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Like Water: o novo capítulo de Wendy

Calças jeans, tênis preto e uma camisa de manga longa. Assim se veste a garota sentada em uma cadeira azul, sob as luzes fluorescentes do teto de uma sala de aula. Ela olha para trás, onde estão três colegas em pé; o instrumental de “Halo”, de Beyoncé, preenche a sala. O trio de backing vocals entende o recado — é hora do show.

Então, a garota da cadeira azul solta a voz. Ela começa a cantar ainda sentada — todo seu corpo reage à música e se move com a batida, ora com os pés batendo no chão, ora com estalos nos dedos. À medida que fica imersa na canção, ela fica mais confiante e expressiva, até que se levanta: sua voz fica mais poderosa e seu sorriso, sempre presente enquanto canta, aumenta. Assim, entregue às emoções, ela segue até que a música termina. A plateia, invisível aos nossos olhos, grita e aplaude. Ela sorri ainda mais.

Na época, a garota da cadeira azul não imaginava, mas seu cover despretensioso de “Halo” seria uma prévia do que sua vida se tornaria após 2014. Das salas de aula para os palcos, a jovem sul-coreana ganharia fãs em todo o mundo como Wendy, vocalista principal do girlgroup Red Velvet e que, agora, lança Like Water, seu primeiro álbum solo.

O começo: do SM Rookies para o Red Velvet

Wendy

O ano era 2014 e os rumores de que a SM Entertainment, uma das maiores empresas do entretenimento sul-coreano, estava planejando lançar um novo grupo feminino ficavam cada vez mais fortes. As suspeitas não eram infundadas — em dezembro de 2013, a gravadora lançou o projeto SM Rookies, no qual trainees destaque eram revelados. A expectativa era de que com esse anúncio oficial ao público, seriam eles, dentre as dezenas de jovens da empresa, que teriam mais chance de se tornarem estrelas do k-pop.

Foi nesse projeto que a SM apresentou Wendy pela primeira vez. Sua primeira aparição ocorreu em março de 2014 com “Because I Love You”, trilha sonora do drama Mimi. Alguns dias depois, a empresa lançaria mais um vídeo da jovem: um cover da canção “Speak Now”, de Taylor Swift.  Meses mais tarde, Wendy então realizaria o sonho de ser cantora como membro do Red Velvet. O tão esperado girlgroup — inicialmente um quarteto, com Wendy acompanhada de Irene, Seulgi e Joy — estreou em agosto de 2014 com o single “Happiness”. O conceito tropical apresentava o lado “Red” do grupo, mais vibrante e pop, e trazia cada integrante com uma cor representativa. A de Wendy, em uma dessas belas coincidências da vida, seria o azul: a mesma de sua cadeira no cover de “Halo” e que agora, tingia parte do seu cabelo castanho.

Deixando as mechas coloridas para trás, chegava a hora do grupo apresentar seu lado “Velvet”, mais sofisticado e R&B, com “Be Natural”. O single — regravação da música de mesmo nome do S.E.S., girlgroup da SM lançado no fim dos anos 90 — foi divulgado em outubro de 2014 e contava com a participação de Taeyong, na época um dos SM Rookies e hoje membro do NCT e SuperM, também grupos da SM. Em 2015, o Red Velvet voltou com Yeri, uma nova integrante. A nova formação foi lançada com Ice Cream Cake, primeiro EP do grupo, que teve dois singles promocionais: “Ice Cream Cake” para o lado Red e “Automatic” para o Velvet. No mesmo ano, elas lançariam The Red, seu primeiro álbum, com músicas apenas no espectro mais pop e quirky. No início de 2016, viria o The Velvet, com foco no lado mais suave do grupo.

Desde então, o Red Velvet se estabeleceu como um dos principais nomes do k-pop. Da estreia em 2014 até 2019, o grupo lançou no mínimo dois álbuns por ano, além das integrantes também terem atividades solo paralelas. Wendy, por exemplo, teve singles, trilhas sonoras para dramas e colaborações com diversos cantores. Alguns destaques são “Spring Love”, parceria com Eric Nam; o dueto “Written in the Stars”, com John Legend; e “Vente Pa’ Ca”, canção de Ricky Martin na qual ela fez uma participação especial.

