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É modinha ser selvática: 7 novas mulheres do rock para conhecer e amar

Não é novidade que o rock sempre foi um terreno ocupado por homens, em que lugar de mulher era na condição de musa ou de groupie admiradora. Mas também não é novidade que, apesar do cenário hostil, as mulheres sempre estiveram por aí, com pés e guitarras na porta, reivindicando seu espaço e gritando para que abrissem espaço para outras mulheres na frente e em cima dos palcos. Não estamos mais nos anos 60 e há quem diga que o rock foi sepultado faz tempo, muito por causa da sua relutância em se diversificar e acompanhar os novos tempos e as novas vozes.

Mesmo o legado de nomes como Debbie Harry, Stevie Nicks, Alanis Morissette e outras mulheres do rock que citamos em nossa lista de formação parecem estar confinados numa eterna nostalgia. No entanto, existem mulheres fazendo música boa hoje, mulheres de uma nova geração do rock que combinam referências de várias épocas e estilos, que usam as redes sociais para publicar suas canções direto dos seus quartos e ainda produzir posts e tweets, que aprenderam a tocar sozinhas ou que estudaram música na faculdade. São mulheres jovens que têm algo a dizer e nos dão um motivo para continuar prestando atenção no menino rock, seguindo firme adiante.

Any Other

Any Other é uma banda italiana liderada por Adele Nigro, que assina as composições, canta e toca guitarra. Ao lado dela estão Erica Lonardi, na bateria, e Marco Giudici, no baixo. Os dois, no entanto, chegaram depois, quando a essência da banda já estava formada e essa essência é toda de Adele. Depois de sair de sua antiga banda, The Lovecats, aos 21 anos, a artista pensava sobre qual seria o seu próximo passo e se aquele era o fim de sua carreira na música. Antes de desistir, no entanto, ela agendou alguns shows sozinha e começou a apresentar com um violão acústico algumas músicas que tinha feito e que depois fariam parte do primeiro EP do Any Other, Sonnet #4, gravado em apenas dois dias.

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Em 2015, já com a formação completa, a banda lançou o álbum Silently. Quietly. Going Away, com músicas que são tudo aquilo que se espera de uma coleção de experiências de uma mulher de 20 e poucos anos se perguntando como é caminhar sozinha no mundo e dizendo as coisas da forma como as vê. O olhar de Adele é melancólico e poético e a roupagem indie rock das músicas faz com elas pareçam saídas dos anos 90. Recentemente Adele Nigro foi chamada de “melhor artista italiana” pela Rolling Stone local, pouco tempo depois da publicação lançar uma lista com os melhores álbuns italianos dos últimos tempos sem um único nome feminino. O fato não passou despercebido por Adele, que disse em entrevista ao The Attic que para o próximo álbum da banda, que sai ainda este ano, ela não pretende mais falar com jornalistas homens sobre como é ser uma mulher no meio musical, menos ainda se isso for servir como “pørnografia” para destacá-la na cena em nome de uma boa manchete, mas ignorando tudo de legal que tem sido feito fora do radar condicionado dos homens brancos heterossexuais.

Em tradução direta do italiano, sua mensagem é: parem de lacrar e ouçam as vozes ao seu redor, a sua é só o começo.

Carne Doce

Carne Doce é uma banda goiana formada por Salma Jô e outros quatro caras. Digo assim, sem citar nomes, não para lançar um shade gratuito aos outros músicos, que são muito competentes, os responsáveis por uma parte importante da experiência de ouvir Carne Doce, que é o instrumental pesado, às vezes psicodélico, que se espalha em faixas de mais de cinco minutos. Com todo o respeito aos rapazes, no entanto, Salma Jô, vocalista e compositora, é a alma da Carne Doce, que guia todo o resto.

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Sua voz tem um timbre muito característico, marcante, alto e pode até ser incômodo no começo para quem não está acostumada com o estilo. Foi incômodo para mim, inclusive, mas é impossível parar de ouvir porque suas palavras fazem o papel de te envolver até aquele vozeirão te engolir. Princesa, segundo álbum da banda, lançado em 2016, ganhou fama de disco feminista, embora essa não tenha sido a intenção inicial da artista, de fazer um manifesto político. O que ela fez foi falar sobre suas experiências sem medir palavras, e assim surgiram músicas como “Artemísia”, em que fala sobre aborto, “Amiga”, sobre solidão, com espaço para a doçura surpreendente de “Eu Te Odeio”. Todo esse sucesso faz nascer uma expectativa para o terceiro disco, que deve sair ainda esse ano, e que Salma definiu como “um tiro no escuro”, com potencial para ser diferente do que esperam os fãs. Hinário feminista ou não, podemos confiar no taco de uma artista que alerta em “Falo”, música sobre a presença feminina na música: não é modinha ser selvática, porque ela sempre foi assim, e há de continuar sendo. Amém.

