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(Asiáticos) Podres de Ricos: representatividade, conexão e uma nova Hollywood

Nova York, um casal se encontra na cafeteria e divide uma sobremesa, sentados lado ao lado em um balcão. O homem e a mulher, nos seus 20 e tantos anos, são bonitos, bem vestidos e aparentam também ser bem sucedidos. Sorriem, com aquela cumplicidade e carinho no olhar que só dá para chamar de amor.

O cenário, por si só, não parece nada revolucionário, certo? E não seria, se não fossem por algumas questões:

a) A cena ser de um filme hollywoodiano;
b) Os atores em cena não possuíssem descendência asiática.

É este o impacto e a força que Podres de Ricos (Crazy Rich Asians, no título original), em menos de 10 minutos de filme, trouxe para Hollywood. Baseado no primeiro livro da trilogia de Kevin Kwan, a comédia romântica com direção de Jon M. Chu traz para as telas uma história contemporânea orgulhosa e assumidamente asiático-americana. A trama é centrada na descoberta de Rachel (Constance Wu), americana de origem chinesa, professora de economia da NYU, de que seu namorado singapurense Nick (Henry Golding) é o herdeiro de uma das famílias mais tradicionais da elite de Singapura.

A novidade vem quando Rachel está indo até o país para acompanhar Nick, que volta à terra natal para ser um dos padrinhos do casamento do seu melhor amigo, Colin (Chris Pang). Em meio aos eventos e preparativos do casamento, Rachel começa a adentrar o mundo luxuoso da elite singapurense e conhece a família de Nick, em especial sua sogra, Eleanor (Michelle Yeoh). Ela, que ansiava pelo retorno do filho, não aprova a nora — o que em uma sociedade na qual família vem em primeiro lugar, pode dificultar a vida e mudar as perspectivas do casal.

Primeiro longa hollywoodiano desde O Clube da Felicidade e da Sorte, de 1993, a ter um elenco de origem asiática, Podres de Ricos representa uma nova era em Hollywood, na qual representatividade deixa de ser opcional ou completamente ignorada, mas exigida em alto e bom tom pelo público. No entanto, a força do filme vai além dos aspectos culturais e ganha o público com uma história sobre se conectar com sua identidade e descobrir sua força pelo amor.

Os desafios da representatividade

Falar sobre representatividade em Podres de Ricos envolve refletir sobre que tipo de história será contada. Como um filme que, da concepção ao marketing, teve essa questão como seu principal destaque, ainda mais depois de uma longa espera para que uma produção como essa pudesse simplesmente existir, é natural que as expectativas dos principais públicos representados no longa — a comunidade asiático-americana e a população singapurense — tivessem grandes expectativas de como isso seria feito.

O nome do filme já nos dá uma ideia de qual mundo nos será apresentado. Singapura é, de fato, conhecida mundialmente por ser um dos países mais ricos da Ásia. É justamente este mundo luxuoso que conhecemos, mas pelos olhos de Rachel, uma chinesa-americana, entrando para a família  de Nick, seu namorado singapurense, mas de uma família de origem chinesa.

Antes de adentrarmos nesse ponto, é importante entendermos melhor a composição étnica de Singapura. O filme apresenta isso de forma breve, quando Rachel visita a casa de Peik Lin Goh (Awkwafina) e a amiga explica que a família Young, de Nick, já tinha dinheiro quando imigrou da China, no século XIX, para Singapura — ou seja, eles são ricos há gerações.

De fato, foi no século XIX que a presença chinesa aumentou no território. Tudo começou quando a capital Singapura se tornou uma importante cidade portuária na Ásia, estabelecida pelos britânicos em 1819 após um acordo com os governantes locais malaios. Em 1824, a Companhia Britânica das Índias Orientais passa a ter total controle da ilha, após pressões aos chefes locais para a cessão do território e a assinatura de um tratado no mesmo ano. Na segunda metade do século, em 1867, o país passa a ser controlado diretamente pela Coroa Britânica, juntamente com os outros territórios do Estabelecimento dos Estreitos, grupo do qual Singapura fazia parte desde 1826.

Em uma matéria que contextualiza a origem da elite de Singapura, a Time explica que durante o século XIX, muitos imigrantes chineses, especialmente do sul da China, foram para Singapura, atraídos pelas indústrias de mineração de estanho e borracha. A maioria — trabalhadores não qualificados e de origem pobre, chamados de coolies — acabaram empregados em serviços braçais nos setores da construção, agricultura, entre outros; comerciantes que já possuíam conexões internacionais devido a rota do chá, ganharam um local muito mais favorável na cidade para o desenvolvimento dos seus negócios o que, mais tarde, deu origem a uma pequena elite local.

Em 1824, quando foi realizado o primeiro censo de Singapura, o país já contava com uma forte presença chinesa — eles eram o segundo maior grupo étnico, compondo cerca de 31% dos residentes na época. Quase dois séculos depois, em 2019, eles são a maioria do população, representando cerca de 76% dos singapurenses.

