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Um Lugar Silencioso: um passo adiante

Quando fui assistir a Um Lugar Silencioso, fui por causa do hype, ainda que o hype já tenha me deixado vezes demais com a sensação de que gastei dinheiro à toa. A certeza de que me preparava para uma decepção veio com a exibição dos trailers pré-filme, um deles sobre freiras, padres e possessão demoníaca, o outro sobre uma família que toma a pouco inteligente decisão de passar um tempo no meio do nada e é perseguida por estranhos — minha sensação é sempre a mesma: se já assisti a O Exorcista, já assisti a pelo menos mais uma centena de outros filmes — e assim por diante. Mas foi logo na primeira cena que o filme de John Krasinski provou que eu estava muito errada em minha descrença.

O roteiro assinado pela dupla Bryan Woods e Scott Beck, além do próprio Krasinski, centraliza uma família — pai, mãe e três filhos menores de idade, um deles muito pequeno — sobrevivendo em uma América desolada, vazia e… silenciosa. Não são apresentadas maiores explicações sobre o que aconteceu, ou como, sabemos apenas que monstros sanguinários (muitíssimo parecidos com os demogorgons de Stranger Things, por sinal) estão à espreita e se orientam exclusivamente pelo som, ao qual eles são muito sensíveis. Por isso o silêncio; por isso a sequência inicial do filme é tão, tão silenciosa que chega a ser constrangedor mastigar a própria pipoca da maneira como estamos confortavelmente acostumados a fazer.

Um Lugar Silencioso foi tratado pela mídia como um espelho do momento político complicado que estamos vivendo e testemunhando; enquanto isso, Krasinski e Emily Blunt declararam que, para eles, o filme é em primeiro lugar uma reflexão sobre ser pai ou mãe em um mundo cada vez mais perigoso — uma interpretação muito compreensível quando pensamos que os dois são pais relativamente novos. Embora fique evidente que esse é um filme sobre o amor dos pais pelos filhos, dos filhos pelos pais, e dos conflitos que surgem nesse longo relacionamento tão essencial quanto complexo, e ainda que seja possível traçar paralelos com o silenciamento de vozes politicamente discordantes, se assim realmente desejar quem assiste, Um Lugar Silencioso segue sendo um filme sobre sobrevivência diante de uma ameaça poderosa e assustadora que fica à espreita em algum lugar lá fora. O que não é algo novo.

Mas é algo que funciona. Em seu isolamento em um mundo devastado, os laços existentes entre cada membro da família se tornam ainda mais vitais. A química do casal Krasinski-Blunt, e os talentosos jovens atores que interpretam os filhos do casal, tornam esses laços evidentes: é palpável o amor e preocupação que existem em todos os membros da família. Se eles nem sempre tomam as decisões mais inteligentes (e decisões pouco inteligentes são importantes para gerar tensão e conflito), geralmente o fazem para proteger uns aos outros. Um Lugar Silencioso em grande parte funciona porque é realmente fácil se importar com o que acontece com aquelas pessoas.

O que há de mais especial no filme, no entanto, é o fato de que estamos diante de uma família que só sobrevive por tanto tempo (mesmo quando parece não existir mais ninguém) porque Regan, a filha mais velha, é surda. Por consequência, estamos diante de uma família fluente na língua americana de sinais. Inicialmente, quando fui falar sobre o filme, o descrevi como um filme sem diálogos. Mas é claro que não é o caso, ele é permeado de diálogos, o tempo todo — ele só usa a linguagem de um jeito diferente daquele a que estamos acostumados. Millicent Simmonds, atriz que interpreta Regan, também é surda, e encontrar uma atriz que de fato fosse surda foi uma condição que John Krasinski impôs desde os primeiros contatos com a história. Em entrevistas, ele revelou que a participação de Simmonds foi essencial, já que ela também foi um guia para tornar as performances, e a história ao redor delas, mais reais.

