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The Letdown: maternar é um “santo” trabalho

A série australiana The Letdown, a Turma do Peito em português, chegou ao Brasil em abril por meio da Netflix, e com sua primeira temporada de apenas sete episódios explora a maternidade e a paternidade de uma maneira reflexiva e cômica, falando com leveza de assuntos bastante delicados.

Se nós, e digo enquanto sociedade, não paramos para refletir sobre a maternidade o quanto seria necessário, devemos dar mais atenção a essa questão ao menos no mês de maio. Já que os impreteríveis holofotes do capitalismo miram-se todos para as mães e todas as marcas possíveis se empenham em produzir milhões de propagandas que nos deixam com os olhos cheios de água na frente da TV, estamos aqui para mirar, também, os holofotes das discussões, que são muito mais importantes que todas as propagandas e todos os presentes.

Não, não estamos aqui para queimar as flores e os cartões, só acreditamos que as conversas e a conscientização sempre são os melhores presentes possíveis. A maternidade, por muito tempo, foi utilizada com uma das principais formas para manter as mulheres no lugar onde elas “deveriam” ficar e costuma ser tratada de forma romantizada por aí, enquanto, na verdade, muitas mulheres estão sobrecarregadas, exaustas, e sendo julgadas a todo momento e por qualquer decisão. Se amamenta, se não amamenta, se faz cama compartilhada, se não faz, se deixa chorar, se não deixa. The Letdown parece ter chegado para colocar esses assuntos em pauta e, embora não tenha atingido todo o seu potencial, deixa brecha para que esperemos mais na próxima temporada.

A protagonista da série é Audrey (Alison Bell), mãe de primeira viagem que está sempre descabelada e com olheiras até o pé. Sua neném não dorme, ela está nitidamente exausta, atrapalhada com as novas funções, frustrada com toda essa mudança em sua vida e, nem por isso, menos apaixonada por sua filha Stevie, de apenas dois meses. Seu marido, Jeremy (Ewen Leslie), está sempre envolvido demais com reuniões e problemas no trabalho, e de menos com as atividades domésticas e funções relacionadas à criança – embora pareça entender todo o cansaço da mulher. Entre os amigos, é zoado porque está passando por um período de abstinência sexual, mas quando chega em casa, fica estacionado no quarteirão ao lado se descobre que Stevie ainda está acordada. Ele não quer lidar com isso. Audrey não tem escolha. Claramente esse não é um caso raro.

Logo no começo do primeiro capítulo sabemos que ela está começando a frequentar um grupo de apoio para mães, que, infelizmente, também não parece apoiá-la tanto quanto deveria. São mães bastante diferentes entre si, e foi essa a saída da série para trazer à tona diversas formas de maternagem. No início, elas só se julgam. Ao longo dos sete capítulos, no entanto, aprendem a segurar a barra umas das outras porque entendem que todas estão no mesmo barco.

Sophie (Lucy Durak) é a mãe perfeita, está sempre calma, postando mil fotos maravilhosas no Instagram. Seu filho dorme a noite inteira, e ela sempre tem inúmeros conhecimentos e livros para sugerir para as outras mães. Martha (Leah Vandenberg) teve seu bebê por produção independente, é homossexual e mãe solo por opção, gerando um filho sozinha para não precisar carregar uma família no pacote. Seu caos particular se divide entre todo o cansaço criado pela rotina com o bebê e a vontade do doador de esperma de ser, de fato, um pai para a criança, descumprindo todo o combinado. Barbara (Celeste Barber) é o estereótipo da dona-de-casa-mãezona. A filha que a leva ao grupo de apoio já é seu terceiro bebê, ela tem suas crises, mas visivelmente não está tão perdida quanto as outras, que são mães de primeira viagem. Ela faz bicos como “mãe de aluguel”, cuidando dos bebês dos outros quando necessário.

Ester (Sacha Horler) é uma executiva que vem para representar a inversão dos papéis: ela está sempre sem paciência, voltou a trabalhar bem antes do fim da licença e não está muito afim de se envolver com os assuntos relacionados aos cuidados com a bebê. É aí entra Ruben (Leon Ford), o único pai frequentador do grupo de apoio. O casal vive às turras porque ele largou o emprego para ficar em casa com a criança e Ester não acredita que essas funções são de fato cansativas – ou tampouco que ele as execute direito. Seria um espelho às avessas da mulher que está penando na licença maternidade enquanto muitos em volta parecem pensar que ela está de férias? Por fim temos Georgia (Xana Tang), a mãe de humanas, quebradora de paradigmas, que quer criar seu bebê sem lhe impor um gênero e organiza manifestações por acreditar que foi expulsa de um café porque estava amamentando.

As descrições soam rasas, mas parece que a ideia da série é realmente reunir esses estereótipos em um caldeirão e aí, então, ir mostrando mais a fundo um pouco da situação que cada uma das personagens enfrenta, de suas dores, dificuldades, cansaços e lutas emocionais. A série não se aprofunda muito em momentos leves da maternidade, ela parece mesmo querer frisar o lado B e, pelo menos nessa primeira temporada, tivemos poucas chances de conhecer cada uma das mães. A fórmula acompanhou de perto as questões de Audrey, enquanto em cada episódio a história de uma das outras era paralelamente, porém ainda pouco, desenvolvida.

Focando no núcleo principal, em The Letdown temos outras duas mães importantes na história: Verity (Sarah Peirse) e Lois (Maggie Kirkpatrick), respectivamente mãe e avó de Audrey. As três são bastante diferentes e vivem um intenso arco dramático, que traz momentos fortes à série. Audrey nunca se sente cuidada e apoiada pela própria mãe que, por sua vez, se sente da mesma maneira em relação a Lois. Uma maternagem acaba refletindo na outra e as três se amam, mas tem dificuldades de se entender e se perdoar. De uma forma ou de outra, as situações entre elas também aparecem ali para cutucar a tão conhecida questão da culpa materna, das dificuldades desse papel e do mito da mãe ideal.

The Letdown tem a pretensão de ser uma série de comédia sobre a maternidade, e, por isso, não dá para sentar para assistir esperando grandes desmistificações e situações retratadas com profundidade. Os episódios têm duração de no máximo meia hora e não saem muito dos estereótipos, mas propõe reflexões a quem assistir com a mente disposta a pensar e rever padrões, além de oferecer o aperitivo para essas discussões.

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