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Uma Nova Chance e as mulheres no mercado de trabalho

Quem cresceu assistindo filmes de romance na Sessão da Tarde sabe do poder que um filme estrelado por Jennifer Lopez tem sobre os corações apaixonados por rom-coms. Cantora, compositora, dançarina, atriz e agora também produtora, Jennifer Lynn Lopez é uma profissional incrível e que serve de inspiração por seu talento e carisma, além de ajudar a tornar Hollywood mais diversa com sua descendência latina.

Um dos meus filmes favoritos da Sessão da Tarde é Encontro de Amor (Maid in Manhattan, no original). Ver um adorável Tyler Posey contracenando com Lopez e ajudando a unir Christopher (Ralph Fiennes) e Marisa (Lopez), uma camareira de um hotel de luxo que, graças aos desencontros do destino, acaba passando por uma hóspede rica e conhece o homem dos sonhos, me fazia acreditar em contos de fadas. Melhor ainda, porém, é quando Marisa ganha uma promoção no trabalho e passa a ocupar um cargo que sempre desejou e para o qual era totalmente capaz (ainda que por interferência de uma colega, já que ela própria nunca acreditara muito em seu potencial). Sucesso no amor e na vida profissional: nada poderia ser mais perfeito, mesmo que o caminho traçado fosse torto; a conclusão continuava a ser o felizes para sempre. Olhando para trás, é perceptível que nem tudo eram flores e, à época, a visão romantizada de uma adolescente ainda em fase de pré-desconstrução não conseguia captar algumas mensagens relevantes presentes em segundo plano, como a subtrama profissional da vida de Marisa.

Sorte a minha que, em 2019, Jennifer Lopez está de volta às telas do cinema e eu estou pronta para ouvir aquela mensagem importante que acompanha a trama de romance e autodescobrimento. Quando assisti ao trailer de Uma Nova Chance (Second Act, no original), fiquei animada com a reunião de Lopez a Milo Ventimiglia e Vanessa Hudgens; um combo improvável de causar decepção. Até certo ponto, isso está correto: assistir Maya (Lopez), uma caixa de supermercado não mais tão jovem aos olhos do mercado e sem um diploma de curso superior tentar uma promoção, ser rejeitada e ver a vaga pela qual batalhara ser preenchida por um homem meia-boca, mas com um diploma de graduação, foi instigante e esclarecedor. A trama só melhora com as aparições de Trey (Ventimiglia), namorado de Maya que faria tudo por ela, mas por quem, devido a um grande segredo, Maya parece não conseguir se dedicar totalmente.

Com o fracasso em sua tentativa de promoção — bem no dia de seu aniversário —, a protagonista não consegue aproveitar de verdade sua festa surpresa e, amargurada por toda a injustiça da situação, acaba fazendo um desejo ao apagar as velas de seu bolo de aniversário: que a falta de um diploma não fosse o que definisse toda a sua carreira profissional, ainda mais quando ela tinha anos e anos de experiência que comprovavam sua eficiência, capacidade e talento.

O pedido de Maya é ouvido e, em seguida, ela recebe a ligação de uma grande companhia a convidando para uma entrevista de emprego. Ao comparecer a reunião, no entanto, ela percebe que algo está muito errado com seu currículo, que contém informações fantasiosas e muito exageradas sobre seus feitos acadêmicos e profissionais. Apesar de não ser qualificada para a função como o diretor da empresa acredita, no entanto, um teste prático mostra toda a sua capacidade e visão de negócios, o que acaba com ela sendo contratada e se tornando responsável por remodelar um dos produtos produzidos pela companhia, enquanto compete com Zoe (Hudgens), a filha do chefe, e outros colegas para ver quem apresenta a melhor versão do tal produto.

