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A questão da maternidade em Servant

Criada e roteirizada por Tony Basgallop, e produzida por M. Night Shyamalan (que já fez obras-primas do terror como O Sexto Sentido e Corpo Fechado), Servant foi uma das maiores apostas da Apple TV+, e antes mesmo da sua estreia já tinha sido renovada para uma segunda temporada. A premissa, no entanto, é o que as pessoas podem considerar um tanto bizarra: Leanne (Nell Tiger Free) é contratada para trabalhar como babá para um casal rico de Nova York, os Turner. Dorothy (Lauren Ambrose) é uma repórter de TV e seu marido, Sean (Toby Kebbell), é um chef de cozinha que tem um negócio próprio. Quando a jovem mulher chega do interior para cuidar do recém nascido, ela percebe que o bebê, na verdade, está morto, e que sua principal missão daqui para frente é cuidar de uma boneca. 

Logo fica claro que Sean e o irmão de Dorothy, Julian (vivido por Rupert Grint), sabem que a criança é apenas uma boneca, mas que a mãe não está ciente de tal fato. Mas para a surpresa de todos os envolvidos, Leanne não questiona o porquê de cuidar de uma criança plástica ou como as coisas chegaram naquele ponto. Ela simplesmente aceita sua missão e parece satisfeita em participar da rotina ocupada dos Turner. Na medida em que os dias vão passando, o mistério sobre a origem da babá também começa a tomar forma dentro da narrativa (afinal, quem aceita tal dinâmica sem nem ao mesmo indagar?), ao mesmo tempo que os problemas do casal vão ficando mais aparentes e complicados.

Atenção: o texto contém spoilers! 

Servant é, de muitas formas, uma série que gosta de misturar gêneros. Por causa do trabalho de Shyamalan na direção — responsável pelo piloto  e alguns outros capítulos —, o elemento do terror fica exposto desde o primeiro momento, quando os Turner conhecem Leanne. É possível ver, mesmo naquele ponto inicial, que existe algo muito de errado na dinâmica entre eles. Dorothy parece quase sempre nervosa ao ponto de ter um surto, enquanto Sean adota uma posição quase defensiva em relação à sua mulher, permeado por um comportamento taciturno, grosso e mal humorado. O apartamento deles parece impecável e lustroso em uma olhada superficial, mas logo fica claro que mesmo os móveis e a estrutura começam a despedaçar aos poucos, como se tivessem em colapso. As câmeras são praticamente um personagem na trama em si e assumem o papel de espionagem, como se cada momento entre Leanne e o bebê, ou entre Dorothy e seu filho, fossem carregados de mistério e significado.

Esses elementos sozinhos são, de certa forma, o suficiente para prender o público. Quando o bebê de plástico finalmente se torna um bebê de verdade, a rotina praticamente não muda dentro da casa dos Turner. Leanne age, mais uma vez, como se nada tivesse acontecido, e Dorothy realmente adota essa dinâmica com ainda mais vontade, como se aquela criança fosse realmente sua. Sean e Julian parecem quase aliviados de que não existe mais a possibilidade de Dorothy um dia acordar, e ver que seu filho é, na verdade, uma boneca. Dentro da narrativa, questões fundamentais são levantadas: Leanne trouxe a criança de verdade? E o que aconteceu com Jericho, o recém nascido de Dorothy e Sean?

A perda de um filho é, por si só, uma boa premissa para uma história de terror. O gênero, conhecido por se aprofundar em questões complicadas e por transformar o metafórico em algo real, encontra na trama de Servant algo muito precioso para construir uma história como essa. Dois pais que são atormentados pela perda do filho, pela dor e pela dificuldade de seguir em frente, vão se afundando cada vez mais em situações bizarras e esquisitas, onde a linha entre o real parece cada vez mais difusa e distante. Com a chegada de Leanne, essa sensação só parece aumentar e o luto se transforma rapidamente em desespero e em incerteza. Com um ritmo lento e uma sensação claustrofóbica, a série não parece ter pressa em desenvolver seus mistérios ou dar meias respostas mastigadas, pelo contrário. E apesar de ser satisfatória em vários aspectos, a forma como Lauren Ambrose retratou Dorothy é um dos elementos mais assustadores da produção no geral.

