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Unbelievable: a inacreditável história de um estupro

Antes de iniciar esse texto, preciso admitir que considerei algumas vezes se deveria ou não dar play em Unbelievable, minissérie em oito episódios da Netflix produzida, dirigida e escrita por Susannah Grant. Baseada em fatos reais, a premissa da produção é contar a história de uma jovem acusada de mentir sobre o estupro que sofreu, como os detetives responsáveis por sua investigação estavam mais preocupados em encerrar logo o caso do que acreditar na vítima e como tudo isso seria concluído apenas três anos depois por meio da intervenção de duas investigadoras, vindas de outros casos. Nunca é fácil assistir produções que tratam de estupro, principalmente quando a cultura pop tem o terrível hábito de fetichizar tais acontecimentos, mas isso não ocorre em Unbelievable. Ainda bem.

Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro e agressões sexuais.

Aviso: este texto contém spoilers!

O ano é 2008 e a jovem Marie Adler (Kaitlyn Dever) está aguardando a chegada da polícia em seu apartamento. Ela havia acabado de ligar para o número de emergência, solicitando ajuda após ter sido estuprada em seu apartamento, invadido por um homem encapuzado que ameaça matá-la com uma faca caso ela grite. Marie está visivelmente chocada, confusa, desorientada, mas os policiais que chegam em seu apartamento, assim como o Detetive Robert Parker (Eric Lange), não parecem se atentar muito ao fato. Em um intervalo de poucas horas, Marie é obrigada a narrar o ataque que sofreu, verbal e por escrito, um total de oito vezes e para homens diferentes que nunca parecem se importar genuinamente a respeito do que ela está sentindo, muito mais preocupados em buscar incongruências na narrativa da vítima do que pistas que pudessem levá-los ao estuprador.

Marie é desacreditada desde o princípio, muito provavelmente devido ao seu background: ela é órfã e está no sistema, como ela mesma diz, desde os três anos de idade, e passou por muitos lares adotivos até conseguir uma vaga no condomínio em que vive com outros adolescentes órfãos. Vivendo em alguns lares abusivos, acostumada a ser sempre questionada e não vista como uma pessoa inteira, completa, Marie logo tem sua história colocada em dúvida pelos detetives responsáveis pelo caso. Ela se confunde a respeito de detalhes do ataque que sofreu a cada vez que conta a história para alguém — o que é perfeitamente plausível, dado o considerável trauma de ter sido estuprada — mas o que fica para Parker é como a jovem “cria” pelo menos quatro narrativas diferentes do mesmo acontecimento. Não demora para que Judith (Elizabeth Marvel), uma das mulheres que a acolheu em seu lar adotivo, aponte para o detetive o fato de que Marie não parece estar agindo como uma vítima de estupro deveria agir — como se houvesse apenas uma maneira de reagir a um trauma, qualquer que seja —, e que parece estar apenas querendo chamar atenção.

Sempre que perguntam como ela está, Marie diz que está bem mesmo que suas mãos estejam tremendo, as lágrimas apareçam em seus olhos e a tensão seja visível em seu rosto. As pessoas, como Marie diz em determinado momento, preferem acreditar naquilo que é mais confortável do que aceitar o que o outro tem a dizer, por mais real e dolorido que seja. Ela é uma adolescente carregando um trauma incomensurável, levada de um lado para o outro por pessoas que não se atentam para a delicadeza da situação em que ela se encontra. Mesmo quando é enviada para o hospital a fim de realizar exames médicos, as enfermeiras são completamente mecânicas e não dispensam um segundo olhar para ela, explicando, no lugar disso, de maneira metódica, quais são os exames a serem feitos e quantas amostras serão recolhidas de seu corpo machucado (quatro de sua vagina, quatro de seu ânus e quatro da “área entre eles”. E eu só queria chorar enquanto assistia a essas cenas).

Marie é interrogada por três homens diferentes no intervalo de poucas horas desde o estupro, as enfermeiras são robóticas e em nenhum momento é oferecido um acompanhamento psicológico ou advogado para a jovem. O processo é interminável: Marie é examinada, fotografada, questionada repetidamente. Completos estranhos tocam seu corpo ferido, recolhem amostras de tecido danificado, a fotografam nua. Ela está, praticamente, o tempo todo sozinha e sem aconselhamento adequado, o que apenas piora sua situação quando os detetives a pressionam a dizer que não houve estupro e que Marie esteve mentindo desde o início do caso. Assustada e acuada em uma sala com dois homens portando insígnias de detetive, Marie cede e diz que mentiu, que não foi estuprada. Ela só quer voltar para casa, mas não pode imaginar que o seu pesadelo ainda será prolongado por três anos além do trauma da agressão sexual que nunca esquecerá.

Em 2011, agora é Amber Stevenson (Danielle Macdonald) quem está aguardando a chegada da polícia. A jovem universitária parece em completo controle de si mesma enquanto aguarda a Detetive Karen Duvall (Merritt Wever) do lado de fora de seu apartamento; do lado de dentro, a polícia começa a recolher as primeira evidências do crime de arrombamento seguido de estupro. Karen convida Amber para conversar em um local mais calmo, preservando a jovem da ação policial que se desenvolve ao redor — e aqui já notamos a diferença no tratamento e percepção entre os casos de Marie e Amber. Enquanto o Detetive Parker é educado, mas nada atencioso com Marie, a Detetive Duvall se preocupa verdadeiramente com Amber, se certifica de que a jovem está confortável com ela antes de contar o que aconteceu, a acompanha ao hospital e depois à casa de uma amiga, sempre perguntando com cuidado se está tudo bem para Amber que ela esteja ali. O contraste proposto por Unbelievable é evidente: a maneira como uma mulher lida com uma vítima de estupro sempre será completamente diversa da maneira como um homem lida, por melhor profissional que ambos sejam. Parker acredita estar fazendo o melhor trabalho que pode, mas Duvall vai além: como mulher, ela sabe que há poucas coisas piores do que um estupro na vida de alguém e por isso é atenciosa em todas as etapas do processo mas, em primeiro lugar, no seu tratamento com a vítima.

A partir de então, Unbelievable começa a trabalhar com duas linhas do tempo e as cenas intercalam os anos de 2008, em Washington com Marie, e no Colorado, acompanhando a investigação liderada por Karen Duvall. Três anos separam a história de Marie das pistas que Karen persegue, mas a audiência, assim como a detetive, não demoram a perceber que há muito mais do que uma agressão sexual conectando os dois lados dessa narrativa. O modus operandi do agressor de Marie e Amber é praticamente o mesmo, apenas aprimorado, e em conversa com seu marido, Karen descobre que há uma investigação similar ocorrendo em um distrito vizinho sob o comando da Detetive Grace Rasmussen (Toni Collette). As características do ataque são as mesmas — todas as mulheres estupradas viviam sozinhas, foram amordaçadas, amarradas e vendadas, sofreram múltiplas agressões por horas a fio e foram fotografadas durante o ataque — o que faz com que Karen entre em contato com Grace. Há muitas similaridades entre os casos para que tudo seja uma grande, e horrível, coincidência.

Unbelievable, muito mais do que lidar com uma investigação a respeito de um estuprador serial, se preocupa em contar as histórias das vítimas do agressor e como o sistema falha com cada uma delas quando não consegue chegar ao culpado. Baseada em uma reportagem investigativa vencedora do prêmio Pulitzer em 2016, a minissérie de Susannah Grant é capaz de mostrar os casos cruéis de estupro sem fetichizar suas vítimas em momento algum — o que também aponta, sem sombra de dúvidas, a diferença visível na maneira como uma mulher conta uma história que envolve estupro e como um homem a conta. Não há cenas mostrando seus corpos nus e machucados, apenas flashes muito rápidos e escuros, lembranças borradas de mentes assustadas. Não há momentos em que o sofrimento dessas mulheres é roubado delas, sendo direcionado a homens — a história aqui é toda, e completamente, sobre elas. Seus sentimentos, a maneira como nunca mais se sentiram seguras em suas casas, em suas rotinas. É de partir o coração ouvi-las contar sobre como suas vidas nunca mais foram as mesmas e lembrar que, por melhor que a minissérie seja, ela é baseada em histórias reais, em vidas que nunca mais voltaram para o ponto de antes da agressão.

Enquanto Karen e Grace perseguem pistas e tentam chegar ao predador sexual antes que ele faça uma nova vítima, Marie vê sua vida virar de cabeça para baixo quando é processada por mentir durante uma investigação. A jovem se vê sozinha, sem amigos, é perseguida pelos jornalistas de suas cidade e vê suas opções se reduzirem drasticamente quando seu nome vaza na imprensa. Marie fica conhecida como a menina que mentiu a respeito de um estupro, e são poucos aqueles que ficam ao lado dela — apenas Connor (Shane Paul McGhie), seu ex-namorado, e Colleen Doggett (Bridget Everett), antiga mãe adotiva, estão ao lado de Marie, mas a jovem já está quebrada e desesperançada demais para confiar em qualquer pessoa que seja. O sistema que deveria cuidar dela e garantir sua segurança, não acreditou em sua história e ainda a processou por ter mentido, ainda que tenha sido coagida a fazê-lo. Serão necessários três anos, e duas investigadoras, para que a vida de Marie seja devolvida a ela.

Enquanto minissérie, Unbelievable é praticamente impecável. Todas as suas atrizes — do trio principal composto por Toni Colette, Merritt Wever e Kaitlyn Dever, às coadjuvantes como a técnica Mia (Liza Lapira) e à oficial RoseMarie (Dale Dickey) — estão impecáveis em seus papéis. Toni Colette, intérprete da Detetive Grace Rasmussen, encarna uma mulher que sabe muito bem o seu trabalho, o faz com eficiência, mas nem por isso é inabalável; ela tem dúvidas quanto à investigação, se afasta emocionalmente do marido quando tudo parece a beira de um colapso e é totalmente crível em suas ações. O mesmo pode ser dito de Merritt Wever, a Detetive Karen Duvall: a atriz trabalha muito com seu tom de voz calmo e a maneira como lida com as emoções de sua personagem encontram caminho claro em suas expressões. A Detetive Duvall não é de exaltar, mas, quando necessário, Merritt Wever o faz maravilhosamente bem; explorar as nuances das personagens é interessante pois nos mostra a mulher por trás do distintivo de detetive e como é difícil se desconectar de um caso tão horrível como o que investiga mesmo quando chega em casa e está com suas filhas.

Outra interpretação impecável é a da jovem Kaitlyn Dever. Em conversa com o jornalista Ken Armstrong, co-autor da matéria ganhadora do Prêmio Pulitzer em que Unbelievable foi inspirada (e cujo título, em tradução livre, também é o deste texto), a real Marie Adler (Marie é o nome do meio verdadeiro dela, mas Adler é um sobrenome aleatório utilizado pela reportagem para preservar a identidade da vítima) diz que Kaitlyn Dever interpretou com maestria toda a dor e sofrimento pelo qual passou em 2008. Para a real Marie, foi difícil assistir a série, mas ela diz que Kaitlyn Dever foi perfeita ao mostrar para as câmeras a dificuldade que sentiu em exprimir seus sentimentos, em explicar para a polícia o que aconteceu. Para Marie, a série mostrou sua verdade e, ao terminar de assistir ao último episódio, a sensação, para ela, era de fechamento de uma questão que a atormentou durante anos.

Unbelievable difere, sim, de muitas séries do gênero policial/investigativo. Além de ser baseada em eventos reais e traumáticos, os oito episódios que compõem a minissérie se preocupam muito mais em reconstruir as vidas das vítimas, a mostrar a investigação de Karen e Grace, do que dar espaço ao estuprador serial. Em entrevista para a Vulture, Susannah Grant disse que desde o começo do projeto, do início da escrita do roteiro, ela sabia que não queria fazer da minissérie um produto sobre o agressor e que seu desejo era o de contar a história dessas três mulheres — Karen e Grace são inspiradas nas detetives reais Stacy Galbraith e Edna Hendershot:

“Nós estamos contando duas histórias: a história de uma mulher que experienciou a pior repercussão após denunciar um estupro, sentindo como se ela estivesse completamente sozinha no mundo, e dessas duas mulheres, milhares de quilômetros de distância que, sem saber, estão fazendo o possível para salvá-la.” 

E isso é um dos trunfos de Unbelievable. Nós só conhecemos o estuprador serial no momento em que as detetives o encontram e, mesmo depois disso, não precisamos saber sobre ele além do fato de que foi pego e pagará por seus crimes. Diferente de produções como Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile e Conversations With a Killer: The Ted Bundy Tapes, ambas sobre Ted Bundy e apenas para citar alguns exemplos entre vários, o roteiro de Unbelievable não está interessado em mergulhar na psique do agressor, não quer dar espaço para ele e suas motivações. Muito pelo contrário, a minissérie tem como ponto focal os trabalhos das mulheres que conseguiram pegá-lo (e não é simplesmente maravilhoso que tenham sido mulheres a prendê-lo?) e as mulheres que sobreviveram a ele. Ainda que trate de um tema extremamente delicado como o estupro e a agressão sexual, Unbelievable não fetichiza suas vítimas, não apela para o “rape pørn” em nenhum momento e, quando cenas são mostradas, são sempre pelo ponto de vista da vítima, jamais do agressor.

Na mesma reportagem da Vulture, a jornalista Lila Shapiro questiona se Susannah Grant escreveu um “projeto feminista”, visto que Unbelievable difere de outras série do gênero tanto em sua construção das cenas quanto em sua narrativa, além do fato óbvio de contar com protagonistas femininas críveis. A diretora e roteirista responde que não escreveu um projeto feminista de maneira consciente mas, enquanto feminista, tudo o que ela escreve assim o é. Unbelievable não é uma minissérie simples de assistir devido ao seu conteúdo; foram inúmeras as vezes em que lágrimas vieram aos meus olhos e me senti impotente e vulnerável enquanto assistia aos episódios. Acredito que a série possa, sim, ser gatilho para algumas pessoas que passaram por situações de agressão sexual, mas da mesma maneira creio que é um conteúdo diferenciado a respeito de um tema tão explorado e pessimamente representado pela cultura pop em geral. Como disse em alguns momentos no decorrer desse texto, Unbelievable é a história das vítimas de um estuprador serial, como elas foram tratadas por um sistema de justiça dominado por homens e como faz diferença quando uma vítima diz que foi agredida e não apenas é ouvida como tratada com compaixão e empatia.

Salvo as licenças poéticas e uso de alguns tropos comuns do gênero — Grace é a epítome da detetive badass, dirigindo um carro antigo, enquanto Karen é calma e centrada em seu trabalho — Unbelievable é um grande projeto sobre um tema delicado e difícil de assistir. Assim como séries que contam histórias sobre acontecimentos reais — Chernobyl e When They See Us, para citar dois exemplos recentes — é importante dar espaço para que o outro lado da história seja contado. Em determinado momento dos episódios, a terapeuta com que Marie se consulta diz que ela sofreu duas agressões: a primeira, quando foi estuprada em seu apartamento, e a segunda, quando a polícia não acreditou em sua denúncia. O sistema falhou com Marie assim como vem falhando a cada dia com milhares de mulheres no mundo inteiro — se é assim nos Estados Unidos, um país dito de primeiro mundo, a realidade brasileira consegue ser muito pior.

Apenas no Rio de Janeiro, mais de 4,5 mil mulheres foram vítimas de estupro em 2018. Casos de estupro aumentam no Brasil, com 60 mil registros apenas em 2017. Foram, em média, 164 casos registrados por dia no Brasil. 99% dos crimes ficam impunes no país. Essas foram apenas as quatro primeiras matérias encontradas em pesquisa rápida no Google, mas sabemos que nossa realidade sempre foi muito pior do que a ficção. Enquanto em Unbelievable o agressor era um predador sexual, as estatísticas são certeiras em apontar que na maior parte dos ataques, o agressor é alguém do círculo social da vítima. O estupro é o único crime em que a vítima tem que provar sua inocência, algo que estamos cansadas de ouvir e que também aparece como fala em Unbelievable. Se os detetives tivessem prestado atenção em Marie Adler e em sua história desde o início, eles poderiam ter pego o agressor antes que ele destruísse outras vidas ao longo dos três anos em que ficou impune.

Quem dera tivéssemos detetives como Karen e Grace — ou como sua contrapartes reais, Stacy Galbraith e Edna Hendershot, em toda delegacia. Ou se, pelo menos, os profissionais indicados para lidar com casos como estupro e agressões sexuais recebessem treinamentos melhores, mais adequados a lidar com traumas como esses, a ouvir as vítimas com empatia e compaixão. Cada pessoa reage de uma maneira diante de um trauma, e não há o jeito certo ou errado de externar seus sentimentos. Enquanto Marie se retraiu, Amber buscou em sua observação analítica o ponto de apoio para manter sua saúde mental, mas mesmo isso se estilhaçou em algum momento durante a investigação.

Assim como na vida real, o agressor de Marie, Amber e tantas outras mulheres foi condenado a 327 anos e meio de prisão. Unbelievable é uma série difícil de digerir, mas que nos deixa, ao final de seus oito episódios, com uma pontinha de esperança. Ainda que existam pessoas horríveis no mundo, ainda há, também, aquelas que lutam até o final para reparar a injustiça feita. O fato de a minissérie contar com tantas mulheres em cargos importantes — roteirista, produtora, diretora, entre outras — demonstra, também, seu diferencial em tratar um tema tão delicado quanto o estupro. As emoções estampadas em suas personagens, o tom real e, ainda assim, esperançoso com que a trama foi contada, transforma Unbelievable em uma das poucas de seu gênero a ter uma perspectiva única de um crime hediondo. A perspectiva das mulheres.

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