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“Dourado como a luz do dia”: a narrativa introspectiva das letras de Taylor Swift

Muito se falou sobre a transformação da imagem de Taylor Swift ao longo da última década. De princesa country a cobra, então a pessoa good vibes, a imagem da cantora passou por diversas fases, cada era sendo marcada por seus próprios percalços e com o toque intimista e autoral que lhe é característico sempre presente.

Mas para além das mudanças rítmicas do country para o pop, um aspecto sempre muito marcante da obra de Swift são, também, suas baladas introspectivas. Com um conhecido hábito de incluir na faixa de número cinco de seus álbuns uma de suas músicas mais vulneráveis, as canções mais íntimas da artista são, por vezes, como uma conversa aberta e franca com quem escuta, com uma mistura de metáforas e descrição de cenas que formam um estilo muito próprio e único na construção de uma narrativa musical. Não se resumindo às faixas de número cinco, no entanto, a cantora aborda diversos tipos de tristeza, incerteza e vulnerabilidade em suas baladas — e a forma como isso é expressado se transformou consideravelmente ao longo de cada álbum de sua prolífica carreira.

Seu primeiro álbum, o auto-intitulado Taylor Swift, lançado em 2006, traz a abertura de sua carreira, mostrando uma Taylor jovem tanto em seus vocais quanto em suas letras — e, apesar de jovem, já demonstra o talento que a artista apresenta como letrista. A faixa de número cinco deste álbum é “Cold as You”, em que ela canta sobre uma relação com uma pessoa emocionalmente indisponível: “eu nunca estive em nenhum lugar frio como você”. As referências a dias frios e descrições de cena, já muito presentes nessa faixa, vão se mostrar mais aparentes em “Teardrops On My Guitar”, single desse primeiro álbum, e que descreve uma cena que vai aparecer novamente no álbum seguinte com a canção “You Belong with Me”, que é a cena de um amor platônico por um amigo — que é apaixonado por outra pessoa.

No seu segundo disco, Fearless, a transformação dessa solidão pueril começa a acontecer: curiosamente no mesmo álbum em que somos apresentados a “Love Story” — um de seus singles mais bem-sucedidos e que nos evoca a um amor de Romeu e Julieta e contos de fadas — temos “White Horse”, a faixa de número cinco que fala, em seu refrão “eu não sou sua princesa e isso não é um conto de fadas”. E quando em um dos versos a cantora afirma “eu era uma sonhadora antes de você me decepcionar” conseguimos observar a transformação tão característica dos amores da adolescência para as primeiras — e tão comuns e formativas — decepções amorosas.

Um tipo diferente de sentimento que reforça essa ideia de mudança de ponto de vista está presente em “Fifteen”, e esse sentimento é a nostalgia. Apesar de ser uma música mais animada, “Fifteen” traz uma cena escolar como pano de fundo para um refrão que traz, em certo grau, um coração que já foi partido e que sente falta daquela alegria e esperança dos momentos passados. “Na sua vida você realizará coisas maiores do que se casar com o rapaz do time de futebol. Eu não sabia disso aos meus 15 anos” é a mensagem de um dos versos, destacando, todavia, que essa nostalgia e as decepções que aconteceram pareciam muito maiores e mais dolorosas na época — e que agora não parecem tão grandes assim.

A faixa de número cinco de Speak Now, terceiro álbum de estúdio de Taylor, é uma das que pessoalmente incluo na lista das mais íntimas. Com toques melódicos que já evocam todos os elementos de decepção (consigo e com outra pessoa), “Dear John” é, como sugere o título, uma carta para a pessoa que foi responsável por uma forte decepção. “Querido John, você não acha que 19 é muito jovem para ser mexido?”, ela canta, numa referência que evoca seu relacionamento com o cantor John Mayer, 10 anos mais velho que ela. Polêmicas à parte, a cantora traz nessa música uma abertura muito grande, manifestando as próprias marcas desse relacionamento e sua decepção consigo ao não ouvir os avisos que lhe foram dados.

