Categorias: MÚSICA

Map of The Soul: 7, um salto na carreira do BTS

“Eu posso ter cometido um erro ontem, mas o eu de ontem ainda sou eu. Hoje, eu sou quem eu sou, com todas as minhas falhas. Amanhã, eu posso ser um pouco mais sábio, e isso também será eu. Essas falhas e erros são o que eu sou, compondo as mais brilhantes estrelas da constelação de minha vida. Eu aprendi a me amar por quem eu era, por quem eu sou e por quem eu espero me tornar.

[…]
Após lançar os álbuns da série ‘Love Yourself’ e a campanha ‘Love Myself’, nós começamos a ouvir histórias impressionantes de nossos fãs pelo mundo todo, de como nossa mensagem os ajudou a superar as dificuldades da vida e sobre como começaram a amar a si mesmos. Essas histórias nos lembram constantemente de nossa responsabilidade.”

O trecho acima faz parte de um discurso realizado por RM (Kim Nam-joon), líder do grupo BTS, durante um evento na Organização das Nações Unidas (ONU) em setembro de 2018. Na época, esse discurso marcava o BTS, também conhecido como Bangtan Boys, como os primeiros artistas do K-Pop convidados a discursar na ONU e ainda o lançamento do programa Generation Unlimited, que, em parceria com a UNICEF, tinha como objetivo criar mais oportunidades para jovens entre 10 e 18 anos. Em 2020, o grupo composto por Jin (Kim Seok-jin), Suga (Min Yoon-gi), J-Hope (Jung Ho-seok), RM, Jimin (Park Ji-min), V (Kim Tae-hyung) e Jungkook (Jeon Jung-kook) deu mais um grande salto em sua carreira com o lançamento do álbum Map of The Soul: 7. Esse novo salto veio com coreografias intensas, conceitos bem elaborados e tudo o que estamos acostumados a ver no BTS, mas também com o reforço de ações que destacam o quanto o grupo parece estar comprometido com a responsabilidade que enfatizaram no discurso aqui citado.

A primeira etapa desse sétimo ano de carreira aconteceu nas cidades de Londres, Berlim, Buenos Aires, Seul e Nova York. Tais cidades foram selecionadas para receber um projeto chamado CONNECT, BTS, realizado com a colaboração de 22 artistas de diversas partes do mundo. Cada edição do projeto possuía um tema e curadoria própria, sendo estes: Catarse (Catharsis) do dinamarquês Jakob Steensen; Rituais de Cuidado (Rituals of Care) das alemãs Stephanie Rosenthal e Noémie Solomon; Voe com Aerocene Pacha (Fly With Aerocene Pacha) do argentino Tomás Saraceno; Verde, Amarelo, Rosa (Green, Yellow, Pink) colaboração da britânica Ann Veronica Janssens e da coreana Yiyun Kang; e por fim, New York Clearing do britânico Antony Gormley. A arte brasileira também marcou presença nesse projeto na cidade de Berlim com a performance A Invenção da Maldade, do coreógrafo, professor e pesquisador piauiense Marcelo Evelin. Segundo o criador, A Invenção da Maldade mostra em essência que o ser humano possui um lado obscuro e contraditório. Marcelo acrescenta ainda que: “Inventamos coisas para sobreviver, para seguir em frente, para apaziguar todas as contrariedades que vivemos na vida. Dançar é inventar uma realidade, é inventar uma possibilidade, e mais do que nunca com essa performance eu quis inventar essa possibilidade”.

Map of the soul: 7

A proposta do CONNECT, BTS era colaborar com artistas cujas ideias ressoassem de algum modo a filosofia do grupo. RM, ainda ressaltou que “falamos idiomas diferentes, viemos de origens culturais múltiplas e vivemos experiências de vida únicas. Arte contemporânea e música também são dois mundos diferentes. Este projeto é especialmente significativo para nós, porque representa verdadeiramente a diversidade e cria uma mensagem coletiva e positiva para o mundo que valorizamos. Com esse projeto, esperamos devolver grande parte do amor e do apoio de nossos fãs, ARMY, e de todos os públicos”. Através do projeto, o BTS patrocinou os artistas envolvidos e ofereceu um espaço para conectá-los com os fãs do grupo. A ideia acabou funcionando tanto como um modo de promover as ideias do BTS através de outros tipos de expressão artística, como estratégia de divulgação da arte contemporânea para uma audiência ampla e plural.

