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Dos livros de História para as telas do cinema: Anastasia Romanov, o mito do século XX

Madrugada do dia 17 de julho de 1918. Nicolau II e sua família são acordados a mando dos guardas bolcheviques sob o pretexto de transferi-los, juntamente com seus empregados, para uma nova propriedade. À época, Nicolau já não mais reinava, tendo abdicado ao trono mais de um ano antes, em março de 1917, e vivia de forma bastante modesta ao lado da esposa, a tsarina Alexandra Feodorovna (nascida princesa Alix de Hesse e Reno), e dos cinco filhos, as grã-duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastasia, e o tsarevich Alexei, no interior da Rússia, onde eram mantidos em cativeiro. Para prevenir o resgate da família pela oposição, que avançava sobre o território russo, foi ordenado que tanto a família quanto sua equipe de funcionários — composta pelo médico Eugene Botkin, o valete Alexei Trupp, a dama Anna Demidova e o cozinheiro Ivan Kharitonov — fossem assassinados, pondo um fim definitivo à dinastia Romanov.

O local onde a família foi enterrada permaneceu em segredo até o fim da década de 1970, quando o geólogo Alexander Avdonin descobriu a maior das duas covas em que estavam enterrados cinco dos sete membros da família real, além de seus quatro criados. A informação, contudo, só viria a público em meados da década de 1990, após a dissolução da União Soviética, quando estudos para a identificação dos corpos puderam ser realizados. Conduzidos pelo médico Peter Gill, do Forensic Science Service, e pelo geneticista Pavel Ivanov, a pesquisa confirmou o sexo dos corpos encontrados e estabeleceu a ligação entre os restos mortais de Nicolau, Alexandra e três de suas filhas. A ausência do filho mais novo do casal, bem como de uma de suas filhas (se Maria ou Anastasia, era difícil saber), no entanto, alimentou teorias sobre a suposta sobrevivência de ambas as crianças, que teriam escapado com vida e fugido da Rússia em relativa segurança. Somente anos mais tarde, uma nova equipe confirmaria a existência de uma segunda vala onde foram encontrados os corpos até então desaparecidos e, em 2009, ambos seriam, por fim, confirmados como sendo Alexei, filho mais novo do imperador russo, e uma de suas irmãs — o que, pelo contrário, não pôs fim ao interesse público sobre a tragédia, tampouco sobre Anastasia, notadamente o nome mais famoso da família.

A dinastia Romanov data de 1613, quando Miguel I foi eleito tsar da Rússia em Assembleia Nacional, e durante os três séculos subsequentes, seus descendentes ocuparam o trono russo e estiveram à frente do regime autocrata que vigorou no país. Sua origem remonta mais de dez nobres famílias naturais da Rússia, além de possuir ligação com outras linhagens da nobreza, como a família real britânica, dinamarquesa e grega, entre outras. Dentre os imperadores de ascendência Romanov, destacam-se, ainda, nomes como Pedro, o Grande e Catarina, a Grande, que ascenderam, respectivamente, em 1682 e 1762. No caso de Anastasia e seus irmãos, a descendência real também provinha por parte da mãe, neta da Rainha Victoria, de quem, inclusive, tornara-se bastante próxima após a morte precoce da mãe, a princesa Alice do Reino Unido, em um surto de difteria.

Anastasia com as irmãs Tatiana, Maria e Olga, e o irmão Alexei.

Nicolau ascendeu ao trono em 1894, quando tinha apenas vinte e seis anos. Não demorou, contudo, para que sua inaptidão se tornasse evidente: diferente de outros descendentes, ele não era um jovem ambicioso, tampouco gostava do poder ou dos deveres que lhe eram atribuídos, e possuía fortes inclinações para a vida doméstica, era tímido e não desejava assumir o trono da Rússia, preferindo manter-se o mais distante possível da corte. Embora tivesse recebido uma educação de requinte, falasse francês, alemão e inglês perfeitamente, e seus modos fossem similares aos de um aluno das famosas escolas da elite britânica, como tsar, ele não possuía treinamento suficiente para cumprir seu dever. O rápido avanço da doença do pai, Alexandre III, pegou a todos de surpresa, inclusive o próprio Alexandre, que, esperando viver por mais tempo, não se preocupou em introduzir o filho aos assuntos do Estado — o que viria a revelar o despreparo do então tsarevich na sucessão ao trono. Mesmo em vida, quando aconselhado que Nicolau passasse a ter maiores responsabilidades, o pai asseguraria que o filho não tinha maturidade suficiente para lidar com questões políticas — o que não ajudaria o novo tsar tampouco. A impopularidade da esposa, tanto na corte quanto entre a população, e a dificuldade em prover um herdeiro, também tornaram sua situação especialmente desfavorável, impulsionando o espírito revolucionário do povo, que crescia em proporção.

