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Jenny Beavan: do drama de época ao punk rock

Se você tem o costume de acompanhar as transmissões das premiações do Oscar, pode ser que se lembre de Jenny Beavan na cerimônia de 2016: uma mulher baixinha de cabelos loiros encaracolados que recebeu sua estatueta usando uma jaqueta de couro com aplicações de pedrarias nas costas. O visual de Beavan contrastava com os das demais convidadas da cerimônia, seus vestidos esvoaçantes e saltos altíssimos, mas certamente a figurinista chamou a atenção por onde passava por levar nas costas de sua jaqueta o símbolo de Immortan Joe, personagem de Mad Max: Estrada da Fúria, filme pelo qual recebia o Oscar de Melhor Figurino naquela noite.

O trabalho de criação de figurino em Mad Max não foi o primeiro de Jenny Beavan que já havia recebido dez outras indicações e, inclusive, um outro Oscar, em 1987, que compartilhou com John Bright, por Uma Janela para o Amor. Nascida em Londres, no Reino Unido, em 1950, Beavan frequentou a antiga London’s Central School of Art and Design e não demorou para iniciar sua carreira no cinema. O primeiro filme em que trabalhou, como assistente de figurino, foi The Europeans, de 1979 — ao lado do já citado John Bright — e de lá pra cá já são mais de quarenta anos de profissão e quarenta e cinco filmes no currículo. A seguir, você acompanha um pouco da trajetória da designer e alguns de seus trabalhos mais emblemáticos.

Uma Janela para o Amor (1987)

Estrelado por Helena Bonham Carter, Maggie Smith e Denholm Elliott, Uma Janela para o Amor (A Room With a View, no original), foi apenas o segundo trabalho de Jenny Beavan no cinema, mas já a alçou ao estrelato ao fazê-la vencedora do Oscar de Melhor Figurino em 1987, prêmio, como já citado, que a designer compartilhou com John Bright. Uma Janela para o Amor é um drama de época inglês e que tem todas as qualidades que amamos no gênero: uma jovem da aristocracia que não aceita ser controlada, um jovem libertino sem papas na língua e um relacionamento que choca toda a sociedade inglesa. Baseado no romance escrito por E.M. Foster, publicado em 1908, foi adaptado para as telas por Ruth Prawer Jhabvala com direção de James Ivory. Além do Oscar de Melhor Figurino, a produção também recebeu os prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção de Arte.

Lucy (Bonham Carter em sua primeira protagonista) está viajando pela Florença ao lado de sua preceptora, Charlotte Bartlett (Smith), quando conhece George (Julian Sands). O encantamento da jovem pelo rapaz faz com que ambos entrem em relacionamento não visto com bons olhos pela aristocracia inglesa, causando comoção na família da jovem. Ambientado em 1907 e com cenários que passeiam entre a Itália e a Inglaterra, Beavan e Bright precisaram se ater ao estilo eduardiano, em vigor na época em que a trama se passa, com vestidos que eram estruturados com espartilhos que forçavam os corpos das mulheres a ficarem eretos, elevando o busto e empurrando os quadris para trás. Dessa forma, as mulheres ficavam com uma silhueta que lembrava a forma ‘S’, considerada mais saudável e de agrado do Rei Eduardo VII.

Durante o filme é possível ver as personagens, principalmente a aristocrática Lucy, usando muitos chapéus, luvas, sombrinhas delicadas, blusas e saias em formato de sino. As rendas eram adoradas e aplicadas à profusão nos vestidos, blusas e complementos. Se durante o dia os vestidos cobriam a maior parte do corpo, com mangas bufantes, casaquetos e luvas, durante a noite o colo era ostentado ao gosto do rei. Beavan e Bright não usaram todo o orçamento do filme em grandes vestidos de luxo, então, durante Uma Janela para o Amor, é possível ver que algumas peças foram reutilizadas em diferentes cenas, dando um senso maior de realidade para a produção — mesmo na aristocracia, é natural que as pessoas coloquem novos usos em suas peças, adaptando-as de acordo com as necessidades das atividades em que estão envolvidos. Para além dos belos vestidos, os trajes de dia a dia, mais casuais, também são incorporados à narrativa de maneira perfeita, com os personagens de fato usando as roupas certas para os momentos certos, seja enquanto jogam tênis ou quando rolam na grama, em um furor de amor.

Razão e Sensibilidade (1995)

Uma das autoras mais queridas — e adaptadas — de todos os tempos é Jane Austen, e para o filme de Razão e Sensibilidade, de 1995, o diretor Ang Lee chamou Jenny Beavan para a criação do figurino. O livro, lançado em 1811, conta a história das irmãs Elinor (no longa, interpretada por Emma Thompson) e Marianne (Kate Winslet), e expectativas, vivências e sonhos das duas ao redor da perda, do amor e da esperança que permeiam suas vidas. O trabalho de Jane Austen mostra as vidas das mulheres da época em meio a uma sociedade rígida, repleta de regras e injustiças para aquelas fadadas às dificuldades por não ter um fortuna para chamar de sua, presas em um mundo dominado por interesses e influências. O filme de 1995 é uma das versões mais queridas pelos fãs de Austen, tanto pelo elenco de qualidade que ainda conta com Alan Rickman e Hugh Grant, quanto pela adaptação em si.

Em questão de figurinos, Beavan — e, seu parceiro aqui também, John Bright — se aproxima muito mais da moda dos anos 1790 do que do final do século XVIII, este sendo o período em que o livro se passa e foi escrito por Austen. Buscando inspiração nos trabalhos de artistas ingleses como Thomas Rowlandson, John Hopper e George Romney para compor as peças do figurino, os trabalhos de pesquisa da dupla também envolveu longas visitas ao Victoria e Albert Museum, em Londres, e a análise das chamadas “fashion plates”, ilustrações que demonstram os estilos de roupas usados em determinadas épocas e que podem ser do tipo gravuras ou litografias pintadas à mão.

Os figurinos ajudam a compor os personagens, mostrando ao público suas características e diferenciando-os dos demais. Para Elinor, sensata e prática, a dupla de designers optou por acessórios simples e chapéus de palha, enquanto para a esnobe e obtusa Fanny foram reservadas as roupas mais cheias de babados, penas, joias e tecidos caros. Edward Ferrars (Grant), sempre aparece com roupas abotoadas para representar sua personalidade reprimida, enquanto Fanny também tem sua superficialidade destacada pelo uso de vestidos chamativos e coloridos. O coronel Brandon (Rickman), enquanto isso, é considerado o herói romântico no que Beavan e Bright chamaram de “masculinidade experiente e confiável”, ostentando, ao resgatar Marianne, uma camisa desabotoada e gravata solta.

Mad Max: Estrada da Fúria (2015)

Parece no mínimo curioso que depois de passar por tantos figurinos de dramas de época — além de Uma Janela para o Amor e Razão e Sensibilidade, Jenny Beavan também foi responsável pelo figurino de Howards End de 1992, Jane Eyre de 1996, Para Sempre Cinderela de 1998, Anna e o Rei de 1999, entre outros — a designer fosse parar na trama pós apocalíptica que é Mad Max: Estrada da Fúria. Produzir os figurinos para o filme de George Miller foi um salto para fora de uma zona de conforto em que Beavan estava há anos, mas o risco se pagou na forma da estatueta que a designer levou para casa naquela noite de 2016, ostentando em sua jaqueta de couro e pedrarias um dos personagens do filme responsável por sua vitória.

Em entrevista para o The New York Times, Beavan contou como iniciou o processo para desenvolver os figurinos do filme assistindo aos primeiros Mad Max, estrelados por Mel Gibson. A designer queria encontrar uma maneira de incorporar os antigos elementos do velho Mad Max ao novo, interpretado por Tom Hardy. Para ela, era importante que o personagem de Tom Hardy não fosse encarado como um substituto para o interpretado por Mel Gibson, então, dessa forma, ela manteve a jaqueta de motociclista, além de calças e botas que lembravam o uniforme policial dos filmes antigos, mas adicionou acessórios originais que pudessem refletir o passado militar de Max Rockatansky (Hardy): pulseiras de nylon com nós, cordas, facas, lenços para proteger do sol e da poeira, camisa de manga comprida com tecido térmico e tudo o que fosse útil no cenário desolado em que o filme se desenrola.

Para a Imperatriz Furiosa, interpretada por Charlize Theron, uma das mais importantes tenentes de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), era importante fazê-la se destacar ao mesmo tempo em que parecesse alguém respeitada pelos homens ao ponto de que lhes permitissem pilotar seu maior equipamento. O primeiro item a ir embora foram os cabelos loiros de Theron, apagando os traços mais femininos da personagem, mas também ajudando na praticidade de se viver no deserto e com um cronograma apertado de produção a cumprir. Para além dos cabelos, era preciso proteger o corpo de Furiosa, e o restante apenas completou o look que eles tinham em mente desde o início para a personagem. Os olhos pintados de preto são mais do que mero detalhe ou uma declaração de moda, mas uma pintura de guerra para a personagem.

