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Uma Vida Pequena: um estudo sobre traumas

A leitura de Uma Vida Pequena, livro escrito por Hanya Yanagihara publicado no Brasil pela editora Record com tradução de Roberto Muggiati, não é uma tarefa fácil. Para além do peso do livro de mais de 700 páginas — o que você pode remediar lendo a edição digital caso exista essa possibilidade —, a trama é densa, com camadas sobre camadas de vida, morte, sofrimento e agonia, com pitadas de felicidade efêmera e contentamento em alguns poucos interlúdios. Pontuando dessa maneira, não parece uma leitura que alguém gostaria de fazer em qualquer circunstância, mas a escrita de Yanagihara é hipnotizante e mesmo que as tragédias se sobreponham, uma após a outra, nas vidas de seus personagens, é impossível deixar o livro de lado. De minha parte, eu queria acreditar que as coisas poderiam melhorar e que tudo ficaria bem, mas a vida real nem sempre é assim — e Uma Vida Pequena também não o é.

O livro conta as histórias de vida de um grupo de quatro amigos que se conhecem na universidade quando são jovens e sequer completaram vinte anos de idade ainda. O mundo é vasto e desconhecido, mas Jude, Willem, Malcolm e JB são jovens e não há nada que eles não possam fazer. Ainda que sejam amigos, os quatro possuem personalidades completamente opostas, mas é isso que faz sua amizade especial: mesmo que Jude prefira ficar sempre calado, observando a interagir, e que JB sempre queira ser o centro das atenções, ainda que todas essas atenções recaiam inevitavelmente em Willem, e que Malcolm sinta-se frustrado em sua profissão, eles se amam com sinceridade. No início de Uma Vida Pequena, os quatro estão saindo da faculdade, em Massachusetts, e caminhando em direção a Nova York, lugar em que pretendem arriscar tudo em busca da realização de seus sonhos e ambições. Jude se formou advogado e estuda matemática no mestrado; Willem, belo e generoso, sonha em ser ator e trabalha como garçom enquanto faz testes de elenco; JB, vindo do Brooklyn, é um pintor talentoso porém muitas vezes cruel e que fará de tudo para ter seu nome reconhecido no mundo das artes; e Malcolm, um arquiteto frustrado em tão tenra idade, trabalha em uma empresa de renome mas sabe que não é isso que deseja para si mesmo, por mais que esse desejo bata de frente com as expectativas que sua família tem sobre ele.

“Amizade era testemunhar o lento gotejar de tristezas, as longas crises de tédio e os triunfos ocasionais do outro. Era sentir-se honrado pelo privilégio de estar presente durante os momentos mais sombrios de outra pessoa e saber que você também podia ter seus momentos sombrios perto dela.”

A partir de então, acompanhamos o desenrolar dessas quatro vidas em várias décadas de amizade, com distanciamentos, brigas, sonhos realizados, frustrações, casamentos e mortes, no meio. Uma Vida Pequena passeia por cada momento das vidas de Jude, Willem, Malcolm e JB, mas a partir de determinado ponto, a narrativa foca especialmente em Jude; o misterioso, belo e atormentado Jude que cresceu fugindo de fantasmas que o afligiram durante a infância e o perseguiram até a vida adulta. Mesmo que, contra todas as possibilidades, Jude tenha se tornando um homem de meia idade bem sucedido, ele é um litigante extremamente talentoso e que impõe temor em seus adversários no tribunal, há muito sobre sua vida que nem mesmo seus amigos sabem — e é esse tormento que cada um deles, a sua maneira, tenta desvendar, tentando salvá-lo de si mesmo.

