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Six Feet Under: uma ode à nossa própria mortalidade

Morrer é a única certeza que temos na vida. Eu sei disso, você sabe disso, sua mãe sabe disso, seu cachorro não sabe disso, mas você sabe que ele vai morrer. A morte nos acompanha desde o momento que nascemos, negar ou não falar sobre isso não vai mudar que ela é uma realidade — e cada vez mais próxima. Six Feet Under, a grande obra televisiva de Alan Ball, que acompanha o dia a dia de uma casa funerária em Los Angeles, é uma série sobre a morte e, principalmente, sobre a vida.

Como boa cria da TV, a existência de Six Feet Under nunca me passou despercebida; a série sentava esperando sua vez de ser o objeto de maratona há uns bons sete ou oito anos. Em 2015, compareci numa formatura de uma amiga querida e conversando com as convidadas da mesa, lembro-me bem de ouvir uma delas dizer o quanto eu precisava assistir Six Feet Under, o quanto essa era a melhor série, ela me dizia de modo animado. Eu não assisti a Six Feet Under naquela época — passei por outras maratonas que classifico como experiências únicas de televisão, como Mad Men e BoJack Horseman —,  mas, em 2020, no ano em que eu mais tenho pensado sobre A Morte, encarar uma ode à nossa mortalidade foi, talvez, a experiência mais significativa que eu tive relacionada a qualquer coisa do entretenimento desde… Bem, desde sempre.

Atenção: este texto contém spoilers!

No primeiro episódio da série, somos apresentados ao grande núcleo de personagens que, com exceção de pontuais adições, vamos acompanhar ao longo de 63 episódios e cinco temporadas. Nathaniel Fisher (Richard Jenkins) está terminando os últimos afazeres antes de comparecer ao aeroporto para buscar o filho, Nathaniel Fisher Jr. (Peter Krause), que vem visitar a família para as comemorações natalinas. Nathaniel filho, ou Nate, por sua vez, está ocupado flertando com Brenda Chenowith (Rachel Griffiths), e, mais tarde, transando com ela em um depósito no aeroporto. Para os outros Fisher, a rotina levemente caótica segue o normal: Ruth (Frances Conroy) preparando a comilança, Claire (Lauren Ambrose), a caçula da casa, em uma festa experimentando metanfetamina pela primeira vez, e David (Michael C. Hall) sendo o poço de nervosismo que auxilia o pai na Fisher & Sons, o negócio da família. É nesse contexto que conhecemos Keith Charles (Mathew St. Patrick), o policial com quem David secretamente tem uma relação, e Federico Diaz (Freddy Rodríguez), o funcionário embalsamador prodígio em quem Nathaniel investiu há muitos anos. É também nesse contexto que Nathaniel Fisher — pai, não filho — está dirigindo quando é atingido por um ônibus e perde a vida. O piloto da série, um dos únicos que não inicia seus comumente 60 minutos de duração com uma cena de morte seguida por um obituário, é o começo de um novo ciclo para a família Fisher, que lida com morte há algumas décadas, mas que lida com a morte de um dos seus pela primeira vez.

É com a morte de Nathaniel pai que é dado o pontapé inicial a uma jornada que explora, com maestria, os altos e baixos da família que o telespectador, quer queira ou não, conhece intimamente e aprende a amar. De forma mundana e crua, os personagens de Six Feet Under possuem falhas, cometem erros, nos fazem sentir raiva e, também, empatia. As relações entre eles, sejam familiares, românticas, profissionais ou de amizade, são permeadas por um toque monstruoso de humanidade e veridicidade que, nos mais de 6000 episódios já assistidos por essa que vos escreve, são bem incomuns (ou, talvez, tão pouco bem explorados) em obras de entretenimento.

A ideia de falar sobre morte em uma HBO que, naquela época, era bem menos explícita em nudez e violência, mas igualmente progressista para o momento televisivo (era início dos anos 2000, afinal), veio de Carolyn Strauss após assistir a adaptação O Ente Querido (1965). Strauss, produtora, executiva e presidente da seção de entretenimento da HBO até 2008, é apenas o nome responsável por encomendar séries como The Sopranos, The Wire, Curb Your Entusiasm, Sex and the City, além da executiva por trás de Game of Thrones e Chernobyl. Não é por nada que, após contatar Alan Ball, vencedor do Oscar por Beleza Americana (1999), a ideia ornou e se tornou um sucesso, sendo elencada como uma das melhores séries de todos os tempos. Mas, também, pudera: com roteiro impecável, uma gama de personagens bem construídos — no melhor sentido da expressão —, e com atuações memoráveis, Six Feet Under é a série ideal para se assistir nesse momento. E por isso, fico feliz que eu o tenha feito agora e não lá atrás.

Hoje, o Brasil já passou da marca dos 150 mil mortos pela pandemia do Covid-19, apenas de casos confirmados. No mundo inteiro, o número ultrapassa um milhão. Por dia, em razão do (já não tão) novo vírus, a tragédia do 11 de setembro, em número de mortos, acontece de novo. E de novo. E de novo. No dia da queda do World Trade Center, lembro-me de sair da escola (porque uma criança na segunda série tinha aula no turno da manhã eu nunca vou entender), chegar em casa e acompanhar, atônita, prédios enormes sendo atingidos por aviões, pessoas pulando das janelas, tudo desmoronando. Aquela imagem de terror não sai da cabeça daqueles que acompanharam tudo ao vivo, televisionado. O medo, contudo, passa, ou abranda, quando somos expostos ao terror por muito tempo — nosso cérebro nem é programado para ficar em alerta por meses a fio. É por isso que estamos ou ficamos ansiosos, e cada vez mais tentamos retomar uma faísca de normalidade enquanto vivemos em guerra com algo que não enxergamos. Até março desse ano, observei (observamos?) a pandemia de longe, numa negação em seu melhor estado.

Quando março chegou, lá pela metade do mês, passei dia após dia chorando, muitas vezes de soluçar, com a ideia de que esse vírus chegaria nas pessoas que eu amo, iria me tirá-las — todas de uma vez —, me deixando num mundo desamparada do conforto do abraço da minha família, do meu amor ou dos meus amigos. O umbigo pesou. Os planos ruíram, receberam um adiar infinito sem prazo para acabar. Vivemos, e estamos vivendo, um tipo diferente do luto. E, para muitos que perderam pessoas queridas, um tipo real de luto. Encarar a morte de frente, contudo, não é uma tarefa fácil, e é por isso que a evitamos. Não queremos falar sobre morte, não queremos corpos sendo enterrados em valas coletivas, não queremos dar adeus sem cerimônia, mas também não queremos lidar com corpos em decomposição. Para Caitlin Doughty, minha nova guru da morte, a decomposição nada mais é que “uma realidade da morte, um lembrete visual (e aromático) necessário de que nossos corpos são falíveis, meros apitos no radar do amplo universo”. Mas, ela continua, “se corpos em decomposição desapareceram da cultura (o que realmente aconteceu), mas os mesmos corpos em decomposição são necessários para aliviar o medo da morte (e realmente são), o que acontece com a cultura em que toda a decomposição é escondida?”.

Em Six Feet Under não vemos muitos corpos em decomposição. Federico, por mais irritante que seja, é um ótimo embalsamador. Assistimos, no entanto, as mais diversas formas de morte: afogar com comida, raios, caídas no banheiro, doenças terminais, acidentes de trabalho, suicídios, mortes sem explicação. Assistimos, até mesmo, um senhor que sabe que vai morrer e dirige até a casa funerária no dia da sua morte. Há, realmente, muitas formas de morrer, e de lidar com a morte também. Temos cerimônias das mais diversas tomando lugar na Fisher & Sons. Cerimônias budistas, outras regadas a muita música e festa, diversas cerimônias solitárias, e algumas quantas doloridas. Morrer também pode ser um evento.  

E, se morrer pode ser um evento, viver, muitas vezes, não o é. Nate Fisher, desde o início da série, lá com seus 35 anos, se vê preso a certos padrões de comportamento que ao longo dos episódios vamos compreendendo melhor. Nate, em primeiro momento, é o irmão tranquilo da família, aquele que vê o lado bom da vida, que pulou fora da casa funerária assim que pode para seguir um caminho só seu. Saiu de Los Angeles para Seattle com aversão a tudo o que o pai fazia — lidar com mortos não era para ele. Mas, mais do que lidar com mortos, a jornada de Nate sempre se tratou de uma guerra dele contra a sua própria mortalidade e, de certa maneira, contra sua própria existência. Após a morte do pai, ele retorna para cidade para ajudar na casa funerária. Contra todas as expectativas, Nathaniel optou por deixar o negócio na mão de ambos os filhos, para o desgosto de Nate e a frustração de David. De volta ao lar onde cresceu, Nate vê-se obrigado a encarar uma função que nunca quis exercer, mas que a consciência e senso de dever, que tomam forma com a aparição do pai morto, o impelem a aceitar. Levemente frustrado e levando uma relação sem muitas amarras com Brenda, a aura de despreocupação vai aos poucos se deteriorando. Em um dos grandes plots que emendam a primeira e a segunda temporada, Nate encara uma possível bomba-relógio em forma de coágulo no cérebro. Sua primeira reação é não entender como ele, que leva uma vida saudável, corre todos os dias, nem mesmo se alimenta de carne vermelha, poderia estar em risco de morte. Há um caminho até Nate aceitar e encarar a cirurgia, mas há uma mudança comportamental — e também de tom de uma temporada (a primeira) para a outra (segunda) — no personagem.

“Uma cultura de negação da morte. Essa negação assume muitas formas. Nossa obsessão pela juventude, os cremes, os produtos químicos e as dietas desintoxicantes oferecidos por aqueles que querem vender a ideia de que a idade natural dos nossos corpos é grotesca. O gasto de mais de 100 bilhões de dólares por ano em produtos anti-idade enquanto 3,1 milhões de crianças de menos de 5 anos morrem de fome.” Confissões do Crematório, Caitlin Doughty

Nesse sentido, é incrível que a série seja ambientada em Los Angeles, a cidade para onde as pessoas vão para se tornarem imortais. Muito antes do “Los Ageless” de St. Vincent, Nate já brigava com o próprio envelhecimento. No aniversário dos seus 40 anos, um episódio esplendorosamente dirigido e atuado, existe um caos e uma ameaça de perigo abraçando todos os convidados. Para Nate, encarar-se no espelho e ver seu rosto deixando de ter o viço dos vinte e tantos para ser o rosto de um já pai de família é motivo de descontentamento. Não é por nada que, durante cinco temporadas, o que o telespectador vê vindo de Nate, protagonista, é uma repetição de padrões juvenis, de um desconforto em se ver envolvido com alguém por muito tempo porque isso significa seriedade, e seriedade, para ele, significa perder a essência de garoto jovem. Em uma briga pivotal entre Nate e Brenda, Nate é confrontado com a ideia de que, em face de um amor real, ele fugiria, de forma a evitar toda a intimidade, a feiura, as dificuldades e responsabilidades que uma relação profunda implica. O conforto, para ele, é ficar distante. E é a distância que Nate cria entre ele e as pessoas que ele ama que o impede de se sentir feliz. A realidade é que um personagem tão ambivalente como o protagonista é um personagem difícil de ler, mas mais difícil ainda de não se importar, e quando misturado com a vivacidade de Brenda, se torna ainda mais interessante.

Brenda, por sua vez, lida com o próprio passado fantasmagórico, esse que nunca se distancia e sempre retorna para assoprar em seu pescoço que normalidade, para ela, é um conceito estranho. Considerada uma criança prodígio de alto QI, a filha de pais psiquiatras e terapeutas, com pouca idade foi objeto de estudo por estudiosos da psicologia. Sua vida foi dissecada na frente de profissionais, que tornaram a existência da menina num livro muito famoso na ambientação da série. Para além da constante vigilância, Brenda, assim como seu irmão Billy Chenowith (Jeremy Sisto), cresceu exposta às preferências sexuais dos próprios pais — com outras pessoas, em grupo de pessoas. Mais de uma vez, quando criança, tanto ela quanto Billy, observaram de longe a lascívia dos genitores. Uma espécie de trauma aproximou os irmãos, gerando uma relação pouco saudável entre eles, essa com alto teor de dependência e que é explorada até os episódios finais de Six Feet Under. A relação entre ambos, para além de posicionar Brenda como a responsável pelo bem estar do irmão mais novo, que desde adolescente sofre com Transtorno Bipolar, também é a razão que faz com que Brenda, a prodígio, abra mão da educação superior, dedicando-se a um plano B que envolve o trabalho com shiatsu, uma espécie de massoterapia de origem japonesa.

