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Crítica: Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississipi, uma história por Dee Rees

A cena de abertura de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi dá o tom de tudo o que assistiremos pelas quase duas horas e meia de exibição do filme. Dois homens brancos estão ocupados abrindo uma cova, preocupados com a chuva que se aproxima. A tarefa não é fácil, as ferramentas que usam para retirar a terra parecem antigas e pouco úteis, mas eles continuam. Logo descobrimos que na cena estão Henry (Jason Clarke) e Jamie McAllan (Garrett Hedlund), e que a cova em questão é para um familiar.

Atenção: este texto contém spoilers!

A muito custo a cova é aberta, a chuva finalmente chega e transforma tudo em lama. “Quando penso na fazenda, eu penso no barro. Incrustando os cabelos e os joelhos. Marchando em forma de botas ao longo do piso. Meu sonho era da cor marrom”. Laura McAllan (Carey Mulligan), esposa de Henry, resume o que é viver naquela fazenda ao pensar na lama e no marrom enquanto aguarda o caixão ser finalmente colocado em seu lugar. Ainda que abrir a cova tenha sido difícil, descer o caixão para o fundo se mostra uma tarefa ainda mais complicada devido a fragilidade e o peso do artefato. Os irmãos não conseguem fazê-lo sozinhos e por isso Henry pede ajuda a Hap Jackson (Rob Morgan) que vem passando em uma carroça com toda sua família à bordo. Há uma tensão visível entre eles, os brancos McAllan e os negros Jackson, e sabemos, logo de início, que há muita história ainda não contada entre as duas famílias.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi não é o primeiro trabalho da diretora e roteirista Dee Rees, mas certamente é um de seus maiores projetos. Baseado no livro homônimo escrito por Hillary Jordan, em 2008, o filme teve sua primeira exibição ao público no Festival de Sundance, em janeiro de 2017. O filme foi ovacionado pela plateia ao final de sua exibição, e entre os presentes estavam os executivos de estúdios como a AMC, Amazon e a Netflix, que acabou comprando os direitos do filme e colocando-o como parte de sua produção original. Naquela época, pouco mais de um ano atrás, o que a Netflix fazia era apostar em um filme de tom épico sobre a segregação racial no sul dos Estados Unidos, posterior à Segunda Guerra Mundial; um filme dirigido e escrito por uma mulher negra e que tinha em sua produção mulheres em todos os setores — escolha deliberada por parte de Dee Rees: a direção de fotografia ficou a cargo de Rachel Morrison, enquanto as músicas ficaram sob responsabilidade de Tamar-kali; Mako Kamitsuna fez a edição de som enquanto Pud Cusah a engenharia de som e, por fim, a maquiagem de Angie Wells. Um ano depois, Mudbound é indicado a quatro estatuetas do Oscar, mas poderia ter sido a muito mais: Melhor Roteiro Adaptado, para Dee Rees e Virgil Williams, Melhor Atriz Coadjuvante para Mary J. Blige, Fotografia para Rachel Morrison, que fez história ao ser a primeira mulher indicada na categoria, e Melhor Canção Original (“Mighty River”), para Mary J. Blige, Raphael Saadiq e Taura Stinson.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississípi

O caminho percorrido por Dee Rees para se tornar uma cineasta não foi o mesmo percorrido por outras pessoas — como nunca é. No caso dela, não havia muito que indicasse, enquanto crescia, que seria assim que ganharia a vida. Após terminar o high school, Dee Rees se formou em Economia e seguiu para um MBA na Florida A&M University, iniciando uma carreira em gerenciamento de marcas. Mesmo que gostasse de escrever, para ela e sua família uma formação em economia parecia o caminho certo e seguro. Porém, aos 26 anos e três deles trabalhando em marketing, ela entendeu que aquele caminho certo e seguro não era o seu caminho, e logo Dee estava se inscrevendo na New York University para se graduar em Cinema. Um dos primeiros trabalhos de Dee após a graduação foi com Spike Lee, em seu filme Inside Man, o que seria uma das experiências mais enriquecedoras de sua vida e abriria seus horizontes para escrever e dirigir sozinha. Foi o que ela fez ao terminar de escrever o roteiro de Pariah, uma história a respeito de uma adolescente passando por um conflito de identidade enquanto tenta encontrar meios de expressar sua sexualidade — um roteiro tão íntimo que Dee Rees não sabia como colocá-lo nas mãos de outra pessoa para dirigi-lo, fazendo com que ela decidisse enfrentar a tarefa sozinha. Antes de chegar a Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, Rees ainda trabalhou na cinebiografia de Bessie, lendária cantora de blues, ao lado de Queen Latifah para a HBO.

