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On the Rocks: conflito geracionais e Sofia Coppola de volta às origens

A frase “de volta às origens” na maioria dos contextos é um clichê. Quando falamos que um artista retornou ao seu lugar de início isso nem sempre significa algo positivo, afinal mudar, evoluir e crescer é o natural em todos os processos da vida e, portanto, é também comum na arte. Diretores, músicos, roteiristas e até mesmo atores e atrizes estão constantemente achando novas maneiras de usar sua voz e transmitir seu talento ao mundo. No caso de Sofia Coppola, a terceira mulher a receber uma indicação ao prêmio de Melhor Direção no Oscar, é possível perceber, ao analisar sua filmografia, que existe um momento de ruptura com suas obras anteriores com, por exemplo, o recente O Estranho que Nós Amamos. Se anteriormente as películas da cineasta eram recheadas de pequenas momentos sutis de humor e interações humanas, esse, por sua vez, é um longa mais dramático, permeado não só por um pano de fundo complicado (a Guerra Civil Estadunidense), mas também por mistérios, manipulação e até mesmo um pouco de tensão sexual. É algo completamente diferente do que vemos em seu trabalho mais recente, On the Rocks.  

Apesar das turbulências recentes, Coppola sempre amarra seus filmes com um ar contemporâneo e, até mesmo quando conta a história de Maria Antonieta, uma das figuras históricas mais importantes e marcantes da França, usa e abusa de anacronismos de figurino e ambientação, que funcionam e batem perfeitamente com o humor presente no roteiro e a proposta da obra em si. Essa última característica humorística, inclusive, aparece em várias das suas obras. Bling Ring (2013), Encontros e Desencontros (2003) e até mesmo em Um Lugar Qualquer (2010). Já com Virgens Suicidas, o seu longa de estreia como diretora, lançado em 1999, é possível traçar um paralelo direto com O Estranho que Nós Amamos. Apesar das duas histórias não terem muita coisa em comum, existe um quê misterioso que envolve ambas. Mesmo com os anos que separam uma produção da outra, Coppola amadureceu e explorou tramas diferentes entre si, mantendo um aspecto importante: o estilo. Mesmo que, por vezes, fosse difícil encontrar substância no conjunto geral das obras.

On the Rocks representa uma mistura de tudo aquilo que há de bom (e ruim) na cinematografia de Sofia Coppola. É ao mesmo tempo um filme estiloso e despretensioso, que reforça a interação entre os atores, mas também está constantemente lutando uma batalha silenciosa consigo mesmo. É difícil perceber que tipo de história o longa quer contar logo no início. É uma história sobre problemas conjugais? Sobre a pressão de ser uma mulher e ser a única responsável por cuidar dos filhos enquanto o marido viaja a trabalho constantemente? Ou é apenas sobre o relacionamento entre pai e filha, o conflito geracional gerado pela forma como tratam dos mesmos assuntos de formas diferentes, inclusive questões sobre gênero e ser mulher em um mundo moderno? É difícil perceber no começo, justamente porque existem muitas sequências que parecem explanar essas dúvidas.

Atenção: o texto contém spoilers!

A história do longa começa com Laura (Rashida Jones), uma escritora que está com dificuldade para terminar seu livro mais recente, desconfiando que seu marido está tendo um caso extraconjugal. Quando compartilha seu medo com o pai, Felix (Bill Murray), por sua vez um vendedor de obras de arte, os dois partem em busca de provas para comprovar a teoria inicial de Laura, e acabar com os seus receios — ou provar que eles têm fundamento.

Com um pouco mais de 1h30 de duração, On the Rocks começa com cenas que retratam a vida calma, suburbana e quase monótona de Laura. Ela leva os filhos para a escola sozinha e assume todas as responsabilidades para si, aguentando os problemas que surgem com uma jornada dupla — já que ela também trabalha e tem que cumprir prazos para entregar seus livros, ao mesmo tempo que cuida das crianças. O marido não é uma figura onipresente na sua vida, ou nas dos filhos, e é a partir deste ponto (somado ao fato de que ela encontra uma nécessaire feminina na mala do parceiro) é que nascem os questionamentos sobre sua fidelidade. Essa parte da obra, que aborda o dia a dia de Laura, é quase cética e cínica, algo retratado pela postura de Laura e na forma como ela vê o mundo, ou as pessoas ao seu redor. Já quando ela está com seu pai, as coisas são completamente diferentes.

Quando estão juntos, pai e filha andam por Nova York de forma despretensiosa, passando por bares e restaurantes chiques e sofisticados. Quando estão só os dois, o mundo do longa é quase lírico, fantasioso, onde só existem Laura e Felix, algo que é facilmente perpetuado pela ótima química que os dois atores principais carregam. Durante suas saídas, eles conversam sobre a vida e, principalmente, sobre o relacionamento de Laura. O pai oferece uma perspectiva confortável para a filha, que aceita suas investidas para abrir uma investigação de forma quase inconsciente (ainda que fique claro, mais adiante, que nada é o que realmente parece). Felix é o tipo de figurão sociável, que consegue praticamente tudo o que quer na vida. Ele não só tem dinheiro e vive de forma luxuosa em uma grande e cara cidade como Nova York, como é adorado por aqueles que o cercam. Esse é um ponto referenciado, inclusive, por uma cena em que ambos são parados por dois policiais e ele consegue evitar uma multa apenas falando com um deles e usando sua face mais simpática, um retrato perfeito do privilégio de ser alguém branco e com dinheiro em uma grande metrópole. Sua filha, no entanto, assiste tudo do fundo com certa descrença no olhar — ainda que isso, como a maioria dos temas complicados do longa, não seja abordado de uma forma completamente satisfatória.

