Categorias: ENTREVISTA, LITERATURA

Clube do Livro dos Homens + Entrevista com a autora Lyssa Kay Adams

O Clube do Livro dos Homens, escrito pela norte-americana Lyssa Kay Adams, e lançado no Brasil pela Editora Arqueiro, traz uma trama um pouco diferente para aqueles que são consumidores ávidos de livros de romance. Neste primeiro livro da série, conhecemos Gavin, um jogador famoso de beisebol que está no ápice de sua carreira. Enquanto as coisas vão muito bem no âmbito profissional, na sua vida pessoal, no entanto, as coisas vão de mal a pior. Ele está prestes de se divorciar da esposa, Thea, contra sua vontade. Acontece que Gavin pisou na bola e Thea não suporta mais uma vida em que precisa se anular em prol do marido e continuar presa em uma relação sem diálogo e transparência, em que tudo é feito no automático.

Thea atinge o seu limite quando Gavin descobre que ela nunca teve um orgasmo em todo o tempo em que estão casados e que ela fingia na cama. Com seus sentimentos feridos pela mulher, ele não entende que a insatisfação de Thea vai muito além da cama e que o recém descoberto fato é apenas o estopim para ela pedir o divórcio, e não o único motivo. Então, é aí que o Clube do Livro dos Homens vem em resgate de Gavin.

“— O que você vai derrubar?
— As estruturas de poder do patriarcado.
Ele piscou, sem entender.
— Uma parede — completou ela.”

Formado por colegas de time e amigos do nosso protagonista, o grupo tem como objetivo ajudar os homens a expressarem seus sentimentos, entenderem melhor a visão das mulheres sobre relacionamentos e a tratá-las como merecem. Tudo isso, por meio da leitura e discussão de livros de romance. Em um primeiro momento, Gavin acha a ideia ridícula e todos os seus pré-conceitos e estereótipos de masculinidade o fazem desdenhar dos ensinamentos e conselhos que seus colegas tentam transmitir, mas ele realmente quer reconquistar Thea e não vê outra saída a não ser começar a ler o livro indicado pelo Clube, Cortejando a Condessa, e buscar não apenas priorizar a sua mágoa e indignação com todo o seu relacionamento, mas também tentar entender sua esposa e, de fato, conversar com ela.

“(…) nos convencemos de que é difícil demais entender nossas parceiras. Mas o problema na verdade somos nós. Achamos que não devemos sentir coisas, chorar e nos expressar.”

Alguns leitores de romance podem ficar frustrados quanto ao desenrolar de O Clube do Livro dos Homens, uma vez que a autora prioriza muito mais a jornada emocional de Gavin do que a de Thea. Mesmo que o livro seja contado alternando o ponto de vista dos protagonistas, Gavin recebe muito mais atenção na construção de suas motivações do que Thea. Ao meu ver, no entanto, Clube do Livro dos Homens funciona muito bem para introduzir leitores ao romance, especialmente homens, uma vez que além de apresentar a ideia de homens conversando abertamente sobre emoções, sentimentos e relacionamentos, traz também momentos bastante didáticos sobre masculinidade tóxica, misoginia e sobre livros de romance em geral, colocando tais temas em pauta de forma que funcionam muito bem na história.

Para alguns, talvez, já familiarizados com estas discussões, a leitura pode se tornar um tanto enfadonha; em mim, teve o efeito contrário. Senti algo novo e esperançoso ao ler homens fazendo um esforço deliberado para combater os comportamentos e pensamentos que seus cérebros foram programados para reproduzir pela sociedade, enquanto provam que ler livros recheados de romance e cenas fofas não é, de maneira nenhuma, algo sobre o qual se envergonhar.

“(…) é um exemplo de como a masculinidade tóxica permeia as coisas mais mundanas. Se as mulheres gostam de alguma coisa, a sociedade debocha delas automaticamente. O mesmo acontece com os romances. Se as mulheres gostam, é porque devem ser ridículos, né?”

Com isso, Lyssa Kay Adams consegue criar uma história instigante, com uma premissa ótima, e um casal que nos proporciona uma dinâmica interessante de se acompanhar, mesmo que alguns pontos pudessem ter sido melhor trabalhados. A autora ainda consegue nos deixar ansiosa para os próximos livros, cada um deles focados em um dos personagens participantes do Clube do Livro. Além disso, a história deve ganhar ainda mais alcance nos próximos anos, já que a Netflix adquiriu os direitos autorais da obra e pretende transformá-la em um filme.