Lucy Dacus

Quando estreou em 2016 com o single “I Don’t Wanna Be Funny Anymore”, Lucy Dacus tinha tudo o que precisava para um debute indie de sucesso na internet: ela era uma garota tocando guitarra cantando uma música ácida sobre os estereótipos que garotas são forçadas a se enquadrar para pertencer. A engraçadinha. A bonitinha. A groupie. A menina das artes. Lucy não queria ser nenhuma delas e também não queria mais sorrir para deixar os outros confortáveis, e esse tom, presente em muitas das letras de No Burden, seu álbum de estreia, fizeram com que fosse comum chamá-la de Daria da nova geração em críticas e perfis. Para além do humor ácido e das alfinetadas, foi a consistência e a qualidade de seu trabalho que fizeram com que pouco tempo depois a artista de 20 anos do interior da Virginia fosse cortejada por várias gravadoras até escolher assinar com a Matador Records, casa do Yo La Tengo, uma de suas bandas favoritas.

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Em Historian, lançado em 2018, Lucy Dacus mostra novamente porque merece toda essa atenção e prestígio. Nas letras, que ela considera o cerne de seu trabalho, a compositora mergulha fundo em sua obsessão por registrar o tempo e documentá-lo, aceitando o desafio de registrar acontecimentos e emoções quando elas estão acontecendo. Essa urgência faz sentido quando há tanta perda nas letras: a de um amor e confiança em um ex-namorado abusivo, tema de “Night Shift”, que abre o disco, até a morte, no caso de “Pillar of Truth”, escrita ao pé da cama da avó que morreria em breve. Melodicamente, ouvimos sempre sua mesma guitarra que vai crescendo ao longo da música e esperar por sua explosão nunca fica chato e sua voz nos traz conforto mesmo quando canta sobre abismos profundos. Em entrevista, ela conta que seu único ritual de palco é sempre passar batom vermelho (Ruby Woo, da MAC, caso você esteja curiosa) porque isso a força a parar para prestar atenção e sinto que é exatamente isso que suas músicas nos levam a fazer.

Mitski

Mitski Miyawaki tem 27 anos, é filha de mãe japonesa e pai americano, já morou em 13 países diferentes durante a infância e a adolescência, e começou a fazer as próprias músicas porque sentia que essa era a única coisa nesse mundo que realmente poderia lhe pertencer. Mitski gravou sozinha todos os instrumentos de seus quatro álbuns lançados até agora, contando com ajuda apenas do produtor Patrick Hyland, que esteve com ela em todos os seus trabalhos. Por já ter se mudado tantas vezes, esse controle é uma forma de garantir que ela sempre consiga tocar suas músicas, independente das circunstâncias. Mitski também faz questão de reivindicar o controle sobre suas composições e não deixa que tomem seu ofício como reações passionais aos acontecimentos só porque suas músicas são profundamente emocionais e honestas. Ela canta, sim, sobre amor, raiva, solidão e acerta em todos os nossos nervos, com guitarras ruidosas e uma voz melódica, única, sempre no tom certo; e ela quer que todos saibam que isso é fruto de talento, esforço, escolhas artísticas racionais e conscientes.

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Mitski reconhece como sua história e sua identidade racial fazem com que seja fácil transformá-la num estandarte da diversidade, e é difícil não pensar nisso ao ouvir “Your Best American Girl”, sua música de maior sucesso. No entanto, em entrevistas e textos de redes sociais ela também faz questão de dizer que nem tudo que ela faz é sobre raça ou gênero, embora tudo seja sobre raça ou gênero. “Your Best American Girl” é sobre amar demais uma pessoa de um mundo diferente, um descompasso universal, e reivindicar o direito de ser uma garota normal é um de seus maiores gestos políticos. Em agosto, Mitski lançará seu quinto álbum, Be The Cowboy, que já teve dois singles divulgados: “Geyser” e “Nobody”. Neste último ela fala sobre se sentir sozinha de um jeito que é quase constrangedor de tão honesto, o tipo de coisa que ela faz de melhor e já nos dá motivos para aguardar ansiosamente esse novo lançamento.

Soccer Mommy

Sophie Allison é o nome por trás de Soccer Mommy, que lançou seu primeiro álbum de estúdio, Clean, em 2018, um tempo depois de começar a publicar suas músicas — que ela mesmo descreve como “chill but kinda sad” — no Bandcamp. Sophie cresceu em Nashville e passou a adolescência frequentando rodinhas e bares de pessoas — garotos — que faziam música, mas nunca abriram espaço para ela. Pouco antes de se mudar pra Nova York, onde foi para fazer faculdade, ela decidiu mostrar seu trabalho para o mundo e romper por conta própria com o clube do bolinha que conhecia.