A primeira vista pode parecer um pouco difícil compreender como tantos artistas com propostas bem diferentes poderiam estar interligados ao novo trabalho musical do BTS. Porém, mantendo a tradição de construir narrativas e definir temas para cada era do grupo, o BTS transformou seu mais recente trabalho numa viagem introspectiva em direção ao relacionamento dos membros com o fazer artístico e a vida de idol.

Se olharmos a discografia do grupo como um todo podemos facilmente delimitar alguns destaques temáticos. Entre 2013 e 2014 tem-se uma trilogia escolar composta pelos mini-álbuns 2 Cool 4 Skool, O!RUL8,2? e Skool Luv Affair que exploram principalmente as ansiedades e desafios decorrentes de um sistema educacional rígido e com expectativas irrealistas; a série Youth entre 2015 e 2016 com os álbuns The Most Beautiful Moment in Life (Part 1, Part 2 e Young Forever) com temas como saúde mental e desejo de pertencimento; a era WINGS influenciada pelo romance Demian, de Hermann Hesse, que lida com temas relacionados ao amadurecimento; e a série Love Yourself que trata de amor próprio e autoaceitação. O sétimo álbum, vem carregado de referências à toda essa trajetória, mas com uma sonoridade bem diferente daquele BTS de 2013-2014.

Map of the soul: 7

Como de costume, uma faixa do álbum foi divulgada como comeback trailer do grupo. O comeback trailer, no contexto do K-Pop, funciona como uma espécie de teaser que apresenta um pouco do conceito daquele novo trabalho. Neste caso, trata-se de “Interlude: Shadow”, canção interpretada por Suga, membro da rap line do BTS. A letra comenta sobre o sonho de se tornar uma estrela da música e os novos desafios que surgem ao se realizar tal sonho.

“Tente sorrir — porque você está hesitando?
Não era esse o tipo de coisa que você esperava?
Ou então chore — do que você está medo?
Não era esse o tipo de coisa que você queria?
A vida que você esperava, a vida que você queria
A vida que você escolheu: você conseguiu tudo sem arrependimentos
E além disso, você tem uma grande casa, grandes carros, grandes anéis
Todas as coisas que você queria, você conseguiu
Então, qual é o problema?”

Nos versos acima, Suga nos leva direto para “No More Dream”, canção de estreia do BTS, na qual ele dizia: “quero uma grande casa, grandes carros, grandes anéis/mas, na verdade, não tenho grandes sonhos”. Em “Shadow”, temos uma espécie de trap melancólico que reflete sobre o preço da fama e o modo com que nossa sombra cresce, na medida em que nos tornamos maiores. Não há exatamente uma resolução para esse conflito, mas o videoclipe divulgado indica mais uma postura de aceitação, do que apenas de confronto.

Map of the soul: 7

Lançada como um segundo comeback trailer, temos “Outro: Ego” interpretada por J-Hope, também membro da rap line do BTS. Se com “Shadow” o conceito do novo álbum parecia ser sombrio, com “Ego” o grupo mostrou que se trata de um trabalho introspectivo, mas não necessariamente obscuro. É interessante notar que apesar de ter sido divulgada tão cedo, essa é, na verdade, a penúltima faixa do álbum. Em “Ego”, vemos J-Hope traçando um caminho por todo o Map of The Soul, revisitando memórias e por fim aceitando seu próprio destino. A canção tem um ritmo que combina bastante com seu intérprete, conhecido por ser um dos membros mais enérgicos e animados do grupo. A letra faz referência a momentos difíceis, mas que são contornados na medida em que J-Hope aceita o seu próprio ego.

Nesse contexto, o termo ego e shadow, assim como Persona, nome do primeiro mini-álbum da era Map of The Soul, fazem referência aos conceitos de Carl Jung, fundador da psicologia analítica. Esses conceitos se encontram resumidos na obra Jung: O Mapa da Alma (Jung’s Map of the Soul), de Murray Stein, que curiosamente em entrevista para BBC conseguiu prever em 2019 que, após Persona, o passo seguinte para o BTS seria “Shadow”. Para Carl Jung, o ego seria o centro da parte consciente da psique humana que estaria em contato com outras partes submersas da mente, sendo shadow uma delas. Nesse sentido, para o BTS é como se “Shadow” fosse rumo aos conflitos mais submersos da vida como artista, Persona vai de encontro a imagem externa do artista e “Ego” coloca artista e indivíduo (nesse caso, J-Hope e Jung Hoseok) numa relação de complementaridade.

