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Eliza e o homem que falava demais: o legado de Hamilton

Lançado no último dia 03 de julho na plataforma de streaming Disney+, a estreia de Hamilton — versão filmada do musical de mesmo nome — deu ainda mais fôlego para o sucesso da obra estreada em 2015, escrita por Lin-Manuel Miranda e baseada na obra biográfica de autoria de Ron Chernow sobre um dos pais fundadores dos Estados Unidos da América, Alexander Hamilton. Figura pouco conhecida dos brasileiros, Hamilton foi o primeiro secretário do Tesouro norte-americano e tem sua efígie estampando a nota de dez dólares, mas sua vida prolífica não havia sido suficiente para lhe garantir o reconhecimento dentre as personagens mais significativas da história dos EUA — pelo menos até então.

O trabalho de Miranda, iniciado em meados de 2009 durante a produção de seu premiado musical In the Heights, deu origem a uma história narrada em canções que relata a vida do imigrante de origem caribenha, que chegou a Nova York após um furacão devastar a ilha em que morava. Tal episódio leva o jovem Alexander a escrever um texto sobre o acontecimento que é publicado no jornal local, e desperta tanto a atenção de seus compatriotas que estes compram-lhe uma passagem para que possa buscar uma educação melhor no continente — uma situação que, aos olhos de Miranda, possui paralelo com o trabalho dos rappers dos dias atuais e seu uso transformador das palavras para superar suas adversidades.

A associação inesperada do ritmo musical contemporâneo, característico da cultura negra norte-americana, com a história de seus fundadores cuja história e contexto social podem ser considerados a epítome do conservadorismo atual acaba se tornando um dos pontos mais fortes da obra, que une os dois elementos para ilustrar discursos e batalhas ritmadas, presentes no rap e também no cotidiano dos Pais Fundadores dos EUA. Em uma apresentação na Casa Branca, em 2009, Lin-Manuel Miranda performa uma versão inicial da música de abertura, logo após afirmar que, em sua visão, a figura de Hamilton representa a essência do hip-hop, tanto por sua ascensão pessoal por seu domínio da linguagem, quanto por sua capacidade de criar conflitos com todos os seus companheiros envolvidos na independência americana por meio de sua escrita.

Hamilton

Há diversas referências a canções consagradas do gênero e figuras notórias da cena do hip-hop. Miranda, que tem origens porto-riquenhas e cresceu cercado por este gênero musical, consegue aproximar a alegoria da luta pela independência dos Estados Unidos e a história de seus personagens da audiência contemporânea — em uma nação na qual o número de imigrantes corresponde atualmente a aproximadamente 17% de sua força de trabalho e a questão da imigração se apresenta como uma das plataformas políticas centrais do presidente Donald Trump — baseando-se num ritmo que influencia a maior parte do cenário musical americano atual e um elenco majoritariamente composto por atores não-brancos. Estas características, por si só, destoam do padrão visto nos musicais de sucesso da Broadway, fazendo desta peça um trabalho que desafia o cânone do teatro musical e assim o redefine.

Com isto, a adaptação de Miranda é brilhante por si só, usando da licença poética para criar uma narrativa que é suficientemente fidedigna, mas emocionante à medida em que aborda temáticas que fazem sentido para qualquer espectador, usando a história da fundação dos EUA como um pano de fundo para discutir questões que tangenciam a vida e a morte, o amor, o poder e a liberdade.

Atenção: este texto contém spoilers!

A história de Hamilton é ocasionalmente narrada por Aaron Burr (Leslie Odom Jr.), vice-presidente eleito em 1800 que, logo no início, revela à audiência que é “o tolo que atirou em Hamilton”. A relação entre ambos é apresentada no começo da história e evolui de uma amizade inicial para uma rivalidade que culmina num duelo fatídico entre as duas figuras. Órfãos em busca de uma boa educação, aliados pela Independência e posteriormente advogados, as semelhanças entre os dois homens são gradativamente diminuídas por uma oposição diametral quanto a suas filosofias diante da vida: Hamilton não perde nenhuma oportunidade de expor aquilo que pensa, enquanto Burr nos explica sua visão numa sentença: “não deixe ninguém saber sobre o que você é contra ou a favor, tolos que falam demais acabam mortos.”

Hamilton

O antagonismo entre os dois homens, anunciado na primeira canção, é um tema que se mistura com a ficção histórica e vai tornando-se cada vez mais pronunciado conforme a história avança e as conquistas de Hamilton — um imigrante sem riquezas ou sobrenome, mas com uma ambição insaciável — tornam-se maiores e mais impressionantes. O mote “why do you write like you’re running out of time” [“por que você escreve como se estivesse ficando sem tempo”] é repetido em momentos variados da apresentação, e reforça a importância da escrita na vida do protagonista, algo que se manifesta como uma força incontrolável que o leva a se posicionar ativamente em busca de seus desejos. Hamilton é um homem em busca de um objetivo bastante claro, que é deixar um legado e escrever seu nome na História — ainda que o preço a ser pago por isso lhe custe a vida, isto lhe parece razoável.

