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Better Things e a voz importante e sensível de Pamela Adlon

Pamela Adlon já trabalha como atriz e dubladora há alguns anos, mas ela realmente entrou no radar dos aficionados por TV quando criou a série Better Things, ao lado do seu amigo de longa data Louis C.K., responsável por obras como o seriado Louie. Algum tempo depois que a produção saiu — e foi aclamada pela crítica —, várias mulheres acusaram Louis de comportamento inapropriado no trabalho e assédio sexual (sendo que ele se masturbou na frente delas, e admitiu tal feito). A partir desse ponto o trabalho de Adlon ficou pendente. Afinal, Better Things ia continuar? E se fosse, como isso iria acontecer? O que ninguém percebeu é que essa pequena série escondida na programação da FX se tornou um sucesso não por causa de C.K., mas sim porque Adlon tem uma das vozes mais importantes e sensíveis dessa geração. 

Better Things é, acima de tudo, uma série sobre gerações. A história acompanha Sam Fox (Adlon) e suas três filhas Max (Mikey Madison), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward). Elas moram no subúrbio de Los Angeles e, na frente da casa delas, a mãe de Sam, Phyllis (Celia Imrie), vive sozinha. Mãe solteira e uma atriz com mais de 40 anos em Hollywood, o roteiro conta sua história como se fossem pequenos esquetes. Então, é comum um episódio começar com uma situação e terminar com algo completamente diferente. O humor, no entanto, é uma característica que se faz presente o tempo inteiro, ao mesmo tempo que Adlon aborda as adversidades da vida de Sam com uma sensibilidade incrível e comovente.

Com duas temporadas incríveis, a série que parecia ter sofrido com os problemas causados por C.K., conseguiu fazer uma terceira temporada ainda ainda melhor, mais engraçada e sensível. Adlon contratou um novo grupo para trabalhar com ela, escreveu e dirigiu todos os episódios — além de estrelar absolutamente todas as narrativas apresentadas pela obra. É impressionante perceber que Better Things é justamente sobre isso: pegar as situações apresentadas pela vida (sejam elas boas ou ruins) e trabalhar com isso e tirar o melhor da situação, superar e seguir em frente. Tanto a atriz como sua personagem, Sam, são mestres nesse aspecto e é por isso que a produção parece carregar uma sinceridade tão pertinente e precisa.

O trabalho de Adlon, inclusive, lhe rendeu indicações ao Emmy e ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em Série de Comédia, em 2018, ao lado de nomes grandes no meio cômico, como Julia Louis-Dreyfus — que se destaca no mundo da TV desde Seinfeld e Veep.

Atenção: este texto contém spoilers

Na abertura de Better Things, “Mother” do John Lennon. “Mãe, você me teve, mas eu nunca te tive. Eu queria você, mas você não me queria”. Pesquisando sobre a história envolvida na canção, descobri que Lennon foi abandonado pelos pais e criado pela tia. Sobre o sentimento de abandono e uma infância que foi essencialmente triste, a música parece propícia para marcar a produção não porque Sam é uma mãe relapsa ou que pretende fazer o mesmo com as filhas, mas porque ela capta as formas e os desdobramentos complicados que essas dinâmicas podem carregar, sendo que a sobrecarga de ser mãe às vezes é solitária e cruel.

Better Things

A primeira delas, Max, é uma menina comum para sua idade. Prestes a terminar o ensino médio, ela exibe um comportamento absolutamente normal e grande parte do seu arco narrativo envolve justamente a transição de ser uma adolescente para se tornar uma jovem mulher. Na medida em que as temporadas passam, Sam tem que estudar o melhor jeito de deixá-la ir e impulsionar sua dependência no mundo. Em um contraponto direto, está Duke. Essa, por sua vez, ainda é uma criança e por isso passa grande parte do tempo em uma relação amorosa com a mãe, quem ela leva como uma inspiração e trata com amor e carinho. Digo que ela é o oposto direto de Max porque as duas estão em fases cruciais da sua vida: enquanto uma dá adeus a casa e o conforto oferecido pelo lar da mãe e da família, Duke busca constantemente exatamente isso e parece achar que é a melhor coisa do mundo — algo que só acontece durante a infância, sendo que na adolescência o movimento natural é a rebeldia e o questionamento de tudo que lhes foi apresentado até agora.