O nascimento de Anastasia, em 1901, foi recebido com desapontamento — sentimento já tão amplamente conhecido que até mesmo o The New York Times o referenciaria ao anunciar o nascimento da menina, um dia após Alexandra dar à luz. Em matéria intitulada “O tsar tem outra filha: russos mais uma vez desapontados em sua esperança pelo nascimento de um herdeiro ao trono”, o jornal norte-americano jogou luz sobre a decepção de um país inteiro diante do nascimento de mais uma grã-duquesa incapaz de herdar o título e o império do pai. O que não parece ter influenciado a formação da própria Anastasia, porém, tida por muitos como uma garota tão encantadora e inteligente quanto travessa, e de personalidade um tanto irreverente. Diferente das irmãs, sempre mais contidas e bem-comportadas em comparação, Anastasia gostava de subir em árvores, não dava grande importância para a própria aparência ou à convenções sociais, e não tinha muita paciência para os estudos. À medida que crescia, no entanto, essas características foram substituídas por outras, como o apreço pela dança, a personalidade amigável e o talento para o teatro.

Após o nascimento de Alexei, três anos depois de Alexandra dar luz à Anastasia, as grã-duquesas passaram a existir publicamente em segundo plano. Seus pais mantinham-nas reclusas na maior parte do tempo e não permitiam que tivessem amigos fora do palácio. Muito embora continuassem a acompanhá-los em eventos ou a fazer trabalhos sociais — como durante a Primeira Guerra Mundial, quando Olga e Tatiana trabalharam como enfermeiras em um hospital militar junto à mãe, enquanto Maria e Anastasia, jovens demais para ocupar a mesma função, divertiam os soldados em processo de recuperação —, acreditava-se que era uma questão de tempo até que as filhas mais velhas do tsar desposassem o herdeiro de uma família igualmente nobre. Em 1917, Olga e Tatiana tinham, respectivamente, 21 e 20 anos, e o casamento da primeira já era motivo de especulação. O momento conturbado que vivia o país às vésperas do fim do conflito, no entanto, pôs fim à expectativa de um casamento real, e também a quaisquer outros planos da família, que após a abdicação passaria a viver em prisão domiciliar, sendo transferidos de tempos em tempos para novas propriedades, sempre mais distantes do que a anterior.

As irmãs Maria, Tatiana, Anastasia e Olga Romanov.

O paradeiro dos Romanov era tratado de forma vaga pelo regime comunista, que mesmo após a execução, não revelava maiores detalhes sobre a situação da família ou de sua comitiva — decisão motivada principalmente pelo temor do governo soviético por balançar as relações com a Alemanha, que exigia que ao menos as princesas fossem mantidas em segurança. Mesmo após a confirmação da morte de Nicolau, o destino de sua esposa e filhos continuou a ser mantido em segredo, e a ausência de informações e relatórios oficiais alimentou rumores de que eles pudessem ter escapado com vida; boato reafirmado por membros da antiga aristocracia, que perderam relevância e prestígio com o declínio do Império, e cujo desejo por voltar ao antigo estilo de vida era alicerçado pela esperança de que parte da família continuasse viva e reivindicaria seu direito ao trono não muito tempo depois. Ao longo dos anos, muitos foram os que afirmaram pertencer à família, desde um suposto príncipe Alexei que vivia ao norte da Polônia até uma Tatiana da Inglaterra rural, ou as irmãs Anastasia e Maria, que se tornaram freiras e habitaram um convento até o fim de seus dias. Nenhuma, porém, tornou-se tão famosa quanto Anna Anderson, cuja origem misteriosa levaria muitos a acreditar que poderia, de fato, ser a grã-duquesa Anastasia.