Apesar de seu brilhantismo na escrita, o desejo inicial de Hamilton é poder participar de uma guerra na qual ele possa provar seu valor por meio de sua bravura e assim ascender socialmente, superando as dificuldades de seu passado e se transformando em um novo homem. Os feitos do protagonista podem ser comparáveis a uma narrativa épica que transcorre na primeira metade do musical, desde o texto que acaba levando-o a Nova York, seu trabalho na guerra da Independência ao lado do general George Washington (Chris Jackson), sua relevância na derradeira batalha de Yorktown, o casamento com Elizabeth “Eliza” Schuyler (Phillipa Soo) — filha de Philip Schuyler (Sydney James Harcourt), afluente general na batalha pela independência — e sua participação na Convenção de Filadélfia e defesa ferrenha da Constituição Americana por meio dos chamados Federalist Papers, sendo finalmente chamado pelo então presidente Washington para compor seu governo como Secretário do Tesouro.

Na canção que encerra a primeira parte, Burr surge enquanto narrador e personagem, e manifesta claramente seu antagonismo, recusando-se a escrever em defesa da constituição e apontando enquanto observador as conquistas do personagem principal. São dois acontecimentos de grande importância retratados nesta seção da história, que introduzem dois personagens igualmente relevantes: a relação de Hamilton com Washington, que o toma como seu protegido durante a revolução pela independência e lhe oferece a oportunidade de ocupar uma posição de destaque na formação do novo país; e seu casamento com Eliza, no qual ele pode ser um novo homem, cercado por uma família que o ajuda a estabelecer-se em um lugar mais próximo do seu desejo neste novo mundo que se desvela.

Hamilton

Tanto Washington como Eliza possuem poucas aparições, mas suas falas encerram mensagens valiosas. Eliza Schuyler é retratada no musical como gentil e indefesa — num contraponto com sua irmã Angelica (Renée Elise Goldsberry), que é decidida e eloquente. Após a apresentação das irmãs no número “The Schuyler Sisters”, três canções são centradas na personagem — um número reduzido, se comparado às cinquenta e três peças apresentadas. Ainda assim, pode-se teorizar que é Eliza que ocupa, de forma inesperada, o papel central na narrativa, a partir dos desdobramentos observados na segunda parte do musical.

Uma das divergências da encenação em relação aos fatos históricos é o relacionamento construído entre Angelica e Hamilton — na vida real, esta já era casada quando se conheceram, mas a narrativa sugere que ambos tiveram um envolvimento amoroso, tendo em comum uma insaciabilidade diante da vida que os atrai um para o outro, e que retoma ao longo da história como um dos temas mais notáveis na personalidade do protagonista. Angelica, contudo, abre mão de Alexander ao se deparar com sua irmã, a “mais confiável e gentil das pessoas que conhece”, que relata estar perdidamente apaixonada pelo soldado, e se resigna a tê-lo à distância, abrindo mão de seus desejos pelo dever familiar e a felicidade de sua irmã.

Assim, num contraste entre as duas figuras, Eliza é entendida como uma mulher com dilemas e ambições mais modestas, muitas vezes tidas como ingênuas em comparação aos planos do esposo. Ao revelar que está grávida, na canção intitulada “That Would be Enough”, a personagem sonha com uma vida modesta e satisfeita com as conquistas de ambos — o filho vindouro, o relacionamento entre os dois, a possibilidade de aproveitar a vida na melhor cidade do mundo: pequenas conquistas que a personagem aprecia. Contudo, se Eliza quer um lar, Alexander busca incessantemente glória e reconhecimento — e essa poderia ser apenas uma história de amor comum de eras patriarcais, mas esta divergência entre os dois têm um impacto significativo no desenvolvimento da narrativa.

Hamilton

A história muda de curso quando, sobrecarregado pelo seu trabalho e num embate político com Thomas Jefferson (Daveed Diggs), Hamilton envolve-se amorosamente com Maria Reynolds (Jasmine Cephas Jones) — uma outra personagem caracterizada como indefesa — e se vê chantageado financeiramente para que o caso não venha a público. As inimizades conquistadas na política o acusam de desviar fundos do governo para interesses particulares e, acuado, o protagonista recorre à escrita para salvar a si mesmo: decide publicar sua versão da história, revelando seu affair e expondo as questões de sua vida privada como forma de salvar sua figura pública de acusações desonrosas. Sucede-se uma sequência funesta, na qual o peso das decisões tomadas recai sobre o então Secretário do Tesouro americano na forma de uma chuva de papéis, que o afastam da possibilidade de ocupar a presidência e efetivamente escrever seu nome em letras garrafais na história dos Estados Unidos da América.

Se a trajetória de Hamilton pela independência equivale a uma narrativa épica, a segunda parte do musical, que tem um enfoque em sua vida como parte do novo governo, se assemelha em alguns pontos a uma tragédia. O herói torna-se vítima do excesso de suas próprias virtudes, deixando de lado os vínculos construídos que possibilitaram sua ascensão política numa busca obsessiva por consolidar um legado que o eternize na História. Gradativamente acompanhamos as perdas que sucedem suas conquistas, cujas consequências parecem superar seus triunfos, culminando em uma morte precoce num duelo que pode ser explicado da seguinte maneira: Burr, seu antigo amigo, desafia-o disposto arriscar-se pela própria honra e Hamilton aceita, pronto a morrer por aquilo que acredita. Há beleza no idealismo desta afirmação, mas um legado não é feito somente de belas convicções e mortes heroicas, como o general Washington faz questão de destacar em suas aparições.