Já a primeira faixa divulgada com a presença do grupo todo nos vocais foi “Black Swan”. O trabalho veio com um art film, performado pela MN Dance Company da Eslovênia, que se inicia com a famosa frase da dançarina Martha Graham: “um dançarino morre duas vezes — uma é quando ele para de dançar, e essa primeira morte é a mais dolorosa”. Em “Black Swan”, o BTS pergunta se não estaria se aproximando de sua primeira morte.

“O coração já não acelera mais
Ao ouvir a música tocar
Tentando levantar
Parece que o tempo parou
Oh, seria essa minha primeira morte
Aquela que sempre temi”

Para além da profundidade emocional, “Black Swan” se destaca por viabilizar a incorporação de mais elementos de dança contemporânea nas coreografias do grupo. Tal aspecto ganhou ainda mais ênfase com um videoclipe, divulgado de surpresa no dia 4 de março, e com as performances do grupo, que vem promovendo a canção junto com o single principal do disco.

O restante do Map of The Soul: 7 foi divulgado no dia 21 de fevereiro. O disco se inicia com as cinco faixas do álbum Map of The Soul: Persona, dando uma espécie de contexto para as outras 15 canções, sendo “On” o single principal do disco. Assim como já havia ocorrido em álbuns como WINGS e Love Yourself, neste novo trabalho os integrantes também possuem canções individuais que lhes possibilitam refletir sobre sua trajetória pessoal como membro do BTS. A novidade é que dessa vez também tivemos duos como Jimin e V ou RM e Suga unindo forças em algumas músicas.

Seguindo pela ordem apresentada no álbum começamos com “Filter”, faixa solo de Jimin, membro da vocal line do grupo. Filter consagrou Jimin como o solista mais versátil do BTS e ainda deu ao cantor alguns recordes, em termos de charts e números de streaming, que até então pertenciam a Psy. Se ouvirmos em sequência as canções “Lie” e “Serendipity” (solos anteriores do Jimin), e então “Filter”, chega a ser impressionante a quantidade de nuances que o cantor apresenta nas faixas. Em “Filter”, Jimin pergunta “Qual versão de mim você quer?” e nos diz que pode ser “qualquer coisa”. A letra basicamente reforça tudo o que os solos dele apresentaram nos últimos anos: versatilidade e um poder incrível de se adaptar a qualquer que seja o estilo proposto.

“My Time” é um solo do Jungkook que comenta sobre a sensação de ter se tornado adulto mais rápido que todo mundo, algo muito significativo se lembrarmos que ele se tornou parte do grupo com apenas 16 anos. A letra segue com ele questionando se esse seria o jeito certo de se viver e comentando sobre o que a vida de artista lhe proporcionou, mas também sobre aquilo que ela lhe privou de ter. A faixa é um R&B que funciona muito bem nos vocais do Jungkook e ainda serve de boa introdução para a canção seguinte.

“Louder Than Bombs” chamou atenção bem antes de seu lançamento graças a presença de Troye Sivan e Allie X na composição. A música é uma das mais interessantes no novo trabalho e fala sobre ter força para ouvir as dores de outras pessoas enquanto a sua própria dor é tida como pretensiosa. O BTS normalmente possui uma boa sinergia entre a vocal line (Jin, V, Jimin e Jungkook) e a rap line (RM, Suga e J-Hope), porém, vez ou outra, alguma canção se destaca por unir muito bem esses dois lados do grupo. Neste novo trabalho, “Louder Than Bombs” é provavelmente a canção que melhor desempenha esse papel mantendo todo o grupo num delicado equilíbrio.

Em seguida, temos o single “On” que também ganhou uma versão com a participação da cantora Sia. A música fala sobre abraçar a dor, seguir lutando e assumir o controle de sua própria vida. Trata-se de uma faixa cheia de significado, que ainda no título traz uma inversão do termo “N.O”, nome do principal single do segundo mini-álbum do BTS, lançado em 2013. Infelizmente, se olharmos para além da letra e do videoclipe cheio de simbolismo, “On” pode ser um dos singles mais fracos do grupo. Nas performances ao vivo o grupo conseguiu dar um pouco mais de cor para a música, que inclusive possui ritmo e coreografia intensa. No entanto, a versão de estúdio parece brilhar bem menos, principalmente por conta do excesso de sintetizadores na voz de alguns dos integrantes.

