Categorias: LITERATURA

Só Escute: rompendo silêncios

No centro de Só Escute, livro mais popular da prolífica autora Sarah Dessen, está uma família aparentemente perfeita — pai, mãe, três belas filhas trabalhando como modelos — que vive em uma elegante casa de vidro projetada pelo próprio pai. Se alguém passasse pela casa à noite, nos conta Annabel, a narradora, veria uma família feliz compartilhando uma refeição pacífica. A felicidade irretocável e a perfeita harmonia em que os Green aparentam viver em muito se sustentam em tudo o que não é dito por nenhum deles. Em segundo plano, há uma série de não-ditos que atormentam cada um dos membros da família, em um lento mas constante processo de ebulição. Eventualmente, tudo isso domina e preenche o ar que os envolve, agindo de modo silencioso sobre sua relação uns com os outros e também com o mundo do outro lado do vidro. O silêncio é confortável, os priva de receber respostas indesejadas para perguntas que não querem fazer. Mas o silêncio também torna as relações distantes, torna mãe e filhas e irmãs estranhas umas às outras, interrompe as conexões que tentam estabelecer. Não existe conexão sem diálogo, sem franqueza, sem vulnerabilidade, diz o livro. É preciso falar. Mas também é preciso aprender a escutar.

Seguindo a forma mais tradicional dos romances YA, Só Escute se passa durante a escola, tendo início exatamente junto com a chegada de mais um ano escolar na vida de Annabel Green, sua protagonista e narradora. O ano que se inicia, no entanto, traz com ele muita insegurança e confusão para a garota, cuja vida muda drasticamente depois de uma briga com sua até então melhor amiga, Sophie. A narrativa de Annabel volta ao passado diversas vezes, percorrendo os caminhos não-lineares de sua memória, e é através desses muitos flashbacks que compreendemos a história de Annabel e Sophie: começo, meio e fim.

A proximidade com Sophie, que cruzara o caminho de Annabel alguns anos antes, trouxe muitas mudanças para sua vida. Sophie era uma garota destemida e ansiosa para experimentar o mundo lá fora e ao se tornar amiga dela Annabel se abrira para muitas novas experiências e para momentos que de outro modo talvez nunca vivesse. Sophie fez dela popular, parte de um grupo, alguém que sabia seu lugar. A volta às aulas que tanto atormenta Annabel representa um rompimento com tudo isso. Sabemos logo de início que ela foi flagrada com o namorado de Sophie em uma festa, sabemos que elas nunca conversaram sobre o assunto. Sophie a rejeita e a exclui, a chama de vagabunda nos corredores da escola, a torna uma pária. Annabel nunca fala nada. Seu lugar agora é sentar em um muro junto com outras pessoas que não pertencem a lugar algum, e é nesse muro que ela conhece Owen.

Ou, melhor dizendo, conversa com Owen pela primeira vez, já que ela sabe quem ele é há muito mais tempo. Seus caminhos, no entanto, jamais se cruzam: ela era uma princesa, ele era um ogro; a hierarquia social da escola não permitiria tal interação. Se a princípio Owen parece representar um dos estereótipos mais difundidos e cansativos na literatura YA, a do mocinho sério demais, calado demais, misterioso demais, sempre meio rude e grosseiro, é uma grata surpresa descobrir que não é nada disso. Owen é calado simplesmente porque não tem com quem conversar; Owen fora preso por agressão — parte da fama (ou infâmia) que carrega —, e o resultado disso é que ele se tornou muito cuidadoso com a própria raiva, com as próprias emoções. Ele fala sobre elas, cuida delas, aprendeu como controlar a si mesmo, a não cometer os mesmos erros. Ao longo do livro, Annabel e ele gradativamente desenvolvem uma amizade que parece sempre natural e orgânica, duas pessoas que precisam uma da outra de maneiras muito diferentes, mas igualmente importantes.

É a música, em primeiro lugar, que os conecta. Owen é fissurado por música, por experimentar diversos gêneros, descobrir e compartilhar coisas que ninguém ouviu, buscar sempre algo de novo; para Annabel, a música só está lá, não é importante. Conviver com Owen é abrir-se constantemente a novas possibilidades, mesmo que seja só para descobrir que existem coisas das quais ela nunca vai gostar, de jeito nenhum. Ele não pede que ela goste de nada, apenas que ela escute. Que ela se abra.

Já faz algum tempo que um dos meus maiores problemas com YA, que hoje me mantém mais afastada do que próxima do gênero, é que parece existir uma regra implícita de que um livro jovem adulto preciso ter sempre, sempre, sempre um romance. Não há problema nenhum em romance em livros e ele faz parte da maioria das adolescências, mesmo que seja apenas desejado, nunca tornado realidade. A questão não é o romance, mas a regra do romance: porque ele nem sempre cabe em todas as histórias, ou é necessário ou mesmo relevante, e às vezes acaba existindo como um apêndice inútil a um enredo (muito mais interessante) de crescimento pessoal só porque sim. Porque é o esperado. Em Só Escute, no entanto, ele parece perfeitamente adequado, parte daquela jornada. Não porque era preciso existir um-namorado-para-Annabel apenas porque sim, mas porque a história particular dela pedia conexão e companheirismo, e é o que ela encontra. Essa conexão é essencial para colocar sua transformação em curso. Não porque é um garoto, não porque um relacionamento é o objetivo supremo a se aspirar, mas porque para seguir adiante ela precisava encontrar alguém que ouvisse, que compartilhasse, que estivesse lá.

