Categorias: LITERATURA

A Rainha Vermelha: separados pelo sangue

A vida de Mare Barrow nunca foi das melhores. Vivendo em Palafita, um vilarejo pobre do Reino de Norta, a jovem sobrevive roubando pequenos objetos, moedas, comida e tudo aquilo que puder colocar as mãos para ajudar em casa. Ela e sua família não conseguem enxergar um futuro promissor à frente principalmente quando o rei recruta cada vez mais de seus jovens para ingressar em seu exército. Mare sabe que não lhe resta muito tempo e que logo será recrutada também, mas o que ela não imagina, no entanto, é que sua vida mudaria para sempre após um encontro inesperado. É assim que começa A Rainha Vermelha, primeiro livro da saga de mesmo nome escrita por Victoria Aveyard e publicada no Brasil pela Seguinte, o selo jovem da Companhia das Letras.

Atenção: este texto contém spoilers!

No mundo de Mare, as pessoas são divididas pela cor de seu sangue: vermelhos para aqueles que nasceram comuns, e prateados para aqueles que nasceram com dons especiais e mágicos. Nesse contexto, Mare e sua família fazem parte dos vermelhos, os plebeus humildes destinados a sempre servir a elite prateada que consegue dominar poderes sobrenaturais e que os transformam praticamente em deuses. A vida é assim desde que qualquer vermelho possa se lembrar e não há perspectivas de melhora, e a guerra entre o Reino de Norta e o Reino de Lakeland avança a cada dia e os nobres prateados exigem cada vez mais sangue e vidas vermelhas para abastecer seus exércitos nas fronteiras, uma situação insustentável e que já levou para longe da família de Mare seus três irmãos mais velhos.

“Então quem eu sou? — pergunto com a voz trêmula de tristeza, imaginando todas as coisas horríveis que podem fazer comigo.”

No Reino de Norta, todo jovem sem emprego ou cargo de aprendiz — os “desocupados” — é recrutado para o exército quando completa dezoito anos de idade e o dia de Mare está prestes a chegar, assim como o de seu melhor amigo, Kilorn Warren. Juntos eles planejam fugir de Palafitas e do reino para não serem recrutados, mas eles precisam reunir o dinheiro necessário para que possam pagar o atravessador que os levará para longe. Em uma série de desventuras para tentar obter recursos para a fuga, Mare vê suas esperanças irem embora quando seus planos dão errado e ela acaba inesperadamente com um trabalho no palácio real. Como se isso não bastasse, a jovem também descobre que não é apenas uma plebeia comum, mas que embora corra sangue vermelho em suas veias, ela também é capaz de criar magia, algo que nenhum prateado é capaz de fazer.

Caindo sem aviso em um mundo que desconhece, Mare precisa aprender a lidar com a vida na corte, com os prateados que a rejeitam e com um sem número de intrigas e mentiras. A jovem precisa assimilar o mais depressa possível a sua nova realidade e seus poderes, assim como o que significa ser essa pessoa única que reúne o sangue vermelho e o poder prateado em um mundo completamente dividido. A Rainha Vermelha tem em sua narrativa elementos que podem lembrar as tramas de outras séries de sucesso como A Seleção, Jogos Vorazes,Trilogia Grisha e até mesmo As Crônicas de Gelo e Fogo, e comentários do tipo são frequentes quando se fala dos livros escritos por Victoria Aveyard, mas a autora consegue criar um mundo só seu e entrega em seu livro de estreia uma história que prende a atenção e é repleta de personagens para os quais torcer.

Mare Barrow, sua protagonista, é uma jovem resiliente e que não desiste mesmo quando tudo parece perdido. Ainda que meta os pés pelas mãos em mais de uma situação, ela é persistente em seu objetivo de tornar a vida mais justa para os vermelhos, lutando com unhas e dentes (e eletricidade!) por aquilo que acredita. A vida na corte é perigosa e Mare tenta não ser um joguete nas mãos daqueles que são mais poderosos do que ela, mas a jovem ainda tem muito o que aprender. Outro ponto positivo a respeito de Mare é que ela nunca é apenas a donzela em perigo e, muitas vezes, é a responsável por salvar quem está ao seu redor. Nesse contexto, o triângulo amoroso que se forma entre Mare e os príncipes Cal e Mave soa como mais um tropo que já vimos milhões de vezes em outras histórias, sem nada de novo, e não funciona tão bem assim. Os pretendentes apenas surgem na vida de Mare e os garotos parecem muito apaixonados antes de sequer desenvolverem uma relação de fato.