No meio dessas duas relações está Frankie, que carrega a dinâmica mais complicada das três e, consequentemente, o arco mais complexo também. Por causa das mudanças de comportamentos associadas a adolescência, ela e sua mãe se desentendem mais do que é comum e parte desse problema nasce porque Frankie não é apenas rebelde. As coisas, que parecem simples no começo, se tornam bem mais complicadas no final da primeira temporada, quando o diretor da escola em que Frankie estudava chama Sam para falar que ela foi pega usando o banheiro masculino. Quando questionada sobre o porquê disso ter acontecido e se ela se identifica com o gênero masculino, a menina diz que não. Mais tarde, no entanto, Max diz para Sam que “Frankie é um garoto”.

Na segunda e na terceira temporada existem poucas menções sobre o assunto, sendo que nada disso é realmente confirmado — por isso, inclusive, que uso o pronome ela no texto, já que na série isso também acontece. Frankie ainda passa por processos que tem muito a ver com sua descoberta e o tipo de pessoa que ela gostaria de ser, mas como ela tem apenas 12 anos quando os questionamentos começam, esse aspecto vai sendo explorado aos poucos e deve com certeza surgir no futuro da série. Afinal, por enquanto, ela é apenas adolescente e mostrar isso com calma e precisão é essencial para um arco bem sucedido.

O catalisador para os conflitos entre Frankie e sua mãe acontecem porque Sam nem sempre sabe lidar com as mudanças que ela está passando. A relação às vezes se torna fria e distante, pontuadas por uma falta de comunicação que não necessariamente é privada de conversas (ou de amor), mas uma entender a outra. Por enquanto tudo isso funciona como um pano de fundo para explorar a maternidade e como lidar com filhos que são (muito) diferentes entre si, sendo que um aprofundamento pode vir na medida em que Frankie for crescendo e entendendo quem ela realmente é.

Sam é uma mãe moderna, presente e antenada. Ela é amiga dos amigos da sua filha, ela faz literalmente tudo por elas, mas ao mesmo tempo está ciente da responsabilidade que é criar três seres humanos para serem pessoas decentes. E ela recebe mais ingratidão do qualquer pessoa merece, é verdade. Mas Better Things pretende mostrar justamente esse aspecto, e como ser mãe é realmente um trabalho integral e, às vezes, injusto. O pai das três não se faz presente em nenhum momento, e com todas as responsabilidades nas suas costas, tudo aquilo parece impossível de lidar. Mas assim como os cortes bruscos que ligam uma narrativa à outra, ela segue em frente e dá um jeito de superar, dando o seu melhor.

Sua relação com sua mãe, Phyllis, também é parte importante da trama e oferece uma análise interessante para a história como um todo. Se com suas filhas Sam faz de tudo para ser aceita e amada, ela não consegue encontrar sua própria mãe no meio do caminho. Uma das tramas secundárias mais recorrentes da série é como Phyllis perde, aos poucos, sua memória. Cada vez pior, Sam entende que os problemas da mãe, suas dificuldades e porque ela é do jeito que é, mas ao mesmo tempo não consegue manter uma relação saudável com a mesma. Separadas por gerações, Phyllis, Sam e Frankie tem uma dinâmica mais parecida do que elas imaginam.

Better Things

O universo de Better Things é feminino, mas isso não quer dizer que ele não é plural. Grande parte do foco realmente é Sam e como ela lida com as questões apresentadas pela maternidade, mas Adlon entende muito bem que isso não é o suficiente para sustentar uma série. É por isso que a vida pessoal e a profissão da protagonista são tão importantes aqui quanto qualquer outro aspecto. É comum ver, por exemplo, Sam se relacionamento com outras mulheres da sua vida, não só sua mãe e as filhas. Ela tem amigas, colegas de trabalho e leva uma relação saudável e importante com elas, como se fossem seu gancho para a sanidade e uma vida que não se resume apenas a trabalhos domésticos. Seu trabalho como atriz e dubladora também se faz muito presente, e essa parte em específico é super prazerosa de acompanhar porque todos os seus movimentos parecem vir do amor pela profissão. A dedicação é evidente e é divertido vê-la se aprofundando em uma peça ou dublando um personagem animado qualquer, mesmo que algumas dessas experiências sejam cheias de machismo por causa da sua idade. Quanto mais velha ela fica, mais difícil é conseguir papéis.