“Ugh!” é o momento da rap line brilhar. A música vem como uma espécie de consolo para quem ouviu “땡 (Ddang)” em 2018 e saiu se perguntando como poderia uma música daquelas não fazer parte do álbum. Em “Ugh!” o grupo fez uma outra excelente mistura de hip-hop com instrumentos da música popular sul-coreana. A letra é carregada de respostas para os comentários de ódio que o grupo costuma receber nas redes sociais e sobre como esses comentários raivosos podem afetar a vida de alguém.

“00:00 (Zero O’Clock)” vem com a interpretação da vocal line e tem uma das letras mais melancólicas do álbum. A música se inicia falando sobre dias tristes e momentos em que nos sentimos deprimidos, mas o foco está justamente no 00:00. Aquele momento em que o relógio marca o fim de um dia e o início de outro, nessa música é também a marca de pensamentos dolorosos. Afinal, será que amanhã vai ser diferente?

Em “Inner Child”, solo de V, temos um delicado acerto de contas entre o cantor e o seu “eu” do passado. Na música, V entrega um dos momentos mais emocionantes do álbum, enquanto reflete sobre as mudanças pelas quais passou e oferece para si mesmo palavras de incentivo e consolo. Na sequência temos “Friends”, colaboração de V e Jimin, numa faixa bem especial sobre a amizade que os dois construíram nestes sete anos de grupo.

“Nós somos o mistério um do outro (sim, sim)
É por isso que é ainda mais especial (Oh)

Um dia quando essa alegria acabar, fique (ayy), hey (ayy)
Fique ao meu lado
Por toda eternidade, continue aqui, fique (ayy), hey (ayy)
Como seu pequeno dedinho
Mais de sete verões e invernos frios
Mais do que inúmeras promessas e memórias”

Juntos, V e Jimin (também conhecidos como a 95line do BTS) conseguiram deixar o álbum um pouco mais leve, ainda que fiel a proposta introspectiva do trabalho. “Friends” é uma das faixas mais fáceis de se ouvir, e ainda do tipo que deve ganhar rapidamente o coração dos fãs. Em seguida, temos Jin com a canção “Moon”, na qual ele faz um verdadeiro tributo ao fandom.

“Eu nem tinha um nome
Até que eu te conheci
Você me deu seu amor
E agora você é a minha razão

Você é meu planeta
Eu sou só uma Lua para você”

Map of the soul

Com isso, nos encaminhamos para “Respect”, colaboração entre RM e Suga, que discute o verdadeiro significado da palavra respeito. Logo na sequência, alcançamos os momentos finais do trabalho com “We Are Bulletproof: The Eternal”. Nessa música, o grupo que já possui as faixas “We Are Bulletproof” Part 1 e 2, celebra esse sétimo ano de carreira cantando sobre como eles não temem mais o ódio direcionado ao grupo e tiram de sua própria união forças para seguir em frente.

Mesmo com um ou outro deslize, o novo álbum reafirma a força do BTS e o quão cientes os integrantes estão dos sacrifícios feitos por esse belo percurso. Ouvir Map of The Soul: 7 é embarcar numa viagem bem planejada com um olhar voltado tanto para aquilo que os integrantes viveram ao longo dos anos, como também dedicado àqueles que acompanharam o grupo nessa trajetória. O Bangtan Boys de 2020 definitivamente não é o mesmo de 2013 e é natural que seja assim. No entanto, prevalece a dinâmica de uma evolução consciente, que se orgulha de seu passado e nos lembra que “o eu de ontem ainda sou eu”.

Por fim, gostaria de encerrar esse texto destacando que se por um lado celebramos a notável conquista exposta em cada uma das barreiras que o BTS teve de romper dentro e fora do mundo da música, por outro nota-se que toda essa notabilidade vem acompanhada de muitos julgamentos para aquelas que tornaram o BTS tão grande: as fãs. Sim, no feminino. Isso porque ainda que o grupo, na verdade, possua um fandom plural e detenha os privilégios de ser composto por sete homens, estamos longe de superar a ideia de que o BTS, assim como todo o K-Pop, é coisa “menininha”. Acompanhar o estigma que o BTS carrega, mesmo com todas as conquistas que têm, serve de excelente lembrete sobre o quão complexo pode ser a aceitabilidade de tudo aquilo que por algum motivo se associa a figura feminina. Sabemos que não há uma resolução simples para isso, mas tem sido encantador encontrar conforto em cada uma das vezes que o BTS se mostrou disposto a apoiar todos aqueles que lhe deram apoio ao longo dos anos.


** As imagens que ilustram o texto são de autoria da colaboradora Natália Dias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *