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Mulheres que incomodam: por que os homens odeiam a Capitã Marvel?

Capitã Marvel, o primeiro grande lançamento do Universo Cinematográfico Marvel com uma protagonista feminina nem precisou estrear nos cinemas para garantir seu lugar na longa lista de obras boicotadas por uma boa parcela do público nerd masculino. O motivo parece estar relacionado a algumas declarações de teor feminista feitas por Brie Larson, intérprete da protagonista, enquanto promovia o filme. A atriz pediu por mais diversidade nos tours de imprensa, para que as equipes de jornalistas presentes nas coletivas estivessem divididas igualmente entre homens e mulheres. Embora seus comentários indicassem apenas um esforço na busca por igualdade, parte do público interpretou isso como um ataque a homens brancos. A partir disso, grupos começaram a se mobilizar para avaliar negativamente o filme em plataformas como o Rotten Tomatoes. As principais alegações presentes nos comentários desses fãs acusavam Brie Larson de ser “sexista e racista”, e afirmavam que a presença de “protagonistas como ela” no cinema estaria destruindo a cultura pop. Isso nos leva a questionar: o que uma personagem como Carol Denvers/Capitã Marvel tem de diferente que tanto incomoda algumas pessoas?

Embora a presença de personagens femininas em filmes com apelo ao público nerd ainda seja escassa, a ocorrência de situações como o recente boicote a Capitã Marvel já é bem comum. Casos semelhantes ocorreram em produções como Mad Max: Estrada da Fúria (2015), Caça-Fantasmas (2016) e Mulher-Maravilha (2017). As justificativas variam bastante de um caso para o outro, porém, no geral, a principal queixa envolve não só a presença, mas principalmente a forma como as mulheres presentes nessas obras se comportam — tanto as personagens, como as atrizes que as interpretam. Dizer que uma parcela masculina simplesmente não gosta de ver mulheres em filmes é uma explicação um tanto simplista e insuficiente para dar conta dessa problemática. É sempre bom lembrar que existe também uma longa lista de mulheres que esses fãs adoram ver no cinema. A personagem Lara Croft do mundo dos games, por exemplo, foi por muito tempo uma queridinha do público masculino. Personagens como Arlequina (Margot Robbie) de Esquadrão Suicida, a Viúva Negra (Scarlett Johansson) de Os Vingadores e até Ramona Flowers (Mary Elizabeth Winstead) de Scott Pilgrim Contra o Mundo, são relativamente apreciadas por esse público. Mas, afinal, o que leva algumas personagens femininas a serem amadas, enquanto outras são frequentemente atacadas pelo mesmo público?

Embora não dê para generalizar e querer entender todos esses fãs como uma massa homogênea, podemos encontrar boas explicações para esse comportamento se entendermos melhor os traços e metas femininas aceitáveis. O termo aplicado para a ficção é uma criação colaborativa da wiki TV Tropes, um projeto que tem como objetivo identificar, catalogar e analisar padrões narrativos presentes especialmente em produtos da cultura pop. A ideia consiste na percepção de que existem na nossa cultura certas carreiras, objetivos e características consideradas “femininas”. Esse tipo de noção atravessa completamente nossa realidade, de modo que toda pessoa do sexo feminino em algum momento irá se deparar com os limites que delineiam socialmente suas personalidades e ações. O que se desviar da norma deverá ser combatido. Quando aplicamos essa noção a personagens fictícias, fica claro que a aprovação está interligada ao quão aceitável ela é pela forma como apresenta seus traços e objetivos tipicamente femininos.

capitã marvel

Vejamos, por exemplo, os casos de personagens como Lara Croft, Velma Dinkley (Scooby-Do) e She-Ra (She-Ra: A Princesa do Poder). Todas elas já foram extremamente amadas pelo público masculino e posteriormente criticadas após o lançamento de versões menos sexualizadas das mesmas personagens. Percebam que o incômodo do público nunca esteve direcionado simplesmente ao fato dessas personagens existirem. A preocupação existe a partir do momento em que a personagem deixa de satisfazer esse público com os traços femininos esperados, nesse caso: sensualidade.

Mas é claro que nem tudo tem a ver com hipersexualização. Às vezes, o incômodo pode vir de um simples sorriso, ou, no caso da Capitã Marvel, a falta de um. Em setembro do ano passado, quando foi divulgado o primeiro trailer do filme, Brie Larson enfrentou suas primeiras críticas por não sorrir o suficiente. Na época, a atriz respondeu postando em suas redes sociais cartazes editados de outros super-heróis da Marvel com um grande sorriso. A resposta simples e inteligente da atriz deixou mais do que claro que o incômodo com a falta de sorriso não tinha nada a ver com a sua atuação, e sim com o que o público espera de uma personagem feminina.

