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Kim Gordon: A Garota da Banda

A primeira vez que ouvi falar sobre o Sonic Youth foi na letra de uma música. O ano era 2008, eu tinha 15 anos e me interessei pela banda o suficiente para descobrir que o som deles não fazia o meu estilo. De lá pra cá, alguns anos se passaram e é verdade que, eventualmente, aprendi a curtir uma ou duas músicas na banda — não o suficiente para me converter completamente ou mudar minha opinião geral sobre o som que eles faziam. Nada disso, no entanto, me impediu de colocar as mãos em A Garota da Banda, livro de memórias da Kim Gordon, ex-baixista e vocalista do Sonic Youth e também um dos maiores nomes do rock alternativo.

Lançado no ano passado, A Garota da Banda não se restringe à trajetória de Kim no Sonic Youth, percorrendo episódios da infância e da adolescência, além do início da carreira como musicista, passando pelos perrengues para se tornar uma artista, os dramas e conflitos de bastidores, as dificuldades de ser a única mulher em uma banda de rock, os relacionamentos que a marcaram ao longo do caminho e a maternidade. Ela, no entanto, decide começar a história pelo final, durante o último show do Sonic Youth, em 2011, em um festival de música em São Paulo. É o fim da banda — que nunca chegou a ser oficialmente anunciado — que marca também sua separação de Thurston Moore, vocalista e guitarrista do Sonic Youth, com quem dividiu os palcos e a vida por quase 30 anos.

Kim Gordon

Nascida em Rochester, interior de Nova York, em abril de 1953 — um lugar de céu cinzento, folhas escuras e invernos intermináveis, como ela destaca —, Kim viveu na cidade até os cinco anos, quando seu pai foi convidado para ser professor do Departamento de Sociologia da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e levou toda a família com ele. Foi na Califórnia que ela viveu a maior parte da sua infância e adolescência, uma experiência nem sempre boa, mas nem sempre ruim. Gordon conta que, durante a adolescência, havia passado tempo demais oscilando entre querer ser vista como atraente e estar aterrorizada em chamar muita atenção para si mesma. A Los Angeles no final da década de 60 e início da década de 70 era, segundo ela, um lugar tão hostil que o simples fato de caminhar por uma rua sozinha podia ser assustador para uma mulher, e o medo e a vulnerabilidade são aspectos essenciais para entender o conflito entre a necessidade de pertencimento e o desejo de passar despercebida.

Com o fim do ensino médio, Kim decidiu tirar um ano de folga antes de retornar aos estudos — a saída que encontrou para adiar sua ida para a Santa Monica College e buscar uma alternativa que, de preferência, a levasse diretamente para a CalArts, escola de artes fundada em 1961 por Walt Disney. Desde muito cedo, ela sabia que a arte seria o seu caminho — e, se por um lado, não sabia exatamente como chegar lá, por outro, nunca permitiu a si mesma pensar em fracassos ou em carreiras alternativas. Diferente de muitos jovens, Kim possuía uma base familiar muito sólida e que a apoiavam em suas decisões, embora não pudessem bancar os seus sonhos. Assim, ela se viu correndo atrás deles por conta própria, trocando de cursos e faculdade, casa e cidade, enfrentando dificuldades e trabalhando exaustivamente até, de fato, encontrar o seu lugar.

Foi de volta a Nova York, aos 27 anos, que Kim conheceu Thurston Moore e os dois formaram o Sonic Youth. Mas mesmo antes ela já havia tido outras experiências na música, em partes motivada pela vontade de estar em cima de um palco ao lado de outros homens, de ser a pessoa que olha de dentro para aqueles que estão de fora e não aquela que observa tudo a uma certa distância. Somente mais tarde ela percebe que estar em uma banda só com garotos era uma experiência mais solitária do que divertida, e que eles dificilmente eram capazes de compreendê-la, ou a suas necessidades e a complexidade de ser uma mulher naquele contexto.

Kim Gordon

Não que ela fosse a única. Ao longo de sua jornada, Kim esbarra com mulheres em situações muito parecidas, não necessariamente na música, mas em áreas ainda muito masculinizadas e muito solitárias para uma mulher, com quem podia dividir suas angústias e até mesmo criar outros projetos. A Garota da Banda fornece um vislumbre menos glamouroso sobre o que significa ser a garota em uma banda de rock, desconstruindo um pouco da magia que parece cercar as pessoas que ali estão inseridas. Kim conta que, uma vez em cima do palco, ela não pensava no fato de ser uma mulher porque a única coisa que a preocupava era em fazer as pessoas se divertirem e não arrebentar uma corda do seu baixo. Mas a percepção externa ainda era muito diferente, e, conforme aponta, mulheres que não se importavam em ser delicadas ou controladas em cima do palco — como Janis Joplin e Billie Holiday — eram vistas de maneira muito diferente dos homens — eles se transformavam em mitos; elas, em loucas. Nesse sentido, ela destaca a importância de movimentos como o Riot Grrl, liderado por Kathleen Hanna, do Bikini Kill, na década de 1990, e a criação do termo girl power, mesmo que, não muito tempo depois, esses conceitos tenham sido utilizados para vender as Spice Girls — que, segundo Kim, eram mulheres moldadas dentro de um perfil feminino falso e que só serviam para reforçar estereótipos já vigentes.

Eram padrões tão fortes e nocivos que mesmo suas convicções muito firmes e precisas não funcionavam como uma barreira 100% eficiente. Apesar de todas as tentativas, não se encaixar continuava a ser um motivo de angústia, e esconder sua sensibilidade ou fingir que não se importava, não fazia diminuir sua necessidade de agradar ou melhorava uma confiança sempre tão abalada. A letra de “Shaking Hell”, não por acaso, tem uma relação direta com esse sentimento, além de fazer referência a representação da mulher no cinema e na publicidade.

“Em um nível mais pessoal, ‘Shaking Hell’ espelha minha luta contra minha própria identidade e a raiva que sentia sobre quem eu era. Toda mulher sabe o que eu quero dizer quando digo que as meninas crescem com um desejo de agradar, de ceder seu poder para outras pessoas. Ao mesmo tempo, todo mundo conhece os modos às vezes agressivos e manipuladores com os quais os homens muitas vezes exercem poder no mundo, e como, ao usar a palavra empoderamento para descrever as mulheres, os homens estão simplesmente mantendo seu próprio poder e controle.” 

Da mesma forma, muitas das suas letras falam sobre a experiência de ser a única mulher naquele cenário específico — no caso, do rock — e das experiências vividas ali, às quais desmembra também em suas memórias. São muitas as situações constrangedoras e irritantes com as quais ela precisa lidar, mas nenhuma talvez seja tão evidente quanto o interesse público em saber “como era ser uma mãe do rock”, coisa com a qual Thurston não precisava lidar, ainda que Coco não tivesse sido concebida por Kim sozinha.

Embora o livro também percorra a relação de Kim com outros artistas (sendo a mais significativa delas, muito provavelmente, sua amizade com Kurt Cobain), os projetos idealizados e o fim de seu casamento, é ao desconstruir a imagem idealizada das mulheres no rock que ela transforma seu livro em algo tão especial. Crescemos sob um imaginário coletivo do que é fazer parte de uma banda, o que é estar sob os holofotes, e a perspectiva de uma pessoa que de fato esteve ali por um logo período de sua vida, é uma oportunidade de finalmente olhar para dentro. Kim conclui o livro dizendo que acredita ser uma pessoa completamente nova, e a sensação que fica, após a leitura, é de que nunca mais enxergaremos o rock da mesma forma outra vez.


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