Categorias: CINEMA, LITERATURA

O Baile das Loucas e a histeria feminina no século XIX

É uma história antiga, porém familiar: uma mulher que não se enquadra nos paradigmas estabelecidos socialmente e escapa aos parâmetros do que é entendido coletivamente sobre o que é ser mulher, é diagnosticada como bruxa, alienada, histórica, promíscua, em resumo, louca. Essa trama cruel, porém palpável, é o foco de O Baile das Loucas (2021), drama de época lançado no Festival Internacional de Cinema de Toronto e disponível na Amazon Prime Video.

A obra é dirigida e co-escrita por Mélanie Laurent, que também atua no filme e ficou conhecida pelo grande público por ter interpretado a personagem Shosanna, em Bastardos Inglórios (2009), de Quentin Tarantino. Essa não é a primeira vez da atriz na cadeira de direção, tendo o seu primeiro curta, De Moins en Moins (2008), indicado na categoria de Melhor Curta-Metragem no 61º Festival Anual de Cinema de Cannes. Laurent também dirigiu longas metragens e co-dirigiu o documentário Tomorrow, vencedor do Prêmio César em 2016.

o baile das loucas

Baseado no livro de mesmo nome, da escritora francesa Victoria Mas e publicado em 2019 — cujo enredo é uma ficção inspirada nas histórias reais de mulheres submetidas a tratamentos psiquiátricos experimentais nas mãos do renomado médico Jean-Martin Charcot, no século XIX —, o filme acompanha a história de Eugénie Cléry (Lou de Laâge), uma jovem de família abastada que se vê enclausurada no famoso hospital Pitié-Salpêtrière à mando do irmão contrariado e do próprio pai, inconformado com o comportamento inadequado da filha que, além de ter um ávido desejo de explorar o mundo e suas possibilidades, diz poder se comunicar com espíritos.

No Pitié-Salpêtrière, Eugénie encontra outras “loucas”, mulheres com diferentes histórias, mas muitas das quais compartilham algo em comum: estão lá em virtude dos homens que supostamente deveriam cuidar delas. Entre essas mulheres conhecemos Thérèse (Martine Schambacher), que foi levada ao hospital depois de ter empurrado seu marido no rio Sena, e a meiga Louise, muito bem interpretada por Lomane de Dietrich, que entrega carisma o suficiente para que a audiência se encante pela personagem em seus primeiros minutos em cena. Com muita doçura e uma inocência desconcertante, Louise conta à protagonista sobre o motivo que a fez ser internada  no hospital, em uma das muitas cenas incômodas presentes no filme.

Independente do estado mental das mulheres, todas são consideradas histéricas — diagnóstico comum no século XIX a mulheres consideradas desobedientes — e tratadas como experimentos e instrumentos do Dr. Charcot (Grégoire Bonnet), que as exibe para outros senhores a fim de demonstrar seus “avanços” na área médica. A cena em que o médico usa de hipnose em Louise na presença de uma plateia revela a misoginia presente na ciência e na medicina em geral e a imagem da mulher como objeto de satisfação masculina. Não é preciso possuir qualquer conhecimento em medicina para compreender que as mulheres estão presas no Pitié-Salpêtrière apenas para salvar a reputação de suas famílias ou como forma de punição de seus algozes.

o baile das louca

A tábua de salvação de Eugénie é Geneviève Gleizes (Mélanie Laurent), enfermeira-chefe do hospital, instigada a questionar a ética do seu local de trabalho e que vê o “poder” da nova paciente de se comunicar com os mortos como uma chance de lidar com uma grande perda. É a partir desse encontro que Eugénie elabora seu plano de fuga, a ser concretizado no baile anual do Pitié-Salpêtrière, acontecimento que dá título à obra. O baile é também um raro momento de esperança para as pacientes de deixar o hospital. Baseado em um evento real, o baile recebia figurões da alta sociedade francesa, convidados a observar de perto as pacientes da clínica, numa mimetização carnavalesca e bizarra de zoológico que escancara a forma desumanizada com que aquelas mulheres eram tratadas.

Lou de Laâge entrega uma Eugénie sensível e firme em suas convicções, resistindo à crueldade de seus agressores, incluindo a fria enfermeira Jeanne (Emmanuelle Bercot), que nos lembra como mulheres podem também ser cúmplices dos abusos do patriarcado e tão cruéis quanto aos homens. É também na protagonista que está a maior inventividade da narrativa. A mediunidade que a personagem alega possuir colide com a racionalidade dos espectadores do século XXI — quem em sã consciência acreditaria em alguém que diz ver fantasmas? —, tornando essa uma deliciosa contradição que não impede o filme de Mélanie Laurent de mover com elegância a audiência em direção à encarar os verdadeiros loucos da trama.

Com o foco em Eugénie e Geneviève, O Baile das Loucas não encontra espaço para aprofundar outras personagens que parecem igualmente interessantes, como Thérèse, que parece ter encontrado no Pitié-Salpêtrière um refúgio, uma forma de se isolar da misoginia do mundo lá fora.  E ainda que também possa parecer superficial em alguns momentos, o filme apresenta uma narrativa envolvente e habilidosa em martelar diversos questionamentos no público. As mulheres estão mais seguras dentro ou fora do Pitié-Salpêtrière, as enfermeiras são tão ruins quanto os médicos do hospital? Elas são tão diferente das pacientes? O baile anual é tão degradante ainda que seja a única oportunidade para as mulheres se livrarem dos dias marcados por tratamentos que mais se assemelham a sessões de tortura?

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