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Minx: Uma Para Elas, uma exploração do feminismo, desejo, sexualidade e prazer

Com a expansão do movimento #MeToo nos Estados Unidos, uma onda de projetos criados por mulheres foram conquistando um espaço na indústria. Ao mesmo tempo que o ramo da televisão vem cedendo esses lugares, em um ritmo desacelerado, a tomada desses lugares encontra diversos obstáculos, o que acaba resultando em um número de obras que refletem o que Hollywood entende como feminismo — uma versão superficial e privilegiada de um movimento que há anos luta pela equidade dos gêneros e o desenvolvimento de oportunidades justas. Minx: Uma Para Elas, uma das novas apostas da HBO Max, vem para mudar um pouco esse cenário de maneira criativa e inovadora. A série criada pela roteirista Ellen Rapoport se passa no contexto do desenvolvimento da luta feminista nos Estados Unidos dos anos 70 e sua primeira temporada arranca risadas da audiência enquanto se coloca em um lugar de seriedade suficiente para ter algo a dizer, sem se esquecer de ser divertida.

Atenção: este texto contém spoilers!

A comédia de 30 minutos conta a história de Joyce Prigger (Ophelia Lovibond), uma ex-aluna da Vassar College, no norte de Nova York, que desde sua adolescência sonhava em lançar uma revista feita por mulheres e para mulheres. Nos seus sonhos mais altos, sua futura revista, The Matriarch Awakens (em português, “O Matriarcado Acorda”) seria formada por diversos artigos densos e complexos sobre o que ela entendia pela teoria feminista e serviria como um marco na cultura. Como uma jornalista em formação na década de 70, ela encontra diversos obstáculos na tentativa de tornar o sonho realidade até ela conhecer Doug Renetti (Jake Johnson), dono da Bottom Dollar Publications, uma empresa que publica revistas pornøgráficas focada em uma audiência de homens heterossexuais, e o único editor que mostra interesse na sua revista. Ele e Joyce embarcam na trajetória de reformular a visão inicial da jornalista e a transformam em Minx — a primeira revista erótica voltada para mulheres, que busca misturar nudez frontal com artigos progressistas.

Minx

O episódio piloto já estabelece as contradições e complementos que estruturam a relação entre Joyce e Doug e desde o princípio a série utiliza o figurino e os cenários como ferramenta na hora de contar essa história — o elemento de maior destaque e mais único da obra. Os terninhos aprumados de Joyce estão em constante embate com as blusas desabotoadas e casacos chamativos de Doug, assim como o ambiente de trabalho inicial de Joyce, uma redação de revista tradicional para meninas adolescentes, não podia ser mais diferente da desordem convidativa dos bastidores da Bottom Dollar. É quase impossível desviar o olhar das diferentes cores e texturas.

A audiência conhece Joyce na fila de abertura do festival de pitch da Southern California Magazine, no qual a protagonista acredita ter a chance de finalmente vender a sua revista e tomar o primeiro passo na sua jornada até o prêmio Pulitzer. A série ousa desenvolver uma protagonista feminina complexa, que no início da história se mostra repleta de defeitos e limitações que, inclusive, entram em contradição com a sua figura progressista. A partir do momento que Joyce se permite aprender com as pessoas à sua volta e entende que o produto final e o impacto que ele vai causar é por vezes mais importante que se manter estritamente apegada à ideia inicial, ela consegue desmembrar seus próprios ideais e privilégios. A jornalista começa a entender que a estruturação da revista só é possível quando ela entender a hora de ceder e a hora de seguir com seus instintos. Começar uma primeira temporada com uma personagem feminina de características tão complexas e de personalidade tão forte diz muito sobre como Minx, como sua protagonista, não tem medo de ser ambiciosa.

Além de ser uma proposta inovadora e atrativa, a série se sustenta em um elenco extremamente talentoso e que soube cultivar uma química que é muito bem traduzida na tela e consegue elevar a obra ainda mais. Ophelia Lovibond (Joyce) e Jake Johnson (Doug) travam uma relação platônica que brinca com o desprezo e julgamento inicial e a admiração e respeito entre os dois personagens, carregando o protagonismo da obra com sua atenção aos detalhes e seu charme, respectivamente. E para além dos dois personagens com mais tempo de tela, os coadjuvantes são os que de fato surpreendem, com destaque para Lennon Parham, que interpreta Shelly, a irmã dona de casa da Joyce que se rebela e assume um papel mais proativo na produção de Minx, e Jessica Lowe, que dá vida a modelo pornô Bambi, que usa dos estereótipos de “loira-bimbo” para suas vantagens.

Minx

Outro elemento que coloca Minx em destaque é a ambientação precisa e tão atenta a detalhes. Com o decorrer dos episódios, a audiência, junto com Joyce, se familiariza com a redação e os bastidores da Bottom Dollar, que serve como um colírio para os olhos de qualquer jornalista. A produção retrata os diferentes estágios da montagem da primeira edição da revista erótica feita para mulheres e se aventura com diferentes ensaios fotográficos e reestruturações do design e do conteúdo que a revista planeja abordar, aproximando a realidade do fazer jornalístico daquela época com a produção nos dias atuais — apesar de conter uma presença de genitálias mais frequente do que o cotidiano do jornalista comum. A série segue a “linha editorial” da HBO e não se limita a explorar a nudez e usá-la como ferramenta na construção da narrativa. Ela vai além e aborda de forma simples e sincera a sexualidade, o desejo e o prazer do ser humano sem ter medo de ser ousada.

Minx faz um bom trabalho em direcionar e desenvolver seus personagens e situá-los na Los Angeles de 1970, mas esse enfoque no grupo acaba deixando a trama em si um pouco de lado e fazendo com que os conflitos se resolvam rápido demais. A série usa da licença poética para explorar cenários sociopolíticos com um olhar mais incisivo, mas muitas vezes não mergulha em questões que demandam uma pegada mais séria para um embasamento necessário — comédias são perfeitamente capazes de tecer comentários sociais e culturais, mas Minx prefere seguir com uma abordagem mais leve e divertida. Apesar desses tropeços, a série ainda consegue se aventurar de maneira ousada com essas temáticas, como por exemplo, trazer para os holofotes personagens que fazem partes de minorias — um homem abertamente gay como fotógrafo e uma mulher negra como secretária principal do editor-chefe e seu braço direito na tomada de decisões editoriais, Richie (Oscar Montoya) e Tina (Idara Victor), respectivamente.

Minx

O último episódio da primeira temporada foi lançado no dia 14 de abril e quase um mês depois a série foi finalmente renovada para uma segunda temporada. Com o crescimento da popularidade da plataforma, torço para que Minx: Uma Para Elas tenha a chance de se desenvolver e crescer com o decorrer das futuras temporadas. Na era do streaming, em que toda série é cancelada rápido demais e não tem tempo de se entender e se expandir, uma obra que se permite ter algo a dizer ao mesmo tempo que consegue te arrancar risadas, merece ter espaço para poder evoluir e conquistar sua audiência. E acredito que as cores, os figurinos e o elenco são charmosos o suficiente para garantir uma jornada segura para essa comédia tão única.

Eduarda Goulart é jornalista em formação, fissurada pelo poder da escrita e apaixonada pelo mundo do entretenimento e por como ele dialoga com o nosso cotidiano. Poderia passar horas falando sobre minhas séries, álbuns e filmes favoritos.

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