Para além da questão visual, há também os objetivos e comportamentos que esse público espera dessas personagens. Sempre que uma mulher não possui o amor de um homem como principal motivação, quando a carreira parece estar à frente do casamento ou do interesse pela maternidade, ela tende a ser criticada. Esses princípios advém diretamente de um ideal feminino extremamente romantizado e que pouco se relaciona com mulheres da vida real, já que a vida de nenhuma mulher se resume à busca por um relacionamento. Ainda assim, os traços e metas femininos aceitáveis parecem influenciar a recepção a todo tipo de história e isso se complica em narrativas que são tradicionalmente — e erroneamente — direcionadas ao público masculino.


Embora a situação atual possa parecer finalmente um tanto animadora para o público feminino — já que, apesar dos ataques, filmes com protagonistas femininas que incomodam estão indo bem em termos de bilheteria e Capitã Marvel segue batendo recordes — vale lembrar que os valores esperados das mulheres tendem a continuar influenciando por muito tempo realidade e ficção. Avançamos um pouco, mas estamos longe do ideal. O público masculino que não quer ver certas mulheres nas telas influenciou a indústria por muito tempo e fará de tudo para ter de volta as franquias aos seus moldes. Um bom exemplo disso é o futuro “novo” Caça-Fantasmas, que deve sair com a direção de Jason Reitman, filho do diretor dos dois filmes originais, Ivan Reitman, que será o produtor. O longa ainda está em fase de pré-produção, mas já conseguiu mostrar que pretende ignorar todo o reboot de 2016 sob a justificativa de tentar “devolver” a franquia aos fãs. A notícia incomodou não só o público que havia gostado do reboot, como também o elenco, que se sentiu desrespeitado pelo modo como o novo projeto está sendo realizado. A atriz Leslie Jones, que interpretou Patty Tolan no filme de 2016 e foi vítima de ataques racistas, comentou sobre o caso em seu Twitter:

“Tão insultante. Tipo, foda-se a gente. Nós não contamos. Parece algo que o Trump faria. (Voz do Trump) “Vamos refazer os Caça-Fantasmaaaas, melhor com os homens, será um sucesso. Essas mulheres não são tão fantasmagóricas… tão irritantes. Filme tão idiota. E eu não dou a mínima, eu estou dizendo algo!!”

A recente situação com a franquia dos Caça-Fantasmas é importante para lembrar que a representação feminina no cinema tem mudado não graças a uma indústria predominantemente masculina que de uma hora para outra resolveu rever seus valores. Se hoje vemos personagens que conversam melhor com o público feminino, isso se deve à presença de mulheres na produção desses filmes, atrizes que passaram a exigir melhores papéis, e principalmente os bons resultados que os filmes com personagens femininas vêm alcançando em termos de crítica e bilheteria. Em suma, precisamos dessas mulheres que incomodam, tanto quanto elas precisam de nós para resistir.

Natália Dias é publicitária apaixonada pelos afazeres da vida acadêmica. Viciada em histórias, gosta de se aventurar pelo cinema sul-coreano e narrativas de horror. Jura que sabe o que quer da vida, mas seu maior hobby é refazer planos. 

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7 comentários

  1. Parabéns pelo o texto, realmente não consigo entender o porque de muitos homens NERDS fazerem isso principalmente porque há um tempo atras ser NERD era algo estranho e diferente, deveriam entender melhor o quão difícil são para as mulheres poderem contar suas historias da forma e do jeito que quiserem sem se preocupar com estereótipos imposto por essas industrias do entretenimento.

    1. Achei que o público não gostava da Capitã Marvel pq a atriz era uma pessoa sem carisma e suas interpretações não empolgaram ninguém, mas é só pq ela interpreta uma mulher forte. É por isso que o público odiou tanto o filme da Mulher Maravilha né?

  2. Lembro disso no filme Jogos Vorazes, ouvi muito macho dizer que se fosse um homem no papel principal teria sido mais foda. Eu nem tive o que dizer, só ri, porque foi ultrajante demais.
    Macho se incomoda com mulher forte né, independente, e ainda nos chamam de sexo frágil – ÇEI ¬¬

  3. Eu concordo muito com seu texto. Mas esse comentário da Leslie Jones foi MUITO sem noção, sendo que foi o filme que ela participou que ignorou completamente os dois anteriores, não o contrário. Daí o dela não fez sucesso por vários motivos (machismo foi um deles, obviamente), o estúdio resolveu seguir com a cronologia anterior, e não com a cronologia do remake e ela ficou ofendida. Não fez sentido algum o comentário dela. Bola fora. Mas enfim, Capitã Marvel foi um bom filme, nunca duvidei que seria