Categorias: TV

I Am Not Okay With This: sobre ser uma garota adolescente

“Querido diário, vá se foder”, diz a narração de Sydney Novak (Sophia Lillis) na cena que abre a primeira temporada de I Am Not Okay With This, adaptação da Netflix para o quadrinho homônimo de Charles Forsman. Dita sem qualquer cerimônia, a frase não é a mais agradável, nem a mais óbvia das apresentações, mas serve perfeitamente a Sydney, uma autêntica garota adolescente, nem sempre a mais agradável, tampouco a mais óbvia entre seus pares. Seria mais fácil — e até mesmo mais seguro — se Sydney fosse “só mais uma garota branca chata de 17 anos”, como ela mesma se descreve. Mas, é claro, ela não é.

Atenção: este texto contém spoilers!

Quando aparece pela primeira vez, Sydney está coberta de sangue — sangue este que, no entanto, não é o seu. Sua história começa pelo final, quando as coisas inevitavelmente dão errado e não há muito mais que se possa fazer a respeito. Mas para entender como, em primeiro lugar, elas chegam a esse ponto, é preciso um pouco mais de paciência. I Am Not Okay With This se utiliza de simples questionamentos (como e por quê, por exemplo) como alicerce do que, na verdade, é um mergulho na realidade de Sydney — uma jovem que existe entre as tribulações de uma família disfuncional, mudanças corporais e o despertar da própria sexualidade. “Dear Diary…”, o muito apropriado primeiro episódio da série, é um compilado dos traumas de Sydney, que se estendem por experiências bem mais complexas do que sugere o estereótipo da esquisitona do colégio (com o qual ela não parece realmente se importar) ou as inseguranças típicas da idade — vai do suicídio recente do pai à péssima relação com a mãe, até a constante falta de dinheiro ou o complexo relacionamento com Dina (Sofia Bryant), sua melhor e única amiga, que começa a namorar o cara mais popular da escola e passa cada vez menos tempo ao seu lado.

Christy Hall e Jonathan Entwistle, criadores da série, subvertem a clássica história da adolescente que se descobre surpreendentemente poderosa, trabalhando com muito cuidado e sensibilidade os problemas e as angústias de uma garota que é, antes de tudo, humana. Se a raiva é um sentimento frequente, catalisador de seus rompantes de poder, e que se destaca com notória facilidade, é também verdade que ela não a define em absoluto. Tanto quanto o material de origem, a série permite que Syd percorra uma gama muito grande de sentimentos e sensações, em um retrato multidimensional que fala tanto sobre ser uma garota adolescente quanto fala a essas garotas, e que também abrange um público maior do que esse. Não há uma figura adulta, responsável ou não, que realmente se destaque, e aquelas que existem são, na verdade, grandes estereótipos — a mãe ausente, o professor, o pai abusivo (nem mesmo a mãe de Sydney, interpretada por Kathleen Rose Perkins, escapa ao mesmo destino, embora possua dois ou três momentos de maior profundidade, quando lhe é permitido ser mais do que uma mera coadjuvante) —, mas esse não é realmente um problema.

I Am Not Okay With This

Em uma estrutura de sete episódios com menos de 20 minutos cada, são as experiências de Sydney que norteiam a narrativa e não sobra muito tempo para que outros personagens sejam desenvolvidos com a mesma minúcia pelo roteiro. Nem todos são prejudicados — Brad (Richard Ellis), o insuportável namorado de Dina, não precisa de mais do que um episódio para demonstrar o quão babaca pode ser —, mas personagens como Dina e Stanley (Wyatt Oleff), o vizinho com quem Sydney primeiro estabelece uma relação sexual para só então perceber que os dois funcionariam melhor como amigos, parecem suficientemente interessantes para ganhar mais nuances do que efetivamente recebem. A dinâmica que desenvolvem entre si é muito própria e, ao lado de Sydney, os dois acabam protagonizando alguns dos momentos mais interessantes da série. Mas nenhum deles parece existir para além das interações com Syd, deixando um vácuo sobre suas percepções e sentimentos, mesmo sobre aquilo que vivem uns com os outros.

Quando, em “The Party’s Over”, Dina é surpreendida pelo beijo de Sydney, sua confusão é evidente, mas leva algum tempo até que ela revele o que de fato sentiu naquela noite, e as duas acabam se afastando parcialmente no período entre uma coisa e outra. Mais tarde, quando a possibilidade de um romance entre as duas surge no horizonte, é a vez de Brad interpor-se novamente em seus caminhos. A essa altura, seu relacionamento com Dina já havia chegado ao fim, após a descoberta de que ele havia dormido com Jenny (Sophia Tatum), a garota má do colégio. Mas mesmo então, é difícil saber como Dina se sente em relação ao ex ou mesmo à traição; não sabemos nada ao seu respeito exceto aquilo que concerne Sydney — o que também torna mais complicada a tarefa de compreender qual é sua posição em relação à própria Sydney; se ela de fato considera o relacionamento uma possibilidade ou a enxerga apenas como uma amiga (a conversa durante o baile da escola, no entanto, parece bastante honesta).

