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Do Jeito Que Elas Querem: que representatividade na terceira idade queremos?

Em uma época em que falamos tanto sobre representatividade no cinema e na televisão, é revigorante quando nos deparamos com um filme protagonizado por quatro mulheres na casa dos 60 anos ou mais, como é o caso de Do Jeito que Elas Querem. Mas passada a euforia, algumas perguntas inevitavelmente começam a pipocar: que tipo de representatividade é essa? Que mensagem o filme veicula? Será que ele também estabelece padrões para mulheres na terceira idade?

Em tempo, a resposta para todas as perguntas seria uma só: temos muito o que melhorar. Embora estejamos avançando aos poucos, a subversão acontece ao mesmo tempo em que padrões são reforçados. É um equilíbrio muito delicado entre libertar e manter amarras. Do Jeito que Elas Querem é um filme que busca a subversão, mas por vezes acaba caindo nas armadilhas do patriarcado — e por que não dizer do feminismo liberal?

A obra trabalha com uma fórmula padrão: a das quatro amigas. Vivian (Jane Fonda), Sharon (Candice Bergen), Carol (Mary Steenburgen) e Diane (Diane Keaton) se conhecem desde a adolescência. No começo do filme, somos apresentados à história de cada uma por meio da narração de Diane, que explica como elas se conheceram, com quem são casadas ou não, e o que fazem da vida. Cada mulher representa um arquétipo bastante definido no que diz respeito às mulheres mais velhas nos quesitos sexualidade, jovialidade, libido e expectativas.

Desde a juventude, as amigas mantêm a tradição do clube do livro, criada por Diane. Todo mês, uma delas escolhe a leitura que todas farão e depois discutem a obra. Vivian, a mais liberal do grupo, decide que Cinquenta Tons de Cinza, de E.L James, será próxima leitura — e é a partir dessa literatura erótica que a vida delas mudará.

Do Jeito Que Elas Querem

A mudança na vida dessas quatro mulheres vem acompanhada da redescoberta do amor e da sexualidade, algo bastante trabalhado em Grace and Frankie. No entanto, enquanto a série rompe padrões, Do Jeito que Elas Querem reafirma alguns discursos tóxicos sobre mulheres na terceira idade, e se vale de arquétipos extremamente vazios para vender a ideia do que é moderno.

Atenção: este texto contém spoilers!

Vivian e a rejeição dos traços da velhice

No Twitter, comentei que, depois da cabine de imprensa do filme, na qual eu era a única mulher, os homens saíram do cinema comentando sobre os atributos físicos de Jane Fonda. Um deles disse a seguinte frase:

“Jane Fonda dá de dez a zero em muita mulher de 50 anos”.

Acredito que essa frase resume bastante a questão de mulheres na terceira idade, e talvez o fato de a construção da personagem de Fonda ter me irritado tanto ao longo do filme. A questão aqui é que as mulheres na terceira idade, exemplificadas por Fonda e Vivian, estão sujeitas à lógica patriarcal que detém o controle sobre seus corpos. De acordo com a professora Linda R.Gannon, em seu livro, Women and Aging: Transcending Myths, outrora a construção social da sexualidade foi impulsionada por valores patriarcais impostos pela religião. Porém, no mundo de hoje, a medicina tomou o lugar da religião nesse aspecto, ou seja, é ela quem detém o controle sobre o corpo feminino. A medicina que condenava mulheres mais velhas por sua sexualidade, taxando-as de loucas ou pervertidas realizou o movimento inverso: agora a libido dessas mulheres é celebrada. Isso aconteceu por causa do advento dos tratamentos de reposição hormonal, o surgimento do Viagra e dispositivos que podiam recuperar o vigor das mulheres. Além, é claro, das cirurgias plásticas que prometem a juventude.

Sendo assim, Vivian é uma representante do corpo envelhecido de 80 anos que aparenta 50. Ao contrário das outras três amigas, ela usa roupas justas, botas até os joelhos, emulando a aparência de uma mulher muito mais jovem. Por seguir um padrão de beleza, o corpo branco e magro, Vivian tem “licença” para usar aquilo que seria condenável em uma mulher fora os padrões da mesma idade.

