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Crítica: em Roma, quem cuida de Cleo?

Antes de ser um filme sobre uma jovem empregada doméstica que trabalha na casa de uma família de classe média na Cidade do México, Roma é a produção milionária do cineasta mexicano Alfonso Cuarón, que ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Diretor em 2014, por Gravidade. Antes de conhecermos a protagonista Cleo (Yalitza Aparicio), sabemos que o longa surgiu como um favorito instantâneo para a temporada de premiações e foi lançado diretamente na Netflix, com exibições em poucas cidades e num curto espaço de tempo, provocando toda uma discussão sobre as consequências de se premiar um filme veiculado numa plataforma de streaming, sem fazer questão das grandes telas. O debate continua mesmo depois de o filme ter vencido três das dez indicações no Oscar em 2019: Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Desde as primeiras críticas, cada aspecto de Roma foi discutido: sobre o lugar de um filme autobiográfico na obra de Alfonso Cuarón; sobre como a história parece uma versão mexicana do longa brasileiro Que Horas Ela Volta?, dirigido por Anna Muylaert; sobre como Yalitza Aparicio, que estudou para ser professora, estreou a carreira artística num papel que rendeu a ela uma indicação de Melhor Atriz no Oscar, tornando-se a primeira latina de origem indígena a ser indicada na categoria; sobre a polêmica de que palavras do espanhol falado no México foram substituídas por sinônimos nas exibições na Espanha; e, um dos últimos assuntos, sobre como um dos atores do filme teve o visto americano negado três vezes antes de conseguir a permissão para entrar nos Estados Unidos e, assim, participar da cerimônia do Oscar.

Numa descrição breve, Roma é um filme é sobre uma família que vive num bairro de classe média de uma grande cidade. Centrado na rotina e nos movimentos da empregada doméstica que também faz as vezes de babá dos filhos dos patrões, o longa apresenta os integrantes da família a partir da sua relação com essa jovem, que, na verdade, é a protagonista da história. Isso não quer dizer que o ponto de vista da narrativa seja o de Cleo. Ela apenas aparece em primeiro plano, como se um narrador tentasse vasculhar as memórias do passado para encontrar cenas relevantes sobre ela e, assim, tentar entender quem era essa mulher que trabalhava praticamente o dia inteiro em função de uma casa que não era a sua.

É a partir desse olhar que conhecemos Cleodegaria Gutiérrez, a Cleo: esfregando o chão do terraço, acordando as crianças, lavando roupa, servindo a mesa e fazendo a última ronda para apagar as luzes dos cômodos antes de ir para o quarto que divide com a outra empregada da casa, Adela (Nancy García). As duas se comunicam em mixteco, uma das 69 línguas nacionais do México — são 68 línguas indígenas e o espanhol —, um detalhe que amplia a representatividade de personagens latinos que dificilmente aparecem em Hollywood ou na televisão. Ao observar a convivência entre essas duas mulheres, temos a chance de ver como a protagonista se comporta fora da vista dos patrões. Elas são amigas e têm uma relação de parceria no trabalho. Com a colega, Cleo faz piadas, sorri abertamente, faz planos para o final de semana e fala sobre um certo namorado.

Atenção: este texto contém spoilers!

Na primeira parte do filme, a protagonista começa a sair com Fermín (Jorge Antonio Guerrero), um primo do namorado de Adela, e o relacionamento avança até que ela desconfie que está grávida. Assim que conta a suspeita ao rapaz, Cleo é abandonada. Fermín sai da sala de cinema supostamente para ir ao banheiro e não volta mais, sem nem levar a jaqueta que tinha deixado na poltrona. A jornada de Cleo como uma mãe solo é paralela ao divórcio de seus patrões. Antonio (Fernando Grediaga) decide deixar Sofia (Marina de Tavira) e os quatro filhos sem ter coragem de bancar a própria escolha, tratando inicialmente a separação como algo temporário. Ele sai de casa para uma viagem de trabalho, e essa desculpa é usada continuamente para aplacar a curiosidade das crianças quando elas perguntam sobre o pai. Colocada numa situação delicada, a própria Sofia também não sabe como explicar a situação e tenta, ao menos num primeiro momento, fingir que nada de diferente está acontecendo, mesmo que o marido também tenha deixado de sustentar a casa.