É nesse contexto que conhecemos Brenda no início da série: profissional autônoma, com o irmão aparecendo sem avisar em sua própria casa, uma relação ruidosa com os próprios pais, e com tendência a beber, usar drogas e se envolver sexualmente com quem quer que seja. É uma vida que não gera grande sinal de alerta até a personagem perceber que ela quer mais e pode mais também. À medida em que a relação entre ela e Nate vai se intensificando na primeira e segunda temporadas, a relação vai igualmente ruindo: Nate, por medo de compromisso e de vulnerabilidade; Brenda, por sabotar, de forma maestra, o que eles poderiam ter. Brenda faz amizade com uma mulher pela primeira vez na vida — ser uma criança-experimento e depois uma mãe-irmã não facilitaram as relações de amizade que a personagem poderia ter construído quando jovem — e, com curiosidade pela vida que a nova amiga leva (a de prostituta), Brenda engaja em situações que ela, quando criança, observava os pais engajarem: orgias, sexo com pessoas mais novas, e, em certo ponto, cruza a linha do comportamento profissional masturbando um de seus clientes. Ela sabe que o que está fazendo é errado para o modelo de relação que ela se propôs a estar com Nate, e ao mesmo tempo ela não para: o ímpeto de destruição é maior que tudo. Nessa altura, é muito fácil detestar a personagem, e os roteiristas sabem disso. Por isso, a cena da briga entre Nate e Brenda, no final da segunda temporada, é tão gigante para o desenrolar da trama. É fácil detestar Brenda pelas escolhas dela. Detestar o protagonista, que em certa altura também trai Brenda, já não é um caminho fácil, ainda que Nate também cometa erros, mas de maneira pouco visível. Afinal, ele é só um homem confuso.

Mesmo que Nate seja confrontado por seus próprios comportamentos e escolhas, em teoria ele sabe o que tem que fazer e o que deveria fazer para atingir a felicidade que ele tanto busca. Ele sabe que amor é algo que se faz, e não somente se fala. Mais tarde, em sua jornada, ele reconhece que viver o tempo inteiro com medo nunca o levou a nada, e é nesse cerne que alguns dos ótimos conflitos gerados entre ele e as mulheres com quem se envolve toma questão. Brenda o desafia, em determinado momento, a fazer o que ele realmente quer, e não o que ele acha que os outros querem que ele faça ou que ele pensa que deveria fazer. Em outro momento, por meio de sua consciência, Lisa (Lili Taylor) aponta para o fato que ela é uma pessoa, e não uma chance. Afinal, Nate se envolve pela chance de ser feliz ou por amar a pessoa com quem ele está envolvido?

O final da segunda temporada é marcada por Nate enfrentando a cirurgia neurológica, assim como traz a informação de que quando traiu, engravidou a amiga de longa data e apaixonada por ele, Lisa Kimmel. Nessa virada de chave, a terceira temporada inicia com uma tremenda mudança de ritmo e tom. No primeiro episódio, com um grande lapso temporal, já sabemos que Nate e Lisa se casaram, e o nosso protagonista, que já viveu muitas gravidezes indesejadas que acabaram em aborto, agora ocupa o espaço de um pai de família — um pai muito contido e conformado, da mesma maneira que um dia foi Nathaniel Fisher. De forma suprema, os diretores e a roteirista da série transferem para o telespectador o desconforto de Nate (bem como dos outros personagens da série) e a irritabilidade que Lisa gera nele. Há uma virada intencional na maneira como a série é conduzida, e quando certos personagens retomam suas tramas, como é o caso de Brenda, a série muda de ritmo porque o pivô dessa história também muda de ritmo. É uma experiência muito grandiosa de arte, porque ela faz você sentir coisas, em especial quando delimita exatamente aquilo que sente o personagem fictício.