Quando a conversa não é pautada pelo casamento de Laura e a possível traição de seu marido, elas são uma mistura de monólogos do pai sobre suas experiências com arte, viagens, comidas e bebidas. Laura escuta tudo com a maior das atenções, ocasionalmente oferecendo um ponto de vista ou outro e acatando as dicas sem maiores questionamentos. Eventualmente, Felix usa do seu charme para elogiar uma garçonete e flertar, o que dispara uma conversa sobre gênero e a forma como mulheres foram, e ainda são, tratadas como uma espécie de propriedade dos homens. A misoginia de Felix, algo tão natural e impregnado na sua personalidade quanto o charme que poupa-o de vários problemas, é algo que a filha reconhece não só pela forma como ele trata as mulheres ao seu redor, incluindo ela mesma (com aquele toque de condescendência), mas também pelo fato de que, durante a infância de Laura, ele deixou a família para ir viver com uma das suas amantes, algo que ele atribui a sua necessidade de ser amado e ser sempre o centro das atenções, característica também reforçada pela forma que ele age no filme.

On the Rocks

Assim, mesmo que o roteiro levante várias questões pertinentes e não chegue a tratar de forma completamente satisfatória de todos eles, fica claro que a grande questão é o conflito geracional que existe entre Laura e Felix e que, consequentemente, envolve assuntos e pautas como o machismo. Como, por exemplo, a traição de Felix afetou a forma como Laura vê o seu casamento hoje? Como a forma que ele trata as mulheres em geral influenciou a forma como Laura recebe e dá afeto? Como, talvez, ela tenha escolhido seu parceiro? Todos esses questionamentos estão embutidos na narrativa de forma leve e quase inconsciente, criando um filme onde os personagens tem que dar vários passos para trás para finalmente poder dar um passo definitivo para frente, se redescobrir.

Dificilmente alguém terminaria de assistir On the Rocks com a sensação de ter visto algo arrebatador — e essa claramente não é a intenção de Sofia Coppola. Depois de considerar a forma como o relacionamento entre Laura e seu pai fora retratado na tela, é possível chegar a conclusão que o filme é, como apontado antes, sobre se reconectar com seus sentimentos. Ao longo de sua jornada, os dois protagonistas têm que falar sobre questões que moldaram suas vidas de formas definitivas e continuam fazendo isso até hoje. Os traumas geracionais que são o pontapé para tantos problemas que existem para eles, não só como pai e filha, mas também individualmente, são usados como catalisadores para a narrativa, ainda que isso não esteja evidente desde o começo. É por isso que o longa foi tão prazeroso de se acompanhar neste momento. Apesar dos vários problemas aparentes, o momento em que estamos vivendo no mundo é de introspecção e a falta de contato humano é palpável e, francamente, até um pouco desesperadora. Mas On the Rocks lembra que são as interações humanas, por mais falhas e problemáticas, que valem a pena — e no final do dia, moldam suas experiências.

É por esse motivo também que a sensação geral é de que Coppola voltou às origens; apesar de ter um estilo constante e sempre ser possível traçar um paralelo entre suas obras, não importa a época em que foram lançadas, On the Rocks lembra um pouco de sua melhor época, com Encontros e Desencontros. Esse com certeza não é necessariamente maior ou melhor grande sucesso da carreira de Coppola, que na época levou o Oscar de melhor filme e roteiro, mas carrega a mistura familiar comum na cinematografia da diretora, envolto em uma comédia direta e cosmopolita. Ao contrário de O Estranho que Nós Amamos, que existe em uma realidade distante, On the Rocks resgata o toque pessoal que conecta as experiências de Coppola a suas obras, ainda que de forma mais superficial do que no passado.

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1 comentário

  1. Eu assisti a esse filme inclusive por indicação de um post do blog e gostei bastante, um filme leve com pitadas de humor era o que eu queria em um final de ano como foi 2020. Mas eu fiquei muito incomodada com uma coisa em particular: (SPOILER ALERT)

    Quando a Laura tem aquela DR final com o marido, a discussão fica muito centrada em ela estar desconfiada dele e de ele estar, na verdade, trabalhando muito para ser bom o suficiente. Em nenhum momento Laura levanta a questão de estar sobrecarregada, de ficar muito tempo sozinha cuidando da casa, das filhas e ainda escrevendo um livro. Não fiquei com a impressão de que o marido dela fosse, sei lá, repensar esse ritmo de trabalho, priorizar passar mais tempo com a família e dividir de forma igualitária as tarefas com a sua esposa. Parece que, no final, tudo se resumiu a ele não estar traindo, então está tudo bem quando, na verdade, eu acho que não está nada bem seu marido ficar trabalhando e viajando loucamente enquanto vc tem que cuidar de todo o resto sozinha.

    Enfim, agradeço a indicação do filme e queria deixar registrado que, em uma era tão Youtube, é um prazer ainda poder contar com um blog como o de vocês, sempre venho aqui atrás de indicações e críticas de coisas que assisti 🙂