Não por acaso, Adlon acrescenta arcos onde a exclusão de mulheres mais velhas da indústria hollywoodiana fica muito clara e evidente. Não só ela está acostumada a ouvir na rua coisas como “você não é aquela mulher da TV?”, como está consciente do que está acontecendo com ela. Em um episódio específico, ela acredita ter conseguido um papel de protagonista em um seriado. Mas nem ela e nem sua agente acreditam que isso é realmente verdade porque bem… ela não tem mais 20 e poucos anos. Como Better Things é comandado pela própria Adlon, que tem mais de 50 anos e com certeza já passou por algumas dessas situações, é uma delícia ver esses pequenos momentos de metalinguagem.

Sua vida amorosa também é outro catalisador para entender a personalidade de Sam, que divorciada e com três filhas para cuidar, acaba sofrendo bastante com esse aspecto. Ela procura manter os relacionamentos casuais e quando acaba se apaixonando, não sabe muito bem lidar com os sentimentos. Na terceira temporada a narrativa flerta com a possibilidade dela se envolver com uma mulher, mas por enquanto isso não parece ser exatamente uma verdade concreta para a mesma. Todos os seus relacionamentos que envolvem sexo são interessantes porque é o lado mais reservado de Sam.

Adlon tem uma habilidade incrível de transformar o simples e o mundano em algo extraordinário e apesar dos episódios serem recheados de situações do dia-a-dia que consideramos quase tediosas, Better Things parece ir além do status quo. É uma série sobre maternidade, sim. Sobre amizade, sobre ser mulher, sobre envelhecer e lidar com todos esses aspectos de forma contínua e constante. Ao mesmo tempo, é muito mais do que isso. Durante a segunda temporada, Sam está cansada da constante ingratidão que suas filhas mostram para ela. Por isso, ela propõe um exercício simples, onde ela finge que morreu e as filhas têm que entregar um discurso no seu suposto enterro. O que poderia ser facilmente um momento estranho ou completamente fora do estilo narrativo adotado pela série, se torna algo tão comovente e sensível, uma carta de amor para todas as mães e filhas e suas relações complicadas e plurais — e esse é apenas um exemplo.

Better Things

É interessante perceber também como a narrativa mistura situações corriqueiras com o lúdico. Se em um momento Sam aparece desentupindo uma privada ou berrando para suas filhas lhe levarem um absorvente, no outro ela está sentada no carro e conversando com o seu pai morto — que, na terceira temporada, se torna um personagem recorrente. Durante esse arco, a protagonista está para completar 50 anos, idade que seu pai tinha quando sofreu um ataque cardíaco e morreu. Assim, ela passa grande parte do tempo indagando sobre a sua vida, seus últimos momentos e o que significa envelhecer. Mais do que isso, o que significa viver.

Como a mortalidade é parte essencial da vida, e um fim inevitável, ela faz parte da série de forma orgânica e comum. Duke é uma personagem que contribui muito para essa narrativa, já que sua visão infantil e ingênua do mundo faz com que ela veja fantasmas e coisas que não necessariamente estão ali. Apesar de ser uma série com um viés honesto sobre os assuntos que aborda, esse aspecto se encaixa perfeitamente na narrativa e faz com que tudo fique mais sensível. Uma mistura inesperada e perfeita.

Por causa da forma como o roteiro é escrito e como ele pula de uma história para outra, quase de forma bruta, era muito fácil a série se tornar algo superficial. Felizmente, esse está longe de ser o caso aqui e por causa dos diálogos bem escritos e situações que apresentam ponto de vistas diferentes e que se completam entre si, Better Things é leve e profunda ao mesmo tempo. Às vezes você começa um episódio rindo, e termina chorando. Ou vice e versa.

É tudo isso que faz com que Better Things seja uma série sobre nada em específico e, ao mesmo tempo, sobre muitas coisas: maternidade, relações entre pais e filhos, vida, morte — e que sempre os aborda da forma certa.

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