Ainda que Nate seja o protagonista de Six Feet Under, a riqueza dos outros personagens da série não para por aí. Em David Fisher, talvez o meu favorito da família, encontramos alguém que por fora já demonstra ser uma pessoa tomada por tensão. Inicialmente com seus quase trinta anos, David mantém uma vida de aparências: sério, religioso dedicado de forma a quase o levar para uma vida na diocese que frequenta, responsável pela funerária, o braço direito — e renegado — de Nathaniel Fisher pai, e que pouco tempo atrás mantinha um noivado com uma mulher, o filho do meio da família mantém uma relação em segredo com o policial Keith. Entre a dificuldade de admitir sua sexualidade e a forma rígida como enxerga a vida, David é tomado por ansiedade. Para a sua família e aqueles que o rodeiam, David é extremamente profissional e solícito, de um jeito quase imaculado e livre de imperfeições. No entanto, a rigidez com que trata a si mesmo o leva a tomar decisões perigosas para o seu próprio bem-estar; rigidez esta ilustrada no episódio onde, no meio de um estacionamento, David se envolve sexualmente sem proteção e é levado para a delegacia por policiais.

Com o passar dos episódios, a jornada de David caminha de forma a desatar as amarras que tanto sociedade quanto ele mesmo impuseram sobre si. Após admitir sua sexualidade à família, David gradualmente perde, ou ao menos lida, com a repressão emocional que de forma tão intensa vimos presente nele nos momentos iniciais da série. O crescimento de David como pessoa é tão visível e gritante que vê-lo feliz — o que ele merecidamente conquista e trabalha por — é gratificante para o telespectador. Suas relações se estreitam com seus familiares e ele cria uma nova família para chamar de sua.

David também é o protagonista de um dos melhores episódios de toda a série e, talvez, da TV dramática num geral. No episódio “That’s My Dog”, o quinto da quarta temporada, a vida dos Fishers segue em sua mundanidade: Claire na faculdade, Nate tentando processar uma morte, Keith indo viajar, Ruth e seu novo companheiro se desentendendo, e o telespectador acompanhando esse ritmo comum. Até que tudo se torna um longo terror sem fim em forma de sequestro, que é expandido quando David é obrigado a usar uma droga desconhecida — uma situação de horror total, um trauma em andamento, intensificado pelo entorpecente que ele não faz ideia de como irá reagir. É simbólico que o episódio focado em David, o mais inquieto dos nomes de Six Feet Under, seja também um episódio indutor de ansiedade. O episódio é um curto-circuito no personagem, que se desdobra, coerentemente, até a reta final da série.

E, por falar em curto-circuito, Claire Fisher, a caçula da família, parece se debater entre os círculos sociais em que se insere. Quando da morte do pai, foi a primeira a ter contato com a aparição de Nathaniel Fisher durante o enterro dele. Claire, diferente dos irmãos, jamais reprimiu suas vontades e ideias. Mas, com sua herança condicionada ao estudo superior, vê-se frustrada, pois, até então, jamais teve a intenção de cursar uma graduação. Ainda que ela inegavelmente seja quem melhor lida com as próprias emoções, e mais tarde transforma estas em arte, o ponto fraco de Claire é justamente a matriarca da família. Dentro de casa, os embates entre Claire e Ruth são constantes, e observá-las é como assistir dois opostos que se complementam e muito se amam. Os momentos de afeto trocados entre mãe e filha são sempre genuínos e muito emocionantes, sendo incrível para quem assiste perceber que quando Claire está sob efeito de alguma droga, sua postura perante a mãe se torna extremamente carinhosa e amável; é como se o véu de dureza que a filha direciona à mãe caísse por terra, e a verdadeira admiração que Claire sinta por Ruth transpareça.

Considerada a pessoa estranha e solitária na escola, e mais tarde a prodígio combativa na faculdade, Claire acaba aceitando estudar em um curso superior, só para mais tarde desistir, para o completo horror de Ruth. A armadura que Claire veste não passa de uma tentativa falha de tentar esconder que ela é a mais sensível e sonhadora dos Fisher. Claire ama e sente muito, e cada vez que se envolve romanticamente com alguém que, cedo ou tarde, acaba não sendo a pessoa certa, a frustração é gigante, deixando marcas nela e em quem assiste. Seja com o primeiro namorado, que se envolve com roubos e mais tarde é morto; seja se apegando em quem só se interessa em sexo; seja, até mesmo, pelo disfuncional e interessante Russell Corwin (Ben Foster), de quem se aproxima e se conecta profundamente e de quem mais tarde acaba engravidando e abortando em segredo (com o apoio de Brenda); ou, ainda, pela artista por quem ela se encanta e tenta se envolver romanticamente. É como se algo em Claire a impulsionasse em direção dos desajustados, dos que completam o bingo dos mesmos interesses que ela tem — drogas, morte, arte etc. —, esquecendo-se de que boas relações são mais que apenas gostos em comum. Nesse viés, o final romântico escolhido para personagem não poderia ser mais diferente, nem poderia ser outro: ao lado de alguém que é o puro suco da normalidade.

É em Claire que Six Feet Under dá o seu grande nó, é nela que o círculo se completa numa das montagens finais mais emocionantes da TV. Alan Ball explica que uma vez que a série começou com alguém perdendo a vida dentro de um carro, eu queria que o final fosse alguém num carro dirigindo em direção de uma nova vida, um novo horizonte”. Ao som de “Breathe Me” da cantora Sia, Claire aceita uma nova oportunidade longe de casa, do conforto da família, e, em direção ao novo desconhecido, assistimos ao choro da personagem costurado com cenas em flashforward do futuro de todos os envolvidos na série.

“De muitas formas, as mulheres são companheiras naturais da morte. Cada vez que uma mulher dá à luz, ela está criando não só uma vida, mas também uma morte.” Confissões do Crematório, Caitlin Doughty

Porém, se é em Claire que a série completa sua narrativa, é em sua mãe que se encontra a grande gama de nuances que a série nos oferece: é absolutamente impossível falar de Six Feet Under sem falar de Ruth Fisher. Ruth é, de forma incontestável, uma das personagens femininas mais complexas — e completas — que tive o prazer de assistir. É mãe, mulher, solitária e ansiosa. Quer controlar tudo e todos, porque sempre foi assim. Segurou o mundo nas mãos, cuidou de doentes quando jovem, casou muito cedo e logo em seguida teve filhos; não sabe muito bem quem é, nem o que quer, fora do convívio familiar; tem rompantes de raiva, mas também de carinho. E assisti-la gritar, chorar, quebrar coisas, tentar controlar todas as variáveis possíveis é, no mínimo, exaustivo. Ruth não é uma pessoa fácil porque não consegue se remover do papel de cuidadora, e reivindica para si esse papel sempre que pode. Um dos seus maiores dilemas se dá, justamente, quando se vê livre e sem ter de quem cuidar e direcionar a sua energia. Por ser uma pessoa absolutamente nervosa, é frequente que seus próprios filhos escondam dela o que se passa na vida deles, num misto de não agravar a preocupação da mãe, que já é naturalmente preocupada, com o medo de algum julgamento ou diretriz que ela possa direcionar a eles.

Nessa realidade, além de viúva, é comum que Ruth seja completamente isolada dentro de casa, com a própria solidão e tristeza transbordando em seus silêncios. É, também, por essas e outras — que descobrimos ao longo do tempo — que Ruth sente tanto ressentimento pela irmã Sarah O’Connor, interpretada pela incrível Patricia Clarkson. Sarah, ao contrário de Ruth, não tem filhos, e leva uma vida quase hippie, morando no meio do mato e recebendo amigos para dançar ao redor de uma fogueira enquanto fuma maconha. A vida despreocupada de Sarah sempre foi um incômodo para a irmã, que, na contramão, se preocupa com tudo. E a relação das duas é só mais uma das grandes relações que se desenvolvem na série.

