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Retrato da literatura sul-coreana: O Bom Filho e A Vegetariana

Dos meus nove anos, quando comecei a consumir livros com mais intensidade, até pouco tempo atrás, meu contato com literatura sul-coreana era nulo. Sendo mais sincera, nenhuma produção literária asiática chegava às minhas prateleiras. Caso me perguntassem, dificilmente conseguiria citar um título ou autor. Recentemente, em uma das minhas perambulações pela literatura produzida por mulheres, me deparei com O Bom Filho, da escritora You-Jeong Jeong. Capa bonita, um rio vermelho forma um rosto masculino perfilado. Envolvida pela promoção e sem ao menos consultar o saldo bancário, comprei, numa tentativa de diversificar mais minha leitura.

O livro foi um baque. Um choque. Um soco na boca do estômago. Mas a escrita era envolvente e eu queria mais. Então corri atrás de um dos hypes do ano passado que não havia conseguido acompanhar a tempo: A Vegetariana, de Han Kang. Os dois livros ligaram-se como irmãos (de mães diferentes). Apesar da distância entre os anos de publicação, ficaram algumas marcas: a violência e a loucura. Já havia lido um livro com cenas violentas, mais de um até. Terror e suspense são gêneros que me atraem e não me espanta a frequência nem a quantidade de sangue. Entretanto, nunca tinha encontrado duas autoras que conseguissem transformar narrativas familiares em pesadelos coordenados pela agressão verbal, perpassando por dilemas morais e construções sociais acerca do sexo.

literatura sul-coreana

Nevoeiro em O Bom Filho: um retrato violento e incerto

You-Jeong Jeong enrola O Bom Filho em uma trama de mentiras. Yu-jin, um ex-nadador de vinte e poucos anos, acorda em sua cama, banhado em sangue. Não se recorda do que aconteceu e ao descer as escadas do duplex em que vive, encontra o corpo da mãe degolado no chão da cozinha. Olhando o imóvel, percebe que só existe um suspeito e é ele mesmo. Logo nos capítulos iniciais, a autora transforma seu thriller num diário de recordações e não-recordações do protagonista, misturando a investigação movida pela falta de memória com os momentos da infância e adolescência. O contraponto entre esquecimento e lembranças cria uma narrativa em construção, movimentando relações familiares e de poder.

Seu relacionamento com a mãe é marcado pela disputa pelo futuro do garoto. Existe um mistério em torno da morte de seu pai e irmão mais velho e um cuidado excessivo da mãe com as crises epilépticas. Apesar do zelo, os laços entre os dois são fracos, uma mistura de ciúmes e proibições, ocasionando no abandono da natação pelo filho. O resultado é o afastamento crescente entre os dois, até o acontecimento disparador.

A amnésia de Yu-jin deve-se à abstinência de um medicamento que desacelera seu ritmo mental. Supostamente, o remédio faz parte do seu tratamento de epilepsia. Mas alguns sintomas descritos ao longo da trama não correspondem apenas ao quadro epilético, abrindo os questionamentos sobre a natureza do problema do ex-nadador. Ele é consciente do seu estado potencializado sem a medicação e interrompe as drogas quando bem entende, o que resulta em uma série de passeios noturnos rapidamente apagados. Quando lembra, o jovem admite perseguir desconhecidos —  de preferência, mulheres —  na madrugada, resultando em um prazer descrito como quase sexual. O limite moral é colocado em questão pela primeira vez, pois devido aos lapsos de memória, não é possível definir se algo a mais acontece nas noites geladas de Seul.

Entretanto, fica bem marcada a diferença entre os pensamentos e as ações do narrador: sua auto imagem é de vítima, a síntese do título, que sofreu e ainda sofre com os efeitos médicos. Enquanto isso, o seu comportamento mostra-se cada vez mais predatório. Assume sua habilidade de mentir, dirige-se com desprezo às pessoas que fazem parte do seu círculo, principalmente as mulheres —  sua mãe morta e sua tia, que também é sua psiquiatra. Yu-jin transparece seu lado ardiloso, frio. You-Jeong Jeong trabalha suas palavras como mestre, seu narrador não é confiável e o dilema se estende: até onde Yu-jin pode chegar?

