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O revival de Kate Bush

A essa altura do ano você provavelmente já ouviu “Running Up That Hill (Make a Deal with God)” em absolutamente todos os lugares, de um reels no Instagram de uma blogueira mostrando o look do dia até o TikTok de uma banda emo fazendo uma versão diferente da icônica canção. O fato é que o efeito Stranger Things foi capaz de recolocar não apenas a canção em questão em evidência como também Kate Bush, sua compositora e intérprete.

“Running Up That Hill (Make a Deal with God)” está presente no quinto álbum de estúdio da cantora, Hounds of Love, de 1985, e retornou às paradas musicais após aparecer na já citada Stranger Things, inclusive alcançando um novo pico na Billboard Hot 100 e entrando na quarta posição do chart musical mais importante dos Estados Unidos, levando a artista a conquistar seu primeiro hit no concorrido Top 5 da parada. Muito seletiva a respeito das reproduções de suas canções em filmes e séries, em entrevista a NME, Kate Bush disse que cedeu os direitos de “Running Up That Hill” para a produção dos irmãos Matt e Ross Duffer por ser muito fã da série — e quanto a isso só temos a agradecer por nossa sorte, visto que o mesmo aconteceria, no lançamento da Parte 2 da temporada, com “Master of Puppets”, do Metallica.

A canção de Kate Bush, além de belíssima por conta própria, casa perfeitamente com as batalhas emocionais que a personagem Max, interpretada por Sadie Sink, tem passado na série desde que teve que lidar com a morte trágica de seu irmão no final da terceira temporada. Somando a isso a incrível interpretação de Sadie Sink, cujo emocional transparece em toda a sua atuação, e uma direção de cena que evidencia o tom de urgência do que se passa com a personagem, temos um dos momentos mais intensos de toda a série — e “Running Up That Hill” se encaixa com absoluta perfeição à atmosfera criada pelos irmãos Duffer, combinando a letra já carregada da melancolia de Kate Bush ao arranjo de orquestra trabalhado especialmente para a série.

O interessante por trás da canção, escrita há mais de 30 anos, é que ela fora batizada por Kate Bush apenas como “Make a Deal with God”, mas sua gravadora da época achou que o título afastaria a produção das rádios de países vistos como mais religiosos, como Itália, França, Irlanda e Austrália. Sendo assim, a canção foi rebatizada da maneira como a conhecemos atualmente e fez seu caminho ao estrelato, sendo regravada, anos mais tarde, por bandas como Within Temptation e Placebo, versões lançadas em 2003, e pelas cantoras Meg Myers, em 2019, e Kim Petras, em 2022. A ideia de Kate Bush para a canção nasceu primeiro do padrão de bateria escrito a seu pedido, que se tornou a base da música que conhecemos. A letra fala sobre como homens e mulheres são diferentes e que para que pudessem ser compreendidos um pelo outro talvez fosse interessante que trocassem de lugar por um momento. Para Kate, se pudéssemos trocar os papéis por um instante, ficaríamos surpresos com o que poderíamos descobrir a respeito do outro. Essa relação não fica só na base das diferenças entre homens e mulheres, mas de relacionamentos como um todo.

Mas não é só de “Running Up That Hill” que é feita a carreira de Kate Bush. Nascida em 1958, em Bexleyheath, Reino Unido, Bush começou a escrever canções enquanto ainda era criança. O ambiente familiar rodeado de músicos amadores — seu pai tocava piano e um de seus irmãos fabricava instrumentos musicais — fez com que a jovem Kate logo mergulhasse também na cena musical, aprendendo piano e violino por conta própria, e mais tarde aprimorando suas habilidades estudando no convento escolar Abbey Wood. A atmosfera da casa em que cresceu, repleta dos costumes irlandeses da mãe ao lado da natureza da fazenda em que ficava a propriedade da família, refletiriam mais tarde na forma como ela escreveria suas canções, encontrando inspirações em um paraíso quase mágico e etéreo, sempre refletido em suas composições. Aos dezesseis anos, Kate assinou seu primeiro contrato com uma gravadora após ter chamado a atenção de ninguém menos do que David Gilmour, do Pink Floyd, que a ajudou a financiar suas primeiras fitas demo. David era amigo do irmão de Kate, John Carder, e ficou encantado quando a presenciou tocando piano e cantando na casa da família. Ainda que tenha assinado o contrato com a EMI, Kate Bush não lançou nenhum álbum em seus dois primeiros anos de contratada, concluindo a escola durante esse período. Em uma entrevista à rádio BBC, em 2005, ela revelou que a EMI preferiu mantê-la sob contrato mesmo sem lançamentos apenas para que nenhuma outra gravadora pudesse tê-la em seu quadro de artistas.

Porém, mesmo que não estivesse lançando álbuns por meio da EMI, Kate se mantinha ativa e chegou a compor mais de 200 canções nesse período, que mais tarde ficariam conhecidas como Demos: The Phoenix Recordings, e performando em Londres com sua KT Bush Band. O primeiro álbum de estúdio da cantora foi lançado quando Kate tinha apenas 19 anos — The Kick Inside, de 1978, que conta com algumas das canções que Kate Bush escreveu enquanto terminava o colégio, inclusive a famosa “Wuthering Heights”, escrita baseada no livro O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights, em inglês), de Emily Brontë. A música estourou, levando Kate Bush a alcançar o primeiro lugar dos charts do Reino Unido, tornando-se a primeira mulher a fazê-lo com uma canção escrita por ela mesma.

