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Frances Ha: a jornada real de uma mulher que não segue padrões

É inegável que Greta Gerwig é uma das grandes vozes femininas do cinema atual. Em 2018, ela foi agraciada com uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Direção pelo filme Lady Bird: A Hora de Voar e, graças a esse feito, entrou para o seleto grupos de mulheres indicadas na categoria — apenas cinco, até hoje. Se saber disso não é o bastante para fazer com que qualquer pessoas assista seu outro trabalho mais famoso, o qual também estrela, Frances Ha, saber que a história do filme foi escrita em parceria com Noah Baumbach pode aguçar sua curiosidade.

Frances Ha é um filme para pessoas perdidas no mundo, um filme sobre — e para — mulheres que lutam para conquistar o seu espaço, realizar sonhos e encontrar a felicidade, mesmo que sozinhas. Com um estilo que muito se assemelha aos filmes da nouvelle vague, Frances Ha traz o nostálgico preto e branco de volta às telas, e nos apresenta uma protagonista tão marcante que é impossível não se identificar com ela ou não querer dançar com ela, ou só rir a noite toda enquanto a observamos fumar um cigarro. A história trata sobre a vida de Frances, uma jovem que veio de Sacramento – não coincidentemente, o mesmo lugar em que Greta nasceu — para tentar a vida em Nova York, onde almeja realizar o sonho de se tornar uma grande dançarina. Embora possua uma narrativa aparentemente simples, o filme ganha proporção com sua sensibilidade e estética. Não se trata apenas de uma pessoa tentando obter sucesso; trata-se de uma mulher que busca, sozinha, ganhar reconhecimento.

Li em algum lugar que somos o gênero “massinha de modelar”, que a sociedade tenta, incansavelmente, moldar. Não podemos ser simplesmente livres para sermos o que quisermos e, nesse sentido, um fato essencial do filme é a sensibilidade ao tratar a solidão e a pressão que nós, mulheres, sofremos — não importa se em Nova Iorque ou em São Paulo, em algum lugar uma mulher está sendo criticada por não corresponder às expectativas. Frances, em muitos aspectos, rompe com essas expectativas: beirando os 30 anos, ela não tem uma vida inteiramente planejada. Ela nem ao menos tem o seu próprio teto, ou seja, está totalmente fora dos padrões estimados que é ser esposa, mãe e dona de um lar antes dos 30 anos — um padrão tão forte que reflete na imagem da personagem quando ela declara “I’m so embarrassed. I’m not a real person yet.” [“Estou tão envergonhada. Ainda não sou uma pessoa de verdade.”, em tradução livre]. Não aceitando morar com seu namorado e logo mais enfrentando a saída de sua melhor amiga, Sophia (Mickey Sumner) do apartamento que dividiam, ela aprende da forma mais difícil a se virar por conta própria e tentar ser a pessoa real que tanto almeja. Durante todo o filme, as pessoas ao seu redor esperam que Frances arrume um grande amor, que fique com o amigo com quem passa a dividir um apartamento ou descubra-se apaixonada por sua amiga, mas não. Frances Ha não é sobre como a vida de Frances se transforma milagrosamente após encontrar um grande amor, mas como ela foi corajosa o bastante para aceitar que as oportunidades que a vida oferece nem sempre são as que esperamos e que só devemos corresponder às nossas próprias expectativas, nunca a dos outros.

Em algumas passagens é possível enxergar perfeitamente em Frances outra personagem: Holly, interpretada por Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, porque ambas buscam a liberdade e uma certa estabilidade que não tem nada a ver com relacionamentos. Em determinado momento de Bonequinha de Luxo, a personagem diz que não queria nada até encontrar um lugar onde as coisas caminhassem juntas, o que ela não sabia onde era, mas tinha uma ideia de como deveria ser, enfatizando que ninguém pertencia a ninguém porque não somos uma propriedade. A partir disso, é possível enxergar a linha de pensamento de Holly em Frances, principalmente no que ela imagina sobre um relacionamento. De maneira muito sensível, ela acaba fazendo uma crítica singular aos relacionamentos atuais, que se tornam possessivos e solitários, quando deveriam ser baseados na busca por um desejo pessoal, mas que acabam sendo respostas aos padrões socialmente impostos que, na maioria das vezes, só valorizam as mulheres se elas estiverem em um relacionamento com um homem.

