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A familiaridade musical de Manhãs de Setembro

Se os serviços de streaming são os novos canais de TV, então por definição o que é produzido e/ou apresentado por eles é, em sua essência, teledramaturgia. Assim, Manhãs de Setembro, a série brasileira do Prime Video — serviço de streaming da Amazon —, é o mais refinado exemplo da nova teledramaturgia do Brasil. Extremamente paulistana, tendo como ambientação a cidade, mas universal no tema que busca abordar (relações familiares), o seriado foi criado pela veterana argentina Josefina Trotta, que assina o roteiros dos cinco episódios da primeira temporada juntamente com Alice Marcone e Marcelo Montenegro. A obra demonstra de imediato que uma boa narrativa pode ter qualquer personagem principal e conseguir dialogar com qualquer público, inclusive — e talvez principalmente — uma mulher travesti/transgênero preta.

Depois de uma vida morando com outras pessoas, Cassandra (lindamente interpretada por Liniker) finalmente consegue um lugar só seu, uma modesta kitnet. O que era para ser uma metáfora de liberdade acaba por ilustrar a solidão em que ela se encontra. Na primeira noite sozinha no apartamento, recebe a visita de um antigo caso que traz consigo o que Cassandra menos esperava: um filho dos dois. Por insistência do garoto Gersinho (Gustavo Coelho) e falta de opção de Leide (Karine Teles), a mãe, os dois se infiltram na vida da protagonista sem que ela tenha muita escolha.

Reticente durante a maior parte da narrativa, a moça se vê dividida entre uma consciência moral interna que insiste em ajudar Leide e Gersinho, e seu “ego” que sempre lutou para ter independência e respeito, representado na série pela “voz” da cantora Vanusa (Elisa Lucinda), a quem Cassandra idolatra. Vanusa personagem tem pouco a ver com Vanusa mulher real: é debochada e direta, às vezes até cruel, uma ironia talvez não programada e que traz um pouco de justiça poética quando se leva em consideração o tratamento dado pela mídia e redes sociais à cantora em suas últimas décadas de vida. O seriado não é apenas uma ode ou uma homenagem a Vanusa, mas também uma exaltação à sua carreira, inseparável da história do cenário musical nacional dos últimos 50 ou 60 anos. A trilha sonora da série nos remete a algo maior que Vanusa. Os primeiros acordes de “Manhãs de Setembro”, “Paralelas” ou ainda de “Sonhos de um Palhaço”, transportam imediatamente a um imaginário brasileiro de programas de auditório dominicais a la Chacrinha e Silvio Santos, e discos de vinil sendo escutados aos sábados de manhã durante a faxina semanal.

Isso só é possível pelo primor da produção. Pouca coisa é inédita em relação à narrativa de Manhãs de Setembro, mas a série trabalha com clichês tão bem que subverte expectativas: tendo como personagem principal uma mulher trans não maternal, usa de pré-conceitos existentes na sociedade para criar uma figura complexa que só por sua existência já é, em si, uma crítica social aos papéis de gênero, que atrelam filhos e maternidade à figura feminina. O seriado não se reprime ao mostrar que Cassandra também tem seus preconceitos ao fazer a personagem afirmar de forma incisiva e até um tanto superior que não trabalha “no asfalto”. Em sua personagem feminina secundária, traz um perfil já bastante usado, o da “mulher malandra/trambiqueira”, mas que, ao contrário do que se espera, é mãe presente e “coruja”, uma diferença crucial e inédita que a torna uma personagem profunda. Leide é uma mãe maternal: preocupada com o filho, fazendo tudo que pode na situação em que se encontra. Gersinho, apesar de um menino que mora na rua, é superprotegido, inocente e ingênuo.

O único deslize em relação a construção dos personagens é o interesse amoroso de Cassandra, Ivaldo (Thomas Aquino), um homem cis, hétero, casado e pai de família que se envolve com ela “no sigilo”. Ao tentar englobar tantos assuntos da vivência trans e travesti de uma só vez, talvez a obra não tenha dado conta de abordar mais esse tema de forma satisfatória em tão poucos episódios. O relacionamento afetivo-sexual dos dois fica de lado e parece sem importância comparado ao impacto do relacionamento familiar da protagonista com Gersinho e Leide.