Esse ritmo acelerado mudaria drasticamente no final de 2019. Em dezembro, o Red Velvet estava em um dos melhores momentos da carreira: o recém-lançado single “Psycho” e o primeiro álbum compilado The ReVe Festival: Finale eram um sucesso. O novo trabalho era o terceiro lançamento do grupo no ano e encerrava a trilogia The ReVe Festival. A divulgação do álbum na televisão, que começaria no Gayo Daejeon, especial de fim de ano da emissora SBS, foi interrompida bruscamente antes mesmo de começar — enquanto ensaiava para o programa, Wendy caiu de uma plataforma com mais de 2 metros de altura. Para se recuperar do acidente (ela fraturou a pélvis e o pulso direito, além de sofrer ferimentos no rosto), a cantora teve que ficar hospitalizada durante três meses e seguir em reabilitação, na sua casa, durante todo o ano de 2020.

Like Water e a estreia solo

Wendy

Para todos nós, devido à pandemia, 2020 foi um ano de mudanças. Para Wendy, além disso, foi a primeira vez, depois de seis anos, em que ela não estava trabalhando. A súbita mudança na rotina, ela conta em entrevista para a Teen Vogue, fez com que entrasse em pânico: o que fazer com todo esse tempo para si mesma, longe de tudo aquilo que era sua vida há quase uma década? Com o apoio dos fãs, das pessoas queridas e dos pais, que foram morar com ela em Seul durante esse período, as inquietações e dúvidas de Wendy foram se dissipando. O que em um primeiro momento lhe causava estresse se mostrou uma pausa necessária para entender mais sobre quem ela é.

“Eu fui capaz de pensar sobre mim mesma e entendi que estava tudo bem descansar um pouco… Esse período foi realmente precioso para mim porque eu aprendi muito. Acho que eu meio que amadureci”. (tradução livre)

Dessas reflexões, nasceu Like Water. Lançado em abril de 2021, o primeiro álbum solo de Wendy traz seu azul representativo, vibrante no Red Velvet, agora em um tom mais sereno. É um convite para conhecermos um novo lado da cantora — o “novo capítulo das nossas vidas começou”, afirma Wendy, em suas próprias palavras, na capa do EP.

“When This Rain Stops”

Para a Forbes, Wendy explica que o Like Water narra sua história e é uma forma de agradecer aos fãs e a todos que aguardaram sua volta. Por isso, é simbólico que o EP comece com “When This Rain Stops”. Escolhida como um dos singles do álbum, a canção representa o 2020 da cantora: um período difícil, de dúvidas e reflexões sobre seu passado, presente e futuro. O repentino tempo disponível, exigido para o tratamento pós-acidente, fez Wendy perceber que estava vivendo em piloto automático. Para a Teen Vogue, ela diz:

“Você trabalha sem parar. É só isso que você faz e pensa que é normal. Mas quando você dá um passo para trás e vê tantas coisas lá fora que antes não tinha visto, que você não teve tempo ou energia para ver… Você não precisa trabalhar duro o tempo todo. Todo mundo precisa de um tempo para descansar. Depois de aproveitar esse tempo, você vai se sentir melhor”. (tradução livre)

A importância de ter um momento para respirar e acolher tudo aquilo que se está sentindo é a mensagem principal de “When This Rain Stops”. Segundo Wendy, é uma música que busca trazer conforto não só para ela mesma, mas também para seus fãs.

“De vez em quando, você pode desacelerar
Você pode descansar
Mesmo quando estiver chovendo em seu coração
Quando essa chuva parar
Você poderá sorrir novamente”

Diferente da Wendy de “Happiness”, confiante ao cantar “Brilhe em mim, deixe brilhar em mim”, a de “When This Rain Stops” se sente insegura e sozinha. No entanto, mesmo com toda a angústia, ela vê o momento como passageiro — afinal, toda chuva, por pior que seja, um dia para. Ela sabe que somente ao reconhecer e viver sua dor poderá, então, reencontrar sua força.

A oposição entre luz e escuridão é, inclusive, trabalhada na performance ao vivo da canção. Ao centro de um palco escuro, Wendy está com um vestido rosa, sentada em frente a um microfone. Atrás dela, está o pianista, mas somente a cantora está sob os holofotes de uma luz amarelada, quente e calorosa. É a forma de Wendy dizer que cumpriu a promessa feita para si mesma e para os ouvintes em “When This Rain Stops”:

“Você voltará a brilhar
Apenas seja sincero comigo mais uma vez
Sinto que assim voltaremos para a luz”.

“Like Water”

Se em “When This Rain Stops” a água é uma chuva incessante e lamuriosa, que escurece o céu e dificulta seguir em frente, ela enfim termina em “Like Water”. Como se depois de um dia difícil, que termina em uma longa noite chuvosa, o piano solitário da primeira canção dá lugar a uma leve guitarra. É o começo um novo capítulo.