Engana-se quem pensa, no entanto, que Ruth negue a si mesma a possibilidade de novas relações, tampouco que negue ser uma criatura sexual. A sexualidade na terceira idade é negligenciada de representação, enquanto a de personagens jovens é amplamente explorada. A sexualidade da mulher mais velha, então, sofre um baque duplo. Não é o caso de Ruth que, em seu controle e imperfeição, já mantinha uma relação extraconjugal quando Nathaniel morreu. Relação essa que ela até tenta levar adiante depois da morte do marido, mas que acaba por se esvair e abre lugar para outras que a personagem vai ter ao longo dos anos, incluindo, até mesmo, um segundo casamento. George Sibley (James Cromwell) se torna a promessa de flores, e acaba por ser, também, outra frustração matrimonial para ela. E, em todas essas possibilidades, Ruth leva sua satisfação em conta.

Mas, com o passar do tempo, a personagem aos poucos passa a se permitir experiências de uma vida mais leve. À medida que sua relação com a irmã se reconstitui e se estreita, Ruth começa a frequentar a casa de Sarah e a fazer amizade com outras mulheres, em especial com Bettina, vivida por Kathy Bates. Pela primeira vez forjando laços com pessoas que não precisam dela, Ruth cresce, sua aura e sua postura mudam, até mesmo os cabelos deixam de ser controlados — sempre beatificamente presos, Ruth deixa o longo cabelo ruivo livre de qualquer amarração. Ao ser aceita como ela é, e sem ter que prover ou dar suporte para quem quer que seja, é na amizade feminina que Ruth encontra o seu lugar. Em um episódio lindo da quinta temporada, uma grande amiga de Sarah morre, e a casa funerária se torna um grande aglomerado de mulheres que se amam e se apoiam. Ainda que em uma situação indubitavelmente triste, existe algo quase místico na união delas naquele dia, o que só é intensificado quando, em um ritual de despedida, cantam para a amiga falecida.

Embora a série gire, primordialmente, em torno da família Fisher, acompanhamos outros importantes personagens e enredos. Para além de Brenda e Billy, uma das grandes tramas envolve Federico Diaz. O personagem carismático inicialmente soa divertido e uma pessoa querida, mas, à medida que a história avança, o que assistimos é alguém que muito reverbera moralismo, enquanto extremamente preconceituoso e falho. Além de homofóbico, o que é obrigado a ter que lidar uma vez que seu superior, David, é gay, Federico é também um machista de carteirinha. Sob a fachada de preocupado com a família e com Vanessa Diaz (Justina Machado), com quem é casado, se esconde um homem que quer ditar como e quando uma mulher pode e deve sentir, o que é bem vislumbrado quando Vanessa está em crise depressiva após a morte da mãe e Federico fica irritado com a situação. Os ataques de raiva são comuns, e é sob o alto do seu próprio pedestal que sofre um golpe que ele mesmo forja para si. Após ter seu caso com Sophia (Idalis DeLeon) descoberto por Vanessa, Freddy é posto para fora de casa e na amante não encontra receptividade. Sozinho, passa então a ter que confrontar os próprios erros e as próprias convicções.

Também, desde o episódio piloto vamos conhecendo mais e mais sobre Keith Charles. Em primeiro relance, o compreensivo e atencioso Keith leva uma vida tranquila e assumida dentro da polícia de Los Angeles. Um policial negro e gay não é algo que assistimos todos os dias na televisão, mas, tampouco, as tramas envolvendo o personagem se resumem a isso. De um histórico difícil, onde Keith e a irmã dependente química, Karla Charles (Nicki Micheaux), sofriam na mão pesada do pai, Keith cresceu sob a iminência de brigas e agressões. Mais tarde na vida, o passado abusivo se condensa em explosões de raiva e violência, que acabam por custar o seu trabalho como policial. Enquanto Keith luta com o passado para não se transformar naquilo que um dia o seu pai foi, uma trama trabalhada durante boa parte da série, Keith parte em busca de novas oportunidades de trabalho, servindo, até mesmo, como figura paterna para a sobrinha Taylor (Aysia Polk). A relação com David, que oscila muito no início em razão de David não ser assumido para a família, é uma relação muito verossímil de amor, companheirismo e, como a vida real, de ocasionais embates e discussões.

