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Tempestade de Guerra: o desfecho de A Rainha Vermelha

A “hipótese da Rainha Vermelha” (também conhecida por outros nomes como “efeito/corrida da rainha vermelha” ou só “rainha vermelha”) é uma teoria evolutiva desenvolvida em 1973 por Leigh Van Valen, biólogo evolucionista, inspirada pela personagem Rainha Vermelha de Lewis Carroll, que aparece em Alice Através do Espelho.

” — Em nossa terra — explicou Alice, ainda arfando um pouco — geralmente se chega noutro lugar, quando se corre muito depressa e durante muito tempo, como fizemos agora.
— Que terra mais vagarosa! — comentou a Rainha [Vermelha]. — Pois bem, aqui, veja, tem de se correr o mais depressa que se puder, quando se quer ficar no mesmo lugar. Se você quiser ir a um lugar diferente tem de correr pelo menos duas vezes mais rápido do que agora.”

Alice Através do Espelho (Lewis Carroll, tradução Sebastião Uchoa Leite)

Nessa formulação teórica, considerada revolucionária por muitos e pela qual Van Valen ficou conhecido, a competição entre espécies é como uma corrida armamentista evolutiva em que um adversário precisa sempre se adaptar para não ser subjugado pelo outro: “O melhor que uma espécie pode fazer para sobreviver é responder às adaptações de um adversário, rápida e incessantemente”, como explicado no obituário do cientista publicado pelo New York Times. Por mais que uma espécie evolua e sofra adaptações aleatoriamente, ela sempre estará no mesmo lugar, pois as espécies a sua volta também evoluirão.

Além do campo da biologia (com repercussões na ecologia e na evolução), a teoria de Van Valen chegou à administração, sendo aplicada em modelos matemáticos que analisam empresas e seu comportamento organizacional. E ela também nos ajuda a pensar algumas escolhas tomadas por Victoria Aveyard, jovem escritora e roteirista, na série A Rainha Vermelha, curiosamente de mesmo nome. A saga chegou ao fim com a publicação de Tempestade de Guerra, quarto volume da série, que ainda conta com Espada de Vidro, A Prisão do Rei e um extra de contos (Coroa Cruel). Logo na primeira semana após o lançamento, o livro já figurava em primeiro lugar na lista dos mais vendidos do New York Times, arrebatando fãs no mundo inteiro e consolidando a escritora à época recém-formada num nicho (young adult ou jovem adulto) bastante criticado por ser considerado menos importante ou subliteratura.

Atenção: este texto contém spoilers!

A fantasia de Aveyard começa com recursos narrativos bem conhecidos: a mocinha pobre mas determinada, o príncipe que se passa por plebeu, triângulo amoroso, luta de classes. Esse é o começo de uma longa guerra entre prateados (membros da nobreza que possuem o sangue prateado e poderes especiais) e vermelhos (pessoas comuns). Nunca ficamos sabendo qual é a origem dessas duas classes, mas o ódio é declarado e a estrutura do Reino de Norta torna os vermelhos obrigados a se submeterem aos piores trabalhos e a se alistarem no exército.

Se pensarmos que essas duas espécies estão em competição, e se a teoria de Van Valen lá do começo do texto fosse aplicada nesse universo que mistura elementos de fantasia, distopia e ficção científica, os vermelhos certamente seriam a presa que precisa se adaptar. E surgem duas adaptações: a Guarda Escarlate e os sangue-novos. A Guarda Escarlate é o grupo rebelde, organizado, que luta contra a dominação da nobreza prateada, assim como a Aliança Rebelde em Star Wars, ou o Distrito 13 em Jogos Vorazes; já os sangue-novos são vermelhos que, também sem explicação, nascem com poderes especiais tal qual prateados, e muitas vezes mais poderosos. Mare Barrow, a protagonista, é uma sangue-nova e integrante da Guarda Escarlate, ou seja, o símbolo escolhido para a revolução e para o fim da soberania dos prateados.

O segundo e o terceiro volumes aprofundam a guerra entre as classes, numa confusão de mortes, batalhas, traições, novos personagens e uma profusão de casas (e seus respectivos poderes) que um leitor desatento pode ter dificuldade em acompanhar. Apesar disso, Aveyard entrelaça bem os capítulos, com cliffhangers e narradores-personagens capazes de nos fazer ter empatia pelos vários lados da guerra. Com exceção de Elara, certamente a pior vilã do livro, os outros personagens podem ser compreendidos em suas ações, o que eleva o nível de uma simples batalha entre o bem e o mal e explora as nuances entre um e outro.

A guerra entre prateados e vermelhos aborda a discriminação de um grupo que se acha superior geneticamente e acredita que é seu direito natural subjugar os outros grupos. Isso pode servir de espelho às sociedades modernas com o retorno de políticos e representantes retrógrados que lutam pela manutenção de regras muitas vezes excludentes e opressoras, além de nos lembrar o nazismo, a crença na superioridade ariana, o racismo e o machismo.

“Me pergunto se nos tornamos quem deveríamos ser ou se essas pessoas se perderam para sempre.”

Um ponto interessante dos livros intermediários é que eles mostram um pouco do treinamento dos sangue-novos. A luta pelo controle dessas pessoas, vistas como peças importantíssimas no jogo e também como “armas”, se acirra e os arcos narrativos das personagens, como Cameron e Tyton, parecem crescer bastante até sumirem neste quarto livro, em que são apenas citados nas várias batalhas. A construção das mulheres da trama também é bastante motivadora, especialmente se pensarmos no público das obras, adolescentes e jovens adultas/ os. São mulheres que às vezes estão em lados opostos da guerra civil, mas se respeitam e, no limite, admiram as qualidades das outras.

