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A mensagem delicada no apocalipse de Sweet Tooth

Um vírus desconhecido altamente contagioso e mortal força a humanidade a se isolar. Esse cenário seria assustadoramente atual se não fosse pelo nascimento de bebês híbridos, parte humanos e parte animais. Tais são os ingredientes da primeira temporada de Sweet Tooth, que surpreende, emociona e prende o espectador até o final. O cenário é um mundo pós-apocalíptico, uma espécie de terra sem lei, onde cadarços, pilhas e remédios se tornam itens raros e valiosíssimos. Toda a destruição começou depois do surgimento do vírus e dos híbridos. A pergunta que instiga e, de certa forma, guia a narrativa é quem surgiu primeiro, “o Flagelo”, nome dado à doença, ou as crianças metade humanas, metade animais. 

O protagonista, Gus, é um menino-cervo que cresceu numa cabana no meio da floresta com seu pai. Logo no início, descobrimos que o motivo de ter sido mantido escondido desde bebê é uma perseguição para extermínio dos híbridos, já que uma parcela da população acredita que eles foram a causa da doença. Gus é curioso e está sempre tentando aprender mais sobre o mundo e seu próprio passado. Junto com ele, o espectador vai descobrindo os acontecimentos que levaram ao fim da humanidade.

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Christian Convery, intérprete de Gus, junto com Nonzo Anozie, que faz Jepperd, o típico durão com bom coração que acompanha o menino na sua jornada, são muito carismáticos e roubam o coração de quem assiste desde o começo. A relação entre os dois personagens é muito bem construída no decorrer dos episódios e dela surge o apelido que nomeia a série. Sweet tooth, traduzido como “bico doce”, vem do amor de Gus pelos doces. 

A série possui três núcleos centrais que se desenvolvem separadamente e se entrelaçam à medida que a história avança. A jornada de Gus, Jepperd e Ursa (Stefania LaVie Owen) pela mãe do menino; a busca de um médico pela cura do Flagelo para salvar sua esposa; e a tentativa de uma mulher de criar um lugar seguro para os híbridos. Cada um mostra uma perspectiva diferente e contribui para desvendar os mistérios que cercam o colapso do mundo, que se deu há aproximadamente dez anos em relação ao presente da trama. Há também alguns flashbacks, que explicam mais sobre a origem do Grande Colapso e sobre o passado dos personagens. 

A grande supresa na série é a delicadeza com a qual os temas são tratados. Sweet Tooth é baseada numa HQ de mesmo nome criada por Jeff Lemire e publicada pelo selo Vertigo da DC Comics entre 2009 e 2013. Os quadrinhos são voltados para o público adulto e chamam atenção pela violência explícita e pela brutalidade da história. A série ameniza o tom obscuro da obra original e ainda deixa uma mensagem de esperança. A intenção aqui não é emitir um juízo de valor ou hierarquizar as duas obras. Pelo contrário, é justamente o fato da trama funcionar com suas propostas diversas que atesta a qualidade de ambas as produções. 

Mesmo no cenário do fim do mundo, Sweet Tooth consegue tocar em assuntos delicados de forma precisa, mas suave. Preconceito, perda, o conceito de família, ética médica são apenas alguns dos temas abordados na história. Com momentos de tensão, drama e aventura, a trama joga luz em questões difíceis e leva o espectador à reflexão em diversos momentos. 

Sweet Tooth

Atenção: este texto contém spoilers!

No fundo, Sweet Tooth é uma obra que se propõe a analisar o ser humano sob uma lupa, uma vez que tudo, tanto o melhor quanto o pior de cada um, amplifica-se em situações extremas. Uma pandemia torna-se, então, o terreno propício para a degeneração ou a redenção humana. 

Como exemplo do pior, as milícias que perseguem, capturam e exterminam as crianças metade animais. E também a forma como parte das pessoas desumaniza os híbridos, os evita, os abandona ou os submete a experimentos simplesmente por serem diferentes. A série problematiza a hostilidade frente ao desconhecido, sensibilizando para a quebra de preconceitos. Um exemplo simples seria o abandono de Jepperd do próprio filho híbrido e, mais a frente, seu carinho por Gus. 

Um personagem secundário com ótima trama é o Dr. Aditya Singh (Adeel Akhtar). Dividido entre buscar a cura para o Flagelo e sacrificar crianças ou poupá-las e ver sua mulher morrer da doença,  seu dilema é angustiante. A ética médica também é plano de fundo para o passado de Gus, que foi criado em laboratório. A primeira temporada não elucida todos os detalhes, mas há uma ligação entre o vírus e os híbridos, ambos resultados de uma pesquisa. Dessa forma, é inevitável se questionar qual o limite para a ciência. Uma pergunta para a qual, provavelmente, nunca haverá uma resposta definitiva.

Mas o fim do mundo também pode catalisar coisas boas. É impossível não admirar a transformação de Aimee (Dania Ramirez), por exemplo. Antes do colapso, ela vivia insatisfeita, descolada do resto do mundo, quase escondida da vida. Ela não apenas descobre um propósito na sua vida depois da adoção de Wendy, uma híbrida abandonada na sua porta, como também se torna a figura central na luta para proteger os híbridos. Acolhendo-os e respeitando suas diferenças enquanto cria um lugar seguro para todos, Aimee representa a bondade restante.

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A reflexão mais significativa da série, porém, diz respeito ao amplo conceito de família que ela propõe. Para além de laços consanguíneos, a família se encontra nos laços de carinho e proteção entre aqueles que se importam mutuamente. Cada um de uma forma diferente, todos os personagens lidam com a perda de pessoas queridas e buscam consolo e companhia. Dentre todos, a trajetória de Ursa oferece várias nuances deste tema. Depois da morte dos pais adotivos e que sua irmã híbrida foi levada, ela encontrou uma família nas crianças que uniu para formar seu exército de proteção aos híbridos. Após ser expulsa do grupo, ela se une a Gus e Jepp também pelo sentimento de família envolvido ali. 

Apesar do incômodo que alguns momentos podem causar pela semelhança com o que mundo enfrenta fora da ficção atualmente, a série não se torna pesada. O cenário das reminiscências abandonadas da humanidade, o medo e a desconfiança das pessoas isoladas, os sinais aconselhando o uso de máscaras poderiam facilmente se tornar demais para um público que enfrenta uma pandemia  de verdade. Contudo, o otimismo e a esperança de Gus extrapolam a tela e contagiam quem está do outro lado, deixando tudo mais leve.

Com personagens envolventes, temas delicados e coincidências com a realidade atual, Sweet Tooth é surpreendente, emocionante e instigante do início ao fim. A primeira temporada introduziu muito bem o início da jornada de Gus e deixou o espectador com muitas dúvidas e ansiando por uma continuação. 

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