Segundo a autora Kirlla Dornelas, em seu artigo “A Solidão Feminina e Suas Delicadas Relações a Partir dos Romances de Clarice Lispector”, a esfera dos sentimentos e relacionamentos é culturalmente considerada feminina. As relações sociais passaram por inúmeras transformações, mas o simbolismo do universo feminino como espaço privilegiado da afetividade e dos relacionamentos ainda se mantém, algo que é possível ser visto no filme quando Frances é apelidada pelo seu amigo como “a inamorável”.

A busca de Frances por se descobrir é heroica: ela vive uma bagunça muito íntima de sentimentos, ao passo que se torna um ser humano autêntico e livre das amarras sociais. Enxergando o mundo de maneira otimista, acreditando até o fim que em algum momento as coisas vão acontecer do jeito que ela sonha. Em um rumo totalmente inimaginável, Frances viaja sozinha para Paris, ou então vê a si mesma, aos 30 anos, sem saber ao certo onde vai dormir, ao ponto em que, em determinado momento, acaba voltando para sua antiga faculdade só para perceber que, de fato, ela não é tão velha assim, e que não faz muito tempo era ela quem estava nos corredores fazendo planos para quando tivesse a idade que tem agora.

Frances é despretensiosa; ela não está tentando descobrir a si mesma porque ela já sabe quem é, já sabe o que quer, mas ainda é inquieta com a vida e que bom que ela é assim. Ela não se acomodou em um relacionamento morno só porque deveria seguir o padrão — casar, ter filhos — e embora trave uma jornada sozinha, ao ver suas amizades mudarem e passarem a corresponder às expectativas da sociedade, ela simplesmente faz o que acredita ser o certo: “Sometimes it’s good to do what you’re supposed to when you’re supposed to do it” [Às vezes é bom fazer o que é esperado que você faça quando é esperado que você o faça”, em tradução livre]. Não tem como não ser tocada pela cena em que Frances rodopia pelas ruas de Nova Iorque ao som de “Modern Love”, de David Bowie — e nesse momento podemos enxergar claramente uma mulher feliz em sua própria pele, ainda sozinha. Frances sempre quis mais do que todos desde o início: ela deseja ser uma mulher com liberdade suficiente para se reinventar e sonhar, e o fato de ser uma inamorável não é realmente importante.

Frances Ha é um filme que eu não definiria ser sobre uma amizade. Defino este filme como uma jornada incansável de uma mulher solitária em busca de amadurecimento e realização pessoal. Não é um filme sobre uma mulher perdida que se encontrou por causa de homem, muito menos. Frances Ha é um filme sobre uma mulher em seus quase 30 anos que ainda dança no meio da rua, dorme de meias e não está ali para corresponder a pressão social alguma, mas sim para arriscar e aprender, e que embora tenha medo da solidão, não desistiu de seus sonhos e continuou provando, de novo e de novo, que de um jeito ou outro ela receberia o seu reconhecimento — não necessariamente como desejava quando mais jovem, mas se adaptando às condições que surgiram em seu caminho e que são transformados em novos sonhos. Ha não é o sobrenome real de Frances, mas ao final do filme, percebemos que a mulher dos primeiros minutos finalmente se tornou a mulher do filme, que encaixa a si mesma em suas próprias expectativas, tornando-se aquela que dá título ao filme: Frances Ha.

Natali Carvalho tem 19 anos, é extremamente ansiosa, ainda anda meio perdida na vida. Com um acúmulo de sonhos misturados com tintas e fotografias, não para de tentar ser sua melhor versão. Instagram | Twitter

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2 comentários

  1. Eu amo esse filme desde a primeira vez que assisti, chorando no cinema! Como não se ver nessa moça? Eu amei o artigo sobre o filme. Parabéns! <3