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O arco das mulheres em Vingadores: Ultimato – esperanças e decepções

Em Guerra Infinita, terceiro filme dos Vingadores e obra que abriu definitivamente a saga de Thanos dentro da Marvel, existe uma cena onde Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) está lutando com a vilã Proxima Midnight (Carrie Coon) e, basicamente, perde. “Você vai morrer sozinha”, ela diz. E é aí que acontece um dos momentos mais legais — e até emocionantes — do filme: a Viúva Negra diz que não, ela não está sozinha, e ela, Proxima e a leal Okoye de Wakanda começam a lutar entre si. Um ano atrás, essa cena foi animadora porque durante dez anos, as mulheres não foram prioridade na Marvel. Longe disso. De 22 obras do estúdio, apenas duas são protagonizadas por mulheres (sendo uma delas a Vespa, que divide o protagonismo com outro herói), e nenhuma delas é negra. Com essa fala lembro de ter pensado que as coisas iriam mudar. E parece que vão mesmo, embora a verdade seja que Vingadores: Ultimato não conseguiu ignorar seu legado da primeira década.

Atenção: o texto contém spoilers!

Essa pequena, porém muito significativa cena foi tão bem recebida pelo público que gerou uma muito parecida em Ultimato, na qual todas as heroínas se juntam para ajudar a Capitã Marvel a proteger a Manopla de Thanos (Josh Brolin) durante a batalha final entre os Vingadores. Dessa vez, no entanto, tudo pareceu mais superficial.

Ninguém está questionando a qualidade do filme. É raro um fã da Marvel que tenha acompanhado os dez primeiros anos e não tenha saído satisfeito com o jeito que encerram a trama de Tony Stark (Robert Downey Jr.), o Homem de Ferro, ou de Steve Rogers (Chris Evans), o Capitão América. Mas vários meses após a estreia do longa, uma pergunta ainda permanece: por que a Viúva Negra, uma integrantes originais dos Vingadores, não teve o mesmo tratamento que os personagens masculinos? A resposta é clara, e está estampada em qualquer produção dos estúdios até então (com exceção de algumas obras pontuais que chegaram praticamente atrasadas, como Guardiões da Galáxia, Pantera Negra, Capitã Marvel e até certo ponto, Homem-Formiga e a Vespa).

Esse é um texto análise sobre as mulheres em Ultimato e como os filmes da Marvel influenciaram seus arcos. Como alguma delas foram “mortas” por Thanos em Guerra Infinita, vou comentar apenas sobre aquelas que ficaram e qual o impacto que tiveram na narrativa.

Viúva Negra

Viuva Negra (Vingadores: Ultimato)

Resiliente, ambígua e integrante do grupo original dos Vingadores. A trajetória de Natasha Romanoff (Scarlett Johansson) foi interrompida dentro do MCU após ela e Clint Barton (Jeremy Renner) irem à procura da Joia da Alma — mesma narrativa que matou Gamora em Guerra Infinita. Para resgatar a pedra, tem de haver um sacrifício e, em ambos os casos, o preço foi uma personagem feminina morta. Em um momento até tocante, Natasha e Barton disputam para ver quem vai morrer pelo “bem maior” e ajudar a parar Thanos. O resultado é mais do que previsível: Natasha acaba caindo do precipício, enquanto o Gavião Arqueiro sai enaltecido e pronto para lutar para recuperar sua família, que desapareceu com o estalo do vilão. Justamente ele, um personagem que literalmente virou assassino e buscou justiça de uma forma equivocada.

A verdade é que Natasha teve esse final porque, durante dez anos, a Marvel não ligou muito para a personagem. A forma como ela foi introduzida na história diz muito sobre isso: um flerte ocasional para Tony Stark. Sim, ela já lutava e foi sugerido uma coisa ou outra sobre o seu passado complicado — ou seja lá o que aconteceu em Budapeste —, mas não dava para afastar essa sensação ao acompanhar Homem de Ferro 2. Em Capitão América: Soldado Invernal, o tratamento melhorou um pouco. Depois, em Era de Ultron, quando Joss Whedon não soube o que fazer com a personagem, foi criado um romance meia-boca entre ela e Bruce Banner (Mark Ruffalo).

