Categorias: LITERATURA

Lady Killer: o sonho americano regado a sangue

Mesmo para aqueles que não viveram nos Estados Unidos das décadas de 1950/1960, é fácil fechar os olhos e imaginar como teria sido. Não é raro ver essa época retratada em produções da cultura pop e suas características marcantes vêm facilmente à memória quando pensamos no período, seja por meio do rock‘n’roll de Chuck Berry e Elvis Presley ou de filmes estrelados por Bette Davis e Elizabeth Taylor. É nesse contexto de sonho americano que conhecemos Josie Schuller, a protagonista de Lady Killer: esposa dedicada, mãe amorosa, dona de casa exemplar e… assassina de aluguel.

No primeiro volume de Lady Killergraphic novel indicada ao prêmio Eisner em 2016 e lançada no Brasil pela DarkSide Books — Joëlle Jones e Jamie S. Rich contam a história dessa mulher que persegue alvos, se disfarça, os assassina e ainda consegue chegar em casa a tempo de preparar o jantar para o marido, a sogra e as filhas gêmeas. Josie age acima de qualquer suspeita e encarna todas as qualidades de uma dona de casa perfeita, algo digno de Betty Draper de Mad Men: sua maquiagem e cabelo estão sempre impecáveis, seus vestidos rodados e engomados, a casa organizada, e as filhas e o marido, felizes. A única pessoa que suspeita de Josie é sua sogra, mas a protagonista é imperturbável e consegue se livrar com tranquilidade das suspeitas da velha senhora alemã.

Ainda que seja uma das assassinas mais competentes da agência em que trabalha, Josie enfrenta o sexismo e machismo de seus colegas e chefe visto que eles não são capazes de acreditar que ela consiga separar a vida profissional da pessoal. Dessa maneira, eles passam a pressioná-la de uma forma que mesmo os quinze anos dedicados por Josie à agência não parecem ser suficientes para fazer com que eles confiem em seu trabalho. Uma missão delicada é dada a ela, e é a partir disso que seu futuro será definido dentro da organização. Mas o que o Sr. Stenholm, seu chefe, parece esquecer, é que não é uma boa ideia colocar Josie contra a parede.

Lady Killer é uma graphic novel relativamente curta (são apenas 130 páginas de história, além de páginas bônus com ilustrações e estudos de personagens feitos por Joëlle Jones), mas isso só é um defeito porque, ao chegar ao final da trama, a sensação que fica é a de querer mais. O roteiro produzido por Joëlle Jones e Jamie S. Rich consegue utilizar uma trama relativamente clichê — a da dona de casa perfeita que esconde um segredo sombrio — em algo fresco, leve e divertido. Esses adjetivos, aliás, podem parecer estranhos quando falamos de uma graphic novel sobre uma dona de casa que é também uma assassina de aluguel, mas Lady Killer consegue mesclar momentos intensos de assassinatos que não poupam o sangue esparramado no tapete com cenas genuinamente divertidas (você nunca mais verá uma revendedora AVON da mesma maneira depois de Josie Schuller).

A composição da graphic novel, que intercala cenas de paz doméstica com mortes, lutas e muito sangue, imprime um ritmo dinâmico à história de Josie. Em um momento podemos vê-la preparando o jantar da família, como a boa dona de casa que é, para, no instante seguinte, acompanhá-la trabalhando infiltrada em um clube noturno enquanto estrangula um homem com a própria gravata. Tal dinâmica funciona muito bem e surge principalmente para mostrar como Josie é uma personagem complexa, ainda que o roteiro não se demore muito explicando de que maneira a protagonista foi recrutada para ser uma assassina de aluguel — a curiosidade acerca do tema persiste, mas não é um demérito não sabermos como isso veio a acontecer. O que a alternância entre crimes e vida doméstica nos mostra de maneira primorosa é que, ao mesmo tempo em que Josie pode ser uma mãe amorosa e esposa dedicada, também consegue ser uma assassina metódica e de sangue frio que prefere usar as mãos e os recursos que tiver ao redor do que apelar para uma barulhenta arma de fogo.

Com relação à arte de Lady Killer, as ilustrações de Joëlle Jones se unem de maneira perfeita ao dinamismo do roteiro criado por ela e Jamie S. Rich. A colorização da graphic novel ficou sob responsabilidade de Laura Allred e a artista conseguiu trazer todo o apelo visual do american way of life das décadas de 1950 e 1960 com maestria, fazendo com que vestidos cor de lavanda contrastem com manchas de sangue, enquanto rosa-choque e verde-limão convivem em harmonia no mesmo look. O trio de artistas foi capaz de produzir uma trama vívida, com cenas enérgicas de perseguições de carro e lutas dignas dos melhores filmes de ação de Hollywood, momentos de humor ácido e muita ousadia.

Além de suas publicações originais, Joëlle Jones, vale frisar, foi a primeira mulher a desenhar capas e ilustrações internas para duas edições consecutivas de Batman desde o lançamento dos quadrinhos do herói em 1939, e também foi responsável por ilustrar quadrinhos da Supergirl, e escrever e ilustrar a nova série da Catwoman, iniciada em 2018 com a edição em que a anti-heroína se casa com o Homem-Morcego. Além desses três trabalhos para a DC, Joëlle já ilustrou para a Marvel títulos como Spider-Woman, Scarlet Witch, Ms. Marvel e a icônica capa de Mockingbird ,“ask me about my feminist agenda”. O trabalho de Joëlle é perfeito para retratar mulheres duronas, resilientes e que não levam desaforo para casa.

Lady Killer, que no Brasil conta com tradução de Raquel Moritz e um prefácio especial escrito por Tori Telfer, autora de Lady Killers: Assassinas em Série, é uma graphic novel essencial para quem gosta de tramas ágeis e que conseguem mesclar de maneira impecável humor, sangue e morbidez. Os diálogos levantam questões pertinentes não apenas para a década em que a trama se passa, mas que servem perfeitamente para os dias atuais onde mulheres ainda são questionadas a respeito de sua capacidade de conciliar as vidas profissional e pessoal enquanto homens jamais são perguntados a respeito de qualquer coisa relacionada à vida doméstica.

O trabalho da DarkSide Books continua impecável e a graphic novel, originalmente publicada pela Dark Horse Books nos Estados Unidos, recebeu capa dura em cores vibrantes, uma capa protetora em tons vivos de rosa e amarelo que, de maneira divertida, simulam uma caixa de sabão em pó. Com ironias sutis, arte impactante e um roteiro divertido, Lady Killer mostra que o sonho americano pode ser regado a coquetéis, cores vivas e muito sangue.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a DarkSide Books.


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