Inicialmente conhecida como “senhorita desconhecida”, Anderson foi retirada de um canal em Berlim após uma tentativa de suicídio em meados de 1920 e passou a viver em um asilo pelos meses subsequentes. Suas cicatrizes, sotaque e olhos muito azuis, cujo tom era considerado similar ao dos Romanov, logo instigaram rumores dentro do asilo, que eventualmente passariam ao conhecimento público. Nenhuma das teorias foram desmentidas por Anderson que afirmava ter sido salva por um guarda após o assassinato dos pais, quando este constatou que ela ainda estava viva e decidiu ajudá-la a fugir do cativeiro. A falta de provas que comprovassem sua ligação com a família imperial fizeram com que o seu caso fosse arquivado pelos tribunais alemães e apenas em 1994, dez anos após a sua morte, foi possível revelar que Anderson jamais tivera quaisquer ligações com o tsar Nicolau II, tampouco com sua esposa, Alexandra — o que não a impediu de ter uma vida bastante confortável, cercada por pessoas que, por interesse ou genuíno apreço, desejavam pertencer ao círculo da suposta sobrevivente Romanov.

A possível sobrevivência de Anastasia continuaria a habitar o imaginário popular mesmo após as descobertas que desacreditaram diferentes versões da história e não demorou para que a tragédia fosse adaptada para a literatura, o teatro, as telas do cinema e até mesmo em músicas ou jogos de vídeo game. Em 1928, o filme Clothes Make The Woman seria o primeiro a contar a história de uma jovem mulher que aparece para fazer o papel de Anastasia em um filme de Hollywood e é reconhecida pelo soldado russo que a havia salvado anos atrás. Mais tarde, a história relatada por Anna Anderson também daria origem ao filme Anastasia, de 1956, com Ingrid Bergman no papel da suposta grã-duquesa, ao passo que, em 1986, inspiraria a minissérie baseada no livro de Peter Kurth, Anastasia: The Riddle of Anna Anderson. Dividida em duas partes, a minissérie restringia o espaço de tempo entre a transferência da família real para a propriedade em Ecaterimburgo, a última a habitarem, até o ano de 1923, quando Anna Anderson fora misteriosamente encontrada. Dentre as muitas produções que centralizam a história da grã-duquesa, contudo, nenhuma tornou-se tão amplamente conhecida quanto a animação Anastasia, produzida pela 20th Century Fox, em 1997. Em comparação, o filme parece menos preocupado com fidelidade histórica do que seus antecessores já tão pouco preocupados, e toma muitas liberdades — como o fato de situar a Revolução Russa em meados de 1916 e não em 1917 —, romantizando a trajetória da heroína, que sai em busca do que restara de sua família e de sua verdadeira identidade.

As irmãs Olga, Tatiana, Maria e Anastasia, na infância.

Criada em um orfanato, de onde é expulsa pela proprietária ao completar 18 anos, Anya (Meg Ryan), como passa a ser conhecida, retorna a São Petersburgo, onde conhece Dimitri (John Cusack) e Vladimir (Kelsey Grammer), dois trambiqueiros que desejam encontrar uma jovem capaz de se passar pela grã-duquesa Anastasia a fim de receberem a recompensa oferecida pela avó da menina, que a procurava, sem sucesso, desde o dia em que foram separadas. Determinada a descobrir a verdadeira natureza do seu passado e sem muitas lembranças para lhe ajudar, Anya embarca rumo à Paris ao lado de Vlad e Dimitri, que durante todo o percurso lhe dão aulas de história, etiqueta e dança, de modo a prepará-la para o futuro na realeza.

Paralelamente, Rasputin (Christopher Lloyd), feiticeiro responsável pelo assassinato da família, descobre que a filha mais jovem do tsar estava viva, o que vai motivá-lo a dar continuidade ao plano de eliminar todos os descendentes da linhagem imperial. Ao contrário dos eventos originais que marcaram o declínio do império e a trágica sucessão de fatos que pôs fim à dinastia Romanov, o filme atribui o ataque ao Palácio de Inverno e a execução da família a Rasputin, que desejava tomar o poder para si. Na vida real, contudo, Grigori Rasputin jamais alegara ter poderes próprios, tendo oferecido apenas seus serviços como curandeiro à família real, sobretudo ao jovem Alexei, que sofria de hemofilia. Porque a doença do jovem tsarevich não era de conhecimento público, tanto a corte quanto a população não viam a relação entre o curandeiro e a família com bons olhos, responsabilizando Rasputin por muitas das decisões controversas tomadas pelo tsar ou pela tsarina. Longe de ser um homem santo — muitos eram os relatos sobre as orgias das quais participava, além do seu inegável alcoolismo —, é difícil saber até que ponto a presença de Rasputin influenciou a tomada de decisões políticas, tampouco traçar os limites da relação entre ele e a família, especialmente com Alexandra e suas filhas, com quem muitos acreditavam que mantivesse relações sexuais.