O clipe da música começa com o canto de pássaros e uma iluminação suave, que lembra o fim da tarde. No entardecer, em que o mundo começa a desacelerar e a natureza prepara para se recolher, Wendy nos convida, no início da canção: “Se apoie no meu ombro/ Você pode fechar os olhos”. “Mesmo se eu adormecer profundamente”, ela canta, está tudo bem — nós vamos acordar e nos encontrar.

Em “Like Water”, a água representa tanto Wendy como seus fãs. Nos bastidores do clipe, ela explica que ambos são “pequenos corpos de água, que se juntam e formam um grande oceano” — eles se “complementam e confortam”, como diz a letra da canção. O amor de Wendy, ela canta, é como água, que cura e apazigua a dor.

“Meu amor é como água
Preenchendo seus pontos doloridos
Cobre as feridas profundas
Te abraça com força
Faz você se reerguer de novo”

Por isso, dentre todas as músicas do álbum, “Like Water” é a que mais expressa a gratidão de Wendy. Ainda na Teen Vogue, ela conta que, para ela, os fãs e as pessoas que ama são como água: o amor e a presença deles são fundamentais para que ela viva e se fortaleça.

“A água é essencial em nossas vidas. Fãs são assim para mim e as pessoas que eu amo são como água para mim, são todos essenciais na minha vida. (…) Eu não posso viver sem o amor deles. Faz muito, muito tempo que não subo no palco e várias pessoas estão esperando por mim há mais de um ano. Eu acho que amar pessoas, amar alguém é difícil, mas esperar é ainda mais. Então, eu só queria que eles soubessem que são como água para mim.” (tradução livre)

Essa mensagem fica ainda mais clara no clipe. Enquanto Wendy canta “Você me mantém viva, sim/ O que você significa para mim, eu sei”, aparecem várias palavras “love” e outras derivadas (como “loved”, “lovely”, “loving” e “lover”) impressas e coladas em um papel. Elas representam as pessoas e fãs que, como identifica o título “My love” da página, são o amor de Wendy. Enquanto olha para a câmera, ela complementa, no único texto que aparece no clipe: “E eu só quero te agradecer por acreditar em mim”.

Wendy

Nesta cena, vemos Wendy em completo foco. Já em outras, como o Seoulbeats aponta, parece que algo cobre as lentes da câmera. Essa estética dá uma aparência turva para a fotografia de “Like Water”, como se víssemos as cenas sob a “superfície cintilante da água”. No final do clipe, a chuva encontra Wendy de novo, mas não a alcança. Na estufa florida, a água cai ao seu redor, mas ela sorri, despreocupada — sabe que não vai se molhar. Depois, ela vê a chuva caindo, mas os vitrais coloridos acima dela a protegem e iluminam: diferente dos holofotes de “Happiness”, agora são a água e a luz do entardecer que a fazem brilhar.

“Você brilha sobre mim
Como se você fosse água para mim
No momento em que você abrir seus olhos
Tudo vai ficar bem”

É nesta cena que a vemos, pela primeira vez, em contato direto com a água no clipe: ela descansa os pés imersos na banheira, como se depois de um longo dia. Wendy, então, percebe que encontrou novamente a luz, como cantou em “When This Rain Stops”. Com um leve suspiro — de alívio e felicidade, como ela explica nos bastidores da gravação — ela termina “Like Water”. Enfim, ela pode respirar novamente.

“Why Can’t You Love Me?”

O imaginário cultural em torno da primavera envolve, quase sempre, histórias de amor. Em especial no leste asiático, com as cerejeiras e o costume de ir vê-las com a pessoa amada, é comum falar sobre o florescimento de um novo amor tal como as flores que desabrocham na estação. Como um álbum lançado na primavera, Like Water não foge disso. No entanto, o amor que floresce em “Why Can’t You Love Me?” é incerto, ainda unilateral. É uma canção doce e inocente, mais pop, que narra os sentimentos de uma garota pelo seu crush e a euforia de se apaixonar. Diferente das outras músicas, em “Why Can’t You Love Me”, a chuva deixa de ser um cenário melancólico e passa a ser o elemento que vai aproximar a garota de sua paixão. Ela fantasia, criando cenários românticos:

“Eu desejo que a chuva de primavera chegue
Pois eu fico mais perto de você
Com ambas as bochechas vermelhas e um sorriso no rosto
Eu finjo que não têm motivo e viro o rosto”

O anseio em ter o amor correspondido é traduzido ao fim de todo refrão: “Por que você não pode simplesmente me amar?”, canta Wendy. Sua entonação não faz a pergunta parecer inquisidora ou exigente — o questionamento soa tão natural que parece mais um comentário despretensioso: “Poxa, por que você não pode me amar?”.