Na sequência de The Kick Inside, veio Lionheart, lançado apenas nove meses após sua estreia. Em entrevistas, Kate chegou a dizer que não se sentia plenamente satisfeita com seu segundo álbum, principalmente pelo fato de tê-lo produzido com muita pressa, algo que não era de seu feitio. Mesmo assim, foi com Lionheart que a cantora e compositora fez sua primeira — e única — turnê, a Tour of Love, em 1979. Foi nesse período que Kate começou a se sentir incomodada com a exposição que recebia sendo uma celebridade, sentindo que estar na mira dos jornais e tabloides a afastava de sua arte e real objetivo enquanto cantora e compositora: suas músicas. E foi em torno do período em que esteve em turnê que Kate Bush decidiu começar a se retirar da mídia, afastando-se aos poucos das lentes dos repórteres.

Nos períodos entre lançamentos de álbuns, Kate Bush começou a ser pouco vista, se mantendo reclusa por anos até ressurgir com um novo trabalho. Foi o que aconteceu entre os lançamentos de Never for Never, de 1980, The Dreaming, de 1982, o já citado Hounds of Love, de 1985, e The Red Shoes, em 1993. Esse se tornou o modus operandi da artista que, cansada dos holofotes, se resguardava por anos até estar pronta para lançar músicas novas. Após The Red Shoes, no entanto, seu hiato se tornou ainda mais longo, causando rumores a respeito de sua saúde e até aparência, mas o fato é que Kate Bush, que havia se tornado mãe, desejava resguardar seu filho de sua fama, assegurando-se de que ele teria uma infância protegida e normal.

O oitavo álbum de estúdio de Kate Bush, Aerial, foi lançado somente em 2005, enquanto Director’s Cut, seu álbum de regravações, chegaria apenas em 2011, precedido, no mesmo ano, por 50 Words for Snow, seu décimo álbum de estúdio. A ausência dos palcos, no entanto, ainda seguia sentida pelos fãs, visto que boa parte deles não tiveram a oportunidade de vê-la se apresentando ao vivo na turnê de 1979. Em 2014, Kate Bush anunciou uma sequência de quinze shows na Hammersmith Apollo, uma tradicional casa de shows de Londres. A residência, conhecida como Before the Dawn, não demorou a ter seus ingressos esgotados, o que levou a artista a abrir novas datas para a apresentação.

Com mais de 40 anos de uma carreira repleta de hits, a cantora ícone dos anos 1980 foi responsável por inspirar uma legião de meninas e outras cantoras/compositoras da maneira como só uma estrela singular é capaz de fazer. Tori Amos, Björk, Joanna Newsom, St. Vincent e Mitski, apenas para citar algumas, notoriamente creditaram Kate Bush como fonte contínua de inspiração. Além de “Running Up That Hill”, Kate Bush é responsável por outros sucessos como a já citada “Wuthering Heights”, mas também “Babooshka”, “Hounds of Love” e “Don’t Give Up”, sendo esta um dueto com Peter Gabriel. A cantora também possui uma seleta lista de colaborações com nomes como Prince e Elton John. As canções de Kate Bush são marcadas por vocais agudos e uma instrumentação floreada, com letras que buscam inspiração na literatura e até mesmo em obras eruditas. Kate é capaz de exprimir emoções em meio a melodias inspiradas e que transitam em atmosfera onírica, elaboradas para nos fazer transcender. O piano, o primeiro instrumento que Kate aprendeu a tocar, está sempre presente em suas composições, marcando os compassos e embalando seus versos

Como se não bastasse ser uma musicista e letrista incrível, à Kate Bush é creditado o uso pioneiro de sintetizadores do tipo Fairlight, nos anos 1980, e do microfone headset no palco — ideia que ela teve para que pudesse se mover livremente, dançar e cantar durante sua Tour of Love. Para uma mulher nos anos 1980, é incrível perceber como Kate Bush estava à frente de seu tempo, tomando as rédeas de suas canções, produzindo seus próprios álbuns enquanto fazia toda sorte de melodia, seja combinando notas etéreas e agudas, sua marca registrada, a sons pesados e graves. Outro ponto a ser notado em sua trajetória é sua retirada dos holofotes, mantendo sua vida privada e longe dos tabloides, mas ainda mantendo-se relevante em seu meio — algo pouco visto para cantoras que precisam sempre se reinventar, vide as diferentes eras, visuais e look adotados por divas pop que não podem deixar de inovar se não quiserem cair no ostracismo, algo nunca exigido de seus parceiros homens na indústria musical.

Ainda que alguns críticos da época não levassem a jovem Kate Bush a sério — falando sobre o uso “exagerado” de sua indiscutível feminilidade, sempre envolta em um ar de misticismo e esoterismo, características apontadas um viés negativo de seu trabalho em um universo predominantemente masculino —, o tempo provou que ela seria duradoura. De seu revival com Stranger Things, alcançando uma nova geração de fãs, à sua longa carreira profícua, Kate Bush mostrou que não era somente uma menina que aconteceu de trombar com um piano e começou a compor. Desde jovem, ela levou muito a sério seu ofício, produzindo e compondo as próprias canções, pensando em sua arte como algo intrinsecamente seu e sob seu controle. Kate Bush abraçou com naturalidade sua persona, usando sua feminilidade, tão criticada no início de sua carreira, como fonte contínua de poder e inspiração.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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