Com o tempo, os boatos ganharam tamanha proporção que o próprio Nicolau viria a afastá-lo de sua família, em oposição à esposa, que continuava a acreditar em suas boas intenções. Mas mesmo o distanciamento não seria suficiente para reverter a impopularidade da família ou a insatisfação do povo russo. Mais tarde, o ódio que muitos sentiam por Rasputin o levaria a ser assassinado, não sem antes ter sofrido inúmeros ataques, dos quais continuava a sair com vida. No filme, porém, Rasputin é tão somente o vilão que era necessário ser; o homem que instigara o ataque ao palácio e que pôs fim a uma família inteira.

Maria, Olga, Anastasia e Tatiana.                             

Muitas das mudanças presentes na adaptação fizeram com que o filme fosse duramente criticado por historiadores à época de seu lançamento — o que não o impediu de utilizar algumas referências interessantes, como os figurinos inspirados em vestimentas tradicionais da família real ou o gosto de Nicolau pela natação e o costume de nadar ao lado dos filhos, referenciado na cena em que Anastasia sonha com o pai e os irmãos durante uma viagem de navio. Nada disso faria de Anastasia um filme mais engajado com a realidade, mas são mudanças compreensíveis diante do contexto de um conto de fadas. Mesmo os bailes que habitam a memória de Anya não eram uma realidade, ao menos não por completo e sobretudo durante os anos que antecederam a Revolução Russa, quando o país havia recém saído de uma guerra e celebrações já não aconteciam com frequência na corte. A riqueza e os grandes bailes referenciados pela animação, no entanto, não são de todo uma mentira, visto que aconteceram em um passado relativamente mais distante e que, por muito tempo, os Romanov foram considerados a família mais rica do mundo.

Ainda que, em 1997, a origem de Anna Anderson não fosse mais um mistério, ela não seria a primeira, muito menos a última, a alegar ser uma grã-duquesa, fosse Anastasia ou qualquer uma de suas irmãs. Ao mesmo tempo, a falta de informações sobre a localização dos corpos dos dois últimos membros da família manteria vivo o mito da garota que fugira de seu trágico destino, vivendo anonimamente em sequência por vários anos. No caso do filme da 20th Century Fox, isso significava não apenas dar à grã-duquesa uma narrativa completa, mas também um final feliz. Assim, mais do que reencontrar a avó e ser reconhecida como herdeira legítima dos Romanov, Anya tem a chance de vingar sua família, e por fim encontra um grande amor em Dimitri, a quem descobre ser o mesmo rapaz que anos antes a salvara durante o ataque ao palácio. O fato de ter sido lançado alguns anos após o fim da União Soviética também ajuda a explicar por que Anastasia aponta a revolução socialista como fruto de mera barbaridade, e ignora aspectos mais complexos que motivaram o conflito, como a pobreza e a fome que assolavam o país desde a ascensão de Nicolau II e, principalmente, durante a Primeira Guerra Mundial.

Mesmo hoje, quase dez anos após a confirmação da morte dos sete Romanov, a família continua a ser tema de novas produções: em 2016, o musical Anastasia foi inaugurado na Broadway, enquanto mais recentemente, Matthew Weiner, criador de Mad Men, confirmou estar trabalhando em uma série antológica sobre pessoas que acreditam ser descendentes da família real russa, intitulada The Romanoffs. A Netflix, por sua vez, também anunciou a produção de The Last Czars, série documental de seis episódios centralizada na queda do império Romanov. Cem anos após a sua morte, o mito de que um dia membros da realeza caminharam livremente entre nós parece estar mais vivo do que nunca.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui

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2 comentários

  1. Eu fiquei presa na leitura do começo ao fim. Eu nunca tinha lido a história real da Anastasia e dos Romanoffs. Amei o texto, interessante e bem escrito! Espero que as novas adaptações façam sucesso a ponto de termos um live-action de Anastasia, porque mesmo sendo totalmente diferente da história real, ainda é um conto de fadas muito bom!

    1. Oi, Isabela! Muito obrigada pelo comentário, fico muito feliz que você tenha curtido o texto!
      Concordo demais que o filme é ótimo enquanto conto de fadas e mesmo que esteja muito distante da realidade, ele também serve como porta de entrada pra que muita gente se interesse pela história real da família e saia em busca de fatos concretos sobre um passado que é muito, muito rico. Torço demais pra que novas adaptações sejam feitas. <3