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Um problema estrutural: as ignoradas do Oscar 2020

Por muito tempo, Hollywood usou da desculpa de que “não se pode premiar aquilo que não é feito” quando se tratava da disparidade em premiações como Oscar e Globo de Ouro. Nenhuma mulher indicada a Melhor Direção? “Isso é porque não tivemos bons filmes dirigidos por mulheres esse ano.” Talvez esse papinho até colasse em 1999, mas certamente em 2019 a história é outra.

No último ano, mulheres dirigiram 10,6% dos 100 filmes mais vistos mundialmente. De Capitã Marvel até Retrato de Uma Jovem em Chamas, o número de diretoras com filmes bem recebidos por crítica e público mais do que dobrou em relação a 2018. As Golpistas, por exemplo, arrecadou 150 milhões de dólares. Booksmart tem uma aprovação critica de 97% de acordo com o Rotten Tomatoes. No entanto, é Era Uma Vez… em Hollywood e sua aprovação de 85% que está concorrendo ao Oscar de Melhor Filme. E Melhor Direção. Mesmo quando se trata de público, Booksmart ainda tem uma aprovação 7% maior do que o filme de Quentin Tarantino. Por que, então, temos um deles concorrendo em múltiplas categorias enquanto o outro é completamente esquecido?

A resposta é óbvia e vem em duas partes. A primeira parte se deve a estrutura da votação e aos membros da Academia. O Oscar funciona da seguinte maneira: todos os seus membros podem votar nos filmes selecionados, mas só alguns poucos podem selecionar quais filmes participarão de cada categoria. Isso porque as categorias são votadas por membros específicos e de “alta qualificação” dentro de suas áreas. Ou seja, para ser capaz de eleger quem concorrerá em Direção, é preciso que você não apenas seja um membro da Academia, como seja um diretor com pelo menos dois filmes (um deles lançado na última década) cujos méritos “refletem o alto padrão do Oscar”.

Esses padrões podem parecer razoáveis, mas quando olhamos a indústria mais de perto, percebemos que eles tornam a participação de mulheres no corpo votante da Academia quase inviável. Segundo estatísticas do Annenberg Institute, mulheres dirigiram 4% dos 1.200 filmes mais rentáveis entre 2007 e 2018. Dessas diretoras, apenas 17,4% conseguiram gravar um segundo filme (13% um terceiro e apenas 2,2% um quarto). Já 45,7% dos homens nessa mesma lista conseguiram dirigir um segundo filme, 21% um terceiro, e 5,5% um sexto. Isso mesmo, sexto. É quase tão fácil para um homem gravar quatro filmes do que é para uma mulher gravar seu segundo.

Essa divisão explica, por exemplo, porque muitos indicados a Melhor Filme (votado por múltiplos segmentos) não são nomeados para Melhor Diretor. Dos 12 filmes dirigidos por mulheres concorrendo a Melhor Filme, apenas quatro competiram na categoria de Melhor Direção. Isso importa e muito: nos 91 anos de Oscar até o presente momento, apenas cinco dos filmes que conquistaram Melhor Filme e não levaram também Melhor Direção. As duas premiações estão estreitamente conectadas.

Para além desses casos, a disparidade em outras categorias também chega a ser dolorosa. Por exemplo, em toda a história do Oscar apenas uma mulher foi indicada para Melhor Direção de Fotografia: Rachel Morrison, por Mudbound, em 2017. Ela não ganhou. Claire Mathon poderia ser uma excelente candidata este ano, afinal, ela fotografou dois grandes filme (ambos dirigidos por mulheres): Retrato De Uma Jovem Em Chamas, dirigido por Céline Sciamma, e Atlantics, de Mati Diop. Ambos foram bem recebidos pela crítica e tinham grandes chances de indicações. Ambos foram esnobados.

A Academia vem tentando, nos últimos anos, incorporar mulheres e pessoas de cor em seu corpo votante, mas isso não ajudará na igualdade nas premiações a menos que esses membros possam indicar os selecionados. Afinal, “não se pode votar naquilo que não está presente na tabela”, não é mesmo Hollywood?

O segundo problema está no patriarcado. Isso porque, com um corpo votante majoritariamente masculino, branco e velho, muitas das histórias representadas nas premiações também são sobre homens brancos e velhos. O New York Times revelou que O Irlandês, Coringa, Era Uma Vez… Em Hollywood e História de Um Casamento possuem falas onde homens brancos lamentam o peso de sua idade ou se sentem vitimizados por um mundo em constante mudança. Existe uma certa incapacidade desses homens em se identificarem com histórias femininas, mas eles não são os únicos. Muitos homens se recusaram a participar de screenings de Adoráveis Mulheres. A polêmica no Twitter após uma crítica de Marina Person de Retrato de Uma Jovem em Chamas afirmar que homens tinham uma dificuldade em compreender o filme é outro exemplo.

Não é a toa que a única mulher a ganhar Melhor Direção e Melhor Filme, Kathryn Bigleow, o fez com Guerra ao Terror, um filme sobre homens na guerra e com um elenco que conta apenas com uma mulher. É como se histórias masculinas fossem universais e qualquer mulher pudesse empatizar e compreendê-las, mas de alguma forma histórias femininas são absurdas e impossíveis de lidar.

Apesar dos pesares, nem tudo está perdido. Thelma Schoonmaker é uma das pessoas mais nomeadas para Melhor Edição e, se ganhar esse ano com O Irlandês será a pessoa com mais estatuetas nessa categoria. Dos cinco indicados a Melhor Documentário, quatro foram dirigidos ou co-dirigidos por mulheres. Um dele, inclusive, pela brasileira Petra Costa. Os mesmos números podem ser observados em Melhor Documentário em Curta-Metragem. Hildur Guðnadóttir se tornou a sétima mulher a ser nomeada por Melhor Trilha Original. Greta Gerwig se juntou a Kathryn Bigelow ao se tornar a segunda mulher diretora a ter mais de uma produção indicada a Melhor Filme.

Muito ainda precisa ser feito. Nenhuma mulher foi indicada mais de uma vez a Melhor Direção. Apenas uma mulher negra já venceu o Oscar de Melhor Atriz Principal (Halle Berry por A Última Ceia, em 2001) e apenas 11 foram indicadas em 92 anos. Nenhuma mulher negra foi indicada para Direção. Nenhum homem negro ganhou Direção. As disparidades continuam para além e além. E elas não vão mudar enquanto a estrutura de votação não mudar.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Vieira.

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3 comentários

  1. Nossa, eu achei que o Oscar esse ano esnobou feio alguns filmes que foram muito bons e sucesso de crítica! Booksmart é um deles; dúvido que a Academia, chefiada por homens idosos e brancos, iria querer enaltecer um filme protagonizado por duas adolescentes. Portrait of a Lady on Fire foi um dos mais injustiçados na minha opinião. Um filme com uma fotografia, figurino e elenco impecáveis. Sem falar na Lupita, em “Us”; na Greta não ter aparecido em Melhor Diretora…