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Para gostar de k-pop: álbuns para iniciantes

A dominação sul-coreana na cultura pop vem acontecendo de maneira sistêmica há anos. Com investimentos que ultrapassam os trinta bilhões de reais em setores como cultura, turismo e esporte no país, a “onda coreana” tem ganhado o mundo por meio dos grupos de k-pop como BTS e BLACKPINK, filmes como Parasita, e k-dramas como Crash Landing on You, It’s Okay to Not Be Okay, e o mais recente fenômeno da Netflix, Round 6. Mas mesmo com todo o investimento por parte do governo e da iniciativa privada, os frutos não seriam os mesmos se as produções sul-coreanas não tivessem qualidade de verdade, e isso é algo que pode ser dito da maior parte da produção cultural do país.

Hanna Kim, docente e pesquisadora do Núcleo de Estudos e Negócios Asiáticos da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) explica em entrevista ao Estadão que “a Hallyu — onda coreana — é um empreendimento cultural da indústria e do governo sul-coreano, para a promoção e disseminação dos conceitos legais da cultura popular coreana e de diversos conteúdos produzidos pelo país. No início, no fim da década de 1990, essa onda se iniciou com a exportação de novelas coreanas — o que o Brasil já fez, exportou muita novela — para os demais países da Ásia. Em seguida, veio a criação de conteúdos ligados à música popular, denominado mais à frente como k-pop, que foi bastante difundido, primeiro pelas produtoras musicais e depois com o apoio do governo de diversas maneiras”.

A porta de entrada para as produções sul-coreanas costuma ser justamente pela música, o tão falado k-pop. Não à toa o BTS conquistou em novembro os três prêmios a que concorriam no American Music Awards, algo inédito para o grupo estrangeiro na premiação. Com troféus de Artista do Ano, Melhor Duo/Grupo e Melhor Música Pop com “Butter”, o grupo se consagra como mais um entre os grandes do k-pop. Mas se você está chegando só agora, nada tema! Nossa lista com indicações para iniciantes vão desde aquelas que estão nadando nessa corrente há muito tempo até quem chegou ontem mesmo. O importante é deixar o k-pop chegar — e as indicações da nossa lista podem ser a porta de entrada para melodias, versos e canções que vão te embalar por diferentes momentos da vida.

2NE1, The 1st Album

Por Anna Carolina

Talvez até para quem não tem contato com k-pop, as letras “C” e “L” representem muito. Presente em canções do Black Eyed Peas e trilhas sonoras, CL é um nome bastante conhecido fora do mundo musical também. Ícone fashion, amiga de estilistas e celebridades estadunidenses — que são aquelas que costumam ser mais mostradas na mídia — a rapper segue sendo um dos nomes coreanos mais poderosos dentro e fora da indústria musical. O sucesso da cantora, no entanto, não começa agora. Com talento não só para o rap mas também para os vocais e a dança, CL é a líder do 2NE1, um dos grupos mais famosos das antigas gerações de k-pop.

O quarteto se encerrou há alguns anos, após algumas controvérsias envolvendo uma das integrantes que, vítima de misoginia, recebeu muito ódio precipitado e desproporcional ao seu polêmico uso de remédios ilegais no país por conta de um tratamento psiquiátrico. O grupo, que já se encontrava em um hiato não oficial, acabou sendo deixado de lado pela empresa que não soube gerenciar as críticas excessivamente duras a Park Bom, e quando o fim oficial enfim foi anunciado, a sociedade coreana quase relegou um talento como o de Park Bom ao ostracismo. Agora, enfim, as ex-integrantes retomaram por completo suas atividades solo com a música, atuação e participações em programas de variedade. Mas mesmo que tivessem se afastado de vez da música, o legado do quarteto é sólido.

Qualquer fã de k-pop reconhece as quatro garotas e é muito difícil que alguém não saiba a coreografia ou o refrão de um dos grandes hinos de autoconfiança da música coreana. “I am the Best” é um hit reconhecido desde seus primeiros inconfundíveis acordes, reverenciado pelos próprios astros do k-pop como uma referência de sucesso, e foi também uma das primeiras músicas a furar a bolha e chegar a públicos distintos dos que já acompanhavam a música coreana. A canção icônica é apenas a maior representante do carro-chefe do grupo: pop animado, divertido, ousado e bem executado, contando com os vocais únicos de Park Bom, os tons suaves de Sandara Park, o rap piromaníaco de CL e a dança potente e vocais precisos de Minzy.

Ainda que passe por canções introspectivas como “Lonely” e toquem temas doloridos em “Ugly” e ainda sustente a melancólica mas ousada “Come Back Home”, a discografia chama atenção principalmente pelos ritmos dançantes exalando o poder que o quarteto sempre quis demonstrar: o de mulheres ousadas e fortes mas que também abraçam suas fragilidades, e por isso são tão poderosas. Alguns exemplos desse tipo de música são “Fire”, “Can’t Nobody”, “Falling in Love”, “I Love You”, “Do you love me?” e “Crush”. Mesmo após o fim do grupo, a mensagem de “Can’t Nobody” fica: ninguém consegue derrubar o poder dessas quatro mulheres.

BoA, Atlantis Princess

Por Yuu

Correndo o risco de parecer velha, BoA foi a responsável pela minha introdução no k-pop, e “Atlantis Princess”, do álbum homônimo de 2003, foi a música que me apresentou ao seu trabalho. O ano era 2006 (ou 2007?), as músicas ainda eram baixadas pelo Limewire (ou eMule), as comunidades do Orkut eram nossas melhores amigas no compartilhamento e descoberta de discografias, e o YouTube ainda era um bebê.

Remetendo ao estilo das divas pop ocidentais, a iniciação de BoA contou com músicas pop e coreografias para fazer dela uma idol pop completa —  uma fórmula que deu certo. Nascida na Coreia do Sul em 1986, e considerada a rainha do k-pop, BoA começou sua carreira na SM Entertaiment aos onze anos quando foi acompanhar seu irmão numa audição de dança e chamou a atenção dos olheiros. Desde então foi treinada como cantora e dançarina, iniciando sua carreira no país de origem e posteriormente expandindo-a para o Japão e o resto do mundo. Sua discografia inclui álbuns em coreano, japonês e inglês. Pensando em Atlântida, a lendária cidade submersa, BoA contempla em sua letra perguntas não respondidas sobre a sua existência que têm vislumbres na liberdade. Visualmente, o clipe de “Atlantis Princess” mostra os ideais de uma jovem adulta de espírito livre, que espera um mundo cheio de possibilidades para todos em diversos lugares do mundo. A estética do k-pop do início dos anos 2000 não era tão colorida, tecnológica, e elaborada como a de hoje, mas em termos de música pavimentou com maestria o caminhos de tantos groups e artistas solo atuais que tanto amamos e caminham para dominar o mundo. Nostálgico, eu diria.

Kai, The 1st Mini Album

Por Thay

Sempre soube que era questão de tempo até que eu mergulhasse de vez no universo do k-pop. Como boa cria da internet que procurava discografias de bandas de rock japonês nos primórdios do Orkut como maneira de ampliar minha experiência na leitura dos meus mangás e episódios dos meus animes favoritos, com a música coreana aconteceu basicamente a mesma coisa — meu interesse na música do país nasceu da curiosidade plantada pelas trilhas sonoras dos doramas que comecei a assistir por indicação de amigas, e procurar pelas músicas foi só consequência desse novo amor. Como editora do Valkirias, também trabalhei e revisei textos o sobre cantoras como IU, Wendy e CL, o que me colocou em contato com essas “descobertas” musicais. Para chegar no Exo, e no Kai por extensão, foi preciso apenas uma playlist perfeita indicada por um amorzinho de pessoa, a Julie.

