Categorias: CINEMA

#52FilmsByWomen: um pequeno guia para consumir produções feitas por mulheres

Já parou para pensar sobre a importância de consumir mais produções culturais feita por mulheres? Quantos filmes dirigidos por mulheres você vê durante um ano? Quantos você tem acesso no cinema? Quantas diretoras você conhece? A campanha #52FilmsByWomen, da organização Women in Film and Television, como um reflexo da preocupação com o sexismo que a indústria cimatográfica vivencia, visa promover o apoio ao trabalho de diretoras mulheres de todo o mundo, fazendo com que, pelo menos, um filme dirigido por uma mulher seja assistido durante cada semana de seu ano.

O projeto tem como pressuposto valorizar a produção cinematográfica feminina e subverter as falsas ideias de que mulheres não possuem lugar no cinema, valorizando, também, o que é ser mulher em nossa sociedade. E uma grande plataforma para se começar o projeto #52FilmsByWomen e inserir mais criações de mulheres no seu dia-a-dia é a Netflix.

Por ser um serviço mais acessível, e até mesmo por possuir uma lista de filmes inteirinha só de direções femininas, a empresa é conhecida por dar bastante liberdade para seus criadores, sem interferir muito no desenvolvimento de suas criações e por ser um bom campo para descobrir projetos com diversidade. Poucas plataformas possuem essa preocupação em investir em produções diversas e inclusivas e devemos celebrar, ainda que seja um pequeno passo frente à indústria cinematográfica, como um todo, que ainda tanto dialoga com as opressões estruturais.

Para que você possa iniciar o projeto, aqui estão cinco indicações de obras originais incríveis do streaming dirigidas por mulheres.

Private Life, Tamara Jenkins

#52FilmsByWomen

Private Life, ou Mais Uma Chance como foi traduzido no Brasil, é um filme norte-americano que conta com a direção da Tamara Jenkins, diretora que já recebeu indicação ao Oscar de Melhor Roteiro por A Família Savage. Em Private Life, conhecemos a história de Richard (Paul Giamatti) e Rachel (Kathryn Hahn), um casal que está há vários anos tentando ter filhos, mas sem sucesso.

O casal de escritores tem em torno de 40 anos e já há algum tempo estão se submetendo a tratamentos para conseguir realizar o sonho de serem pais. Além do custo financeiro alto, eles precisam enfrentar os danos psicológicos causados por esse processo desgastante, visto que é permeado com tantas tentativas mal sucedidas. Mesmo com tanto desgaste emocional, a esperança ressurge quando a sobrinha do casal, Sadie Barrett (Kayli Carter), decide morar com eles para mudar de vida e considera a possibilidade de se tornar doadora de óvulos para gravidez da tia. Além dessa oportunidade, Rachel e Richard também estão se habilitando em um processo para a adoção de uma criança, portanto, mais uma chance para realizarem seu sonho.

Acompanhamos, assim, a difícil rotina do casal e também daqueles ao seu redor que fazem de tudo por uma chance de terem um filho, mas também o processo de amadurecimento de Sadie que vai se encontrando enquanto pessoa, formando sua identidade e perspectiva profissional na medida em que vivencia de perto a trajetória dos tios. Diariamente eles passam por ambientes — depressivos e opressivos — das clínicas de fertilidade, o que dá um ar melancólico e complexo à narrativa. Mesmo assim, Tamara Jenkins é capaz de proporcionar interações leves e divertidas que ainda assim carregam todo o peso do processo em que estão se submetendo.

Private Life é um longa afetuoso mas, ao mesmo tempo, devastador: o expectador, desde os primeiros minutos, conecta-se com os personagens principais e sentem suas dores e aflições. Os atores trabalham muito bem e estão ótimos em seus papéis, com uma especial atenção à Kathryn Hahn que está fabulosa, em uma de suas melhores atuações nos últimos tempos. E, para além do drama, há uma veia cômica sempre presente, mesmo que em alguns momentos seja o famoso “rindo de nervoso”. Um filme surpreendentemente profundo e despretensioso, em que Tamara Jenkins, que também roteiriza o filme além de dirigi-lo, faz um trabalho magnífico e que se propõe à desvendar os sentimentos humanos e o relacionamento de um casal que sonha em ter filhos.

13th, Ava Duvernay

#52FilmsByWomen

13ª Emenda é um documentário dirigido pela cineasta Ava DuVernay, já conhecida por seu elogiado trabalho Selma e também por Olhos que Condenam, série original Netflix. 13ª Emenda reflete sobre o processo de criminalização da população negra nos Estados Unidos e o relaciona com o crescimento da população carcerária do país.

Por meio da análise de diversos estudiosos, ativistas e políticos, como a feminista negra e abolicionista penal Angela Davis, a diretora traça uma narrativa que desvela dados impactantes como, por exemplo, o fato de que os Estados Unidos, abrigando apenas 5% da população mundial, conta com 2,3 milhões de pessoas em situação de encarceramento — isso significa que mais de 25% dos presos de todo o mundo estão nos Estados Unidos. Ainda de acordo com 13ª Emenda, e não é difícil imaginar o motivo, a população presidiária apresenta uma cor: 40% dos encarcerados são negros, percentual gritante considerando que estes formam apenas 12% da população total do país.