Em cada um desses trabalhos, Dee Rees aprimorou sua técnica de contar histórias, culminando no intenso e impactante Mudbound. O filme se passa no delta do Mississipi, nos Estados Unidos de 70 anos atrás, mas poderia muito bem ser nos dias atuais — o racismo que mata, que fere e que humilha é um personagem onipresente na trama que enlaça as famílias McAllan e Jackson em meio a lama densa. Quando Henry decide ir em busca de seu sonho de manter uma fazenda, ele reúne todas as economias da família e parte para o Mississipi sem sequer conversar com sua esposa, Laura, sobre o assunto. Levando a esposa, as filhas e o pai, Pappy McAllan (Jonathan Banks), à reboque, todos chegam à fazenda que não era nada do que eles imaginavam. Por lá já está a família Jackson, que sonha em um dia ser dona da própria terra, livre para viver daquilo que plantam e colhem sem precisar se preocupar em entregar parte de seus rendimentos ao dono da fazenda. A dinâmica entre as duas famílias assim é posta: os McAllan, que possuem o poder e as terras enlameadas, e os Jackson, que fazem o possível para sobreviver em um mundo que nunca foi gentil com eles.

Ainda que 70 anos pareça algo distante e intocável para nós, aqui em 2018, não faz muito tempo que era proibida, em alguns estados norte-americanos, a miscigenação, ou seja, o relacionamento entre brancos e negros. Foi somente em 1967, com o caso Loving versus Virgínia — retratado em Loving, filme de 2016 — que a Suprema Corte dos Estados Unidos revogou a lei que proibia o relacionamento inter-racial. Não faz tanto tempo, também, que negros conquistaram o direito ao voto nos Estados Unidos, o que veio a acontecer apenas em 1965. O mundo retratado em Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi, pode parecer distante para nós, mas está a apenas alguns passos de distância. Enquanto a família McAllan se estabelece na fazenda, Pearl Harbor é atacado por forças japonesas e os Estados Unidos entram de vez na Segunda Guerra Mundial. Dentro desse contexto, Jamie é enviado para a Europa, assim como Ronsel (Jason Mitchell), filho mais velho de Hap e Florence (Mary J. Blige), sargento do exército norte-americano.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

As famílias que ficam, especialmente os Jackson, colocam seus soldados em pensamento enquanto aguardam pelo seu retorno. Nesse ínterim, Henry toca a vida na fazenda como lhe convém, sempre colocando Hap e sua família em seu devido lugar. Quando Hap se acidenta e não consegue arar a terra e prepará-la para o plantio de algodão, Henry aparece apenas para lhe apontar o óbvio, dizendo que não haverá tempo hábil para a plantação ficar pronta antes que a chuva venha, mesmo que toda a família Jackson esteja se empenhando como nunca para cumprir os prazos. É Laura quem consegue dinheiro para pagar um médico para Hap, fazendo com que Florence pense que “Se me perguntassem antes disso, eu diria que todos os brancos são iguais”. Laura é uma mulher inteligente, mas não tem muita voz em seu casamento com Henry. Ela o conheceu aos 31 anos de idade e, aceitando-o como uma tábua de salvação da solidão e das más línguas que a rotulavam como solteirona, ela se casou não por amor, mas por esperança do que poderia vir a acontecer. Laura estava satisfeita com sua vida de casada, com suas filhas e sua casa na cidade, mas Henry trocou todo o conforto da família para perseguir o sonho de ser um fazendeiro, o que levou todos para o Mississipi.