O retratado de Dorothy é ao mesmo tempo maternal e bizarro, reforçando que existe algo muito errado na forma como os eventos se desenrolaram. Na medida em que a série avança com a sua trama, a protagonista e Leanne vão criando um laço afetuoso. É possível perceber que Dorothy é uma mulher solitária e carente, que precisa de atenção constante — algo que sua babá oferece sem pensar duas vezes. Se Sean se afasta cada vez mais, a empregada parece se aproximar da jornalista e oferecer conforto e amizade. Os momentos de terror são construídos por um olhar bizarro de Leanne, uma câmera focada em um canto escuro da casa ou até mesmo no comportamento do casal principal.

O mistério do que realmente aconteceu com o filho do casal, no entanto, só vai ser revelado no final da temporada, mais especificamente no episódio nove. Intitulado apenas de “Jericho”, o capítulo conta sua história por meio de um flashback, onde o bebê acabou de nascer e Dorothy e Sean estão tendo dificuldades para se adaptar a rotina complicada de um recém nascido. Mesmo percebendo que sua mulher está completamente pressionada e cansada com o filho, Sean viaja para fora do país com objetivo de participar de um reality show de culinária, deixando a mulher sozinha com o bebê. O roteiro aborda a rotina dos dois e o quanto ela vai ficando cada vez mais esgotada, até que, em uma tarde aleatória, ela o abandona trancado dentro do carro. Horas depois, quando percebe que está sem ele, é tarde demais. Como está muito cansada e apresenta sintomas de depressão pós-parto, ela simplesmente segue como se nada tivesse acontecido. É nessa situação que Julian os encontra alguns dias depois.

O que faz esses momentos tão reais e desesperadores, reforçados pelo tom cru da série, é a atuação de Ambrose. Seu retrato de uma mulher com depressão é excelente e incrivelmente pertinente, como se ela realmente não conseguisse assimilar o que aconteceu com o seu filho. A atriz já participou da aclamada série Six Feet Under, onde fez um ótimo trabalho também, mas aqui ela consegue alcançar e entrar em contato com todas as suas emoções de forma incisiva, ao mesmo tempo que mais tarde faz a transição para uma mulher doente que está em completa negação sobre os eventos que aconteceram em sua casa perfeita, com a sua família e seu filho.

Sean não é uma pessoa inocente em tudo isso. Ao abandoná-la com um bebê recém nascido para ir conduzir seu próprio reality show gastronômico, ele colocou uma responsabilidade imensa na mulher, algo que eles deveriam estar compartilhando desde o início: cuidar de um recém nascido 24 horas por dia, assumir os problemas e os empecilhos propostos pela chegada de um filho. Quando Jericho morre, Sean culpa Dorothy. Apesar de falar para todo mundo que isso é algo comum, que acontece mais do que as pessoas estão cientes, ele não oferece apoio ou tenta ajudá-la a tentar trabalhar e explorar seu luto, ou sequer assume que tem uma parte de culpa no que aconteceu. Ele apenas oferece uma solução tapa buraco, e começa a se afastar cada vez mais. Assim como Dorothy, ele se transforma em uma versão fantasma de si mesmo. Sean não assume responsabilidade pelo bebê e, depois, tampouco pelas consequências de criar um universo fantasioso para sua mulher — ele só vive e se abstém.