Particularmente não gosto muito da protagonista, e deixo minha cota de fã para Anabel, avó de Cal e responsável pela melhor reviravolta deste último livro ao fazer acordos e tramar politicamente sem pedir desculpas por isso; e Farley, capitã da Guarda Escarlate, que ocupa uma posição proeminente entre os rebeldes, disposta a morrer pela causa, e sempre lembrando que a revolução é maior que os indivíduos. Destaque para a antagonista Evangeline, que mantém um relacionamento secreto com Elane (esposa do seu irmão). A história de amor entre Evangeline e Elane é um dos pontos fortes do livro; sem deixar de explorar as dificuldades de se viver em uma sociedade lesbofóbica e os desejos de se assumir, a trama se encerra com o final feliz constantemente negado ao público LGBT.

“[M]e deixe entender quem eu sou agora. Não Mareena, não a garota elétrica. Nem mesmo Mare Barrow. Mas quem quer que saia do outro lado disso tudo. […] Precisamos nos curar. Nos reconstruir. Assim como este país, e o que mais vier depois. E o pior de tudo, e o melhor de tudo, é que temos de fazer isso sem o outro.”

Já o romance entre Mare e Cal, para desagrado de alguns fãs, acaba com a jovem pedindo um tempo, tentando se reerguer após tantas batalhas — físicas e psicológicas — e a adrenalina de estar sempre atacando ou se defendendo. Como ela mesma lembra no diálogo final, ela só tem 18 anos, boa parte deles passados se preocupando em furtar coisas para prover uma vida melhor para a família e amadurecendo à força. Com o fim da guerra e o reino de Norta se transformando em um país democrático, tudo que Mare deseja é voltar seu olhar para si mesma e encontrar quem realmente é, não a garota elétrica símbolo da revolução propagada pela Guarda Escarlate, não a jovem apaixonada por dois irmãos, não mais a jovem manipulada por todas as forças.

Tempestade de Guerra é o livro da saga com maior número de narradores (Mare, Cal, Maven, Iris e Evangeline) e o maior em número de páginas (são 699!). Todo o tamanho, porém, não garante um livro sem falhas, e algumas passagens são apressadas e outras são redundantes. Os vários pontos de vista funcionam no caso de Evangeline e Iris, pois conseguimos saber um pouco mais das características delas, seus pensamentos e motivações. É uma pena que as múltiplas narrações não se estendam por todo o livro, já que o recurso parece ser utilizado pela autora com o objetivo exclusivo de aumentar a história, muitas vezes sem necessidade.

A escrita de Aveyard incomoda às vezes pelas frases muito curtas e repetitivas, que acabam por não surtir o impacto desejado, e algumas tramas ficam inacabadas ou mal terminadas. Como exemplos, há as rainhas Cygnet, interessantíssimas e subvalorizadas, que perdem a batalha final e somem, ou Cal, que simplesmente abdica do trono após passar os quase quatro livros inteiros lutando pelo direito de assumi-lo e fazer diferente, ou ainda Maven, que morre numa luta sem graça.

O que temos no fim de Tempestade de Guerra não é Mare coroada Rainha Vermelha, como o nome da saga nos faz esperar, nem a Rainha Vermelha de Carroll, uma corrida desenfreada que nos deixa no mesmo lugar, sem saber direito onde estamos, mas uma Rainha Vermelha de Van Valen: com as diferentes classes se equilibrando e evoluindo para uma sociedade mais igualitária, já que a alternativa era uma só; a extinção.

“Há algo de corajoso na forma como Aveyard escolhe terminar. Ela não parece se importar que as coisas fiquem meio confusas. A vida real é assim. Nem tudo acaba amarrado em um arco perfeito. […] No mundo YA de hoje, um final confuso é uma espécie de declaração ousada. E independente de como você se sinta sobre o final em si — sinto muito pelos fãs de Cal/Mare — isso merece aplausos.”

(Trecho do artigo de Lacy Baugher, tradução livre)

A saga termina, mas não acaba: os direitos foram comprados pela Universal Studios, mas a adaptação ainda não tem previsão de estreia; além disso, está previsto um novo livro de contos (Broken Throne), a ser lançado nos EUA em maio de 2019, contando o depois de algumas personagens, após o desfecho do quarto livro. A extensa fanbase da garota elétrica agradece.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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9 comentários

  1. Comecei a ler o livro, interessantíssima no enredo, mas me deparei com fragmentos da história inacabada e pedaços que me deixaram quase perdida na história…. juro que meu livro favorito dessa saga foi o primeiro… Mas gostei da Alto crítica e o spoiler era o que eu queria saber… já estava entediada no segundo livro, e olha que eu sou fominha em ler livros, esperava mais dessa saga e realmente pensei que no final ela se tornaria rainha junto a cal, mas como a autora nos pregou essa peça, tenho que concordar que é muito interessante e peculiar… parabéns pelo resumo e alto crítica.

    1. Oi, Maria Alice.
      A série se encerra nesse livro, mas a autora lançou uma coletânea de contos (Trono Destruído) com histórias que se passam após o fim da saga.