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Assim na Terra Como Embaixo da Terra: homens, violência e poder

Assim na Terra Como Embaixo da Terra não segue a linha do que costumo ler. Não é um tipo de livro que te deixa mergulhar durante várias páginas nos pensamentos e reflexões de personagens, é um livro de ação: coisas acontecem, uma atrás da outra. Também não é um livro como amamos, com protagonistas femininas marcantes e bem desenvolvidas; não é um livro com personagens femininas. Nenhuma. E isso é, logo de cara, um estranhamento.

Sei que houve um tempo em que eu provavelmente nem notaria sua ausência, mas hoje procuro por elas: onde estão as personagens femininas? Que papel elas têm na história? Como elas são descritas? Enquanto virava as páginas de Assim na Terra Como Embaixo da Terra esperei pelo surgimento dessa personagem, mas ela não veio – Ana Paula Maia não inseriu nenhuma mulher em sua trama e criou um universo de homens o que, a princípio, é um incômodo. E aí precisamos lembrar que mulheres também podem tomar suas decisões na literatura e escrever sobre o que quiserem, contando as histórias que desejarem.

Em uma entrevista publicada no blog da editora Record, Ana Paula diz o seguinte: “alguma coisa que me faz pensar ‘eu não conseguiria fazer isso, eu não poderia fazer isso’, é um ponto de partida para mim. E eu também gosto dessa observação do outro, e daí também o distanciamento do gênero, porque eu gosto muito de escrever sobre personagens masculinos […] Então, eu gosto desse distanciamento de mim mesma, e eu gosto dessa contemplação”. É uma escolha, e o universo estritamente masculino não faz com que o livro seja menos parte de uma literatura de mulheres. Afinal, é uma história contada por uma mulher – e essa é uma verdade que não muda.

Assim na Terra Como Embaixo da Terra tem como cenário uma colônia penal que está prestes a ser desativada. Os poucos presos que ainda restam – homens condenados por estupro, assassinato – no terreno murado e com fama de amaldiçoado convivem com apenas dois funcionários, o diretor do lugar e um agente penitenciário. O cenário é violento e cheio de horrores, mas inserido em um contexto real demais: Ana Paula não situa a colônia no tempo e no espaço, e a impressão que fica é que ela poderia acontecer em qualquer lugar, exatamente nas mesmas condições.

Se de um lado temos homens condenados por crimes hediondos, de outro temos uma figura de autoridade ensandecida e assassina. Melquíades, o diretor da colônia penal, com seu confinamento naquele trabalho e um abuso de poder levado ao extremo, desencadeia uma ação chocante e violenta: ele caça os presos como se fossem animais – javalis, daí a ligação com a bela capa da obra. Em pares, os detentos são postos para correr pela colônia, são caçados e mortos, enquanto buscam desesperados por uma maneira de escapar daquele cenário de loucura. Nada acontece. As “autoridades competentes” há muito não se ocupam do que acontece por ali e, assim, os confinados vão desaparecendo aos poucos.

Há quem classifique a obra de Ana Paula Maia como um livro de terror, mas até onde? A grande questão do livro é o que uma situação completamente desumanizada de confinamento pode causar nas pessoas. Não só nos detentos, mas também nas autoridades responsáveis em seu exercício de poder inconsequente e desmedido.

“Não concorda com nenhum dos atos de seu superior e sente-se terrivelmente miserável quando os presos olham para ele com clemência. Não sabe o que fazer, não foi treinado para ter compaixão ou para desobedecer. O sentimento de hierarquia o corrói como um verme.”

Sabemos que essa está longe de ser uma situação reservada unicamente à ficção: a vida real tem muito mais do que um punhado de exemplos em que coisas desse tipo acontecem, visto que Assim na Terra Como Embaixo da Terra trata de direitos humanos. A falha do cuidado nos direitos humanos, especialmente dentro sistema penitenciário, não é um tema novo na ficção. Em paralelo, temos o recente arco da quarta temporada de How to Get Away With Murder, em que Annalise Keating, interpretada pela incrível Viola Davis, leva aos tribunais um processo que denuncia a negligência institucionalizada do sistema prisional norte-americano. Mas, fora das páginas e das telas, o cenário é o mesmo. Pode ser que não tenhamos detentos sendo caçados como javalis em colônias penais, mas temos pessoas perseguidas, espancadas e executadas nas ruas – como vimos acontecer com Marielle Franco, militante dos direitos humanos morta no Rio de Janeiro no último 14 de março.

Na leitura, fica claro que, apesar de existir em um local isolado, a colônia penal não é segredo para ninguém: as pessoas de fora sabem que ela existe e sabem, também, que de alguma forma ninguém sai de lá. E não se importam. Muito do desconforto causado pela história mora na correspondência com a realidade e o tanto que (não) sabemos sobre o que acontece no nosso sistema penitenciário ou mesmo fora dele. Se no livro somos lembrados de que silêncio e olhos fechados são contribuintes de todo esse contexto, na vida precisamos lembrar ainda de que fazemos parte disso.

“O confinamento de homens assemelha-se a um curral de animais. O gado é abatido para se transformar em alimento; os homens, por sua vez, são abatidos para deixarem de existir. Não é um lugar de recuperação ou coisa que o valha, é um curral para se amontoarem os indesejados, muito semelhante aos espaços destinados às montanhas de lixo, que ninguém quer lembrar que existem, ver ou sentir seus odores.”

Ao longo das páginas, senti como se estivesse na verdade assistindo a um filme: a narrativa cinematográfica faz com que você imagine um cenário perfeitamente gráfico, atores bem caracterizados, cenas exatas que seriam vistas em uma tela de cinema. Quando corri para a biografia da autora no final do livro tudo isso fez sentido visto que além de romancista, Ana Paula Maia é roteirista. A linguagem é limpa, curta e grossa, sem firulas – algo que, segundo o que Ana Paula diz em uma entrevista para a Vice, a acompanha em seu gosto para livros de outros escritores e para filmes.

Não há espaço para reflexões, pensamentos, sentimentos e descrições psicológicas. Não chegamos a conhecer “o lado deles” – pouco é o contato que temos com passagens que nos deixam conhecer um personagem de forma mais aprofundada. O que temos são os fatos. Não vou mentir: habituada a romances psicológicos, senti falta desse aspecto. Depois, pensei no quanto a espera por esse tipo de proximidade com um personagem pode ser traiçoeira. Assim como no livro, tudo o que temos na vida são os fatos; fatos que nem sempre representam a realidade, mas são tudo o que tomamos conhecimento. De forma geral, não sabemos o que os outros estão pensando, não sabemos como se sentem, não conhecemos sua bagagem, tampouco suas razões. De quanto precisamos, afinal, para nos aproximarmos de outros seres humanos?

Assim na Terra Como Embaixo da Terra é uma leitura que passa rápido, com as cenas correndo diante dos olhos. Mas está longe de ser uma leitura simples. A cada um dos horrores narrados pela voz dura da autora, somos lembrados dos horrores que vão muito além da ficção e nos encontram todos os dias, nas verdades narradas nos jornais.


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1 comentário

  1. O título do livro já me causou curiosidade, mas a forma que sua resenha foi escrita conduziu por fim a ter esse livro como leitura obrigatória. Por ter um conteúdo e um estilo de narração que não costumo ler.