O figurino de Beavan também é responsável por entrelaçar e estender as histórias e relacionamento entre os personagens: o fato de que tanto Furiosa quanto Max usam ombreiras não significa apenas que eles precisam se proteger do mundo, mas que também são similares em algum nível. No que se refere a Immortan Joe, o antagonista, ele é o que tem o visual com maiores distinções: totalmente envolvido em uma armadura, além de carregar condecorações e lembranças de eras passadas, o personagem se destaca, visto que nenhum outro personagem compartilha de algum item de seu vestuário como ocorre com os demais. Os Garotos da Guerra de Immortan Joe e as Noivas, por exemplo, compartilham elementos e identidades visuais que os unem, enquanto o antagonista segue à distância, diferençável tanto por sua vestimenta e armadura, quanto por suas ações.

Cruella (2021)

Chegando em 2021, foi a vez de Jenny Beavan enveredar pelas origens de Cruella de Vil, icônica personagem e vilã de 101 Dálmatas, clássica animação dos estúdios Disney. Contar a história de uma personagem tão emblemática quanto Cruella não é tarefa fácil, mas valendo-se de uma espécie de universo alternativo, o diretor Craig Gillespie ao lado dos roteiristas Dana Fox e Tony McNamara, nos leva a conhecer a órfã Estella — interpretada por Emma Stone — e seu caminho enquanto aspirante a designer de moda na Londres dos anos 1970. Estella é, ao contrário do que se poderia pensar, fã de cachorros e tem até mesmo um fiel companheiro de quatro patas que a acompanha desde criança, e não há nada em sua trajetória sobre esfolar dálmatas para fazer casacos com suas peles.

A nova Cruella é menos a respeito do consumismo e mais sobre usar a moda como arte performática, como podemos acompanhar em diferentes momentos do longa em que a protagonista se diverte ao transformar a vida da Baronesa (Emma Thompson) um inferno fashion e disruptor. Jenny Beavan aproveita a oportunidade de vestir as duas fases da protagonista — quando é somente Estella, a aspirante a designer de moda, e quando abraça sua nova identidade como Cruella — para criar figurinos artísticos repletos de referências às tendências da moda underground e não conformista dos anos 1970, inspirando-se em nomes como Vivienne Westwood, Alexander McQueen, David Bowie e até Maria Antonieta. Durante as duas horas de filme, Emma Stone usou quase 50 looks diferentes, dos mais comuns enquanto é Estella, assistente de moda da Baronesa, aos mais performáticos e dramáticos de sua contraparte de cabelo preto e branco, Cruella.

Os figurinos de Estella e Cruella atuam como verdadeiros divisores do destino da personagem, mostrando para a audiência de maneira visual as mudanças que ocorrem na vida da protagonista; o figurino, por si só, é responsável por contar boa parte da história, servindo de peça chave para a narrativa de Cruella e em demonstrar como a órfã Estella traça seu caminho, transformando-se na personagem título do longa. Quando está trabalhando para a Baronesa, Estella abusa dos óculos estruturados e silhuetas inspiradas nas peças de Vivienne Westwood, além de muitos tons de preto e cinza, calças e saias nada dramáticas usadas de maneira a se misturar ao ambiente. Essas escolhas também mostram a jornada de Estella na moda, algo com que ela brinca desde criança na tentativa de se encontrar. Em seu tempo livre, ela se veste de maneira mais casual, porém sem perder os elementos chave de seu guarda-roupa: jaquetas em estilo militar, botas de combate e tons escuros em uma paleta de cores que não muda muito, mas sempre se mantém em diferentes elementos.

A virada de chave acontece quando Estella decide buscar vingança contra a Baronesa e tudo o que fez a ela e sua mãe. Aqui, o figurino se torna ousado na medida em que o plano elaborado faz com que Estella se transforme cada vez mais em Cruella. Na festa do preto e branco, organizada pela Baronesa, Cruella faz questão de roubar a cena ao transformar sua capa branca em um vestido vermelho sangue ao melhor estilo Katniss Everdeen. As próximas aparições de Cruella mostram a personagem em um estilo motoqueira com brilhantes calças douradas e jaqueta de couro com as palavras “The Future” impressas em seu rosto, além de um incrível vestido feito de retalhos em uma das cenas mais emblemáticas do filme. Todo mundo que assistiu Cruella terá um look favorito, mas o vestido feito de retalhos, lixo e páginas de jornal é, com toda a certeza, um dos mais impressionantes. Seja por sua calda de 12 metros de comprimento, que esvoaça quando Cruella vai embora, pendurada na caçamba de um caminhão de lixo, seja pelo impacto que causa quando ela surge, imperiosa, em um corpete ajustado, o cabelo presto em um penteado ousado a lá Maria Antonieta e uma maquiagem brilhante.


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