Já Stan é o garoto engraçadinho, meio nerd meio esquisito, que vende maconha no colégio e não parece se importar com nada nem ninguém. Mas ele também possui sua cota de problemas, como demonstra a conversa com Sydney na qual fala sobre a péssima relação com o pai. Inicialmente, a série apenas sugere o que uma péssima relação poderia ser — a bem da verdade, Sydney também tem uma péssima relação com a mãe. Mas não demora para que surjam momentos que comprovem um preocupante histórico de violência entre pai e filho. O primeiro deles acontece quando, no dia seguinte à festa de Ricky (Zachary S. Williams), um dos garotos populares, Stan aparece com um olho roxo; uma provável consequência do estrago feito em seu carro enquanto voltava para casa, durante um dos muitos acessos de raiva de Sydney. Mas ninguém, nem mesmo ela, parece se preocupar o suficiente para sequer perguntar o que havia acontecido — ninguém, na realidade, parece perceber que algo está acontecendo, não importa quão claros sejam os sinais. Não muito tempo depois, na noite do baile da escola, Stan sai arrumado do quarto apenas para ouvir a risada debochada do pai. O que não passa despercebido, tampouco fica sem resposta, e a tensão contida nas poucas palavras trocadas entre os dois são suficientes para entender por que, naquele contexto, a presença paterna é tão agressiva e desconfortável.

I Am Not Okay With This

É muito diferente do que acontece com Sydney, a quem a ausência paterna custa mais caro. O suicídio de seu pai nunca é tratado como um mistério — desde o início sabemos o quê e como aconteceu. É somente mais tarde, no entanto, que as consequências da perda tornam-se mais perceptíveis e seus contornos ganham maior nitidez. Mais do que uma garota que perde sua principal referência no seio familiar, a jornada de Sydney é, sobretudo, uma jornada de descobertas, e essas descobertas também dizem respeito ao seu pai, a quem ele fora, e àquilo que passara despercebido ao olhar infantil da filha. Em uma conversa sincera com a mãe, que é também uma das cenas mais sensíveis da temporada, Sydney descobre que há muito mais sobre seu pai — e, consequentemente, sobre sua morte — do que ela acreditara até então e que talvez não o conhecesse tão bem assim, afinal.

É a mãe quem desvela um outro lado da rotina familiar, aquela em que o pai, após retornar da guerra, e com um diagnóstico de transtorno de estresse pós-traumático, se torna uma sombra do homem que fora outrora. “Ele estava paranoico, achava que alguém o estava seguindo”, conta a mãe depois de encontrar Sydney no porão, às voltas com uma caixa de pertences do pai. E ela se identifica com aquilo, sabe que está vivendo algo muito similar. O medo é, então, uma saída inevitável. Sydney teme pelo seu futuro, em partes porque vê no pai um espelho de si mesma. Mas é ao descobrir que ele havia sido o único sobrevivente de uma explosão misteriosa, do qual se culpara por toda a vida, que ela também se dá conta de que esse não é o tipo de narrativa que deseja ter — e, de fato, sua história parece entrar no eixos depois disso.

Naturalmente, a paz não dura muito e Brad logo volta a atormentá-la — dessa vez com seu diário, que ele rouba e utiliza como uma forma de vingança. Mas em uma sucessão surpreendente de fatos, seus segredos não são inteiramente revelados e Sydney termina a noite correndo pelas ruas da cidade, sozinha e ensanguentada, retornando ao início do primeiro episódio. I Am Not Okay With This responde a pergunta que paira desde o início, mas é justamente no processo de desenvolvê-la que termina por estabelecer novos questionamentos, bem mais intrigantes em comparação, e que deixam ganchos para episódios subsequentes.

Mais recentemente, a Netflix decidiu elencar as dez produções mais populares do seu catálogo, fossem elas originais ou não, em um ranking atualizado diariamente. Desnecessário dizer que, desde a sua estreia, I Am Not Okay With This tem ocupado as principais posições da lista, perdendo um pouco mais de espaço somente após a estreia de Por Lugares Incríveis, outra produção original do streaming voltada ao público adolescente. É um feito notável, é claro, e que reforça o quanto a união entre referências dos anos 1980 e o universo infantojuvenil continua mais forte do que nunca. Em uma série que bebe tão obviamente de suas fontes — que vão de Clube dos Cinco até Carrie, A Estranha —, no entanto, a impressão que fica é a de que já vimos muitas histórias como essa antes; não há nada de muito novo ali ou que seja suficiente para justificar sua existência.

I Am Not Okay With This é uma série divertida, com personagens cativantes e um elenco muito carismático, que dá conta das nuances que os compõe mesmo quando não há tanto assim com o que trabalhar (muito embora o texto da série seja, dentro de suas próprias limitações, bastante eficiente). Mas, no fim do dia, ainda são as mesmas histórias, os mesmos estereótipos, os mesmos personagens ligeiramente modificados, em um contexto que também não se altera tanto assim. Fórmulas não funcionam por acaso e é por isso que continuam a ser repetidas à exaustão. A Netflix não é a única a se utilizar desses moldes, tampouco será a última. Mas a cada ano que passa, é difícil não pensar em quanto tempo ainda resta até que essa fórmula de aparente sucesso se desgaste por completo. Não há dúvidas de que I Am Not Okay With This seria um sucesso, e o seria de qualquer forma. No entanto, talvez a pergunta mais importante que ela suscite não seja sobre o que reserva o futuro de Sydney, mas sobre quais histórias não são contadas enquanto consumimos os mesmos produtos de novo e de novo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *