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Manual da Demissão: como ter uma relação saudável com (ou sem) trabalho?

Como uma típica millennial do meu contexto social, sempre nutri expectativas irreais sobre trabalho. A velha máxima do “trabalhe com o que ama e não trabalhará um dia sequer” fazia o meu coração bater mais forte. Não demorou para ver quase todas essas expectativas sendo frustradas à medida em que, de fato, comecei a fazer parte do mercado de trabalho, um universo constituído essencialmente de caos e destruição. Foi exatamente essa vibe de frustração, caos e destruição que encontrei em Manual da Demissão, livro de Julia Wähmann publicado em 2018 pela Editora Record.

A história começa quando a narradora, chamada apenas de J., conta sobre sua demissão. Não só a sua: o famigerado passaralho abate boa parte da equipe de funcionários da empresa em que J. trabalhava. Ao mesmo tempo em que perde o emprego, a narradora perde também o namorado. O fim do relacionamento é mencionado várias vezes ao longo do livro e a protagonista vive, sim, o luto dessa perda. Mas, a magnitude da perda do trabalho parece muito mais difícil de ser enfrentada. O acontecimento, entretanto, não dá início a um livro denso e triste. A proposta de Julia Wähmann é contar essa história de uma forma bem humorada, recheada de referências a músicas, filmes e livros, e marcada por capítulos intitulados com ditos populares como “cada macaco no seu galho” e “uma andorinha só não faz verão”.

Enquanto avançava pelas páginas de uma literatura leve, me vi envolvida com uma série de questões inevitavelmente familiares. Em pleno ano de 2019, é impossível que o tema desemprego não provoque identificação: mesmo que você não esteja desempregada, provavelmente já esteve ou teme a possibilidade ficar. Ou, no mínimo, você conhece alguém que está passando por isso. E, assim sendo, esse é um livro que fisga — não por ser brilhantemente escrito nem por ter ideias e reviravoltas geniais; mas sim por desencadear uma espiral de pensamentos que levam ao abismo sem fim do relacionamento que nutrimos com o trabalho.

Manual da Demissão mostra que a demissão impacta tanto em um terreno individual quanto no campo social. A narradora fala de como os dias sem a rotina de trabalho passam a ser infinitamente vazios. O choque de acordar e não ter mais nenhum compromisso, tendo que encarar dias em branco, é uma das primeiras coisas a abater a narradora. J. compartilha seus dramas, reflexões e crises que chegam com a falta do que fazer, as conversas e o tempo passado com os amigos que também foram demitidos (e, ao longo dos capítulos, cada vez mais amigos se juntam ao time de desempregados), a mudança de muitos desses amigos para o exterior, a depressão.

Toda a epopeia começa com burocracia. Perder o emprego envolve um sem fim de filas e visitas a instituições, e a narradora dá conta dessa saga logo no início do livro. Depois de passar pelo RH, limpar a mesa que ocupou por anos e sair da empresa com uma caixa a tiracolo, J. tem algumas tarefas a cumprir antes de, de fato, ter dias totalmente desocupados: é preciso fazer o exame demissional, ir ao sindicato, ao Ministério do Trabalho, à Caixa Econômica. E, por mais mecânico que seja essa sequência de atividades, a simples visita ao médico do trabalho já é um gatilho para o turbilhão de emoções que está por vir.

“Numa rápida retrospectiva, penso no quanto minha rinite se agravou nos anos de escritório, aquele antro de papel e ácaros, assim como meus problemas de coluna. […] Mas uma vez acomodada em um dos minúsculos consultórios, não houve brecha para objeção: está grávida? Tem alguma alergia? Fez alguma cirurgia? Algum histórico de diabetes na família? Está fazendo algum tratamento médico? Há alguma outra informação sobre sua saúde atual ou passada que julgue importante? Sim, quero explicar para o médico do trabalho que me atende, julgo importante dizer que daqui a umas semanas, ou dentro de alguns meses, tudo isso me causará uma tremenda depressão, e as noites sem dormir e as tardes sem ter o que fazer me causarão uma lesão emocional por esforço repetitivo, o de pensar obsessivamente ‘e agora?’.”

É inevitável não ouvir uma vozinha no fundo da mente matutando: vale mesmo a pena comprometer sua saúde física e mental para manter um emprego? A resposta está muito longe de ser simples. Para a maioria esmagadora das pessoas, isso é uma questão de necessidade. Para aqueles privilegiados que podem, de fato, escolher, a resposta também não é tão simples porque joga no campo da vergonha. O sentimento funesto de vergonha de ter fracassado profissionalmente, de ser inútil, de não estar produzindo. Manual da Demissão está regado desses sentimentos.

É preciso pontuar: Julia Wähmann escreve sobre um ponto de vista extremamente confortável. Por mais que a demissão cutuque um monte de coisas capazes de deixar em frangalhos qualquer estabilidade emocional, Manual da Demissão trata de uma realidade distante da realidade de outros desempregados. Aqui, a demissão não levanta questões como falta de comida na mesa, privação de itens de necessidade básica, acúmulo de dívidas, comprometimento da saúde física. Há privilegiados até mesmo em situações pérfidas como o desemprego. Ainda que todas as tristezas e frustrações sejam completamente válidas, é muito diferente enfrentar tudo isso de barriga cheia, com um teto seguro sobre a cabeça e uma cama para dormir.

O livro coloca em pauta a ideia de que perder o emprego — ou mesmo pedir demissão sem ter outro trabalho em vista — abre feridas que vão muito além da (sempre desesperadora) questão financeira. Depois de anos dedicados à empresa, J. enfrenta a ingrata realidade de que, para o patrão — ou melhor, o “patrão que ficou maluco”, como ele é chamado no livro —, ela é apenas um número, um custo a ser enxugado em uma época de crise. Mesmo sendo apenas mais uma demitida em um mar de novos desempregados unidos pelo mesmo motivo, a demissão machuca de uma forma pessoal. O fim do relacionamento com o trabalho vira a vida de J. de cabeça para baixo e faz com que ela jogue para escanteio até mesmo o luto pelo fim do seu namoro. A simples ideia de abrir a caixa com os pertences remanescentes do antigo emprego é insuportável, e essa caixa fica ali, abandonada em um canto do apartamento, fechada e com a logo da empresa rabiscada, assombrando a protagonista como um fantasma.

Depois de passar pelas fases burocráticas da demissão, J. e dois colegas começam a se encontrar para sobreviverem juntos ao novo e indesejado tempo livre. Os três passam dias na praia, em visitas ao Jardim Botânico e podendo beber a qualquer momento, mas tudo isso, que poderia ser a descrição de uma boa vida, tem um gosto amargo. É maluco pensar o quanto nós desejamos ter mais tempo livre para fazer coisas que gostamos, descansar, cultivar hobbies; mas, com a obrigatoriedade do tempo livre causada pelo desemprego, esse ócio se torna uma cruz que ninguém quer carregar. O tempo livre não tem aquele sentimento de bênção de um fim de semana, quando você sabe que tem um período curto para aproveitar e segunda-feira já vai estar de volta ao trabalho. O tempo livre do desemprego tem o sentimento de maldição, da voz que questiona a grande vilã do mundo moderno: a improdutividade.

A sensação de que temos que estar o tempo todo sendo muito produtivos, aprendendo coisas novas, conhecendo pessoas importantes, construindo uma carreira, impressionando um cliente ou um patrão, ganhando dinheiro etc. e tal é esmagadora porque qualquer coisa fora disso já é passível de causar culpa. De repente estamos todos presos em uma cultura de que é lindo virar a noite trabalhando, fazer centenas de horas extras que nunca serão remuneradas, dar mais uma olhadinha no e-mail profissional antes de dormir. A linha entre a dedicação à carreira e o completo anulamento de outras esferas da vida em nome do trabalho é tênue e parece que estamos cada vez mais hipnotizados a cruzá-la, sem nem se dar conta do que isso significa.

É assustador pensar no quanto nós nos definimos pelo nosso trabalho que é, afinal, uma coisa tão efêmera. De uma hora para outra, tudo pode acabar com uma simples visita ao RH e aquela pilha de coisas que atormentava o seu sono, era tema de todas as conversas e ocupava a maior parte dos seus dias não dizem mais respeito a você. Fica tudo para trás. E a separação é dolorosa.

“Conhecer pessoas me apavorava, pois sabia que a pergunta era incontornável. Minhas bochechas ardiam em brasas instantaneamente, olhava para os lados nervosa, sentia meus olhos transbordarem, deixando o interlocutor confuso. Aos poucos entendi que o melhor era soar vaga e misteriosa, ou ser direta: ‘Fujo da Polícia Federal por ter causado um rombo nas contas do Ministério do Trabalho.’ Ambas as respostas encerravam qualquer conversa e evitavam mais problemas. Para os poucos que não se intimidavam, eu inventava que estava em um período sabático, lendo muito, escrevendo um livro, fazendo cursos, ou seja, me tornando uma pessoa mais interessante para o universo.”

E, se ser forçada a sair do emprego é ruim, para aqueles que mantiveram seus lugares na firma, a coisa não é muito melhor. É o que aponta o livro quando traz para história amigos e colegas de J. que sobreviveram à demissão em massa e, agora, precisam sobreviver à loucura de uma empresa com um corpo de funcionários drasticamente reduzido — “há o passaralho e o ficaralho”, lembra a narradora. De novo, Julia Wähmann fala de realidades muito próximas: o acúmulo de funções, as horas extras intermináveis, a exaustão física e mental de quem se vê obrigado a dar conta sozinho de um trabalho que antes era feito por uma equipe.

Não é por acaso que tanto tem se falado em burnout, síndrome caracterizada por altos níveis de estresse, exaustão física e mental. Definido como uma “doença profissional”, o burnout afeta 30% dos profissionais brasileiros. Chegar a esse estágio de esgotamento extremo não é difícil quando somos embalados diariamente pela ideia de que ter uma carreira de sucesso é tudo que importa. De que precisamos dar tudo de nós para subir de cargo, ter reconhecimento, chegar . De que, se não tivermos esse sucesso, teremos falhado como seres humanos. De que se você não der tudo de si, você está na rua, a fila anda, tem centenas de outras pessoas que dariam tudo para estar no seu lugar. A pressão chega de todos os lados, assim como as contas que precisam ser pagas independentemente de como você está se sentindo.

Manual da Demissão fala mais alto justamente por trazer um contexto tão fresco e tão tenebroso. A narradora alude a acontecimentos que nós acabamos de vivenciar (ou ainda estamos vivenciando), como o impeachment de Dilma Rousseff, o início do governo de Michel Temer, as demissões em massa em grandes empresas, e, é claro, a crise econômica, que é uma personagem recorrente, surgindo toda vez que alguém precisa justificar qualquer coisa (“você sabe, é a crise”). De lá para cá, se as coisas mudaram não foi para melhor: segundo o IBGE, o Brasil tem 12,8 milhões de desempregados.

“Dois anos e tantos meses depois do dia D, o cenário político nacional e internacional torna quase todos os cidadãos vivos demitidos, seja de seus otimismos e sonhos ou de suas tranquilidades e sonos. O desemprego tornou-se endêmico, como uma epidemia que traz precariedades distintas aos contaminados.”

Fora a dificuldade de recuperar a atividade profissional em um contexto em que emprego é um Pokémon raro e carteira de trabalho assinada é um acessório de luxo, o que pega mesmo é a dificuldade em superar a sensação de fracasso e fazer as pazes consigo mesma. Julia Wähmann trabalha com a ideia de que a demissão mexe e remexe também com a vergonha.

A combinação de vergonha, fracasso e culpa é radioativa. J. não consegue reunir forças suficientes para contar para sua própria família que foi demitida. E, quando conta, diz que está aproveitando para trabalhar em um livro para não dizer que, na verdade, tem passado dias e dias entregue ao sofá, aos reality shows, às comidas nada nutritivas e à tristeza. Para os colegas com quem mantém contato, J. finge que está em busca de um novo emprego ou de trabalhos de freelancer. Admitir que as coisas não estão nada bem e pedir ajuda é insuportável, e J. segue paralisada, se anestesiando como lhe é possível. Sempre por meio de uma literatura leve, vamos navegando pelos sentimentos sombrios da narradora, que lida, junto com a demissão, com o fim do namoro (que bate forte em certa altura do livro), com a sensação de abandono que surge com a mudança de muitos de seus amigos e conhecidos para Portugal e com uma questão burocrática que a impede de continuar recebendo o seguro-desemprego.

“Quando uma porta se fecha, uma janela se abre, mas em alguns casos ela é um basculante estreito, pelo qual você não consegue passar. A sensação que tenho é de que fiquei entalada nesse meio do caminho onde já se consegue ver o mundo lá fora, mas algo te prende ao passado. Sonho constantemente com o patrão que ficou maluco. Ou melhor, tenho pesadelos nos quais ele sofre dores terríveis. Nunca a morte, que seria uma saída preguiçosa, nem mesmo algo drástico, nenhuma cena de Bolaño. Males cotidianos: ele queima a língua com o café quente; pisa em uma peça de Lego dos netos; faz um tratamento de canal.”

A proposta de Manual da Demissão não é trazer respostas. A própria narradora desiste da empreitada de criar um manual perfeito para que seus amigos lidem com a vida após demissão no meio do caminho. Não existe uma fórmula mágica que torne a situação mais agradável, ou ao menos palatável. E o livro não se propõe a ser uma grande obra inspiracional, com a finalidade de mostrar ao leitor soluções ou grandes ensinamentos de como atravessar essa fase. Você não vai encontrar um final feliz, nem mesmo um tom otimista, apesar da escrita ser leve e bem humorada. É só um livro que compartilha o caso e, se faz você se sentir melhor, é por saber que não está sozinha nessa situação de merda — mas nunca chega a ser um consolo a ideia de que se está desempregado com outros quase 13 milhões de brasileiros.

Também dá para aprender muita coisa. A observar o seu relacionamento com o trabalho, principalmente. Trabalho é importante porque é um meio para conseguirmos o essencial para viver neste mundo (dinheiro) e também, se tivermos sorte, é algo que traz satisfação, realização, orgulho, prazer. E amor: você pode amar o seu trabalho. E isso é maravilhoso. Mas, é preciso lembrar que você não é o seu trabalho. E, sem ele, você continua sendo uma pessoa completa.


** A arte do topo do texto é de autoria da nossa colaboradora Carol Nazatto. Para conhecer melhor seu trabalho, clique aqui!

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