou brilhantemente sua propriedade e expandiu negócios, é preciso esperar. Pequenos conflitos nesse aspecto ocupam algum espaço da narrativa, mas não muito. A boa notícia é que Gentleman Jack já foi renovada para uma segunda temporada e existe uma grande chance de que outros aspectos da vida de Anne entrem em pauta aqui. Mas não há como negar, o romance é o grande foco da produção e, por isso, Wainwright escolheu mostrar exatamente essa época da vida de Lister. Isso com certeza não é o ideal, mas é impossível não se apaixonar pela história das duas e torcer por elas.

A força de Anne Lister 

Existe um estereótipo no cinema e na TV que faz com que personagens femininas abdiquem de amor, gentileza, ou qualquer outro sentimento que seja associado a “coisas de mulherzinha” para que elas se tornem figuras “masculinizadas” e, dessa forma, alguém que seja digna de ser considerada “forte”. Um exemplo que ilustra isso muito bem é a situação de Largetha (Katheryn Winnick) e Aslug (Alyssa Sutherland) na série Vikings. Enquanto uma é considerada uma “personagem feminina forte” por ser uma guerreira que luta na frente das batalhas, a outra é considerada inferior porque fica longe desse lugar. Vale deixar claro que ambas são bem construídas de maneiras diferentes e que, só porque elas acham sua força em lugares diferentes, não quer dizer que uma seja melhor ou pior.

Gentleman Jack

De certa forma, essa discussão se aplica diretamente à jornada de Anne Lister na série. Apesar de ser considerada uma figura “masculina”, o que faz com que as pessoas ao seu redor deem a ela o apelido cruel de Gentleman Jack (“cavalheiro Jack”, em tradução literal, daí o título da série), ela não abre mão de sua sensibilidade e da sua natureza romântica para alcançar seus objetivos. Durante os episódios, é sugerido que ela pode casar com um homem apenas para manter as aparências. Isso, no entanto, não é algo que ela esteja disposta a fazer — ela procura por uma companheira que a aceite exatamente como é, bem como a natureza da relação que viriam a ter.

Em uma das melhores cenas da série, ela está na cama com Ann e diz que entende porque ela não pode aceitar viver com ela no mesmo teto, como parceiras de vida, casadas. Na ocasião, ela se chama de “abominação” e rapidamente a cena se torna uma das mais delicadas do episódio, mostrando sua sensibilidade e sua alma que é, acima de tudo, romântica. Não só romântica no sentido das relações amorosas, mas também pelo amor que tem pela vida, por apreciar arte e a ciência, por gostar de viajar e entrar em contato direto com outras culturas, com pessoas diferentes com coisas distintas para oferecer.

Anne Lister não é desesperada por amor, ou sequer solitária, mas uma pessoa que não está disposta a abrir mão de quem é, da sua essência, para levar uma vida que talvez fosse mais confortável e com certeza com menos preconceito. Fugir da “comodidade” do casamento nos séculos XVIII e XIX é de uma coragem absurda e se assumir diante ao mundo da forma que ela se vê, também.

Uma mistura que deu certo

Mais de uma vez vi algumas pessoas falando que Gentleman Jack nasceu como uma mistura de Fleabag, de Phoebe Waller-Bridge, e o filme A Favorita, de Yorgos Lanthimos. Apesar de ser uma comparação que parece meio esquisita no começo, faz todo sentido.

Fleabag ficou conhecida como uma série esperta e que usa da quebra da quarta parede para contar sua história. Assim como Fleabag, a protagonista, Anne também tem o costume de falar com o espectador diretamente, oferecendo um ou outro comentário (ou talvez apenas um olhar) ácido sobre a situação em que está envolvida. Além disso, ambas as protagonistas têm uma vulnerabilidade peculiar e profunda, ainda que sejam bem diferentes entre si. Com certeza, é impossível não fazer um pequeno paralelo.

A Favorita é um filme de época que mistura romance lésbico e política. O que tem de comum com a série é sua natureza esperta, além de protagonistas que valem o seu tempo.

Comparações à parte, Gentleman Jack se sustenta como uma série única por estar contando a trajetória de uma mulher que foi fascinante e que levava a vida de uma forma ímpar. De modo intencional ou não, Anne Lister desafiou o patriarcado e reformulou a sociedade em que estava inserida, aos poucos e de forma bem silenciosa.

Um bom desempenho nos detalhes 

É impossível deixar de pontuar a atuação de Suranne Jones, que vive a protagonista. Durante entrevistas para a imprensa estrangeira, Jones disse que teve que fazer uma grande séries de exercícios para ficar mais “encorpada”, como Lister se descrevia nos seus diários. Mas o melhor aspecto do seu desempenho com certeza não está na parte física, e sim nos detalhes. Sua atuação é uma mistura perfeita de todas as partes de Anne: sua sensibilidade, sua alma voltada para aventuras, seu charme inescapável e até mesmo seu espírito empreendedor. Por isso, é praticamente impossível não ficar completamente presa na história da protagonista e prestar atenção nela e nos seus trejeitos quando ela está em cena.

Gentleman Jack

Outro trabalho que vale ser mencionado é a atuação de Gemma Whelan, que ficou conhecida por sua atuação como Yara em Game of Thrones. Aqui, Whelan interpreta a irmã de Anne Lister, Marian. Sempre à sombra de Anne, ela tem uma grande dificuldade em conseguir achar seu lugar no mundo também, mas por motivos diferentes. Sua trajetória na série não é uma prioridade, pelo contrário, mas o jeito como lida com o machismo e até mesmo sua relação complicada porém afetiva com a irmã são aspectos interessantes de se observar.

Se Gentleman Jack não te interessou até aqui, vá pelo menos ao YouTube e veja a última cena da produção, na qual Lister e Walker finalmente se casam. Considerando que a homossexualidade na época era ilegal, a cerimônia foi conduzida de forma pouco convencional: duas mulheres ajoelhadas na igreja e sussurrando palavras na medida em que a missa ia avançando. Toda a cena é sensível e bem feita, terminando com elas andando pelas ruas de Yorkshire e imaginando o que os futuro lhe reserva. Segundo os diários de Anne Lister, apenas coisas boas.

Gentleman Jack não é o único título que explora a história dessa figura espetacular. Poucos, no entanto, têm tradução para o português. Se isso não é um problema, a série de livros The Secret Diaries of Miss Anne Lister é uma boa pedida, com volumes que são vendidos pela Amazon. Já se você prefere se aprofundar nos seus vários romances, o filme da BBC, que leva o mesmo nome dos livros, é uma produção água com açúcar e muito romantizada dos fatos, mas ainda serve como um entretenimento rápido — devo avisar, no entanto, que aquela Anne é menos impressionante do que a versão da série.

Por último, e meu preferido, fica a indicação do documentário The Secret Life of Anne Lister at Shibden Hall. Com apenas 25 minutos e disponível no YouTube, a obra conta a vida de Anne Lister pela perspectiva de pessoas que estudaram e conhecem cada aspecto de sua trajetória: o amoroso, o político, o social, entre outros. É justamente por causa disso que esse documentário traz um contexto mais explicativo para a história de Anne — já que a narrativa (que às vezes se torna lenta demais) faz um paralelo entre sua vida e a Revolução Industrial, por exemplo. Esse aspecto relembra que Anne era uma figura extraordinária em uma época onde isso não era bem aceito, mas que ela fez o melhor que pode e se destacou mesmo assim.


** A arte em destaque é de autoria da editora Paloma.

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