Não é possível destrinchar todos os personagens interessantes de Six Feet Under porque não existe personagem algum inserido na trama que seja caricato, unidimensional ou com o intuito único de impulsionar a história dos principais. Essa é uma escolha de roteiro que simplesmente não se aplica à série, e talvez por essa razão seja tão difícil falar sobre a genialidade por trás dela. Mas, se a série acertou em muitas coisas — e acertou —, também não há condições de falar sobre ela sem falar das atuações monstruosas dos atores envolvidos, em especial Frances Conroy, Michael C. Hall (em seu primeiro papel para a TV), Peter Krause, Rachel Griffiths e Lauren Ambrose. Os nomes, que não são desconhecidos, são apenas alguns dos muitos nomes que naquela época, ou mais tarde, se tornaram cartas marcadas da indústria: Patricia Clarkson (premiada por sua atuação na série), Kathy Bates, James Cromwell, Lili Taylor, e pontas de Rainn Wilson, Justin Theroux, Chris Messina, Catherine O’Hara, Sandra Oh, Michelle Trachtenberg, Jenna Fischer, Chris Pine, Josh Radnor, só para citar alguns.

De maneira ampla, sinto uma certa dificuldade de falar sobre Six Feet Under de uma distância imparcial, e, sinceramente, nem quero fazê-lo. Isso porque Six Feet Under não é uma obra de ficção feita para a pessoa que assiste se distanciar dos personagens. Pelo contrário, é uma obra que puxa o telespectador para mais perto; um convite para acompanharmos as nuances e os pequenos detalhes, as pequenas lições sutis que a série nos oferece e não nos impõe. Não é uma série com grandes reviravoltas, apesar de tê-las. Não é uma série sobre morte, apesar de acompanharmos a morte desde o episódio um. Também não é um drama familiar, ou uma história sobre homossexualidade, ou sobre romance, apesar de termos tudo isso também. Os personagens fortes e construídos de forma brilhante, com suas histórias fictícias, são meros condutores de algo maior, que ressona em quem assiste.

Six Feet Under não é gigante só por ser uma série premiada e considerada uma obra de prestígio. Não é gigante apenas por suas atuações, ou os nomes de seu elenco. A essência de Six Feet Under, que faz ela ser o que foi e o que é, ainda hoje, quase vinte anos depois, está em ser um lembrete de que a morte está logo ali na esquina, mas que viver, sentir e se permitir ser feliz são escolhas que a gente faz todos os dias, mesmo nos dias ruins — porque sim, dias ruins vieram e virão. Com essa lição sobre a vida e sobre minha própria mortalidade, Six Feet Under desbancou todas as minhas séries favoritas, se tornou a melhor série que já tive o prazer de acompanhar, e é uma experiência que casa, com louvor, com o momento que estamos vivemos. E se eu, assim como a minha irmã, e assim como a maioria das pessoas de quem li comentários sobre o final também o fizeram, chorei ao me despedir dessa obra prima, não consigo deixar de pensar que nessas lágrimas compartilhadas havia mais de mim e de nós mesmos do que da história que consumimos.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana C. Vieira

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4 comentários

  1. Eu achei esta série simplesmente incrível! Lembro que na época que eu assisti eu não tinha tv paga, então, eu esperei sair em dvd para alugar. Porque, senão me engano, comecei a assistir de madrugada na sbt, sei lá. É perfeita! Intensa né?!

  2. Comecei a assistir essa série em meio a essa pandemia e terminei ontem. E acho que realmente nunca assisti uma série que tenha me tocado tanto quanto essa, é muito admirável o quanto essa série nos fornece momentos reflexivos com a vida de Nate, David, Claire e Ruth mas em todas as outras histórias que são mostradas a cada funeral em episódios diferentes. Toda a quebra de preconceitos e abertura a diferentes ideias , relacionamentos e religiões vai deixar essa série pra sempre muito atual. Eu realmente desejo que muitas outras pessoas possam ter essa experiência. E obrigado por esse texto, acho que conforta muito quem terminou a série ler análises assim.

  3. Tão bom quanto a série foi esse texto. Parabéns! Foi a melhor e mais completa descrição dessa obra maravilhosa da HBO. Realista, crua e sensível, six feet ubder está no coração. Ah, e tem o melhor episódio final de uma série, a meu ver, junto com The Wire.