Hamilton é brilhante, mas seu brilhantismo também o ofusca: a escrita, que lhe serve como salvação e possibilidade de construir uma vida nova, também o enreda em uma teia de palavras que se volta contra ele, sua família e seu patrimônio. A busca em superar a si mesmo é traduzida em ações como a escrita e o debate, dos quais o personagem central parece constantemente estar faminto. Tal urgência não lhe dá tempo para pensar: numa comparação com Burr, o antagonista pondera, enquanto o protagonista age. Mas a ação desmedida torna-se igualmente problemática, quando constantemente coloca-lhe em perigo, arrisca a si mesmo e também afeta sua família.

De forma metafórica, Hamilton está constantemente no olho do furacão: uma comparação apropriada, já que é isto que literalmente dá início a sua jornada em busca de se tornar uma figura de destaque. Pode-se pensar que a obsessão de Alexander em deixar um legado que o suceda para além de sua vida ao mesmo tempo em que parece constantemente disposto a morrer indica uma fixação no fato de que seus dias estão contados, o lembrete constante de que a morte lhe poupou uma vez, mas não irá fazer o mesmo de novo: não há tempo a perder, como faz seu rival que prefere esperar para ver. Mas a ânsia e o exagero parecem ter a função de uma profecia auto realizadora, que acabam por abreviar seu tempo e sua possibilidade de deixar uma marca mais impressionante em seu contexto.

A canção que sucede o descrédito público de Hamilton é “Burn”, um solilóquio de Eliza expressando o que sente após a exposição do caso. Embora inicialmente possa parecer uma mulher ferida por uma traição, por meio de suas atitudes a personagem mostra que sua modéstia não deve ser confundida com a passividade característica de Aaron Burr — Eliza também funciona como uma antagonista, que, confrontada com os feitos do esposo, age à sua maneira: queima todas as cartas recebidas, aniquilando de uma só vez parte do legado construído por Hamilton até então. A simplicidade de sua atitude evoca novamente as palavras de George Washington, que ressalta que “morrer é fácil, viver é mais difícil”: um período amplo de tempo deixa de existir em instantes pela ação do fogo, deixando claro que ainda que a ideia de sacrificar-se pareça heróica e digna de sobreviver em narrativas, não há garantias de que este sacrifício será contado da forma que desejamos.

O sucesso de Hamilton é decorrente da genialidade de Miranda, que consegue articular a história patriótica da fundação de seu país com elementos extremamente presentes no cotidiano atual dos cidadãos norte-americanos, ressaltando a complexidade de personagens que tornaram-se conhecidos por suas contribuições à democracia local, mas o fizeram permeados por dilemas emocionais complexos e histórias multifacetadas que os tornam próximos do espectador comum, que pode não ter sobrevivido a furacões ou fundado um novo país, mas se vê muitas vezes dilacerado por desejos conflitantes, pela sensação de insatisfação ou de insegurança em não saber o que o futuro reserva.

O papel de Eliza volta a receber os holofotes na conclusão, quando Washington, que pode ser entendido como uma espécie de figura paterna do personagem principal, retorna para ressaltar que não temos controle absoluto sobre a nossa história, e a esposa de Hamilton pode relatar o que fez com o tempo que lhe foi dado para além dos anos do marido. Ela não perde tempo, mas tampouco se afoba, e usa seus recursos para preservar não somente o legado do marido, mas também o de sua família e consequentemente o seu — dado que, conforme Angelica nos explica, o único trabalho de uma mulher era se casar bem. O arremate dado pela personagem não é algo esperado, mas dá um desfecho pertinente e conciliador aos posicionamentos opostos apresentados ao longo da história.

Hamilton joga o jogo do poder e, ao contrário de Aaron Burr, conquista aquilo que almeja; mas é sua esposa modesta e gentil que, mesmo longe dos holofotes centrais, tem o controle da história. Entre o medo paralisante e a ambição irrefreável, a mensagem de Hamilton é o triunfo daqueles que, mesmo não parecendo heróicos à primeira vista, efetivamente irão contar a história, estabelecendo seu legado na narrativa que é perpetuada como a versão mais difundida da verdade. Eliza Hamilton merece sua ovação.

Manu Santos quer passar o resto da vida escrevendo tal qual Alexander Hamilton, mas por enquanto faz mestrado em Psicologia. Gasta mais dinheiro com arte do que o bom senso recomenda e leva muito a sério saúde mental e hits dos anos 80.

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2 comentários

  1. Texto incrível!! Faz praticamente 3 semanas que estou ouvindo somente a soundtrack de Hamilton ou procurando artigos que falam sobre haha. Esse musical é genial em tantos níveis! E pra mim, Lin Manuel Miranda é quase que um gênio contemporâneo rs!