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O papel de mães não presentes nas histórias da Disney

A série de textos analíticos sobre maternidade não são inéditos no Valkirias. Há anos, a temática é abordada pelo site: é um tema que nunca se esgota e não cansamos de tentar entender, discutir e analisar a maneira como produções culturais tem trazido a discussão à mesa, sejam elas referências audiovisuais, literárias ou até mesmo musicais. Mas como lidam os contos de fadas com a maternidade? Qual é o papel materno, em especial no universo Disney?   

O que é ser mãe?

Para responder a essa pergunta, é preciso retornar às raízes históricas do papel da mãe. Denise Machado Duran Gutierrez, Ewerton Helder Bentes de Castro, Karine Diniz da Silva Pontes, no artigo intitulado “Vínculo mãe-filho: reflexões históricas e conceituais à luz da psicanálise e da transmissão psíquica entre gerações”, afirmam que a criação da figura materna como a conhecemos vai muito além da concepção de uma nova vida. Na Idade Média, a relação entre mães e filhos era muito diferente: a maternidade muitas vezes era resultado da violência em casamentos que se originavam em arranjos e acordos feudais. Após o nascimento das crianças, muitas eram separadas imediatamente das mães, em especial nas classes elevadas, em que os herdeiros eram levados diretamente às amas-de-leite. O cuidado, o carinho e o desejo de estar junto ao filho, portanto, não era um ritual comum às mulheres da época. Essa distância só viria a diminuir séculos mais tarde, quando a mãe passou a ser responsável pelo cuidado das crianças, independente de ser ou não quem o alimentava diretamente em seus primeiros meses de vida.

“A mulher, enfim, passa a ser vista como um indivíduo e não meramente como “mulher-natureza”, à medida que ingressa no mercado de trabalho e adquire um domínio maior da possibilidade de reprodução, com a criação dos métodos anticoncepcionais. Busca o prazer próprio e preocupa-se mais com sua imagem, sem correr o risco de ser condenada moralmente (PEIXOTO et all, 2000). No que se refere ao papel materno, uma consequência desta mudança, como atesta Chodorow (1990), foi o consequente aumento da função materna psicológica da mulher em detrimento de seu papel biológico, de procriação.”

Culturalmente, a mãe passa a ser a que protege, que acalenta e que provém. É ela quem não deixa que nada de mal aconteça aos filhos, que dá conselhos e funciona como modelo a ser seguido. A ausência dessa figura, no entanto, força a criança a um amadurecimento precoce: e essa é uma das principais teorias sobre o porquê de a maior parte das personagens dos contos de fadas — e do universo Disney, consequentemente — não possuírem uma figura materna.

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Desde o seu primeiro clássico, A Branca de Neve e os Sete Anões, de 1937, Walt Disney coletava histórias e referências em outros povos e culturas, recontando-os ao seu próprio modo. Suas protagonistas são sempre jovens, com idade próxima aos 16 anos (uma fase transitória na cultura norte-americana), e iniciam suas jornadas muito cedo, sem a supervisão materna. O desenvolvimento dessas personagens, seu amadurecimento, acontece de maneira acelerada já que eles podem contar com pouca ou nenhuma ajuda, dependendo de si mesmos para sobreviver. A figura paterna tampouco oferece maior conforto, sendo muitas vezes ofuscada pela presença da madrasta ou de uma figura contrária.

As princesas são o exemplo mais óbvio, embora não sejam as únicas. Branca de Neve, de Branca de Neve e os Sete Anões, perde a mãe ainda criança, depois o pai, ficando à mercê de sua madrasta. Em Cinderella, a protagonista de mesmo nome vive uma situação parecida, enquanto Ariel, de A Pequena Sereia, e Pocahontas, do filme de mesmo nome, não encontram conforto e compreensão na figura paterna. Mas existe, ainda, casos como o de Bambi, em que o protagonista perde a mãe ainda na infância e precisa amadurecer rapidamente, ainda que observado de longe pelo pai. Segundo o artigo “Órfãos da Disney”, de Júlia Carvalho:

