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Love Life: como fazer comédias românticas em 2020?

É uma verdade universalmente conhecida que uma mulher só vai ser feliz de verdade quando se casar. Esse é um dos mitos que a sociedade reforça o tempo todo: a ideia de que o casamento e a maternidade são as chaves para uma mulher começar a viver e ser amada de verdade. É também no que acredita Darby, protagonista da série Love Life, que estreou em maio no serviço de streaming norte-americano HBO Max. Trata-se de uma antologia na qual cada temporada acompanhará a busca de um personagem diferente pela “pessoa certa”.

A primeira temporada é centrada em Darby (vivida por Anna Kendrick, que também produz a série), uma jovem que, como tantas outras, se mudou para Nova York depois da faculdade. Não fica claro se é para ir em busca de uma carreira que, no início da temporada, ela não sabe qual é, ou por alguma outra aspiração. A verdade é que a série não dá ao espectador uma noção aprofundada de quem a personagem é. E toda vez que tenta ir nessa direção, acaba recuando.

Cada episódio de Love Life se passa em um momento diferente da vida de Darby, focando em pessoas com as quais ela se relacionou. Esse formato é um dos aspectos que mais favorece a série, incitando uma curiosidade: quem será a tal da pessoa certa? Aquele cara de quem ela realmente gostava, mas com quem ficou por pouco tempo? O garoto de quem gostava na adolescência? Um estranho que ainda não conheceu? A narração da veterana Lesley Manville guia os episódios, porém dá pouquíssimas pistas.

Assistir à série é um pouco como refletir sobre o próprio passado: como seria reencontrar alguém depois de muito tempo, se distanciar de outro que já foi muito querido, seguir em frente mesmo nos tempos mais difíceis. A vida tende a ser cíclica e não linear. É preciso um esforço enorme para quebrar um ciclo, seja ele comportamental ou geracional, e começar de novo. Darby acredita que não merece ser amada. O divórcio dos pais e a infância dividida entre os dois, junto com outros acontecimentos, faz com que ela cometa e insista nos mesmos erros várias vezes. Sua busca desesperada pelo amor do outro não permite que reflita sobre si mesma.

Cena da série Love Life

No livro Eu Amo Dick, recentemente publicado no Brasil pela editora Todavia e adaptado em série para o serviço de streaming da Amazon, a escritora e cineasta Chris Kraus compartilha cartas que escreveu para um homem que mal conhece, mas por quem rapidamente fica obcecada. Na época do ocorrido, nos anos 1990, Chris tentava, sem sucesso, terminar um filme e acompanhava o marido, uma figura influente do meio acadêmico, em eventos e diferentes cidades. Ao se encantar por Dick, começa a escrever diversos textos com reflexões profundas sobre a vida, religião, arte e outros temas que considera importantes. Com o tempo, a autora acaba descobrindo que, apesar do título, o livro nunca foi sobre Dick.

Assim como em Eu Amo Dick, os raros momentos em que Darby se permite descobrir algo sobre ela mesma são os mais interessantes de Love Life. O quinto episódio da temporada, por exemplo, traz à tona acontecimentos do passado que dão mais dimensão à personagem e a forma como encara relacionamentos. Esse capítulo escancara o fato de que todos os detalhes que a narrativa expôs sobre ela até então são bem vagos. Infelizmente, o episódio seguinte ressalta que a superficialidade será mantida até o final. O mundo mudou bastante ao longo da última década e isso vem se refletindo nas telas. Aos poucos, Hollywood vai descobrindo que existem muitos tipos de mulheres que podem ser diversas coisas de uma vez só. Se, num primeiro momento, essas complexidades apareceram num boom de thrillers como Garota Exemplar (2014) e Jessica Jones (2015), chegou a hora de aplicá-las nas comédias românticas.