O grande problema da produção consiste, ironicamente, em seu segundo ato, quando somos apresentados a um dos plot twists mais insanos que já vi. A partir daí, o filme segue com uma situação impossível atrás da outra, dando grandes pitadas de surrealismo à trama e fazendo o desenvolvimento do longa perder um pouco de efeito — ainda que, ao final, ele seja uma boa opção para quem deseja dar boas risadas (e fungadas), colocar sua incredulidade à prova ou não resista ou carisma e presença de tela de Jennifer Lopez.

Todavia, as falhas e fraquezas do roteiro de Uma Nova Chance não deveriam desvalidar a discussão levantada de forma tão enfática na primeira parte do filme e que é a força propulsora da trama da personagem principal em um primeiro momento. Da mesma forma que Encontro de Amor, o filme mais recente da atriz e cantora levanta, como pano de fundo, temáticas relacionadas ao mercado de trabalho e como as mulheres são vistas e como sofrem nesse meio, especialmente quando vem de classes baixas e com pouca — ou nenhuma — instrução educacional de nível superior. Entretanto, ao contrário de Marisa, que duvidava de sua capacidade para a função de camareira chefe, Maya sabe muito bem do que é capaz, mas dá de cara com o sexismo e o elitismo em sua mais pura forma.

“Será que não ter conseguido um diploma aos dezoito anos não me qualifica para um trabalho aos 40 anos?!”, é um dos questionamentos que Maya levanta em uma conversa com sua melhor amiga Joan (Leah Remini). Afinal, portas foram fechadas em sua cara a vida toda apenas por não possuir um diploma; mesmo com seus chefes reconhecendo sua inteligência e desenvoltura nos cargos em que ocupa, ela não era o suficiente para preencher determinadas funções, devido aos requisitos burocráticos.

Em um país que convive com uma realidade de 13,1 milhões de pessoas desempregadas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e aonde mais da metade dos adultos, 52% mais especificamente, entre 25 e 64 anos não são formados no ensino médio, conforme estudo publicado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em 2018, ingressar no mercado de trabalho e se manter nele se torna uma questão delicada. Apesar de nos últimos anos a democratização do acesso à universidade ter avançado, com o Enem sendo porta de entrada universal, um sistema de benefícios para manter o aluno dentro do ensino superior (afinal, não basta apenas colocá-lo lá, é preciso mantê-lo), ainda há muito a ser feito, especialmente quando se fala na educação de base, que se inicia lá no ensino fundamental, ainda tão falha e despida de qualidade em nosso país.

O mérito da discussão entre qualificação versus maiores chances de emprego/ promoção versus anos de experiência invalidados pela falta de um diploma é uma discussão muito mais complexa do que cabe neste texto, entretanto, é interessante desenvolver um olhar voltado à situação da mulher no mercado de trabalho, seja ela graduada ou não.

A exemplo de outros nichos da sociedade, as consequências por aquilo que faz ou deixa de fazer recaem de forma mais incisiva e condenatória sobre o gênero feminino também na prestação de serviços. Um desvio cometido, como acontece com Maya, pode afetar toda a sua vida, indiscriminadamente. No entanto, em se tratando de homens — especialmente homens brancos —, deslizes não são vistos como motivos para dar um fim a suas carreiras ou se refletem na diminuição de oportunidades. Basta comparar a disparidade entre, por exemplo, o famoso caso de roubo de Winona Ryder — que ficou anos fora dos holofotes após sofrer escrutínio por furtar uma loja —, enquanto, mais recentemente, James Gunn foi demitido de seu cargo na Marvel devido a tweets com conteúdo impróprio, mas assinou um contrato com a DC pouco tempo depois e, para a surpresa de ninguém, foi recontratado mais recentemente pela Casa de Ideias. Apesar da situação que envolve o vai e volta de Gunn ser muito nebulosa, toda a questão lhe trouxe mais oportunidades do que implicações negativas.