Com a morte de Adolf Hitler e o fim da guerra, Jamie e Ronsel retornam para casa, mas é difícil deixar para trás os tormentos que viveram na Europa. Enquanto Jamie não queria ter partido para o velho continente, Ronsel não queria tê-lo deixado. O estresse pós-traumático vivido por ambos é evidente no tremor das mãos, nos sobressaltos e na ingestão constante de bebidas alcoólicas, e os dois homens, um branco e um negro, encontram um no outro o apoio de que precisavam para passar por esse período difícil da volta para casa. A improvável amizade que nasce entre eles não passa despercebida por Pappy, que ainda mantém em si o desprezo e o ódio infundado pelos negros. É Pappy quem faz Ronsel sair pela porta dos fundos de uma loja simplesmente pelo fato do rapaz ser negro; Ronsel sai, sim, pela porta dos fundos, mas não sem antes reafirmar o seu valor. Mesmo que negros não fossem vistos como iguais aos brancos por grande parte da população norte-americana, segregados a bancos específicos nos ônibus e sendo excluídos de lojas, suas vidas e suas forças foram apreciadas nos esforços de guerra, e é isso o que Ronsel faz questão de lembrar a Pappy: a guerra foi vencida por ele, e não por quem ficou nos Estados Unidos, como o velho.

A tensão entre brancos e negros é uma constante e cresce até atingir um dos momentos mais intensos e doloridos do filme. O relacionamento entre as famílias e a hierarquia que ocupam é relembrada a todo momento, seja quando Ronsel é obrigado a se desculpar com Henry por ter falado apenas verdades a Pappy ou quando Florence é chamada no meio de uma noite de chuva para tratar das filhas doentes de Laura. Os tempos não são mais de escravidão, mas ainda há claramente uma estrutura em vigor onde brancos possuem mais poder do que negros — e não há muito que estes possam fazer a respeito senão assentir com retidão e temer por suas vidas. Mudbound alterna as cenas da fazenda, das plantações e de um mundo de lama com narrativas em voice-over de alguns dos personagens com impressões e sensações daquilo que estão vivendo. Em algumas produções esse recurso soaria extremamente didático, mas em Mudboud serve para estreitar os laços desses personagens tão quebrados com quem os assiste, fazendo a audiência entender, de forma mais profunda, como é estar em suas peles.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Por que sim, cada personagem dessa história está quebrado à sua maneira. Henry não consegue fazer com que a fazenda prospere, ainda que jamais admita seu erro em comprá-la; Laura está presa à lama e a um casamento sem amor, e sente uma inegável atração por seu cunhado; Pappy é um velho ranzinza, irritante e racista que destila seu veneno como lhe convém; Jamie voltou da guerra e se afunda em bebidas, cigarros e confusões como maneira de amortecer seus sentimentos, suas frustrações e o desejo por Laura. Ronsel, enquanto isso, precisou voltar para um país em que é humilhado e maltratado, enquanto era visto e saudado com entusiasmo na Europa, um soldado cumprindo seu dever, e um homem apaixonado por uma alemã. Todas essas vidas quebradas se encontraram, de alguma maneira, na lama e na chuva do Mississipi — duas figuras sempre presentes em cena e que colaboram para dar um peso ainda maior a história que Dee Rees está contando.