Outro comportamento bizarro em relação ao que aconteceu é o de Leanne. Quando ela finalmente entende as circunstâncias que levaram à morte de Jericho, simplesmente passa a tratar Dorothy de outra forma — o carinho é substituído por desprezo e passa a insistir que ela é uma má pessoa e que aquilo jamais deveria ter acontecido se ela fosse uma “boa mãe”. A culpa nunca é de Sean. Ela sequer consegue perceber que Dorothy é doente, aceita apenas que algo terrível aconteceu. Naturalmente, a culpa é da mãe. Para entender melhor esse comportamento, é importante também analisar a própria Leanne. A menina, que cresceu apenas com os tios, tem certa carência de afeto paternal ou maternal, algo que fica claro pela forma como ela está sempre atenta por qualquer afeto que Dorothy (e por vezes Sean) possam dar-lhe, ao mesmo tempo que gosta de assisti-la trabalhando, usar suas roupas e cobiçar suas joias e seu estilo de vida, além de sempre estar disposta a oferecer conselhos e pedi-los de volta. O seu instinto é ao mesmo tempo maternal em relação a Jericho, e carente em relação a Dorothy, o que acrescenta muitas nuances para à sua história.

É possível perceber também que a narrativa não mostra Dorothy além da dinâmica presente na sua casa. Mesmo que ela volte a trabalhar como jornalista e parte do seu trabalho possa ser visto pela TV da casa deles (já que ela deixa suas matérias gravando durante o dia), o roteiro nunca a acompanha em suas aventuras como repórter. Isso acontece não só porque Servant é uma série que precisa (e deve) ter apenas um ambiente para criar sua atmosfera, mas também porque precisa mostrar que Dorothy está eternamente presa a morte do filho e a situação presente na sua mansão. Ela é apenas um fantasma de si mesmo, alguém que não foi capaz de absorver o luto que estava sentindo e se fechou em mundo próprio de ilusões. O que Servant quer dizer é que Dorothy, a mulher, jornalista, irmã e esposa não existe mais, e que cada parte do seu corpo e suas células estão focadas em sustentar a fantasia que ela criou para si mesma — e que foi reforçada por todas as pessoas ao seu redor.

Quando a série chega ao fim, no seu décimo episódio, o mistério ao redor de Jericho e como ele virou um bebê começa a se afastar cada vez mais do drama familiar (já que a maior possibilidade explorada ao longo da história era que Leanne o tivesse trazido após engravidar e fugir de casa), e fica cada vez mais perto de um elemento sobrenatural ou até mesmo mágico. Nos momentos finais do capítulo, os tios de Leanne vão buscá-la e dizem que ela não pode oferecer muita ajuda para Dorothy ou Sean e que o que aconteceu na casa deles é algo irreparável. Nesse ponto, o roteiro dá a entender que eles são de uma espécie de culto. Não fica claro exatamente da onde eles vêm e porque Leanne estava ali, qual era seu objetivo, apenas que existe um motivo para tal e que sua jornada é muito mais complexa do que a menina que veio do interior para fugir de uma dinâmica familiar complicada. Assim, ela desaparece com seus tios e o bebê real que veio com ela, também.

Ao mesmo tempo, uma das últimas cenas deixa claro que Dorothy finalmente acordou do seu sonho e percebe que o bebê de quem ela vem cuidando todo esse tempo é, na verdade, uma boneca. Já que a série foi renovada para uma segunda temporada, Ambrose terá a oportunidade de explorar as consequências da morte do seu filho e finalmente processar o luto da forma que a personagem merece, não colocando culpa em si mesma, mas entendo por que aquilo aconteceu e o que pode fazer para seguir em frente. Apesar dos elementos sobrenaturais de Servant serem inteligentes e instigantes o suficiente para manter o público interessado, e a ambientação da obra em si ajudar muito nesse aspecto, a trajetória de Dorothy, a morte do seu filho e o “renascimento” de um bebê que estava morto é uma ótima metáfora para falar sobre depressão, luto e até mesmo a pressão da maternidade, como o papel da mãe e do pai são diferentes e como são construídos pela sociedade. E para os episódios seguintes, espero que mantenham esse aspecto vivo de alguma forma.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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