E, aparentemente, em se tratando de competências, mesmo que possuam uma habilitação, mulheres ainda saem atrás dos homens, ganhando menos e perdendo cargos de trabalho para o gênero oposto. É o que diz um estudo do IBGE com base na população de 25 anos ou mais de idade com ensino superior completo em 2016. Mulheres somavam 23,5%, enquanto homens eram 20,7%, porém, mesmo os dados mostrando que mulheres são mais qualificadas academicamente, entre os anos de 2012 a 2016, apurou-se que elas ganharam, em média, 75% do valor que era pago aos homens.

Os números também não favorecem as mulheres nos Estados Unidos, de acordo com pesquisa anual promovida pelo Women in the Workplace. A cada 100 mulheres promovidas em 2018, 130 homens alcançaram posições mais altas. A disparidade salarial, então, alcança níveis ridículos, já que de acordo com o estudo do Centro Universitário Georgetown sobre Educação e Força de Trabalho mulheres com um mestrado ganharam 83 mil dólares em 2017 e homens com um bacharelado receberam 87 mil dólares no mesmo ano.

“What do these numbers tell you? Women, especially women of color, who pursue additional years of education — and likely take on ten on tens of thousands of dollars in student debt — are held back from making the same as men with less educational experience under their belt.”

“O que esses números dizem? Mulheres, especialmente mulheres negras, que estudam mais — e provavelmente tem dezenas de milhares de dólares em dívidas de financiamentos estudantis — são privadas de ganhar o mesmo que homens com menos qualificações.”

A disparidade salarial ou critérios de tratamento e reconhecimento diretamente afetados pelo machismo são apenas algumas das consequências que as mulheres precisam enfrentar no mercado de trabalho por serem quem são. “Boa sorte em encontrar um novo emprego com sua idade” é outra frase marcante que a personagem de Jennifer Lopez precisa ouvir. Ao pedir demissão por não aceitar ter o cargo que estava disputando preenchido por um homem branco de meia-idade e, claramente, não qualificado, mas que possuía um diploma em alguma faculdade chique, Maya se arrisca duplamente ao entrar para o mundo do desemprego. Sabemos que não é permitido por nossa sociedade atual às mulheres envelhecerem, é preciso ser sempre jovial, a musa inspiradora e sem rugas no rosto, então recomeçar, enquanto mulher em uma sociedade patriarcal é um passo difícil. Neste sentido, Maya traz um facho de esperança ao desconstruir estereótipos e mostrar que seu chefe estava errado em muitos sentidos. Talvez seja mais fácil falar do que fazer quando, no mundo real, a comida de todo dia está em jogo, mas é bom ter exemplos para se inspirar e passar a sensação de possibilidades e poder.

Julgadas pela idade, temperamento (“muito explosiva”, “muita agressiva”, “estressada”, “se impõe de mais”, “ergue o tom”), afetadas pela falta de autoconfiança (quem nunca ouviu ou vivenciou uma situação em que deixou de pedir um aumento que merecia, ou se privou de contribuir com ideias por medo ou insegurança das reações masculinas) e, claro, tendo que enfrentar a jornada dupla de trabalho e toda a problemática relacionada a maternidade, tão bem exposta pelo nosso atual presidente, que quando ainda não ocupava o cargo, afirmou que não pagaria o mesmo salário de um homem a mulher, devido a possibilidade de gravidez e, posteriormente, de licença-maternidade, são mais alguns itens de uma longa lista de adversidades e obstáculos que se impõem as mulheres em suas vidas profissionais diariamente.

“A woman can earn up to $1 million in her lifetime less than a man — just based on the choices she made when she was 18 years old.”

“Uma mulher pode ganhar até um milhão de dólares a menos que um homem em sua vida — apenas baseado nas escolhas que ela fez quando tinha 18 anos de idade.”

Os dados são assustadores e a realidade mais dura, exatamente como as outras pautas pelas quais lutamos, ainda há muito a ser feito e debatido para assegurar oportunidades, tratamento e pagamentos equiparáveis. Neste momento, no entanto, só gostaria, como a boa romântica que sou, que tudo fosse resolvido e solucionado em um passe de mágica como em um filme estrelado por Jennifer Lopez.

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