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KAI: o artista, a marca e o movimento

No dia 11 de novembro de 2020, Kai 1st Mini Album ou K开I para os mais íntimos, marcou o début de Kim Jongin como solista na indústria sul-coreana. Indústria essa que ele atua há oito anos, como Kai do EXO, Kai do SuperM, Kai da Gucci e, finalmente, como Kai, o artista solo, o coreógrafo e o cantor.

Desde o princípio, quando participou da audição na SM após seu pai prometer dar a ele um videogame em troca, quando passou a infância em salas de balé e encontrou na dança uma forma de expressão, Kim Jongin faz de seu corpo, sua identidade, uma marca, uma arte, mas também um movimento. Um ano após seu début, o segundo álbum tem data marcada para o final de novembro, dando continuidade a todo um legado que ele está construindo a anos, não somente na música como na moda, na fotografia, nas artes cênicas e também na televisão.

A princípio, Kim Jongin tornou-se Kai em dezembro de 2011, quando teve a primeira sua apresentação como membro do EXO, sendo o primeiro do grupo a fazê-lo. Porém, estreou oficialmente em abril deste ano, através do EP MAMA do grupo. Além disso, ocupa a posição de main dancer, ou seja, o dançarino principal, mas também como centro e responsável pelo visual do grupo.

Em contrapartida, iniciou sua carreira como ator na webserie Choco Bank em fevereiro de 2016, mas atuou em outras produções como Andante e The Miracle We Met, ambos da emissora KBS, em 2018. Ainda nesse contexto, iniciou sua carreira como convidado em reality shows e programas de variedade como membro do EXO, mas desde 2020 está ampliando seu alcance ao participar de programas como The Devil Wears Jung Nam, Idol Dictation Contest, Honeymoon Tavern e, futuramente, New World, da Netflix.

Apesar disso, mesmo que isso não acenda uma luz de identificação em sua mente, é possível que você o conheça de alguns memes, como o Panty Oppa após sua participação com EXO no Knowing Bros. Curiosamente, o vídeo acumula mais de 38 milhões de visualizações no YouTube, e foi fundamental para torná-lo uma febre no mundo durante um tempo. Da mesma forma, também é protagonista do vídeo solo mais visto da SM no YouTube com “Mmmh”, seu début que chegou a mais de 100 milhões de visualizações recentemente.

Atualmente, tem ocupação como cantor, rapper, ator, dançarino e modelo, sendo o primeiro embaixador coreano global da Gucci, com uma linha própria de roupas e representando a grife italiana ao lado de IU. Mais recentemente, tornou-se modelo da marca de outdoor wear BlackYak, também na companhia da “irmã mais nova da Coreia”, como Lee Ji-eun é conhecida. Por fim, é o “muso” da Bobbi Brown, uma empresa de cosméticos na região Ásia-Pacífico que contratou e adotou Kai como rosto e representante da marca.

O artista

No geral, os nomes artísticos ou stage name são comuns no k-pop, pois os idols verdadeiramente adotam uma segunda personalidade quando estão no palco ou realizando as atividades. Nesse sentido, são inúmeros os artistas que adotam nomes que se diferem do nome verdadeiro para se identificar enquanto membro de um grupo ou personalidade pública. Ou seja, enquanto artista, seja ator, cantor ou até mesmo um modelo.

Como exemplo, podemos citar casos célebres dentro do próprio EXO. No caso do líder do grupo, Kim Junmyeon adotou o nome artístico Suho, um verbo coreano que significa, literalmente, “guardião”. Desse modo, quando debutou, adotou na própria identidade artística o senso de responsabilidade e a atitude enquanto líder do grupo. Ademais, observa-se o peso do seu nome até os dias atuais, mesmo após separações, conflitos de contrato e o alistamento obrigatório dos membros do grupo. Portanto, na sociedade civil, Suho é Kim Junmyeon, seu nome de nascença que assina em documentos, e também usa no serviço militar atualmente (volta logo, vida). Por outro lado, quando se fala do solista ou do líder do EXO, ele é Suho.

Na mesma medida, esse processo acontece com o Kim Jongin, que adota Kai como seu nome artístico, mas que em diversas entrevistas explicou que, para ele, se trata de uma persona, uma segunda personalidade, uma identidade que ele pega emprestado quando se trata de performar. Comumente, assim como para fins de curiosidade, podemos observar esse processo de transição com nitidez em seus momentos performando, como no podemos ver nesse vídeo. Aliás, existe uma brincadeira entre as fãs do solista sobre a “transição do Jongin para o Kai” em referência a esses momentos. Para as erigom, nome do fandom do solista que vem do apelido das exols (eri) e da palavra urso em coreano (gom), essa é uma das características que o tornam ainda mais completo enquanto artista.

Em resumo, e colocando minha carteirinha como erigom e exol na mesa para explicar, Jongin tem uma personalidade carismática, divertida e extremamente animada normalmente. Sendo assim, pode-se observar essa faceta do artista em suas entrevistas, assim como nos programas de variedade que participa. Porém, quando é o momento de Kai brilhar, seja no palco, num editorial de moda ou numa passarela, a situação muda.

Sobretudo Kai tem uma energia forte, é intenso e muitas vezes sério. Kai é quem coloca tanta energia nas coreografias que faz Jongin ter uma queda de imunidade depois da turnê. Kai é quem faz expressões e poses tão únicas e características que se tornou o rosto de uma das maiores grifes do mundo com a Gucci. Kai é quem aparece quando o Jongin é posto para dormir, por ele mesmo, para entregar tudo de si artisticamente.

Nesse sentido, Jongin cedeu incontáveis entrevistas sobre sua experiência como artista, afirmando que muitas vezes ele não se lembra da performance por conta do foco em ser o Kai do EXO ou do SuperM. Até mesmo em vídeos seus reagindo às próprias performances ele se mostra chocado com seus movimentos, e surpreso com a intensidade. Ainda assim, Jongin é duro com Kai, dando uma nota 5 de 10 para seu début e criticando sua performance em vídeos virais na internet, afirmando em uma entrevista que “sempre vê os pontos decepcionantes” quando assiste suas performances.

A marca

Nesse contexto, Kai deixa de ser somente um instrumento artístico e se torna uma marca na Coreia do Sul, sendo responsável pela apresentação do k-pop a pessoas que nunca consumiram o gênero através de seu trabalho como modelo e dançarino. Como exemplo, é fundamental citar um dos maiores destaques de sua carreira: a coleção #GUCCIxKAI, a primeira coleção com uma celebridade coreana na história da marca.

Em resumo, essa hashtag consiste num movimento criado pela Gucci e apoiado pelos fãs do artista diante do lançamento da sua coleção cápsula, assinada por Kai com produção pela grife italiana. Sendo assim, em fevereiro deste ano, ele revelou a coleção na edição da revista Esquire, sendo uma linha de roupas que incorpora seu animal favorito, o urso. Basicamente, as roupas trouxeram seu animal favorito, e também espírito animal do artista, nas estampas, gravuras e detalhes de cada peça. Além disso, cada item traz cores de marrom, verde, azul e vermelho, unindo a jovialidade de Jongin com a maturidade de Kai.

A princípio, a história de Jongin e Kai com a Gucci começou em 2018, quando ele foi apontado como estrela pela Vogue após participar do Cruise 2019 Show da Gucci como representante da Coreia. O evento aconteceu no dia 30 de maio na França, apresentando a coleção gótica de Alessandro Michele e contando com a presença de artistas de destaque internacional, como ASAP Rocky, Elton John e Sakaguchi Kentaro, além de jornalistas importantes do mundo da moda. Ao chegar com Gucci da cabeça aos pés, Kai deixou sua marca como estrela da noite e tornou-se assunto global nas redes sociais. Ademais, a participação aconteceu logo após o EXO vestir os designs de Alessandro Michele durante a apresentação do grupo no encerramento dos Jogos Olímpicos de Inverno de Pyeongchang em 2018.

Posteriormente, em setembro de 2019, Kai foi escolhido como o primeiro embaixador global masculino da Coreia para a Gucci Eyewear, uma linha de óculos da grife, com direito a uma sessão de fotos que se tornou uma das mais populares da história da marca. No geral, o lançamento da coleção cápsula marca uma série de conquistas pessoais de Jongin enquanto representante da marca, incluindo a estreia num curta-metragem com colaboração da Vogue, GC e a Gucci, mas também uma série de editoriais fotográficos de alcance global.

Acima de tudo, a questão de KAI enquanto marca envolve a importância a nível de influência e representação quando um artista coreano da indústria do k-pop se torna o primeiro embaixador global coreano de uma grife como a Gucci. Para aqueles que não entendem muito de moda, como eu, cabe uma comparação mais mundana: esse feito é, para nós, como ter os primeiros brasileiros a ganhar uma medalha olímpica na categoria de skate em Tóquio 2020.