Li Clube do Livro dos Homens graças ao clube do livro de romances organizado por Gabriela Graciosa Guedes. Foi em um desses encontros online que tive a chance, junto com as demais integrantes do clube, de bater um papo descontraído e incrível com a autora do livro, Lyssa Kay Adams. Além disso, a Gabriela também comanda um projeto muito legal de discussão de leituras em inglês combinado com encontros com os autores dos livros chamado The Book & Conversation Club.

A seguir, confira alguns trechos da conversa que tivemos com a autora.

Debora Theobald: De onde veio a inspiração para escrever um livro em que a história gira em torno de um Clube do Livro de Romances apenas para homens? Por que você decidiu contar a história deste ponto de vista, focando nos homens e na criação de um clube do livro por eles?

Lyssa Kay Adams: Eu recebo muito essa pergunta. Existem, na verdade, duas razões pela qual esse livro é assim. Primeiro, foi o fato de que, nós, autores de livros de romance, temos uma piada recorrente em que brincamos que desejávamos que homens lessem mais livros de romance porque assim se tem um visão maior do que mulheres querem em uma relação, como elas querem ser tratadas, as conversas que querem ter e também como enxergam o mundo, o que muitas vezes é muito diferente de como os homens o veem. Então, eu sempre tive essa ideia de livro, em que seria muito legal uma história em que um cara começasse a ler livros de romances para conquistar uma garota.

Além disso, também foram quatro anos muitos difíceis para nós e, neste ano, nos livramos de um presidente muito impopular, Donald Trump. Durante a eleição, em 2016, muitas mulheres estavam vindo a público, contando como haviam sido assediadas sexualmente por ele e, então, tivemos um episódio em que uma gravação foi divulgada pelo site Access Hollywood em que ele estava rindo e se vangloriando por ter assediado sexualmente mulheres. Foi tão horrível, e acho que, como muitas mulheres norte-americanas, eu meio que cheguei a um limite. Chega disso, pensei, dessa ideia de que homens são assim e que nós devemos aceitar esse comportamento deles. Assim, foi quase uma terapia criar esse mundo no qual temos esse grupo de homens que estão ativamente tentando se tornar homens melhores e combater essa masculinidade tóxica, por isso, eu pensei ‘por que não colocá-los lendo livros de romance enquanto tentam se tornar pessoas melhores?’.

Amanda Karolyne: Como você construiu o Gavin? A personalidade dele, que tipo de homem ele seria e, principalmente, a gagueira dele?

L.K.A.: Gavin foi um personagem que viveu na minha cabeça por muito tempo. Eu sou uma grande fã de beisebol e sempre quis escrever um jogador de beisebol que não se encaixasse no estereótipo de um atleta profissional. Nós tendemos a pensar neles como pessoas super confiantes, cheios de arrogância, charme e dentro do padrão de masculinidade. Mas, e se você tiver um atleta profissional que na verdade é super inseguro com mulheres e vulnerável? Então, eu construí Gavin a partir deste pensamento. E na minha mente ele sempre teve gagueira, não sei bem porquê… sempre foi assim. Eu acho que ajuda a explicar porquê ele é inseguro e porque ele demorou a ter experiências com mulheres, e essa falta de experiência é um dos motivos pelos quais ele tem problemas com sua esposa, Thea. Eu acho que a gagueira adiciona um toque de vulnerabilidade ao personagem que normalmente não é associada a atletas.

Gabriela Graciosa Guedes: Eu descobri o seu livro graças a matéria publicada na Men’s Health sobre o clube do livro criado pelo atleta Jason Rogers. Você escreveu sobre homens lendo romances, esperava que eles começassem a criar clubes do livro como o da ficção na vida real, começando a ler livros de romance e depois até outros tipos de livros?