As duas personagens parecem sofrer em silêncio, retraindo as próprias emoções. Sofia precisa manter as aparências. Cleo não tem coragem de contar da gravidez para a própria mãe e, por isso, se distancia da família. As tramas são intercaladas até que numa noite Sofia chega em casa bêbada e decide compartilhar um aprendizado com Cleo, que estava ali para abrir e fechar o portão da garagem: “Não importa o que te digam, sempre estamos sozinhas.” Esse era para ser um momento de aproximação entre patroa e empregada, duas mulheres abandonadas, mas o efeito da cena é incômodo porque evidencia como elas ocupam posições tão diferentes na sociedade.

Nem se trata de comparar sofrimentos. A questão é que Sofia tem toda uma estrutura de apoio, entre amigos da família e empregados, quando é deixada pelo marido. Cleo teme até perder o emprego ao contar à patroa que está grávida e, mesmo continuando no trabalho, a ajuda que ela recebe é reflexo da ideia corrente de que uma empregada doméstica é praticamente da família. Um praticamente que deixa bem claro que aquela relação é pautada pelo trabalho e não apenas por afeto. Como a dupla franco-cubana Ibeyi canta numa das músicas do álbum encomendado como uma trilha sonora externa ao filme: “Cleo, quem toma conta de você?” (No inglês, “Cleo, Who Takes Care of You?”).

Um ponto interessante é que, em Roma, Sofia não é colocada num papel de vilã clássica, a dona de casa insensível que não se importa de qualquer maneira com a empregada doméstica, por mais que a jornada de trabalho de Cleo pareça ser excessiva. É na sutileza que as suas falhas e seus privilégios aparecem: quando ela cobra o atraso na realização de uma tarefa como se Cleo não tivesse passado o dia inteiro trabalhando sem qualquer descanso, quando Adela menciona que elas precisam desligar a luz do quarto para que a patroa não reclame do gasto de energia e quando ela proíbe a filha de comer a mesma sobremesa que os irmãos para que não “engorde”.

É nessa relação entre patroa e empregada que Roma mais se diferencia de Que Horas Ela Volta?. No filme de Anna Muylaert, Val (Regina Casé) não tem qualquer tipo de relação afetiva com Bárbara (Karina Teles), apenas com o filho da patroa, o adolescente Fabinho (Michel Joelsas). A história gira em torno da chegada incômoda de Jéssica (Camila Márdila), a filha que Val não encontrava havia anos, e é Dona Bárbara quem mais se perturba com a presença da jovem que se recusa a agir com subserviência aos patrões da mãe. Como essa representação de patroa não tem lá muitas nuances — ainda que ela seja uma personagem extremamente possível de existir na vida real —, pode-se ficar com a impressão de que ela é uma exceção, de que ela tem defeitos reforçados para dar um efeito dramático ao filme. Em Roma, Sofia ocupa uma posição mais ambígua. Fica claro que não são adequadas as condições de trabalho dos empregados domésticos daquela casa, mas existem momentos em que ela realmente demonstra ter consideração ao menos por Cleo, a pessoa que se dedica a cuidar de seus filhos. No fim das contas, os dois filmes se complementam para provocar uma discussão mais ampla sobre o serviço doméstico, apresentando diferentes perspectivas sobre um mesmo tema e apontando como essas trabalhadoras muitas vezes não têm os direitos reconhecidos. Nem faz sentido que exista um único filme de referência sobre uma questão tão relevante.

Por outro lado, um aspecto de Roma que não apresenta nuances é a representação dos personagens masculinos. Apenas dois ganham contornos levemente mais nítidos, Antonio e Fermín, e mesmo assim não se conhece tanto sobre a personalidade desses homens que servem apenas para causar problemas para Sofia e Cleo, respectivamente. Apresentado naquela cena cômica em que estaciona cuidadosamente o carro ao som de música clássica e fumando um cigarro, Antonio é um médico vivendo a clássica crise de meia idade do pai de família que passa a se relacionar com uma mulher mais jovem. Já Fermín é um homem que, pelo que se vê no filme, tem como único interesse o treino de artes marciais oferecido na comunidade onde ele mora. Os demais personagens são apenas os três filhos dos patrões — sendo que um deles ocuparia o papel de alter ego do próprio Alfonso Cuarón —, o motorista da casa e o namorado de Adela. Essa diferença de profundidade entre homens e mulheres é óbvia, deixando claro o ponto de vista do narrador sobre as referências masculinas do seu passado. Mas não foi isso que motivou algumas críticas ao filme.