A pintura em A Vegetariana: um retrato da tristeza e da loucura

Se em O Bom Filho o protagonista é o condutor, é A Vegetariana quem recebe a carga. O discurso é arrasador em sua primeira parte focalizada e a situação é trágica na segunda e na terceira, narradas em terceira pessoa. A autora Han Kang descreve o martírio de Yeonghye após um misterioso sonho que a faz adotar o vegetarianismo. Desse ponto, a trama mistura o drama com a desconstrução no sentido mais literal: a relação familiar desfaz quando um almoço tem um fim desastroso, marcado pela estrutura patriarcal e que leva a jovem ao hospital após uma tentativa de suicídio, o casamento acaba após o incidente pois era mantido por comodidade. O corpo de Yeonghye se desmancha aos poucos como consequência do cenário.

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A separação em apenas três capítulos auxilia na marcação de cada estágio da protagonista. No primeiro, a narração do marido Jeong revela como é “desgastante” conviver com a moça após a mudança dos hábitos alimentares. Seu papel em casa é servir e servir, como a boa esposa do lar, que está sempre disponível para satisfazer seus desejos, incluindo os sexuais. A quebra da imagem que o marido de Yeonghye tinha ocorre quando ela vira vegetariana, e sua repulsa ao marido fica tão grande quanto a que ele apresenta em sua narração desde o início do texto. Como não se encaixa nos padrões esperados por ele, logo não serve mais. A ruptura do casamento após o suicídio fracassado leva ao segundo capítulo, mostrando o olhar do cunhado sob Yeonghye. Se inicialmente era movido pelo fazer artístico, em pouco tempo o objetivo passa a ser o sexo. Apesar de consciente, a protagonista é bastante passiva e já demonstra um comportamento distante, quase como se sua mente estivesse em outro lugar. Mais uma vez, ela é reduzida a um corpo pelo homem que domina o contexto.

Em pouco tempo, as situações propostas pelo marido de sua irmã mais velha criam um novo transtorno familiar e, lentamente, a Yeonghye enlouquece. As desavenças entre a família ocasionam em uma internação psiquiátrica. Han Kang contrai e distende o tempo dos acontecimentos. Os anos parecem dias e vice versa. Apesar da temporalidade fluida, em nenhum momento o leitor tem acesso aos pensamentos de Yeonghye e não há julgamento moral por parte da autora. As ânsias e tristezas que sentimos —  caso a aproximação seja completa —  são baseadas em como encaramos o mundo e criamos uma ligação com a jovem protagonista. Yeonghye é o quadro de uma mulher se desfazendo.

Papéis para homens cruéis

O que move as tramas para além das ideias de desenvolvimento é a noção que as autoras têm da estrutura social marcada pelo machismo, que ocasionam as violências e como elas projetam-se em seus personagens. A criação de homens frustrados, maldosos, embebidos na ideia de posse e na objetificação do corpo da mulher é fundamental nos dois livros. Funciona como uma desumanização da figura: as mulheres nas obras deixam de ser vistas como pessoas, até mesmo após a morte, como acontece com a mãe do jovem nadador na primeira obra.

Em O Bom Filho, a constituição de Yu-jin carrega a lembrança e a falta dela para solucionar um crime com muitas características de feminicídio, levando a narrativa ao suspense pelas consequências de seu comportamento predatório. Em A Vegetariana, são seus homens mal intencionados, machistas e sem compaixão por Yeonghye, e carregam a personagem no colo, até a dissociar e a jogar na loucura. A leitura teria outra natureza caso tratasse apenas de ficção.

O comportamento dos homens de O Bom Filho e de A Vegetariana tem suas bases nos reais, de carne, de osso e de sangue, que caminham todos os dias pelas ruas. Que contribuem para a manutenção de um sistema que machuca, que por mim e por muitas outras não ficaria vivo nem mesmo na ficção. Mas se existe na literatura, é pelo talento de You-Jeong Jeong e Han Kang em criar histórias tão fortes, pesadelos tão realistas.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. A construção do texto é extremamente precisa. É um roteiro de imagens e conflitos onde se revela o olhar de cinema da autora, avançando com palavras na intensidade dos conflitos que só a arte cinematográfica é capaz de exprimir. Essa jóia precisa ser aproveitada. Não se pode perder talentos.