Esse tom brincalhão-mas-sério, no entanto, não menospreza os sentimentos do eu lírico. É, sim, uma paixão sonhadora, mas a garota quer deixar claro que também é genuína. Por isso, no final da canção, ela não pergunta, mas pede com sinceridade: “Eu só quero que você me ame”. O ritmo desacelera e Wendy prolonga a última linha, como se a garota reafirmasse os sentimentos, convicta: “Eu quero que você me ame”.

“The Road”

Do pop de “Why Can’t You Love Me”, Wendy retorna a um momento mais introspectivo com “The Road”. No começo da canção, Wendy canta sobre alguém que está sozinho em uma estrada desconhecida, sem saber como foi parar lá. Deveria ele continuar caminhando, sem olhar para trás, ou tentar se lembrar do que o levou até ali? Ele decide seguir em frente. Conforme avança pela estrada, o eu lírico começa a lembrar que já esteve lá antes, mas não estava sozinho — ele caminhava acompanhado por seu amor.

“Essa rua bem aqui
Sinto que não é a primeira vez,
Acho que já estive aqui antes
A mão que eu sempre segurei forte,
Eu me lembro
Como em um filme romântico,
Essa é a estrada que percorremos a noite toda, certo?”

Em uma narrativa que contrapõe passado e presente, “The Road” é uma canção nostálgica — nas palavras de Wendy, descreve “o momento quando suas memórias voltam”. É como olhar um álbum de fotografias e encontrar uma foto que você não recordava: é uma vaga lembrança, que desencadeia uma série de pensamentos sobre pessoas, momentos e uma versão de si mesma que ficaram no passado.

Quando relembra essas memórias, o eu lírico reconhece que sente falta dos sentimentos daquela época. No entanto, voltar para o passado não é uma opção. Ele continua caminhando, mas pergunta para si mesmo: se fizer isso, poderá encontrar essa pessoa novamente?

“Na verdade, essa rua
Será que eu vou te encontrar?
Acho que já vim aqui antes
A voz que me chamou,
Eu me lembro
Ambos sem dormir,
A estrada que percorremos a noite toda,
Bem aqui”

“Best Friend”

Do piano mais orquestral do fim de “The Road”, vamos para melodia a la jazz de “Best Friend”, que encerra Like Water. Originalmente, a canção seria apenas na voz de Wendy, mas logo que ela a ouviu, sentiu que precisava ser um dueto. Quem, então, escolher para dividir os vocais? Um nome veio a mente. “Melhor amiga? Ah, essa é a Seulgi”, ela conta à Teen Vogue. Seulgi, sua companheira no Red Velvet, aceitou o convite prontamente. As duas são amigas próximas desde os tempos de trainee na SM, como Wendy conta no teste de amizade do grupo para a Glamour.

“Eu a conheci quando era trainee. Ela tem a mesma idade que eu, é minha amiga verdadeira e tem um grande papel na minha vida. Eu simplesmente amo tudo sobre ela”. (tradução livre)

Apesar da amizade de quase 10 anos e das dezenas de músicas juntas no Red Velvet, Seulgi e Wendy nunca haviam gravado uma canção como “Best Friend”. Diferente de outras músicas com o mesmo tema, a letra da b-side é como uma declaração de amor, sincera e íntima. É a afeição profunda, além das palavras, que sentimos por nossos amigos, mas que nem sempre confessamos em toda sua magnitude.

Como a amizade que a letra da canção descreve, a sintonia de Wendy e Seulgi transparece além do dueto. Os bastidores da gravação de “Best Friend” são cheios de risadas e gracinhas, típicas de melhores amigas. Na hora de gravar sua parte, Seulgi até escreve, brincalhona, o nome de Wendy (Son Seung-wan, seu nome verdadeiro) para pensar nela enquanto canta. As vozes das duas, calorosas, revezam e se complementam perfeitamente — para Wendy, enquanto sua voz traz o aconchego do outono, a de Seulgi é mais primaveril. Na canção, elas agradecem a amizade uma da outra e prometem que no futuro, seguirão juntas, se apoiando:

“Oh você, você é minha melhor amiga
Para sempre, nunca vai terminar
Para mim, você é uma história que nunca vai acabar
Significa que você e eu estamos juntas
Eu vou sempre te proteger
Oh, porque sou sua melhor amiga”

É simbólico que a última música do álbum, um trabalho que nasceu da vontade de Wendy em expressar sua gratidão, termine em “Obrigada, minha melhor amiga”. Com Like Water, ela retribui o apoio e amor que a permitiram viver seu maior sonho — o de cantar — e floresce, como as flores na primavera, reluzente e pronta para iniciar seu novo capítulo.

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