L.K.A.: Quando escrevi esse livro meu público-alvo sempre foi o costumeiro público que lê romance, ou seja, mulheres, em sua maioria. Então, nunca esperei alguém como Jason Rogers, um atleta olímpico, escolher meu livro e criar um Clube do Livro. É incrível. Uma das coisas mais gratificantes que vem acontecendo desde que o livro foi lançado é a quantidade de homens que tem entrado em contato comigo para dizer que eles sempre foram leitores de romance e que estavam felizes em se ver representados em um livro ou para me dizer que eles descobriram os livros de romance por causa do meu, e como eles estavam perdendo a oportunidade de ler ótimas histórias.

D. T.: Sabemos que na maior parte do tempo romances são subestimados e desprezados apenas por serem algo feito por mulheres e lido, em sua maioria, também por mulheres. Como você acha que a discussão que Clube do Livro dos Homens traz sobre masculinidade tóxica, vulnerabilidade e homens refletindo sobre suas emoções pode ajudar a quebrar o enorme tabu que estigmatiza esses livros?

L.K.A.: Eu acho que esse tabu vem cada vez mais sendo quebrado. Parte dessa conversa que estamos tendo na sociedade é simplesmente “dar” permissão para os homens para se expressarem, afinal, a sociedade te disse durante todos esses anos que esses tipos de livros são apenas para mulheres… adivinhe? Você não tem que ouvir o que a sociedade te disse. Você está perdendo de ler livros de ótimos escritores e histórias incríveis. Então, parte dessa conversa é apenas dizer “ei, permissão concedida, você pode ler livros de romances, eles também são para você”. Mas também acho que, durante os últimos cinco ou sete anos, tem ocorrido um grande movimento por parte de autores muito maiores do que eu de dar ao romance o respeito que merece. Autores como Sarah McLean tem feito tanto para quebrar o estereótipo negativo ao redor de romances. Não sou a primeira, nem a última, a tocar nesse assunto, e espero que meu livro continue ajudando a avançar essas discussões de como esse preconceito com esse tipo de livros está ligada ao sexismo. Afinal, se é algo que mulheres gostam, então deve ser frívolo, né?

D. T.: Você falou sobre Sarah MacLean e eu me lembrei de Bridgerton. Acho que a adaptação dos livros pela Netflix foi um grande passo para o mercado de livros de romance.

L.K.A.: Também acho. Todos nós que lemos e escrevemos romances quando assistimos Bridgerton percebemos que essa foi a primeira vez em que um livro de romance foi, verdadeiramente, trazido à vida, para a tela, de um jeito que capte tudo aquilo que nós realmente amamos sobre romances. Eles não tentaram amenizar as cenas de sexo, a tensão sexual ou mudar a trama para que o romance não fosse uma parte tão central. Foi tão refrescante ver e por ter sido tão bem-sucedido eu espero que Hollywood e produtores prestem mais atenção e percebam que as pessoas querem ver o romance sendo trazido à vida para as telas deste jeito.

D. T.: Um dos discursos feitos por homens sobre romances é como eles criam um padrão alto e inalcançável para eles de como ser e de como agir, especialmente, emocionalmente. Como você vê isso? Acha que essas expectativas criadas são realmente altas e difíceis de serem alcançadas?

L.K.A.: Essa crítica sobre livros de romance, como criam expectativas irreais nas mulheres sobre o que elas deveriam ou não esperar de um relacionamento com um homem, sempre me faz pensar o que tem de irreal em esperar igualdade em um relacionamento? Por que é injusto que uma mulher deveria querer um homem que tem inteligência emocional? Ou esperar que duas pessoas se comuniquem de um jeito maduro para resolver os seus problemas? Então, quando eu escuto isso, em particular de homens, minha reação sempre é “se você acha que isso são altos padrões o se padrão é provavelmente bem baixo” (risos). Eles não são padrões altos, a sociedade só nos ensinou que eles são e é hora de ensinar algo novo. Por isso, para mim, essa também é uma das razões pelas quais homens deveriam ler livros de romance porque mulheres não estão pedindo muito. Nós só estamos pedindo para você, homem, não agir como se fosse um mistério o que queremos para o Natal. Se você nos conhece provavelmente sabe o que queremos. Estamos pedindo para você nos dar um abraço quando estamos tristes, ou felizes. E também para não nos assediar; não acho que isso seja pedir muito.  Eu acho que é algo muito triste que homens foram ensinados que essas coisas básicas são difíceis de fazer, mas espero que isso seja algo que consigamos começar a mudar cada vez mais.


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