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Embora seja um trabalho de estúdio bem acabado e produzido, o estilo lo-fi de Soccer Mommy faz com que as músicas do álbum ainda soem como se Sophie estivesse gravando por conta própria dentro do seu quarto da adolescência a partir de letras saídas direto de um diário. Clean é todo sobre relacionamentos amorosos e desilusão, um registro das primeiras experiências de uma mulher que acabou de completar 21 anos e cresceu tendo Avril Lavigne, Hilary Duff e Taylor Swift como referências líricas e românticas, e não aponto isso como um demérito. É especialmente reconfortante a forma como ela consegue transitar entre o desconforto de saber que está melhor sem aquele amor que só trouxe decepção, mas nem por isso se livra do desejo de ser amada e desejada por ele, de ser a garota legal e descolada que costuma ser o objeto de desejo dos garotos pelos quais ela insiste em se apaixonar. Ela quer ser legal desse jeito, mas também rejeita ser feita de cachorrinho, sentimentos que surgem em “Cool” e “Your Dog”, respectivamente, duas coisas aparentemente contraditórias, mas que fazem parte da confusão que é ser uma jovem mulher, amar e descobrir quem se é o que se quer ser nesse mundo. Fazer isso funcionar — e ainda parecer cool — é o grande trunfo de Sophie Allison, nossa nova melhor amiga famosa.

St. Vincent

Talvez o nome de Annie Clark — a mulher por trás de St. Vincent — destoe um pouco dos outros da lista por se tratar de uma artista mais conhecida, experiente e até mesmo consagrada que os outros nomes já citados. Não sei nem se é possível enquadrar seu som na caixinha do rock, mas rockstar é a única coisa que penso ao vê-la se apresentando ao vivo. Aos 35 anos de idade, Annie lançou em 2017 seu sexto álbum de estúdio, MASSEDUCTION, cuja capa mostra ela de bunda virada para o público, num cenário plastificado e marcado por cores muito vibrantes.

O álbum veio com a missão de suceder seu aclamadíssimo trabalho anterior, autointitulado, e, como sempre, o que ela entregou não era nada daquilo que esperávamos quando anunciou que faria um álbum que refletisse o momento político atual. MASSEDUCTION funciona como um bom passeio por todos os estilos explorados em sua discografia até agora, bem como suas referências, ao mesmo tempo que flerta com novo, já que agora ela trabalha com Jack Antonoff, um dos produtores do momento. Nas letras, Annie assume o papel da personagem dominatrix e o universo que constrói em suas letras é puro vício e excesso, com batidas eletrônicas e barulhentas, como a faixa título, mas que também encontra espaço para inesperados e bem-vindos momentos de calma, em que sua voz brilha sozinha de um jeito que faz chorar, como em “Hang On Me”. Acredito que o forte teor de frescor e subversão que existe em seu trabalho seja aquela ruptura idealizada que fez o rock nascer há algumas décadas e St. Vincent tem feito um bom trabalho em mantê-lo vivo, seja ela roqueira ou não.

Willow

A vida de Willow Smith é extraordinária o suficiente para que aos 17 anos ela tenha lançado seu segundo álbum, considerado maduro pela crítica, quase 10 anos depois de sua estreia no mundo da música, com o hit “Whip My Hair”, feito quando ela tinha apenas 10 anos de idade. Willow é filha de Will Smith e Jada Pinkett Smith, irmã de Jaden Smith, uma garota que cresceu com acesso a artistas e oportunidades extraordinárias, com chance de explorar toda possibilidade que aparecesse. E mesmo assim, em “Boy”, faixa que abre The 1st, ela fala sobre o medo de parecer chata aos olhos do menino que gosta, justamente por viver num mundo cercado de estrelas e que isso pode ser assustador para quem vê de fora.

É esse tipo de honestidade crua misturada com clássicas angústias adolescentes e reflexões sobre gênero e liberdade sexual que fazem seu trabalho tão interessante e, sim, maduro. Depois de pirar e experimentar bastante em seus trabalhos iniciais, parece que Willow está se encontrando nessa sonoridade que mistura folk e rock alternativo, uma coisa meio anos 90 — um salto até distante para uma autêntica representante da geração Z pós-millennial — sem deixar de lado o caminho percorrido até aqui, com forte influência R&B. “Boy” parece quase boba diante de outros momentos mais inspirados do álbum, como “Romance” e “And Contentment”, mas é um momento que o álbum e artista brilham por se aconchegar nessa vulnerabilidade, mostrando ao que vieram, e permitir que ela alcance até mesmo as estrelas.

** A arte em destaque é de autoria da editora Thayrine.

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