Como mulher trans, Cassandra está acostumada a ter o mundo como inimigo, o que é ilustrado diversas vezes ao longo dos episódios. É assim também que vê o filho num primeiro momento. Em sua mente, que acessamos pelas falas de Vanusa, Gersinho vem para estragar tudo que ela conquistou, tirar dela a vida que construiu até ali. É também uma lembrança de um passado com o qual Cassandra não se identifica. A família para ela é quem esteve presente em sua vida: as amigas da boate em que canta e o casal gay que se apresenta com ela — Paulo Miklos e Gero Camilo, adição perfeita e expansão interessante na representatividade mais velha do mundo LGBTQIA+ na teledramaturgia. A família de sangue a abandonou, e seus relacionamentos afetivos em geral preferem que ela se esconda. Ainda assim, aos poucos, ela vê que sua conexão com o filho pode ser mais forte, agregando e melhorando sua vida, não o oposto.

É através da música que Cassandra se conecta com Gersinho, e também com seu público — da boate e das telas. Vanusa faz a ponte da familiaridade entre a vida de Cassandra e a de qualquer um que a assiste. Talvez, mesmo para quem não esteja inserido na comunidade LGBTQIA+, seja natural se conectar a uma entregadora de aplicativo que tem perrengues na vida e só quer cantar músicas que marcaram sua infância (uma conexão que outras séries com narrativas mais elaboradas não conseguiram fazer, como A Garota da Moto, por exemplo). É Vanusa que nos traz ao universo de Cassandra e é ela que nos emociona junto à personagem.

Essa conexão musical toma força em diversos momentos pela direção de Luís Pinheiro e Dainara Toffoli, mas essa direção também se desconecta do texto na maioria das cenas de forma evidente demais, acentuada pela escolha da fotografia mais escura, que já se tornou clichê no gênero dramático. A insistência do uso da fotografia escura em seriados que misturam drama com comédia faz com que o espectador espere que algo muito trágico venha acontecer a qualquer momento, fazendo com que roteiro e cena se descolem. A comédia do seriado se perde em sua inclinação desnecessária ao drama, carregado em momentos que poderiam ser leves e intensificado pelo filtro escuro em todas as cenas, mesmo aquelas que não apresentam tensão nenhuma. Embora a direção tolha o humor peculiar do roteiro, principalmente em relação à narração de Vanusa como voz da (des)razão, acerta em direcionar as atuações de todas que aparecem em cena, principalmente das iniciantes, como Liniker e as crianças (além de Gustavo Coelho, Isabella Odorñez que interpreta Grazy, a amiguinha chata do garoto), que interagem de forma natural e proporcional às situações apresentadas.

Sim, a série carrega seus clichês, mas pessoas LGBTQIA+, principalmente as transgênero, não só merecem representação em narrativas contadas com clichês, como precisam desse tipo de visibilidade. O tom de drama de Manhãs de Setembro não tira seus momentos de comédia e romance, embora esses pudessem figurar mais vezes. O seriado é um primeiro passo para a inserção e normalização de narrativas diversas com personagens principais LGBTQIA+ que não sejam satirizados, vilanizados ou superficiais. É preciso que venham outros a seguir. Não apenas dramas e dramédias, mas também comédias, romances, comédias românticas, terror…

Manhãs de Setembro é o que a nossa teledramaturgia brasileira vem trabalhando desde seu início para ser. É nosso potencial usado da maior e melhor forma para apresentar algo não só de qualidade, que retrata a sociedade como ela é, mas também que emociona e nos move. Mas não deve ser considerado ponto final, ainda existe muito caminho pela frente e Manhãs de Setembro é um produto que pode gerar muitos frutos, inclusive com suas próximas temporadas.

Banner Manhãs de Setembro, Brasil, 2021 - 4 estrelas

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