Na New Yorker, a crítica publicada logo após o lançamento do filme, em dezembro de 2018, diz que falta uma voz no filme de Cuarón. Essa voz faltante seria a da própria Cleo que, de fato, não é uma protagonista eloquente. Nas pouco mais de duas horas de filme, recebemos apenas pistas sobre a sua vida, sobre o que ela pensa, sobre o que ela já viveu. Voltando à ideia de que a premissa do filme se trata de um narrador tentando resgatar memórias sobre uma babá que ajudou a criá-lo, o resultado dessa investigação pessoal é que as barreiras de classe dessa relação nunca foram ultrapassadas. Não importa qual seja a proximidade do diretor com Libo Rodríguez, para quem o filme foi dedicado. O narrador de Roma tenta abrir portas que não levam a lugar algum, e Cleo mantém sua individualidade para si, guardando todos os seus segredos.

Só escapa dessa barreira um vislumbre da confusão interna da protagonista durante a sua gravidez. Ainda que Cleo aparente encarar a situação com passividade e até de uma forma tranquila, sem conversar muito sobre o que planeja para a vida com um bebê, seus sentimentos parecem se materializar em manifestações externas à personagem, em três cenas que funcionam também como um mau presságio. A primeira delas é logo após a primeira consulta com a obstetra, quando Cleo observa a vitrine de recém-nascidos da maternidade. Nesse momento, começa um tremor de terra que afeta a estrutura do hospital. As enfermeiras retiram algumas crianças do local, e parte do teto desaba sobre uma incubadora, onde um bebê dorme em paz, sem perceber o impacto dos escombros.

Já com a gravidez avançada, Cleo acompanha a viagem de férias dos patrões a uma fazenda de amigos e, na virada do ano, é convidada a participar da festa da comunidade, entre empregados e moradores do povoado. No instante em que uma colega faz um brinde pela saúde do bebê que está por vir, alguém esbarra no braço de Cleo, e o copo cai espatifado no chão de forma dramática. A última cena seria a do dia do nascimento, quando a mãe de Sofia, Cleo e o motorista decidem sair para comprar o berço da criança no dia que haveria uma grande manifestação na Cidade do México. Um protesto estudantil que depois seria conhecido como o Massacre de Corpus Christi. Durante a repressão, dois manifestantes tentam se esconder na loja de móveis em que Cleo está, mas eles são perseguidos por um grupo armado que poderia ser tanto de policiais disfarçados como de um grupo paramilitar. Um dos homens armados é justamente Fermín, numa coincidência tão assustadora que abre brechas para questionar se aquela cena não tem elementos da imaginação da protagonista. Depois de todos esses sinais, não é tão surpreendente o desfecho da cena na praia, já mais para o fim de Roma, quando Cleo desabafa que não queria ter a filha, logo depois de salvar dois dos filhos de Sofia que se afogavam no mar.

De fato, Roma não descreve minuciosamente a sua protagonista. Mas será que Alfonso Cuarón teria conseguido dar uma voz realista à personagem se a intimidade de Cleo fosse revelada por completo para o espectador? A contribuição do diretor foi de fazer um filme que desconstrói um pouco a narrativa hegemônica — já que a história não é apenas sobre o divórcio dos patrões — e direciona o olhar para um grupo visto como a minoria de uma minoria. Afinal, a representatividade de homens e mulheres latino-americanos já é problemática em Hollywood sem considerar o recorte específico da classe de empregadas domésticas de origem indígena. Espera-se que, com o sucesso de Yalitza Aparicio, outras personagens como Cleo ganhem mais destaque no cinema e na televisão.

Ainda que não tenha levado o prêmio de Melhor Filme, Roma teve o reconhecimento de Melhor Filme de Língua Estrangeira no Oscar e no Globo de Ouro, repercutindo mais que Uma Mulher Fantástica, o sucesso chileno do ano passado. É preciso reconhecer que, sim, o roteiro é lento e pode não agradar quem não esteja disposto a aceitar que o ritmo das cenas é ditado pela nostalgia. Por outro lado, vale conhecer o microcosmo dessa casa na colônia Roma. Com uma fotografia que impressiona, o longa tem o efeito de alfinetadas em quem já contratou ou conviveu com empregadas domésticas sem realmente se preocupar com os problemas frequentes nessa relação de trabalho do ponto de vista de uma Cleo.

Roma recebeu 10 indicações ao Oscar, nas categorias de: Melhor Filme, Melhor Direção (Alfonso Cuarón), Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Roteiro Original (Alfonson Cuarón), Melhor Fotografia (Alfonso Cuarón), Melhor Atriz (Yalitza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Mixagem de Som (Craig Henighan e Skip Lievsay), Melhor Edição de Som (Sergio Diaz e Skip Lievsay) e Melhor Direção de Arte (Eugenio Caballero).

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