Categorias: LITERATURA

Bolo Preto e a comida como guardiã de memórias e segredos

“Não escolhemos o que herdamos, mas podemos escolher quem nos tornamos”. Assim Bolo Preto dá a pista, logo na orelha da capa, de que a leitura a seguir é uma viagem a um passado desconhecido dos protagonistas. O livro de estreia de Charmaine Wilkerson acompanha os irmãos Byron e Benny descobrindo que a vida da mãe foi bem diferente da que lhes foi contada. Uma trajetória marcada pela violência e pela omissão de quem deveria cuidar dela, mas transformada pela vontade de sobreviver.

Atenção: este texto contém spoilers!

Os irmãos Byron e Benny Bennet se distanciaram ainda no início da vida adulta por conta de divergências que concordam em se reunir para ouvir juntos uma gravação deixada pela mãe que acabara de morrer. Eleanor Bennet guarda uma série de segredos que vão desde sua origem até seu verdadeiro nome e decide passar esse passado a limpo com os filhos, ainda que sua presença física não exista mais.

Além de uma gravação de oito horas, ela deixa para eles um bolo preto congelado na geladeira, acompanhado de um bilhete:

“B e B, tem um bolinho preto no freezer pra vocês. Quero que vocês se sentem juntos e dividam o bolo quando chegar a hora certa. Vocês saberão quando.”

Antes de ouvirem o relato, B e B (modo carinhoso de Eleanor se referir aos filhos) achavam que conheciam a própria origem. Acreditavam ser filhos de imigrantes órfãos vindos do Caribe, e que, por conta disso, não tinham contato com outros familiares. No entanto, a gravação apresenta uma série de acontecimentos que vão escalonando em termos de sofrimento para a mãe.

bolo preto

Eleanor é, na verdade, Coventina “Covey” Lyncook, filha de uma mulher negra e um homem chinês, cujo principal interesse na juventude era a natação. Ela e a melhor amiga dividiam o tempo livre entre o mar e os planos de irem embora da ilha onde viviam, no Caribe. Covey queria escapar do lugar e do pai e estudar em Londres com o namorado, Gibbs Grant.

Anos antes, a própria mãe de Covey havia deixado a família e ela foi criada apenas pelo pai, um comerciante viciado em jogos. É justamente a compulsão de Lin que interrompe drasticamente os sonhos da jovem Eleanor/Covey.

Covey foi prometida em casamento a um agiota e assassino em troca do perdão das dívidas de jogo do pai. Quando “Homenzinho”, como é conhecido, morre envenenado no dia da cerimônia, ela então se vê obrigada a fugir para não ser acusada pelo crime, ao mesmo tempo em que tem ali a única oportunidade de retomar o controle da própria vida. O que ainda demoraria muito a acontecer.

Simbolismos

Bolo Preto alterna presente (2018) e passado (1960) em capítulos curtos e dinâmicos, o que imprime velocidade aos acontecimentos. O quebra-cabeças sobre quem foi Covey e quando e como ela se tornou Eleanor vai sendo montando por quem lê conforme a história é apresentada aos irmãos.

A sobremesa que dá título ao livro é muito emblemática na narrativa, pois ela faz um paralelo direto com a construção da família Bennet. A criação do bolo preto remete às ilhas do Caribe, onde Eleanor nasceu, e conta com influências de outros países. Ela é resultado de uma herança cultural tão variada que a própria origem do bolo é questionada por um dos personagens do livro.

“A cana-de-açúcar nem se originou naquela parte do mundo. Chegou da África, que por sua vez a trouxe da Ásia. Então, me diga, de quem é o bolo?”

Por uma questão de segurança, Eleanor passou anos sem poder dizer aos outros quem realmente era. Não contou sequer para os filhos, assombrada com a possibilidade de ainda ser caçada pelos familiares do “Homenzinho” ou ser encontrada por outros de seus fantasmas. É na comida que ela mantém seu vínculo mais intacto com a versão de si mesma que teve que abrir mão. “Esta é a única coisa que me restava quando perdi minha família”, ela diz a Benny quando lhe ensina a receita que memorizou ainda criança.

Em Bolo Preto, Wilkerson dedica todo o espaço ao drama familiar. Se concentra em contar a história de Eleanor, mesmo que isso deixe de lado temas que poderiam ser aprofundados e poderiam enriquecer a narrativa (como a sexualidade de Benny e a influência do racismo na vida de Byron). De qualquer forma, o uso da comida e do preparo do alimento como sinônimo de conexão afetiva cria uma identificação instantânea com a leitura. Um ponto a mais a favor da obra, prevista para ser adaptada como série, com produção de Oprah Winfrey — o que, por si só, já é um indicativo positivo.

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Companhia das Letras.


*O título desta resenha foi inspirado por uma declaração de Conceição Oliveira, primeira mulher negra a presidir a associação Slow Food Brasil.

** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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