“(…) Alguns psicólogos que defendem que situações de tensão e de tristeza presentes nas histórias infantis são fundamentais para a formação de valores. Ao ver o protagonista amadurecendo e lidando com problemas, os pequenos tendem a lidar melhor com a realidade — muitas vezes dura — que é crescer. O drama, característico de muitos desses roteiros, vem da ideia central das fábulas: ensinar uma moral e facilitar o crescimento. “

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O papel da madrasta

Nos contos de fadas, é também comum a figura da madrasta. De acordo com o dicionário, madrasta é a “mulher em relação aos filhos anteriores do homem com quem passa a constituir sociedade conjugal”, mas o mesmo verbete também inclui o sentido figurado da palavra, e este é pouco lisonjeiro: “mulher má, incapaz de sentimentos afetuosos e amigáveis”. Segundo Stefania Gomes e Daiane Bitencourt em seu artigo “O lado sombrio do termo ‘MADRASTA’: o funcionamento da memória discursiva”, o termo madrasta ganha esse sentido negativo pela formação que a palavra tem, que é interpretada como um prefixo má, de maldade, no lugar de madrasta ser uma palavra inteira.

“Essa interpretação é amparada em diferentes contos de fadas, nos quais a figura da madrasta é descrita como má, invejosa e ciumenta. (…) a análise do termo em reportagens apontou que essa imagem negativa da madrasta tem circulado em notícias que envolvem morte ou algum tipo de crueldade, sendo a madrasta sempre a responsável pelo ato ou por se manter neutra, sem se pronunciar ao presenciar crimes cometidos pelo pai da criança.” (…) Com o intuito de diminuir o tom depreciativo e buscar melhorar a imagem que as mulheres teriam dentro de novas famílias, o tempo “boadrasta” foi criado. Porém, “o termo “boadrasta” não consegue apagar o sentido negativo dessa figura, pois esta funciona como o avesso da figura da mãe, a qual, por sua vez, é vista, a partir de um viés cristão/católico, como aquela que é “imaculada”, possuindo uma carga semântica de veneração, santificada etc. Portanto, o novo termo não tem força discursiva suficiente para apagar a historicidade negativa atribuída à figura.”

A mãe que deixa de existir na família da protagonista por quaisquer razões, dá espaço para a entrada de uma outra mulher. Uma personagem que quer “roubar” o seu pai para ela, como se essa fosse uma competição que deveria acontecer dentro da família. “Embora a mãe seja na maioria das vezes a protetora dadivosa, ela pode se transformar na cruel madrasta se for má a ponto de negar ao menino algo que ele deseja. Com isso a criança pode manter sua imagem da mãe boa “a salvo””, disse Bruno Bettelheim em A Psicanálise dos Contos de Fadas, citado no artigo “Contos de Fadas e Arquétipos Inconscientes: uma análise do conto da Bela Adormecida”.

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Numa espécie de autoafirmação, as madrastas apresentadas pelas histórias da Disney buscam admiração, beleza e riqueza, o que elas podem alcançar por meio do casamento com um rei. Embora a figura do rei seja aquela que trará riqueza, segurança e estabilidade para a madrasta, ela também traz consigo um herdeiro, e o mesmo deve ser eliminado ou invalidado a todo custo para que os planos dela sigam da maneira como deseja.

Em Branca de Neve, por exemplo, a rivalidade toma contornos cruéis quando a madrasta decide matar sua enteada após o espelho mágico lhe dizer que a menina é a mais bela de todo o reino, e não ela. Aqui a madrasta não tem filtros contra a inveja, o rancor e o ciúmes, colocando a vida de Branca de Neve em jogo apenas por desejar ter o que a menina tem e ser a mais bela em todo o reino. Branca de Neve, por outro lado, mantém sua inocência intacta e de fato acredita que está sendo cuidada e não envenenada quando a Bruxa Má, disfarçada como uma idosa, lhe oferece a suculenta maçã. Esse tipo de representação da figura da madrasta fala muito sobre as tramas antigas do universo Disney e os contextos históricos em que foram desenvolvidas. Com o passar dos anos, e da consciência social cada vez maior, vemos que as narrativas mudam e a madrasta deixa de ser a epítome da crueldade, assim como a figura materna retorna à narrativa de maneira crível, desvelando relacionamentos entre mães e filhas que antes ficavam ocultos pelas produções.