Mas ele não está lá sozinho. O aspecto mais profundo e comovente do livro está na ênfase dada às relações familiares — que são, afinal, a base de tudo. Sarah Dessen opta por discutir muitos temas importantes e difíceis ao mesmo tempo ao falar da família Green, e poderia acabar pecando pelo excesso. Mas ela consegue manter essas tensões em equilíbrio, sem nunca parecer ter jogado tudo descuidadamente na trama para abordar o maior número de questões possíveis num trabalho só. O foco real é apenas um, mas todos os temas são tratados com carinho. Se há um problema com eles é que são muitas pontas ao mesmo tempo e a maioria delas parece ser amarrada com pouca dificuldade, soando pouco realista no fim das contas. Ainda assim, a escolha é compreensível, porque tudo isso busca repetir a ideia principal que permeia todo o livro: só há cura na conexão, e só há conexão através do diálogo.

“O pior era que havia coisas que eu gostaria de contar à minha mãe, tantas que eu nem conseguia contabilizar, mas nenhuma delas seria digerida facilmente. Ela tinha passado por tanta coisa com minhas irmãs que eu não podia piorar tudo. Então, fazia o que dava para equilibrar a balança, pouco a pouco, palavra por palavra, história por história, mesmo que não fosse verdade”.

Atenção: nos parágrafos seguintes o texto revela um spoiler sobre um evento significativo na trama; embora sua revelação não tenha sido nenhuma surpresa para mim, e sim algo que ficou claro desde muito cedo, ele é tratado como um grande mistério, que é contado aos poucos.

O silêncio é colocado em curso na vida de Annabel devido ao que aconteceu na noite que mudou tudo na sua vida. Sophie testemunhara uma cena que não entendeu, presumira algo que não era verdade. Mas Annabel nunca contradisse sua interpretação. Sua vida muda completamente e de repente ela não tem mais planos nos finais de semana, não conversa mais com sua melhor amiga. Mas os pais nunca perguntam por quê, e ela também nunca explica. Apesar da narrativa cheia de flashbacks, demora muito até que Annabel finalmente revele exatamente o que acontecera naquela noite. Ao longo do livro, uma única frase é repetida diversas vezes quando ela pensa naquele momento: “Shh, sou só eu”. E é sempre nela que a memória emperra; o trauma não permite que ela revisite as lembranças dolorosas daquela noite, não deixa que ela fale sobre ela. O trauma, a vergonha, a insegurança: tudo isso faz Annabel acreditar que o silêncio é o melhor caminho.

2017 foi o ano dos silence breakers, quebradores e quebradoras do silêncio, que trouxeram o debate sobre o assédio e o abuso sexual para o centro de nossas conversas, para a mídia, para as redes sociais. Se as pessoas que revelaram suas histórias de violência, vergonha, silenciamento e receio receberam apoio significativo nas redes sociais, sendo a hashtag #MeToo o melhor exemplo, e foram tornadas as personalidades do ano na tradicional distinção da revista Time, também não faltou quem questionasse as vítimas: por que ficaram caladas por tanto tempo? Ou então: por que não falam sobre isso sempre, o tempo todo? Ou ainda: por que entraram no quarto, por que foram até lá, por que isso, por que aquilo? Vivemos em uma cultura que gosta de culpar as vítimas de violência de natureza sexual e muitas vezes falta a disposição de tentar se colocar no lugar do outro, de buscar entender. Só Escute foi publicado pela primeira vez em 2006, há mais de dez anos, mas sua publicação por aqui acabou sendo providencial para o momento que estamos vivendo. A narrativa de Annabel evidencia o turbilhão de emoções conflitantes que vêm em consequência do estupro, incluindo nessa conta o medo da reação alheia, de ser culpada, de ser reduzida ao que aconteceu com ela e nunca poder ser mais nada.

“E se, ainda que eu tivesse contado ou contasse agora, ninguém acreditasse em mim? Ou pior: e se me culpassem pelo que tinha acontecido?”

A história de Annabel é conduzida e tratada com muito cuidado, com muitas nuances; ela não quer ser apenas uma garota indefesa ou a brutalidade que sofreu. E ela não é. Como qualquer pessoa, ela é muito mais, e a história contada em Só Escute é um reflexo disso, com momentos de dor, de catarse, mas também de alegria genuína, de força. Força que vem de dentro, mas também daquilo que a rodeia. Embora cada personagem tenha seu próprio fardo para carregar, obviamente nenhum deles é tão desenvolvido quanto a própria Annabel — afinal, ela é o filtro de todas essas histórias e o centro da própria vida. Mesmo assim, ao fim da leitura fica a sensação de que cada um dos personagens poderia protagonizar o próprio livro, porque para todos são dadas bases muito sólidas; em consequência, a história de Annabel se torna muito mais rica e verdadeira.

Em 2017, aqueles que romperam o silêncio foram as personalidades do ano. As consequências parecem finalmente estar chegando. A luta continua, vozes continuam surgindo, discussões continuam crescendo. Mas os questionamentos sobre o movimento já começaram, e sabemos que o interesse em enfraquecê-lo existe. Precisamos continuar abertos para escutar as histórias das milhares, milhões de Annabels mundo afora, para que o silêncio nunca, nunca mais pareça a melhor opção.

“E então, quando as palavras rompem o indizível, o que era tolerado numa sociedade às vezes passa a ser intolerável. […] As histórias pessoais mostram o problema e o tornam incontornavelmente visível.” (Rebecca Solnit, “Uma breve história do silêncio”)

O exemplar foi cedido para resenha por meio de parceria com a Editora Companhia das Letras.


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