Uma Vida Pequena deveria ter, em letras garrafais, todos os alertas de gatilho possíveis: a trama de Hanya Yanagihara fala de abuso sexual, violência física, violência psicológica, pedofilia, suicídio, mutilação, relacionamento abusivo, prostituição infantil e transtornos alimentares, só para citar alguns. E, ainda assim, a autora consegue escrever sobre tudo isso de uma maneira delicada que beira o surreal: toda a trama é dolorida e triste, e após as descrições das cenas de violência e estupro, por exemplo, eu precisava deixar o livro de lado um instante simplesmente para conseguir respirar e me acalmar. Uma Vida Pequena tem um início até mesmo convencional como uma história de quatro jovens rapazes em Nova York, tentando alcançar o sucesso após a faculdade enquanto festejam e conhecem pessoas, mas a trama muda completamente de figura a cada vez que mergulhamos mais à fundo na narrativa, página após página, desvendando os traumas de Jude e o que seus amigos decidem fazer com relação a isso. Em entrevista para a Harper’s Bazar, Hanya Yanagihara disse que desejava escrever sobre um personagem que nunca melhora e jamais aceita ajuda: “Você não é capaz de salvar outra pessoa, mesmo se você quiser, mas isso não significa que você não deva tentar.” A espinha dorsal de Uma Vida Pequena é exatamente essa busca dos amigos de Jude por salvá-lo, tentando afastá-lo de seus demônios por amor a ele, mas como esse esforço nem sempre é recompensado da maneira como eles achavam que deveria ser.

Embora, no início da leitura, eu tenha acreditado em uma trama de redenção, em determinado momento uma chave simplesmente vira e você aceita que não há redenção possível para nenhum deles ali. Jude, o mais brilhante entre eles, é o que esconde as maiores dores, o que acarreta em uma tentativa de se distanciar física e emocionalmente das pessoas o quanto possível. Ele tem dificuldades para confiar nas pessoas, e não sem motivos, e aos poucos, principalmente junto de Willem, começamos a desvendar o passado de Jude — e quando digo aos poucos, é mesmo aos poucos. A narrativa se espalha pelas mais de 700 páginas entre saltos temporais, flashbacks e trocas de ponto de vista, o que transforma a leitura em algo ainda mais rico — ainda que cada vez mais dolorido. Ao descrever todos os traumas do personagem, Hanya Yanagihara cria uma atmosfera de sufocamento que apenas se intensifica na medida em que nos encaminhamos para o final do livro.

Algumas críticas internacionais pontuaram que Hanya Yanagihara extrapolou ao criar tantas dores e abusos para Uma Vida Pequena, e em determinado ponto do livro é realmente difícil de digerir tudo o que a autora escreve. Porém, pensando friamente e olhando para o noticiário, não é difícil pensar o quanto de atrocidades acontecem no mundo real e às vezes não fazemos nem ideia. Pode parecer inverossímil a sucessão de desventuras narradas por Yanagihara, abusos capazes de quebrar uma pessoa para o resto de sua vida, mas isso acontece. Colocar a ficção como uma barreira entre o que é confortável para o leitor aceitar não funciona aqui. Para o The Guardian, a autora disse:

“One of the things my editor and I did fight about,” she says, “is the idea of how much a reader can take. To me you get nowhere second guessing how much can a reader stand and how much can she not. What a reader can always tell is when you are holding back for fear of offending them. I wanted there to be something too much about the violence in the book, but I also wanted there to be an exaggeration of everything, an exaggeration of love, of empathy, of pity, of horror. I wanted everything turned up a little too high. I wanted it to feel a little bit vulgar in places. Or to be always walking that line between out and out sentimentality and the boundaries of good taste.”

“Uma das coisas sobre as quais meu editor e eu brigamos,” ela diz, “é sobre a ideia de quanto um leitor consegue aguentar. Para mim, você não chega a lugar nenhum adivinhando quanto ele consegue ou não. O que um leitor sempre pode dizer é quando você está se segurando com medo de ofendê-lo. Eu queria que tivesse muita violência no livro, mas também queria que tivesse um exagero de tudo, um exagero de amor, de empatia, de piedade, de horror. Eu queria tudo um pouco demais. Eu queria que fosse um pouco vulgar em alguns momentos. Ou estar sempre caminhando entre o limite do sentimentalismo e do bom gosto.”