Mas como reinventar esse gênero que, até então, tinha como base a busca pelo amor romântico, muitas vezes com noções bem distorcidas de feminilidade e relacionamentos? Em Ela é Demais (1999), por exemplo, a jovem Laney Boggs (Rachael Leigh Cook) é introvertida e tem como foco a família e a própria arte. Mas isso não é o suficiente: para ser reconhecida como uma pessoa que faz parte do mundo, ela precisa passar por uma transformação física. O mesmo acontece com Gracie Hart (Sandra Bullock) em Miss Simpatia (2000): ela é uma agente dedicada do FBI, mas é só quando faz uma escova e começa a usar vestidos justos para se passar por Miss que começa a ser vista por seus colegas. Já no filme Doce Lar (2003), a estilista Melanie Carmichael (Reese Witherspoon) volta para a cidade onde cresceu para pedir que o ex-marido assine o divórcio dos dois. Tanto ele quanto a família e amigos da protagonista fazem com que ela se sinta mal pela pessoa que se tornou. Em uma comédia romântica dos anos 1990 e 2000, a mulher precisa mudar, e não por si mesma, mas pelos outros. Ela nunca é o suficiente. Sem contar, é claro, que em todos esse exemplos, como na maioria dos filmes do gênero na época, as personagens principais são mulheres brancas, cis e heterossexuais.

Cena da série Love Life

Em entrevista ao Independent, Diane Negra, professora de estudos de cinema e cultura nas telas da University College Dublin, na Irlanda, comenta que o vacilo das comédias românticas nos últimos 20 anos coincide com o declínio da confiança social. “Por muito tempo tivemos a noção de que um casal era o ideal social, e que a união de casais representava a ideia de positividade”, explica. “Acredito que ultrapassamos isso.”

Nos últimos anos, algumas produções têm tentado sair desses moldes, com premissas e representações mais diversas de mulheres. Frances Ha (2012) explora a relação da dançarina Frances (Greta Gerwig) com sua melhor amiga e consigo mesma, Entre Risos e Lágrimas (2014) conta a história de uma comediante (Jenny Slate) que começa a gostar de um cara com quem saiu, mas que não sabe como lidar com o fato de que engravidou dele e decidiu fazer um aborto, e Casal Improvável (2019) mostra o relacionamento entre uma política bem-sucedida (Charlize Theron) com um conhecido de infância (Seth Rogen).

As séries Crazy Ex-Girlfriend (2015) e Eu Nunca… (2020), inclusive, brincam com os estereótipos ultrapassados das comédias românticas: Rebecca (Rachel Bloom) e Devi (Maitreyi Ramakrishnan) são inteligentes, têm defeitos (que não incluem “ser atrapalhada” ou “diferente das outras garotas”), traumas e encaram o fato de que a realidade é bem diferente das expectativas de romance e felicidade que criaram assistindo filmes de Julia Roberts. São mulheres que têm suas próprias aspirações e jornadas pessoais, e cujas transformações não são uma condição para serem aceitas pelas pessoas em suas vidas. Love Life flerta com essa ideia, mas não se compromete com ela. Anna Kendrick traz muito carisma para a versão mais jovem de Darby e segura bem os momentos dramáticos que surgem conforme a personagem amadurece. Ainda assim, parece haver um vazio ali. Fica a impressão de que há mais substância em Claudia (Hope Davis) e Sara (Zoë Chang), mãe e melhor amiga da protagonista, e suas respectivas jornadas, do que na própria Darby. Ambas são cheias da energia que a série precisa e acaba deixando de lado.

A primeira temporada da produção é mais convencional do que a própria acredita ser: a história de Darby é bem comum — algumas críticas especializadas questionam se não foi proposital, já que Love Life é a primeira série original da HBO Max, e foi um grande sucesso de público —, o elenco tem um pouco de diversidade, mas apenas de forma superficial (a única mulher negra do elenco vive uma personagem genérica que não ganha importância na narrativa) e tem um final um tanto frustrante. Faria sentido no começo da década 2010. Mas estamos em 2020.

Isabela Moreira é jornalista freelancer e social media. Ela escreve sobre cultura pop e comportamento em sua newsletter, cuida das redes do podcast A Terra é redonda, da revista piauí, e apresentou o podcast Westworld, da HBO.

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