Com a amizade entre Jamie e Ronsel crescendo, não demora até que Pappy se incomode com o relacionamento que o filho tem com o rapaz e procure se vingar. É nesse momento que uma das cenas mais tristes e assustadoras de todo o filme tem lugar, principalmente quando paramos para pensar em como algo que deveria estar enterrado pelo tempo, relembrado apenas pelos livros de História, encontrou caminhos para ressurgir em pleno século XXI: brancos nacionalistas e a Ku Klux Klan tomando as ruas e disseminando ódio e terror. Em Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi o alvo é Ronsel, mas poderia ser um jovem em Charlottesville — ou em qualquer lugar no mundo. O filme se passa após o final da Segunda Guerra Mundial, em 1945, mas as humilhações sofridas por Ronsel não ficaram naquele ano, repetindo-se diariamente; bastar ler o jornal para saber. Ainda que Jamie tente intervir em favor do amigo no meio daquela situação absurda, não há muito que ele, sozinho, possa fazer para frear o ódio irracional daquele grupo de homens. Em uma situação desesperadora e de partir o coração em milhares de pedaços, Mudbound desvela o racismo violento e as relações de poder que ainda permanecem.

Na figura de Ronsel temos o jovem que não aceita mais que decidam por ele qual é o seu lugar no mundo, enquanto Jamie encara os danos que seu privilégio pode causar à vida do amigo. Mudbound é um filme intenso e certeiro ao retratar as relações sociais entre seus personagens, e como um mundo amargo e sombrio ainda persiste. A direção de Dee Rees não nos poupa da dor de ver uma pessoa sofrer humilhações por conta da cor da sua pele, evocando a empatia e a tristeza de quem se aventura a assistir seu filme. Ainda que o desfecho da história possa soar muito perfeito, com todas as peças se encaixando em seus devidos lugares, era o mínimo a se esperar após as quase duas horas e meias de angústias e pesares no delta do Mississipi, um lugar que possui uma paisagem que parece abraçar seus personagens e oprimi-los na mesma medida, ainda que exista plantações a ser perder de vista no horizonte.

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Sem contar com um protagonista definido, visto que passeamos pelas histórias e mazelas de cada um dos personagens — algumas em maior profundidade do que outras —, Mudbound captura nossa atenção também por conta do elenco perfeitamente entrosado, com destaque óbvio para a Florence de Mary J. Blige. Conhecida primeiramente por sua música — a artista já vendeu quase 50 milhões de discos de R&B e hip hop —, Mary desaparece quando se veste de Florence. A personagem, marcada pela dificuldade de sua vida, não é de muitas palavras, por isso o trabalho de Mary J. Blige sobressai: ela precisa passar por meio de olhares e gestos todo o sofrimento e dor contidos em Florence, uma mulher que não pensa duas vezes em guardar o chocolate que recebe de Ronsel para dividir com os outros filhos, uma mulher que se doa completamente à família e ainda precisa lidar com a rotina dura da plantação de algodão. Como se não bastassem os próprios filhos, Florence ainda precisa cuidar da meninas de Laura — uma decisão que ela toma ao rememorar o convívio com sua própria mãe, uma mulher que saía cedo de casa, deixando seus filhos sozinhos, para cuidar das crianças de outra mulher como forma de manter a comida na mesa em seu lar.

É uma pena que Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi não tenha sido indicado em categorias de peso no Oscar desse ano, como Melhor Diretor ou Melhor Filme. Em tempos tão sombrios quanto o que estamos vivendo, com o ódio racial como uma constante em pleno século XXI, as conexões entre passado e presente propostas pelo filme são inestimáveis. O belo trabalho de Dee Rees é refletido em cada cena, contando uma história que é preciso parar para ver: uma narrativa que é feita de pessoas, sonhos, desejos e sofrimentos, tanto quanto é feita de lama e chuva.

“Time tells no lies
It keeps changing, and ticking, and moving, then passes by
But if you’re lucky it will be kind
Like a river flowing through tim” 

“O tempo não diz nenhuma mentira
Ele continua a mudar, correndo, e se movendo, em seguida, passa
Mas se você tiver sorte ele vai ser gentil
como um rio que flui através do tempo”

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississípi recebeu 4 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Roteiro Adaptado (Dee Rees e Virgil Williams) , Atriz Coadjuvante (Mary J. Blige), Fotografia (Rachel Morrison), Melhor Canção Original (“Mighty River”, por Mary J. Blige, Raphael Saadiq e Taura Stinson).


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira.

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