Também em Speak Now, outra música de duração similar a “Dear John” é “Last Kiss”, nessa música, temos os reflexos de um relacionamento que aparentemente tinha tudo para seguir, e a solidão e a tristeza que são trazidas dentro de um contexto de algo que não se viu acabando. O contraste em “Back to December”, que é um pedido de desculpas por ela mesma ter rompido o relacionamento traz, então, três visões diferentes dessa tristeza solitária após um término. Há o arrependimento, a nostalgia, a mágoa, e todas as escalas dessa análise introspectiva tão comum dentro de relacionamentos já mais maduros do que aquilo apresentado nos dois primeiros álbuns.

É no seu quarto álbum, Red, que observamos uma transição estilística de Taylor para suas letras mais maduras e reflexivas. Seu último CD country, Red é uma mudança gradual para o pop, e em seu material não está mais presente a alegria e a esperança pueris que ainda havia, de certa forma, permeado as obras anteriores de Taylor, trazendo para ela a sua sagração como princesa do country. Em Red, os sentimentos, as decepções, a raiva, a mágoa, tudo é profundo e catártico, sendo, também, um álbum menos coeso musicalmente do que os anteriores.

Taylor Swift

A faixa cinco deste quarto trabalho é considerada uma das melhores músicas da cantora, com uma letra que ecoa, mas praticamente não se repete em quase seis minutos de música, e que condensa de forma muito profunda toda a sutileza narrativa da cantora como letrista. “All Too Well” é como uma colagem de memórias narradas em sua delicadeza e transição, em que podemos sentir o vento frio, a tarde de outono, a textura da echarpe que ela esqueceu, ver as cores e cenas de todos os momentos descritos. E é no vocal, também, que podemos ouvir toda a dor que esse adeus causou. “E você me liga mais uma vez só para me quebrar como uma promessa, tão casualmente cruel em nome de ser honesto”, ela canta.

Maybe we got lost in translation
Maybe I asked for too much
But maybe this thing was a masterpiece
‘Til you tore it all up
Running scared, I was there, I remember it all too well

Talvez nós tenhamos nos perdido na tradução
Talvez eu tenha pedido demais
Mas talvez isso fosse uma obra-prima
Até você rasgar tudo
Correndo assustada, eu estava lá, eu me lembro de tudo muito bem

Duas outras baladas do álbum que também evocam o sentimento de abandono e solidão dentro de um relacionamento desencaixado são “The Last Time”, cantada com Gary Lightbody, vocalista do Snow Patrol, e “The Moment I Knew”, presente na versão deluxe do CD. Em ambas as baladas, temos a representação dessa relação pouco confiável que apresenta idas e vindas — algo que é dito de forma jocosa em “We Are Never Ever Getting Back Together”, mas que reaparece retratada com seriedade e profundidade nessas duas outras canções.

Uma tristeza diferente também abordada em Red é a da canção “The Lucky One”. Nessa canção, Swift fala sobre uma suposta cantora que chega ao estrelato como num sonho, e como todas pessoas gostam da sua beleza e do quão legal ela é. Mas, na canção, a suposta cantora que vive um sonho sente-se confusa, abandonada e sozinha, dentro de todos os esquemas de segurança, perseguição midiática e conflitos de relações superficiais. Essa canção é o primeiro reflexo muito evidente dos sentimentos de Taylor em relação à fama — algo que vai reaparecer em “Shake it Off” e “Blank Space” em 1989 e será um tema recorrente em todo o álbum reputation.

A era 1989 trouxe a mudança definitiva de Taylor Swift para o mundo do pop. Com um álbum muito coeso em sua produção e que, até hoje, é um dos mais bem sucedidos de sua carreira, com singles marcantes que a mantiveram no topo da Billboard por várias semanas seguidas, Taylor nos traz outra vertente em sua versatilidade de apresentar sentimentos complexos: agora através das batidas aceleradas e uma produção com novas sonoridades.

A faixa de número cinco de 1989 é animada e dançante, mas “All You Had To Do Was Stay” traz, em sua letra, mais da conhecida narrativa confessional da artista. Não é à toa que essa canção encontra-se logo depois de “Out Of The Woods” — para mim, as duas se conectam tanto na narrativa quanto na sonoridade. Em “Out Of The Woods”, temos a descrição de um amor preenchido por um forte sentimento de ansiedade e expectativas frustradas, com um refrão ecoante que reitera essa ansiedade. Quando a canção desemboca, então, na faixa seguinte, “All You Had To Do Was Stay”, sentimos os ecos de toda essa ansiedade com a solidão deixada por um sentimento que era real e significativo, mas cuja fundação era frágil e insustentável.

Quando o álbum é concluído com a linda balada “Clean”, colaboração com a cantora e produtora Imogen Heap, conseguimos observar o quanto da produção autoral de Swift está associada a sua própria avaliação de seus sentimentos e seus processos. A canção fala do amor e da perda metaforicamente como processos de vício e abstinência, e a água, a poeira, a força, todos esses elementos abordados são trazidos como o reinício e a procura dessa cura de uma dor profunda da perda de mais uma relação — ligada, então, a todos esses processos dolorosos já passados.

Taylor Swift

A passagem da era 1989 à era reputation foi, como se é sabido, extremamente conturbada. Com conflitos com Kanye West e Kim Kardashian, problemas com a mídia, rixas e uma imagem que vai se desgastando, a música de Taylor não poderia não sofrer impactos significativos desses processos. E isso se manifesta na forma diferente com que a tristeza, a solidão e a vulnerabilidade da artista se manifestam nesse novo CD, que parece mais fechado, noturno e pronto para o combate.

Em uma das revistas que vinham com o álbum reputation na Target, temos o poema “Why She Disappeared” (“Porque ela desapareceu”, em tradução livre). Nesse poema, Taylor fala sobre a dor e o processo de reconstrução necessários para que se reerguesse nessa nova era. Esse poema, que é utilizado como interlúdio na reputation Stadium Tour, inaugura o tom diferente dessa vulnerabilidade tão característica da cantora: existe fúria, negação, mágoa e uma solidão muito profunda associada a diversas das canções de toda a produção.

When she fell, she fell apart
Cracked her bones on the pavement she once decorated
as a child with sidewalk chalk
When she crashed, her clothes disintegrated and blew away
with the winds that took all of her fair-weather friends

Quanto ela caiu, ela se partiu
Quebrou os ossos no chão que um dia decorou
Como uma criança com um giz
Quando ela se quebrou, suas roupas se desintegraram e foram sopradas pra longe
Com o vento que levou embora todos os seus amigos dos bons tempos

E é dessa forma que é construída, também, a faixa de número cinco do sexto álbum. “Minha reputação nunca esteve pior, você precisa gostar de mim por mim”, canta Taylor Swift em “Delicate”. Também na reputation Stadium Tour a artista fala sobre o quanto a reputação que uma pessoa tem pode influenciar em suas relações com outras pessoas — e o quanto isso pode mudar a visão que a pessoa tem sobre si mesmo. No álbum como um todo, a artista nos desvela uma persona que por vezes esquecemos que existe: que cantores, celebridades, artistas são pessoas reais com sentimentos reais e que, por vezes, isso é esquecido no turbilhão midiático da indústria de notícias rápidas e furos de reportagem.

Essa frustração e mágoa estão presentes em “Look What You Made Me Do” quando ela canta “eu não confio em ninguém e ninguém confia em mim”; está presente em “I Did Something Bad” com “eles estão queimando todas as bruxas mesmo se você não for uma”; em “Getaway Car” com “eu estava chorando em um carro de fuga, eu estava morrendo em um carro de fuga”; em “Dancing With Our Hands Tied” com “eu te amei apesar dos medos profundos de que o mundo nos dividiria”; em “Call It What You Want” com “meu castelo se desintegrou do dia para a noite, eu levei uma faca para uma briga de pistolas, eles levaram minha coroa, mas está tudo bem”. As manifestações de medo, fúria, tristeza e vulnerabilidade se sobrepõem com um pop muito bem produzido e uma era em que ela estava completamente distante da mídia. Curiosamente, a balada lenta que conclui o álbum, “New Year’s Day”, apresenta uma narrativa mais esperançosa, fechando com uma possibilidade de dias mais felizes.

Taylor Swift

Essa construção de noite, obscurecimento e fúria da era reputation só faz com que a explosão de cores e luzes claras (como a luz do dia) da era Lover torne-se ainda mais poética. Esse novo álbum trouxe, em agosto deste ano, uma Taylor Swift brilhante, colorida e, apesar dessa estética, mais madura. A introspecção e a melancolia ainda estão fortemente presentes em suas canções, mas agora com outra vestimenta. A sensação é a de alguém que agora consegue olhar para toda a mágoa com um olhar mais tranquilo e capaz de respirar, diferente do turbilhão que foi a era anterior.

“Uma vez eu acreditei que o amor era vermelho como o fogo, mas ele é dourado — como a luz do dia”, canta a artista no fechamento do álbum, na canção “Daylight”, referenciando a relação com o amor presente em Red. A relação de Lover com o amor em sua mais diversas formas é algo muito evidente, mas é nesse sentido que também se destaca a relação do amor com a tristeza e a melancolia.

Em “Cruel Summer”, por exemplo, temos uma continuação da temática apresentada em “Getaway Car”. Na música, até mesmo os aspectos rítmicos se repetem e temos uma música crua e repleta de sentimentos à flor da pele. “Estou bêbada no banco de trás do carro e eu choro como um bebê voltando do bar. Eu disse que estava bem, mas não era verdade. Eu não quero guardar segredos só para manter você”, destaca a cantora, reiterando os sentimentos conflituosos que uma relação passada trouxe.

Do ponto de vista poético, as letras de Lover trazem elementos metafóricos e de desenvolvimento de temática muito mais complexos e explorados — a maturidade de Taylor Swift como cantora e compositora valorizando esses aspectos temáticos, com especial destaque para o já habitual caráter confessional e introspectivo de suas músicas. E é com esse tom que temos “The Archer”, a tão esperada faixa de número cinco de seu mais recente trabalho.

“The Archer” não é uma música narrativa, e não descreve situações e cenários com tanta fidelidade como, por exemplo, “All Too Well” — na música, a elaboração de temáticas é feita de forma muito diferente. Utilizando diversas justaposições e metáforas imagéticas, Taylor nos traz uma música repleta de sentimentos confusos e conflituosos, com elementos de toda a insegurança reminiscente da era reputation. “Eu fui o arqueiro, eu fui a presa. Quem poderia me deixar, querido? Mas quem poderia ficar?”, é o ambíguo sentimento de autossuficiência, segurança, mas ao mesmo tempo de dúvida e de trauma.

Esse receio do abandono transparece, ainda, em “Cornelia Street”, quando Taylor canta “eu espero que eu nunca te perca, espero que nunca acabe. Eu nunca poderia andar na Rua Cornelia outra vez”. A batida remete a uma mistura sutil de nostalgia, saudade, e medo de perder — ao mesmo tempo que aponta que, provavelmente, aquela perda já aconteceu em algum grau.

E quando Taylor nos apresenta sua canção em parceria com as Dixie Chicks, “Soon You’ll Get Better”, vemos uma forma muito crua dos sentimentos presentes na composição. Escrita sobre os sentimentos da artista em relação ao câncer de sua mãe, Andrea Swift, a canção é, de longe, uma em que o vocal de Taylor é o mais visceral. A melodia, a negação, o medo e a frustração justapostos à esperança desesperançosa que ela carrega na música são apresentados de uma forma muito franca e aberta.

Quando este último álbum se conclui com a mensagem de amor de “Daylight”, vemos uma música (ou até mesmo um álbum) que retoma vários aspectos da carreira da cantora. Tendo passado por diversas personas, tendo mostrado diversas facetas, tendo vivido altos e baixos dos mais diversos tipos, temos uma Taylor Swift que se apresenta reavaliando diversos aspectos de sua vida, revivendo momentos e analisando suas próprias vivências de diferentes pontos de vista.

E é nesse sentido que a tristeza, a melancolia, e, especialmente, a introspecção e a vulnerabilidade de Taylor Swift em suas composições são tão cruciais para sua formação e estruturação como compositora: o que nos é apresentado desde o início de sua carreira são músicas abertas como as páginas de um diário, e é nessas baladas que esse contato próximo é feito de forma mais significativa. Mais do que simples composições, a musicalidade de Taylor Swift abraça uma narrativa poética e uma estruturação melódica muito evidentes desde seus primeiros trabalhos, o que apenas nos mostra toda a extensão do talento da artista.

Não restrita a country ou ao pop, Taylor Swift como letrista nos mostra sua própria capacidade e coragem de controlar a própria narrativa de imagem, tomando as rédeas de uma arte que é escrita e, por vezes, produzida por ela mesma, acompanhando de peito aberto uma estrutura narrativa que é, além de tudo, sua própria história.

E que, principalmente, brilha em dourado, como a luz do dia.

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