Ainda que seja um exemplo um pouco esdrúxulo, a ideia da comparação é criar um paralelo entre a importância do esporte para o povo brasileiro e a importância da moda e da indústria do entretenimento para os sul coreanos. Vale lembrar que segundo uma pesquisa feita pela Korea Creative Content Agency em 2019, o valor total do mercado de conteúdo cultural coreano chegou a 37 bilhões de dólares. Portanto, a participação de Kai e sua representação enquanto rosto da Coreia nos eventos da Gucci, nas ações da Bobbi Brown e da BlackYak, e mais recentemente nos programas e eventos da Netflix Global, consolidam definitivamente o seu nome como algo maior que o k-pop, mas que tem suas raízes na indústria e no gênero musical. Como consequência, temos Kai enquanto um movimento.

O movimento

Quando os fãs utilizam expressões cultural reset (reset cultural) ou “Kai bigger than k-pop” (“Kai maior que o k-pop”) como acontece nas redes sociais e até mesmo estampado em camisetas, não se trata unicamente de uma questão de clubismo e tietagem, ainda que haja uma grande parcela disso. Desde seu début em 2011, e principalmente com seu début como solista após oito anos cozinhando no forno da SM, Kim Jongin atuou como representante da Coreia do Sul em incontáveis oportunidades.

Sendo com sua performance solo no começo da apresentação do EXO durante a final das Olimpíadas de Inverno de Pyeongchang em 2018 ou nas mostras da Hyundai em 2020, Kai sempre carrega consigo as referências sul coreanas. No geral, ele não disfarça suas influências internacionais, tanto na carreira como modelo, quanto na forma de se vestir e também na música, o que fica nítido em seu début que mistura R&B com hip-hop de forma visual e sonora. Entretanto, em seu ritmo, seus movimentos de dança, suas ações nas performances e até mesmo nas interações sociais, Jongin apresenta elementos das raízes culturais sul coreanas de forma aberta, e com muito respeito pela cultura de onde vem.

Nesse sentido, ele extravasa as barreiras do próprio país e da indústria do entretenimento como um todo ao se afirmar como uma figura de influência global. Desde o momento em que aparece como referência para outros artistas da indústria do k-pop, carinhosamente apelidados de idolgoms, até o momento em que é chamado de “Gucci Humano” por jornalistas e pela própria empresa, ele estoura a bolha da indústria, que mantém artistas incríveis limitados por questões contratuais, burocráticas e também políticas.

Com o lançamento de seu segundo álbum no final de novembro deste ano, Kim Jongin continua traçando um caminho histórico enquanto Kai, tanto na Coreia do Sul quanto no mundo. Ainda que a obrigação do alistamento militar esteja batendo na porta, a construção de sua carreira parece ser maior do que essas questões culturais e tradicionais da Coreia do Sul. Ainda que o maior pesadelo de algumas fãs seja o alistamento acontecer logo após o segundo álbum, tendo em vista que outros artistas do grupo estarão retornando e esse “revezamento” é o comum da SM, Jongin fez de Kai muito mais do que uma memória, um sucesso de uma música só ou um tiro no escuro que acertou o alvo certo,

Quando digo que Kai é o artista, a marca e o movimento, também me refiro aos artistas que o tem como inspiração e bebem da mesma fonte que ele, perpetuando sua marca de formas diferentes no mundo. Além disso, me refiro aos milhões de fãs no mundo inteiro, que fazem a polinização da sua arte motivados pelo amor, respeito e admiração por um artista tão completo como ele.

Apesar das diferenças culturais entre o Ocidente e o Oriente, Kim Jongin e Kai entendem que a arte não tem fronteiras, não tem barreiras e muito menos limites. Em cada movimento leve, mas que carrega todo um simbolismo, em cada pedaço de pano que cobre seu corpo em visuais completos e complexos, em cada editorial e nota musical, Kai cria uma narrativa diferente, mas que com certeza é mais que um mero capítulo no mundo. Para nós, resta a honra e a experiência maravilhosa de ler cada linha dessa história em andamento, com um fim que parece tão distante quanto sua inventividade e arte.


** A arte em destaque é de autoria da colaboradora Duds Saldanha.

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