Kai, parte do Exo, me fisgou logo na primeira canção que surgiu no meu Spotify. “Nothing on Me” tem aquela qualidade dos grandes sucessos com um ritmo envolvente de R&B e uma batida empolgante. A canção, com versos em coreano e inglês, falam sobre se sentir tão intoxicado por outra pessoa que a única saída é ficar o mais próximo possível dela.  As demais músicas do The 1st Mini Album seguem esse batida, desde “음 (Mmmh)”, “기억상실 (Amnesia)” e “Hello Stranger”.  Os quase sete minutos do mini filme originado do début solo de Kai, mostram a versatilidade do artista que brilha tanto cantando quanto dançando — não à toa Kai é considerado um dos melhores dançarinos de k-pop, nos mesmerizando com seus movimentos certeiros e ritmo perfeito.

Red Velvet, The Red Summer

Por Debora

Red Velvet é um girlgroup formado pela gravadora SM Entertainment que debutou em 2014. Composto por cinco integrantes — Joy, Yeri, Irene, Seulgi e Wendy , elas são uma das grandes responsáveis pela chamada “onda coreana”, fenômeno de popularização da cultura sul-coreana pelo mundo. Com hits como “Pyscho”, “Power Up” e “Bad Boy”, o grupo foi um dos primeiros que ouvi quando adentrei no mundo do k-pop e acredito ser um ótimo pontapé para quem tem interesse em conhecer mais desse gênero musical já que encapsula o que a cena musical da Coreia do Sul faz de melhor: álbuns com ótimos conceitos, que conversam entre si, e músicas para quem ama um pop que foge ao comum.

A dica em especial é começar pelo álbum The Red Summer, um disco especial de verão, que faz jus a temática e entrega músicas cativantes, com batidas animadas e refrãos para lá de chicletes. Destaque para o single “Red Flavor”, que se tornou uma das minhas músicas favoritas e é capaz de espantar qualquer tristeza graças ao seu refrão viciante e a batida alegre, e para a b-side “You Better Know”, um pop eletrônico que começa lento e te encanta quando chega no refrão, demonstrando todo o potencial vocal das integrantes.

SHINee, The Misconceptions of Us

Por Julie

Meu contato com o k-pop começou aos poucos, sempre de formas aleatórias. A primeira artista que conheci foi a BoA, com “Winter Love”, um sucesso onipresente e que eu amava cantarolar na época em que fui morar no Japão, em 2006. Alguns anos depois, conheci o Super Junior em 2011 com “Mr. Simple”, enquanto assistia ao programa Top Mundi na MTV Brasil. Apesar desses primeiros contatos, foi só em 2013 que enfim me tornei fã, quando uma de minhas melhores amigas me apresentou o SHINee. Lembro de ficar absolutamente encantada com tudo: a estética dos MVs, as roupas, as coreografias, o sorriso do Onew (um fator crucial, convenhamos!), mas principalmente, com a forma como as músicas me contagiavam.

Quando conheci o SHINee, eles haviam lançados dois mini álbums: o The Misconceptions of You, com o single “Dream Girl”, e o The Misconceptions of Me, com “Why So Serious?”. Posteriormente, esses dois EPS seriam reunidos no álbum compilação The Misconceptions of Us, que encerra a trilogia Misconceptions e é um dos meus preferidos no k-pop. O que mais amo no The Misconceptions of Us é como eles trabalharam dois conceitos diferentes. Enquanto o The Misconceptions of You traz músicas mais vibrantes e alegres, com letras que refletem a ideia mais fantasiosa e romântica da visão que criamos sobre o outro e o mundo à nossa volta, o The Misconceptions of Me tem canções mais sombrias, com as inconsistências e incertezas sobre os nossos ideais, sonhos e nós mesmos. É um trabalho que demonstra como o k-pop é rico, com um trabalho primoroso de storytelling, e não tem medo de abraçar um lado mais experimental.


** A arte em destaque é de autoria da colaboradora Duds Saldanha.

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