As mães como companheiras de jornada

Até o momento, o único filme da Disney que coloca a mãe como um ponto importante da narrativa, atuando ao lado da protagonista, é Valente, de 2012. Todo o filme gira ao redor da relação entre Elinor e Merida, mãe e filha, e como elas não conseguem se entender durante a jornada em busca de quebrar o feitiço que aprisionou Elinor no corpo de um urso. Tudo o que Elinor deseja é o melhor para sua filha, mas Merida tem a tendência de achar todo esse cuidado sufocante e recheado de cobranças, principalmente por ser uma menina independente e pouco inclinada ao casamento, como deseja sua mãe. Em outras produções do estúdio, quem aparece fazendo o papel de protetora são as avós, como em Moana: Um Mar de Aventuras, de 2018, ou as irmãs, como Lilo e Stich, de 2002, e até mesmo Frozen: Uma Aventura Congelante, de 2013.

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Das poucas mães que aparecem nas histórias da Disney, as que vemos são verossímeis e personagens complexas: mães de coração cheio, que ensinam e estão sempre perto para evitar qualquer mal como é o caso de Kala, que cuidou de Tarzan (1999); de Madame Samovar, em A Bela e a Fera (1991); Sarabi, mãe de Simba (Rei Leão, 1994); Eudora, mãe de Tiana (A Princesa e o Sapo, 2009); entre outras. Mulheres que criaram praticamente sozinhas suas crianças fortes e destinadas a um futuro brilhante. Seu papel sempre foi o de indicar o caminho, atuando em segundo plano.

Nesse universo, no entanto, são poucas as famílias compostas pela formação tradicional de pai, mãe e filhos. É possível encontrar muito mais casos de mães solo, pais viúvos e parentes cumprindo o papel de zelo, todos sempre dando seu melhor e mais puro amor aos filhos. Isso só nos comprova ainda outra premissa, de que mãe não é uma função, profissão ou destino. É sim um sentimento completo e que pode estar dentro de qualquer um.

É simples encontrar na internet artigos questionando a ausência das mães nos filmes da Disney. Em entrevista concedida por Don Hahn para a revista Glamour, o produtor executivo de Malévola diz que a ausência das mães ocorre por uma questão prática:

“Uma das razões é bem prática, porque os filmes duram 80 ou 90 minutos, e os filmes Disney tem a ver com crescer e amadurecer. Tem a ver aquele dia na sua vida em que você tem que assumir responsabilidades. Simba fugiu de casa mas teve que voltar. Resumindo, é bem mais rápido as personagens crescerem quando os pais não estão na trama. A mãe de Bambi é morta, então ele precisa amadurecer. Bella só tem o pai, mas ele se perde, então ela tem que assumir as responsabilidades. É uma técnica que ajuda a resumir a história.”

O outro lado da história, também contada por Hahn, dá conta de que o próprio Walt Disney perdeu os pais de maneira trágica, e a saída freudiana do criador para não relembrar seu sofrimento particular é a de não colocar figuras maternas em suas histórias pelo fato delas lembrarem a perda de sua genitora. Teoria da conspiração ou não, o fato é que após a morte de Disney, os novos filmes do estúdio depois dos anos 1980 começaram a apresentar mais as mães de seus personagens. É o que acontece, por exemplo, em Mulan (1998), Vida de Inseto (1998), Hércules (1997), entre outros.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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1 comentário

  1. Nossa! Não tinha visto por essa perspectiva, mas mesmo assim, tive meu inconsciente influenciado por cada um desses filmes que amo! Esse artigo chegou em boa hora, vou ter meu bebê em Julho/2020. É um convite pra repensar a figura materna… Muito bom e explicativo!