A leitura de Uma Vida Pequena, não é mesmo uma tarefa fácil. Porém, arrisco a dizer que você será uma pessoa antes, e outra após a leitura. Não me coloco no lugar de indicar esse livro para todo mundo, visto a quantidade de temas presentes que podem ser gatilho, mas ele não deixa de ser uma trama importante sobre amor, amizade e empatia. Yanagihara classifica seu livro como uma parábola sobre a vida adulta: uma trama que começa cheia de possibilidades, repleta de encontros sociais, mas que se transforma em algo cada vez mais introspectivo e lúgubre. Mesmo “Os Anos Felizes”, título de um dos capítulos do livro, não parecem completos, você sabe que tem algo espreitando na próxima esquina. É assim em Uma Vida Pequena. É assim na nossa vida real. No final, você está por conta própria, mas enquanto isso, pode escolher sua própria família.

A amizade que esses quatro homens forjam com amores, dores, tristezas e alegrias com o passar dos anos, é algo mais bonito e duradouro que muitos romances, e isso é algo interessante de acompanhar. Na já citada entrevista ao The Guardian, Hanya Yanagihara comenta como se inspirou no grupo de amigos de seu melhor amigo para escrever sobre Jude, Willem, Malcolm e JB, e em como esses homens se esforçam ano após ano para permanecerem amigos. Nenhum deles é legalmente casado ou têm filhos e, para a autora, Uma Vida Pequena também se propõe a ser uma homenagem a esse tipo diferente de vida adulta, uma que não é frequentemente celebrada na ficção mas que é a vida adulta de qualquer maneira, uma vida adulta cuja base é a amizade. Visto dessa maneira, o livro se torna também uma alegoria sobre como os amigos podem ajudar a reconstruir uma vida, e quais são os limites desse esforço quando o dano é tão profundo que parece irrecuperável.

“E, por mais que não tenha se atormentado quanto à validade de sua vida, sempre se questionou por que ele, por que tantos outros, continuavam vivendo; às vezes era difícil se convencer de que isso era necessário, mas tantas pessoas, tantos milhões, bilhões, de pessoas, viviam sob uma angústia que ele não conseguia estimar, com privações e doenças que, de tão extremas, chegavam a ser obscenas. E ainda assim elas seguiam em frente.”

Ao concluir a leitura, quase não conseguindo distinguir as palavras à minha frente devido às lágrimas, eu precisei parar para respirar fundo. O trabalho que Hanya Yanagihara executou em Uma Vida Pequena tem a qualidade dos mais famosos épicos, possui uma trama que te instiga e acalenta na mesma medida. Os capítulos finais são difíceis, tristes e doces na mesma proporção — o amor presente transborda pelas páginas, assim como o sofrimento, a dor e a saudade. Ao final das mais de 700 páginas, a sensação é de ter conhecido intimamente, e de verdade, Jude, Willem, Malcolm e JB. A vontade é de abraçar Jude e dizer que o que fizeram a ele não o define. É dizer para Willem que sua bondade extravasa; olhar para a arte de JB e apontar o quanto ele transcende; ver a arquitetura de Malcolm e querer conversar longas horas sobre ela.

Os personagens, inclusive, são repletos de nuances, nem sempre completamente bons mas sempre tentando fazer o melhor. A família escolhida por eles, que se prolonga com o passar dos anos, mostra o poder da amizade, das conversas e, também, do perdão. Uma Vida Pequena é um trabalho impactante que mostra com crueza os piores ângulos da vida, mas também é repleto de interlúdios repletos de afeto e cuidado. Hanya Yanagihara criou uma representação da dor física e psicológica, um universo repleto de dor e sofrimento mas que também tem seus interlúdios de respirar fundo. Sua história é sobre memória e os limites da resistência humana.

“Você pode não entender agora, mas um dia entenderá: o único segredo da amizade, acredito eu, é encontrar pessoas melhores que você, não mais inteligentes, não mais bacanas, mas sim mais bondosas, mais generosas e mais piedosas, e tentar dar ouvidos a elas quando dizem algo sobre você, não importa o quanto seja ruim, ou bom, e confiar nelas, o que é a coisa mais difícil. Mas também a melhor.”


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