É diferente e inesperado assistir a um filme silencioso quando estamos habituados ao barulho — principalmente quando pensamos em campeões de bilheteria, que nos últimos anos costumam ser principalmente super-heróis muitíssimo barulhentos que destroem as grandes metrópoles pelo menos uma vez ao ano. Para grande parte do público norte-americano, que compõe a chamada bilheteria doméstica, relevante o suficiente para ser medida e anunciada separadamente do resto do mundo, apenas o fato de assistir a um filme primariamente legendado já é algo bastante significativo — e aí é importante pensar no contraponto de que lá fora a língua de sinais foi legendada para os espectadores ouvintes, mas o inglês falado não foi legendado para aqueles que são surdos.

Talvez a mensagem política metafórica mais evidente em Um Lugar Silencioso seja justamente aquela em cuja tecla continuamos batendo de novo e de novo: representatividade importa. Aqui ela literalmente salva vidas — afinal, a família centralizada pelo roteiro sobrevive porque sua fluência na língua de sinais possibilita ao mesmo tempo sua conexão, sua comunicação e seu silêncio.

O longa nos convida a conhecer melhor a experiência de Regan e de sua família, mas ao mesmo tempo em que é evidente que a mera existência da garota é essencial para a sobrevivência da família inteira, Regan não serve como um degrau para o desenvolvimento de ninguém — nem para seus pais ou irmãos ouvintes nem para o público. Tudo o que acontece com ela serve a ela própria, ao seu desenvolvimento enquanto personagem e ao seu próprio papel dentro da trama, que às vezes também é o de ser filha ou irmã. Como deveria ser.

Uma característica profundamente satisfatória em Um Lugar Silencioso é que suas duas personagens femininas (parece pouco, mas elas na verdade são metade do enxuto elenco protagonista) nunca são usadas e descartadas com o intuito de desenvolver e complexificar ninguém. Pelo contrário, elas são sempre centrais, seja quando estão sozinhas, seja quando agem em cooperação com aqueles ao seu redor. Eu gostaria muito de não precisar mais fazer dessa discussão um ponto de destaque, mas por ora ela segue sendo necessária.

Um Lugar Silencioso é um filme de terror cheio de momentos genuinamente aterrorizantes, que constrói seus vários momentos de suspense e tensão de uma maneira muito eficiente em manter a atenção do público. A falta de diálogos falados em alto em bom som não é um empecilho a ser contornado, pelo contrário: é o que faz dele mais interessante. Com isso, temos um filme que é ao mesmo tempo um ótimo entretenimento (em não mais do que noventa gloriosos minutos, ainda por cima) e um pequeno passo adiante em termos de representatividade. Mais especial ainda é que é justamente essa representatividade que o torna algo novo e interessante — e até agora o resultado dessa experiência tem sido muito positivo, transparecendo nos mais de duzentos e trinta milhões de dólares arrecadados por um filme que custou meros dezessete milhões.

Millicent Simmonds afirmou em entrevistas que espera ver cada dia mais atores surdos trabalhando, e também fica evidente que ela tem consciência do significado dos papéis que ganhou até agora, do quanto pode ser inspirador enxergar-se na tela do cinema — ou na cultura que consumimos de modo geral. Um Lugar Silencioso, muito além de um bom filme, também é mais um passo à frente na longa conversa (na qual insistimos dia após dia) sobre a importância de abrirmos espaço para as histórias que não estão sendo contadas.

Um Lugar Silencioso recebeu 1 indicação ao Oscar, na categoria de: Melhor Edição de Som (Erik Aadahl).

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1 comentário

  1. eu tô querendo MUITO assistir esse filme e enquanto não faço isso tenho lido algumas resenhas. é interessante ver as diversas análises em cima de um único filme e é justamente a variedade dessas análises que me deixa ainda mais interessada 🙂 tantas histórias rasas e pouco desenvolvidas que quando a gente vê a possibilidade de um filme que trabalhe pontos que normalmente não são trabalhados que, no mínimo, deixa a gente instigado a assistir 🙂 aliás, instigadíssima!