Os tempos, no entanto, mudaram e ela cresceu. Em Guerra Civil é a primeira vez que exploraram com dignidade sua ambiguidade como agente dupla e, finalmente, em Ultimato, Viúva é uma mistura de vulnerabilidade, força e esperança, o que é representado inclusive em seu cabelo meio loiro meio ruivo. É ela que comanda as operações para deixar a Terra em ordem e é ela que impulsiona todos os personagens a procurarem uma alternativa, um fio de esperança. Ela não pode seguir em frente, porque se não quem irá fazer o seu trabalho?

Scarlett Johansson, inclusive, tem uma das melhores performances do longa inteiro e a evolução da personagem é clara também pela atuação da atriz, que parece tão empenhada e envolvida com Natasha quanto o público. Quando a personagem morre em Ultimato, fica claro o motivo de a Marvel ter resolvido finalmente dar um filme solo para a mesma. Depois de uma década negligenciando sua trajetória, não tinha como encerrar seu arco dentro do MCU daquela forma injusta e que prioriza Clint e sua busca por redenção. O longa de Viúva deve sair em algum momento de 2020, e será dirigido por Cate Shortland, de A Síndrome de Berlim.

Nos quadrinhos, Natasha tem sagas pequenas, mas que cabem e funcionam entre si. Explorar esse aspecto no cinema talvez seja a forma de dar o encerramento necessário para a personagem, algo que ela merece. Afinal, antes ela não tinha nada, mas aí ela ganhou a família dos Vingadores. É a obrigação da Marvel fazer justiça à personagem. Mesmo assim, tenho a sensação de que só vou realmente acreditar que esse filme é uma realidade quando sentar na cadeira do cinema e assisti-lo.

Okoye

Okoye (Vingadores: Ultimato)

É justo dizer que Okoye é uma das personagens mais queridas do MCU hoje. Isso foi provado quando a Marvel “esqueceu” de colocar o nome de Danai Gurira no pôster oficial de Ultimato e a internet se uniu para fazer justiça à atriz, que logo teve seus devidos créditos acrescentados. A guerreira de Wakanda, no entanto, aparece bem pouco na obra.

Sua principal função nesses cinco anos que se passaram foi cuidar de Wakanda, que perdeu seu Rei e todos os seus sucessores. Fazer com que uma nação não colapse diante de tamanha crise é algo muito complicado e algo que merecia (e poderia!) ter sido mostrado pelas câmeras. É compreensível que existam muitas tramas para serem abordadas e muitos personagens com os quais lidar, mas Wakanda teve uma importância tão grande em Guerra Infinita, que é decepcionante não ver as consequências do massacre por lá. De qualquer forma, o futuro da personagem no cinema é algo que me anima, assim como descobrir outras nuances da sua personalidade tão leal, bem como um pouco mais sobre o seu passado.

Nebulosa

Karen Gillan, a eterna Amy Pond de Doctor Who, vive uma das personagens mais apáticas e práticas da Marvel — e também tem uma das trajetórias mais satisfatórias dentro do estúdio. Quando Nebulosa apareceu pela primeira vez em Guardiões da Galáxia, foi principalmente para desenvolver um lado de Gamora (Zoe Saldana), sua meia-irmã e protagonista do longa. Ela era uma vilã (nem sequer a principal da trama) submissa ao seu pai e, inicialmente, parecia que sua jornada não iria muito além disso. No segundo filme dos Guardiões, no entanto, Nebulosa não só ganhou um destaque maior, graças à interpretação magnífica de Karen Gillan, como sua relação com a meia-irmã também foi melhor explorada e ali, a Marvel achou seu ouro.

Em Ultimato, Nebulosa é uma heroína. Ela não só participa ativamente do plano para reverter a situação que seu pai causou, como também é uma das personagens mais humanas e bem desenvolvidas. Eis aqui a questão: o último longa dos Vingadores é sobre resiliência, perda, redenção. Quem melhor para representar isso tudo do que uma personagem que foi, durante a maior parte de sua trajetória, privada de uma vida comum pela busca insana de Thanos pelo poder?