O título do longa traz uma alusão à Emenda Constitucional dos Estados Unidos que, em 1865 aboliu a escravidão e os trabalhos forçados no país, entretanto argumenta: “salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado”. 13th é um filme doloroso e importante que traz discussões complexas que fala diretamente com a questão da interseccionalidade entre as opressões de gênero, raça e classe e que já tem o conhecido estilo narrativo de Ava DuVernay.

Laerte-se, Lygia Barbosa da Silva e Eliane Brum

#52FilmsByWomen

Laerte-se é um documentário brasileiro que conta a trajetória de vida da conhecida cartunista e chargista Laerte. Vivendo grande parte de sua vida apresentando-se como homem, após três casamentos e três filhos, ela assumiu sua transexualidade aos 57 anos e em Laerte-se compartilha com o espectador como é a jornada pessoal, única e extraordinária sobre ser uma mulher trans em nossa sociedade.

Durante o filme acompanhamos Laerte esmiuçar seu processo de autoaceitação enquanto mulher e o espectador mergulha ao seu lado em seu cotidiano, seus pensamentos e obras. Em Laerte-se vemos uma figura que se entrega completamente e que acaba se redescobrindo, também, ao longo do filme, em meio a toda a sua complexidade e sensibilidade. Laerte-se é um filme única que mostra uma personalidade que não tem medo de questionar a si mesma e se reinventar; por diversas vezes ela respira fundo e se pergunta mesmo sobre questões de gênero e sobre um processo de investigação sobre a mulher que ela pode ser, em suas palavras. Ela carrega em sua vida essa interrogação, que não necessariamente precisa ser preenchida, mas vivenciada.

Laerte-se não é um documentário que pretende te dar dados, respostas, conclusões, mas pretende fazer o espectador se perder em meio à trajetória da quadrinista e ao mesmo tempo se achar, enquanto uma nova pessoa com novas reflexões, e se possível, felizmente, abraçando mais a inclusão e se despindo de preconceitos. Com certeza é um bom filme para os descrentes do cinema nacional.

Para Todos os Garotos que já Amei, Susan Johnson

#52FilmsByWomen

Sucesso estrondoso da Netflix, Para Todos os Garotos que já Amei conta com a direção de Susan Johnson. A diretora assumiu a função para contar a história adaptada do livro homônimo escrito por Jenny Han, onde acompanhamos Lara Jean (Lana Condor), uma adolescente que escreve cartas de amor secretas para todos os seus antigos crushes. Um dia, essas cartas são misteriosamente enviadas para os meninos sobre os quais ela escreve, complicando a sua vida.

O filme — adolescente, leve e divertido — é capaz de apontar a importância da representatividade enquanto elenco e em direção. Para Todos os Garotos que já Amei foi sucesso de público e crítica e demonstra que, sim, filmes dirigidos e protagonizados por mulheres são capazes de ser grandes sucessos comerciais e reavivar um gênero — a comédia romântica adolescente — que estava adormecido nos últimos tempos. Na esteira do sucesso de Para Todos os Garotos que Já Amei a Netflix já produziu, por exemplo, Sierra Burgess é uma Loser e O Date Perfeito, só para citar alguns.

Além de uma narrativa carismática e divertida, Para Todos os Garotos que já Amei tem uma protagonista de origem asiática, algo difícil de encontrar no cinema norte-americano. Apesar das limitações que o gênero possui, o longa é capaz de abordar situações engraçadas e dramáticas na medida certa, trazendo um novo frescor para filmes do tipo. Um bom coming of age no que se propõe e, o melhor de tudo, dirigido por uma mulher.

Hannah Gadsby: Nanette, Madeleine Parry e Jon Olb

Nanette, um espetáculo de stand-up comedy da comediante Hannah Gadsby, é uma performance de teatro escrita e interpretada pela comediante australiana, que estreou em 2017 na plataforma. Mas o que torna essa performance tão diferente e tão importante dos demais trabalhos desse tipo? Hannah propõe-se a fazer quase que uma anti-comédia, subvertendo toda a lógica da comédia feita pelos principais e mais conhecidos nomes do gênero. Sua performance inclui comentários sociais, especialmente voltados para sua vivência enquanto mulher e LGBT.

Fugindo das normas tradicionais de gênero (tanto gênero numa perspectiva da dicotomia social de homem-mulher e também do gênero numa ideia de espécie de apresentação), Gadsby cria um filme que na mesma medida em que faz gargalhar, também faz o expectador se emocionar e se debulhar em lágrimas. Um filme emocionante, completo e diferente. A direção não é mesmo a parte principal do longa, nem se propõe a ser: o protagonismo é diretamente da comediante, mas é relevante ver que tais histórias e narrativas tão representativas e inclusivas sejam contadas por meio das lentes de Madeleine Parry em parceria com Jon Olb.

E como a própria Gadsby diz: “não há nada mais forte que uma mulher destruída que se reconstruiu”.

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