Ainda que A Rainha Vermelha seja a história de Mare, também é interessante acompanhar o relacionamento entre os irmãos Cal e Mave. Cal — cujo nome de batismo é Tiberias Calore VII — é o próximo na linha de sucessão e será rei um dia; ele é leal aos seus ideais, corajoso e um soldado experiente, fazendo com que ele leve seus deveres muito a sério, colocando sua fidelidade ao Reino de Norta acima de qualquer coisa. Cal é sempre descrito como o perfeito herdeiro do reino, comprometido com suas obrigações, enquanto Mave, seu irmão mais novo e filho do segundo casamento do rei, está sempre às sombras do mais velho, tímido e reservado. O relacionamento entre Cal e Mave, um tão adequado e perfeito, o outro quieto e até mesmo um pouco sombrio, reflete para Mare o próprio relacionamento entre ela e a irmã, Gisa — enquanto Gisa é dedicada e delicada, costurando lindas peças de seda, Mare tem um temperamento explosivo e, até onde sabe, não sabe fazer nada direito além de roubar. A maneira como esses irmãos são tratados — Cal e Mave, Mare e Gisa — refletirá de formas diferentes nas ações que decidirão os rumos de um reino inteiro.

“Nos contos de fadas, a garota pobre sorri ao se tornar princesa. No momento, não sei se voltarei a sorrir algum dia.”

O contexto político em que Mare vive também é outro ponto importante da trama de A Rainha Vermelha: por ser um vermelha com poderes prateados, a garota torna-se um impasse nas mãos do rei e da rainha de Norta. Mostrá-la ao mundo como uma vermelha com poderes pode ser a ruína de seu modo de vida, então a solução encontrada pela Rainha Elara é escondê-la à vista de todos, fazendo com que Mare se passe por uma nobre prateada desaparecida na guerra e que, depois de muitos anos escondida entre os vermelhos, retorna para recuperar seu lugar de direito na corte. Dessa maneira, a Rainha Elara pretende manobrar Mare para benefício próprio, mas a menininha elétrica — apelido que recebe por conta de seus poderes — não se deixará conduzir tão facilmente. Ninguém é o que parece ser em A Rainha Vermelha, mas um leitor atento vai descobrir as verdadeiras lealdades dos personagens facilmente — o que não desabona a escrita de Aveyard, muito pelo contrário, visto que a autora consegue prender nossa atenção em sua trama mesmo utilizando de um sem número de clichês no momento de construí-la.

É nesse contexto que Mare decide ingressar na Guarda Escarlate, o grupo de rebeldes que pretende colocar um ponto final na hegemonia prateada, mesmo que isso custe suas próprias vidas. Usando de seu lugar privilegiado — ainda que forjado — na corte de Norta, Mare dá início ao seu próprio ato de rebelião, o que mudará sua vida, e a de todos que a conhecem, de maneira definitiva. O primeiro livro da série consegue situar seu leitor em um universo interessante de acompanhar, com personagens verossímeis e uma trama empolgante — ainda que tenha “referências” de outras séries young adult e não consiga realmente inovar no gênero. Victora Aveyard encerra o primeiro livro de sua saga com um cliffhanger que te deixará curiosa pra continuar a leitura, imaginando o que poderá acontecer com Mare, Cal e companhia. A Rainha Vermelha foi publicado no Brasil pela primeira vez em 2015 e esse ano retorna às prateleiras das livrarias em uma belíssima edição limitada de colecionador. Com capa dura na cor vermelha, ilustrações no miolo e um arquivo especial a respeito dos membros Guarda Escarlate, a Seguinte brinda aos fãs de Mare Barrow com uma edição preciosa.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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