Esse desenvolvimento não quer dizer que Nebulosa tem uma grande mudança na sua personalidade ranzinza e que fez dela um personagem tão marcante. Ela continua basicamente a mesma, quebrando cenas leves com sua sinceridade ameaçadora e brutal. Seu nascimento como uma Vingadora, no entanto, vem de uma forma natural, da sua empatia, do seu livre arbítrio, da necessidade de fazer as coisas darem certo e compensar o comportamento do pai.

Durante a produção, a Nebulosa do passado volta para o presente para ajudar Thanos e, eventualmente, enfrenta sua versão atual com a Gamora do passado. Esse arco não só reforça a evolução da ciborgue dentro do longa e a leva adiante, como também une ainda mais as irmãs. O padrão de abuso imposto por Thanos é o suficiente para garantir que elas confiem uma na outra porque, assim como irmãos na vida real, elas eram as únicas que sabiam e entendiam exatamente o que tinha acontecido no passado.

Arrisco até dizer que os dois momentos mais tocantes de Ultimato envolvem Nebulosa. O primeiro, quando, em um ato repentino de empatia, ela dá sua última porção de comida para Tony Stark; e minutos mais tarde, quando ela senta ao lado de Rocket (Bradley Cooper) e silenciosamente dá a mão para ele. Ambos perderam basicamente toda a família que tinham — e o peso disso cai ali, naquela cena quieta e simples. Não precisa de mais. Alguns vilões da Marvel são citados só para, mais tarde, desaparecerem para sempre. Durante um momento, pensei que esse seria o caso de Nebulosa. Ainda bem que não foi. Seu arco é incrível e um dos mais satisfatórios não só das personagens femininas em si, mas de todos eles. As possibilidades para ela no futuro estão abertas e James Gunn — que já demonstrou carinho pela personagem — deve encerrar sua jornada em Guardiões da Galáxia 3.

Capitã Marvel

Capitã Marvel (Vingadores: Ultimato)

Deixei Carol Danvers (Brie Larson) por último porque ela é, sem dúvidas, a personagem feminina mais importante da Marvel hoje e com certeza um dos destaques da próxima fase — lado a lado com T’challa (Chadwick Boseman), o Pantera Negra. Existia uma expectativa muito grande ao redor da personagem e sua participação ativa em Ultimato — mas o resultado foi… decepcionante.

Para começar, os poderes de Carol são muito superiores aos de literalmente qualquer herói já mostrado até então. Em questão de alguns minutos, ela chega na história e segura Thanos para que os Vingadores recuperem as joias. É por esse motivo que é justo que ela proteja todos os territórios fora da Terra, justamente porque não existe ninguém com seu alcance e seu poder. Isso não quer dizer que sua falta de interação com os outros personagens não seja uma decepção em si. Mas, como em todos os casos apresentados aqui, o buraco é mais fundo e complexo do que isso.

O filme da Capitã Marvel deveria ter saído no começo, quando histórias de origem de Rogers ou Stark ainda estavam sendo conduzidas. Essa sensação é algo que fica claro na estrutura do filme solo da heroína (que tem que preencher muitas lacunas) e deixa um gosto amargo na boca dos fãs. Sua participação reduzida em Ultimato também se dá pelo fato e pela necessidade de deixar Rogers e Stark como os heróis e encerrar seus arcos. Como deixar uma mulher chegar e acabar com a luta em segundos?

Existe um rumor na internet que um dos maiores projetos da Marvel é adaptar Os Supremos para as telas, liderados pela Capitã e o Pantera. Nos quadrinhos, o grupo orbita a Terra e protege a mesma de ameaças que vem de fora. Talvez (e só talvez) as coisas mudem para ela e, assim como Steve Rogers e Tony Stark, no futuro exista um filme que encerre seu arco perfeitamente. É esperar para ver.

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