A construção física de Vivian vem, é claro, acompanhada da sexualização, um traço que só percebemos nela. Por que só nela?, é a pergunta inevitável. Porque, mais uma vez, ela tem a licença por rejeitar os traços da velhice. E é isso que faz o filme deslizar tanto: Do Jeito que Elas Querem usa a aparência física para determinar traços de personalidade. Vivian é uma mulher liberal, que transa com inúmeros homens, mas que é fria lá no fundo. Isso significa que ela não consegue se apegar a ninguém, pois a única maneira de relacionamento que funciona para ela é o casual, mas o casual que também é profundamente vazio. O comentário dos meus colegas de cabine de imprensa, portanto, apenas reforça a licença de Vivian (e também de Jane) para ser visível na sociedade:

“A rejeição dos traços da velhice (físicos e psicológicos) deixa de ser uma opção, mas torna-se um pré-requisito para que a idosa permaneça visível dentro da sociedade. Na mesma proporção, a busca incansável pela boa aparência — segundo os padrões de beleza culturalmente impostos — e a saúde imaculada passam a ser metas necessárias ao corpo que envelhece dentro de uma sociedade que deseja e celebra a juventude.” (Nayara Helou Chubaci Güércio, Grace and Frankie e a Sexualidade na Velhice)

Sharon, a amiga gorda e engraçada

Se Vivian está no polo positivo, o da mulher magra e bem resolvida, no negativo encontra-se Sharon, a amiga que representa o arquétipo da mulher gorda e engraçada da história. O arquétipo da amiga gorda foi definido por Jaqueline Queiroz em artigo do Preta, Nerd & Burning Hell:

“(…) Amiga Gorda, aquela que dentro de algumas histórias é a melhor amiga da protagonista e vive praticamente em função dela, ouvindo e vendo as suas histórias como uma espécie de telespectadora, pois pressupõe que nunca poderá viver as mesmas experiências”.

No caso de Sharon, a personagem é uma juíza federal, ou seja, ela não é exatamente coadjuvante dentro do filme, uma mera espectadora de suas amigas magras. Contudo, no quesito afetivo, ela se encaixa na definição da amiga gorda. Sharon ouve as incessantes histórias de Vivian sobre seus interesses amorosos, suas transas, enquanto ela mesma acredita não se encaixar nisso, jogando a cartada do “mas eu já passei da idade dessas coisas”.

Do Jeito Que Elas Querem

Assim como Vivian, a construção de Sharon é tão estereotipada que chega a agoniar. Os melhores momentos do filme são dela, que rouba a cena com suas tiradas fantásticas, mas é sempre ridicularizada quando o assunto é amor ou sexualidade. Há uma cena que exemplifica isso: quando Sharon decide sair e vestir algo mais sensual para se encontrar com um homem. A experiência é um fracasso porque suas amigas insistem em vesti-la com uma cinta, numa atitude para lá de gordofóbica. No fim das contas, as amigas precisam tirá-la daquela roupa, que está toda cheia de nós. Uma cena engraçadinha, mas com uma mensagem extremamente gordofóbica.

Lá pelas tantas, Sharon decide criar uma conta em um aplicativo de encontros, estimulada por uma aposta com Vivian, que lhe dissera que ela não era capaz de sair com ninguém. A aposta por si só já é bastante problemática, pois parte do pressuposto de que Sharon não é atraente, incapaz de despertar o interesse de uma pessoa. E isso, é claro, está ligado ao fato de ela ser gorda e não performar a feminilidade exatamente do jeito como suas amigas. Nesse aspecto, Sharon assemelha-se a Dorothy Zbornak (Beatrice Arthur), personagem icônica do sitcom The Golden Girls, um dos primeiros a colocar quatro mulheres na terceira idade como protagonistas de uma série. Dorothy é desajeitada, pois é muito alta, considerada feia pelas amigas e motivo de chacota sempre que o assunto é sexualidade ou amor.

Ao começar a usar o aplicativo, Sharon surpreende-se com o fato de que há homens interessados nela. E então ela vai encontrá-los. Algo que notei nos encontros é que os homens com quem ela se encontra parecem idosos de verdade. Homens na terceira idade, sabe? Com cabecinhas brancas, óculos e tudo o mais. E qual o problema disso, Jessica? Não é legal? Seria legal se os dates de Sharon não fossem os únicos a parecerem idosos de verdade. É como se, por ela ser gorda e desajeitada, ela comportasse esse tipo de encontro para parecer ainda mais engraçado. Os homens de Vivian e Diane, por exemplo, são o estereótipo do coroa charmoso, com destaque para Andy Garcia, que interpreta o piloto com quem Diane se envolve.

“Por que com Sharon não pode ser assim?” foi a pergunta que me ocorreu durante o filme. Mais uma vez, Do Jeito Que Elas Gostam subverte para reforçar ideias gordofóbicas e isso, somado ao etarismo, joga fora uma personagem fabulosa, interpretada por essa atriz maravilhosa que é Candice Bergen.

Carol e a busca pelo vigor perdido da vida sexual a dois

Das quatro personagens principais, a mais afetada pela leitura de Cinquenta Tons de Cinza é Carol. Os relatos das cenas sexuais entre Christian Grey e Anastasia Steele despertam a consciência de que a própria vida sexual vai de mal a pior. Desde que o marido, Bruce (Craig T. Nelson), aposentou-se, eles não transam mais, e pior ainda, ele parece sequer notar a existência dela.

Do Jeito Que Elas Querem

É totalmente contraproducente a maneira como o filme coloca a questão da falta de vida sexual entre o casal. Isso porque a culpa recai sobre os ombros de Carol. Se ela não está satisfeita, é porque permitiu que se chegasse a esse ponto. Dessa forma, cabe a ela, única e exclusivamente, resgatar a vida sexual entre os dois. Ela começa presenteando o marido com aulas de dança, para que eles possam se apresentar em um jantar beneficente organizado por Carol. Bruce detesta a ideia, mas acaba realizando a vontade da esposa.

Ao longo do filme, percebemos como Carol está sozinha na busca de uma vida sexual melhor. Eisenstein, cineasta russo, acreditava na ideia de que podemos conduzir o espectador através do olhar, ou seja, dar mensagens através de imagens. Em Do Jeito Que Elas Gostam, a moto de Bruce simboliza a solidão de Carol em relação ao casamento. O marido dedica uma atenção extrema à moto, como se fosse a própria esposa. Até a maneira como ele se refere a ela, como quando diz “em dar um banho de óleo nela”, faz com que subentenda-se que ele poderia se referir a Carol, mas não o faz. Simplesmente porque não percebe que seu casamento não está bem.

Carol tenta de todas as maneiras chamar a atenção de Bruce para o problema sexual deles, até o dia em que decide fazê-lo tomar Viagra. O marido, como vocês podem imaginar, fica furioso. É interessante notar como Bruce só percebe que existe um problema no casamento quando sua masculinidade é colocada em xeque. Para que ele precisava de Viagra? Ele é viril, ora bolas. Portanto, quando um homem entra na jogada, é que o foco de uma questão existe.

Diane e o etarismo de suas filhas

A personagem Diane é interessante porque, para mim, ela é uma salada de outros personagens famosos de Diane Keaton, como Annie, de O Clube das Desquitadas, e Erica, de Alguém Tem que Ceder. Trata-se de uma mistura interessante, com elementos de insegurança (vindos de Annie) e extravagantes, como os que Erica tinha. Além disso, as roupas utilizadas pela personagem me fizeram pensar se não havia um pouco de Keaton ali, naquelas roupas largas e aquele estilo “peguei o que havia no guarda-roupa e vesti”.

A trajetória de Diane é marcada pelo etarismo praticado por suas duas filhas. Após ficar viúva, elas perceberam que a mãe estava envelhecendo e decidiram enchê-la de cuidados. Assim, qualquer movimento pode ser perigoso demais, e as duas a levam para o Arizona na tentativa de mantê-la sob vigilância. Vigiar é punir.

Os cuidados das filhas carregam o etarismo consigo. É como se Diane fosse incapaz de se locomover sozinha, e aqui, ao invés da sociedade patriarcal, são elas as amarras, os entraves na vida da personagem. Nesse caso, o “inimigo”, digamos assim, é visível, ele toma a forma dessas filhas que a impedem de viver. Assim como a quarta temporada de Grace and Frankie mostrou, existe uma volta à infância. Diane volta a ser criança a partir dos cuidados excessivos das filhas. Ao contrário das personagens principais da série da Netflix, ela não possui nenhum problema de saúde que possa afirmar que ela está definhando. Muito pelo contrário, Diane é uma mulher ativa.

De todas as personagens, ela é talvez a que tenha o arco mais interessante, exatamente pela questão do etarismo e de ser tratada como criança. É incrível ver como ela consegue ao longo da trama se impor e mostrar suas vontades, romper com os próprios padrões. Infelizmente, a mudança é desencadeada pelo aparecimento de um homem em sua vida, mas isso não diminui o avanço dela. Essa questão do homem/amor é algo que perpassa todas as narrativas das protagonistas de Do Jeito que Elas Querem, abrindo a brecha para discutirmos o quanto é contraproducente uma história que baseia a mudança de uma mulher por causa de um cara.

Um filme que almejou muito, mas entregou pouco

Do Jeito que Elas Querem poderia ser um filme de Nancy Meyers. Relendo o fabuloso artigo da Fernanda sobre os filmes dessa diretora, alguns pontos dos longas de Meyers se cruzam com a narrativa proposta por Do Jeito que Elas Querem, e tomei a liberdade de retirar o trecho do texto que exemplifica isso:

“Praticamente todas as protagonistas de Meyers são mulheres que trabalham, que são bem resolvidas profissionalmente e a quem o trabalho também é uma fonte genuína de prazer. Mas suas ocupações são reflexo de suas vidas privilegiadas: Erica (Diane Keaton), de Alguém Tem que Ceder, é escritora, Jane (Meryl Streep), em Simplesmente Complicado, tem uma adorável padaria. Nancy Meyers fala sobre o mundo que conhece, e ele é um mundo onde dinheiro jamais é impedimento, um mundo onde todo mundo é branco e heterossexual, reforçando toda vez os padrões vigentes (especialmente entre os personagens mais velhos, faixa na qual a falta de diversidade é ainda mais gritante)”.

Todas as personagens de Do Jeito que Elas Querem são bem-sucedidas, adoram seu trabalho, embora estejam insatisfeitas com o amor. Como Fernanda bem colocou, também é um mundo onde tudo é possível, ou seja, são perfeitamente possíveis as situações absurdas que se desenrolam ao longo da trama.

O que mais incomoda é a falta de representatividade não branca no filme. É tudo extremamente branco, por isso Do Jeito que Elas Querem poderia se parecer com um filme de Nancy Meyers. O filme falha nesse aspecto, pois quer vender uma ideia falsa de representatividade. Que representatividade é essa em que não existe uma atriz não branca para interpretar uma das amigas? Acaba que o filme vai para o lado do feminismo liberal, aquele que só serve a uma camada de mulheres: brancas e privilegiadas.

Está na moda fazer filmes sobre mulheres, mas acredito que, se é para fazer um filme como Do Jeito que Elas Querem, é melhor nem sair de casa. Se vamos falar sobre mulheres, por que não fazemos um recorte plural delas? Em se tratando de mulheres mais velhas, ainda temos a questão da aparência física. Todas as atrizes, exceto Candice Bergen, têm corpos dentro do padrão, e a questão aqui não é julgá-las por isso. É julgar os produtores e roteiristas do filme que escolhem um único tipo de mulher para ser retratado. Talvez se essas mulheres aparentassem a idade que têm o filme não seria tão vendável? É de se pensar.

Não basta fazer filmes sobre mulheres. O audiovisual ainda precisa comer muito arroz com feijão para entender isso.

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