Apesar da forte presença chinesa na composição étnica do país, existem outros grupos — malaios e indianos —  também expressivos na população singapurense. No entanto, não vemos menções sobre as etnias, personagens desta origem e, tampouco, a presença de atores asiáticos-marrons (sul/sudeste asiáticos e oriente médio) em Crazy Rich Asians. Suas raras aparições acontecem em personagens com trabalhos serviçais, como garçons, seguranças ou manobristas, o que gerou reações negativas, especialmente, de singapurenses.

Essa é uma questão válida e que rende discussões não só em torno da adaptação da própria história para o cinema, mas também quanto a própria escalação do elenco. Sobre o primeiro ponto, é digno de nota que Kevin Kwan, autor da trilogia de livros, se inspirou em suas próprias vivências na elite singapurense visto que ele é de uma família rica de origem chinesa. Assim como são suas experiências reais na alta sociedade do país que fazem os personagens e o universo que ele criou serem verossímeis e funcionarem tão bem, é a mesma vivência em uma bolha tão exclusiva, predominantemente chinesa, que no final também acaba por não trazer toda a riqueza multicultural do país.

Tanto a questão étnica do núcleo de Singapura como do núcleo asiático-americano, focado em Rachel e sua mãe, também levou a questionamentos da própria produção do filme e do público de quais atores poderiam interpretar os personagens. Considerando que na trama os personagens são chineses-americanos ou singapurenses de família de origem chinesa, atores com descendência asiáticas diferentes dessas poderiam ser escalados para esses papéis? Não existiam respostas prontas, justamente porque Podres de Ricos foi o primeiro filme hollywoodiano a levar esses debates de fato em consideração — uma demanda de seu próprio tempo, com um público mais consciente quanto a complexidade da diáspora asiática, exigente por representatividade e de olho em casos de whitewashing.

A produção do filme não fechou os olhos a isso e priorizou atores que fossem singapurenses. Quando isso não fosse possível, eles contaram ao The New York Times que queriam entender quando um ator de uma nacionalidade ou descendência diferente poderia assumir o papel de um singapurense. No fim, o resultado foi um elenco diverso e internacional, com atores de diferentes países, fruto de uma escalação feita da maneira mais ampla possível. Ao Center for Asian American Media, Jon M. Chu conta que haviam diretores procurando por atores em Vancouver, Hong Kong, Reino Unido, Austrália, Malásia, Singapura e Beijing, além de uma chamada aberta pelo YouTube para novatos e pessoas fora da área do entretenimento.

Os personagens principais do filme foram para atores mais conhecidos, como Michelle Yeoh e Ken Jeong (que interpretou Goh Wye Mun), ou que têm ganhado notoriedade nos últimos anos, como Constance Wu e Awkwafina (que interpretou Peik Lin Goh). Do elenco principal, o único novato é Henry Golding, que antes, trabalhava como apresentador de programas no Discovery Channel e BBC. Foi justamente a escalação dele que gerou as principais discussões quanto ao elenco — nascido na Malásia, ele é filho de mãe também malaia, natural da tribo de Iban, e de pai britânico. Por ser em parte caucasiano, houve questionamentos em torno do porquê ele, e não alguém com origem inteiramente asiática, teria o papel principal.

A questão não passou despercebida para a produção, nem para Chu e Kwan. Mesmo assim, eles ainda optaram por Golding, por avaliarem como o melhor candidato para interpretar Nick. Eles já temiam uma reação adversa por parte do público, mas também se questionavam: como é possível avaliar quanto alguém é asiático? Raça, como Stuart Hall explica em A Identidade Cultural na Pós-Modernidade, é uma categoria discursiva, não biológica, que utiliza um conjunto frouxo e pouco específico de diferenças em características físicas como marcas simbólicas, para distinguir um grupo socialmente do outro. Como então, definir de forma tão delimitada, o quão asiático você é?

O próprio Golding reconhece a importância dos questionamentos quanto a sua escalação, mas reforça que ele sempre se identificou como asiático — não só por ter nascido na Malásia e ter vivido a maior parte de sua vida no continente, mas pela própria forma como ele se enxerga. Ainda assim, ele reconhece que existe um limbo, no qual ele não se sente inteiramente em casa nem na Inglaterra, nem na Malásia — algo que diz muito da experiência da diáspora asiática e também remete a ideia de Stuart Hall da identidade como uma “celebração móvel”, que se transforma continuamente conforme somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam.

Aqui, não cabe uma resposta pronta e absoluta que elucide todos esses pontos. O mais importante de todas essas discussões é que elas abrem caminho, como Chu explica em sua palestra “The pride and power of representation in Film”, para uma representatividade mais assertiva.

“A onda de apoio se transformou numa conversa on-line entre todos esses asiático-americanos, no qual poderíamos discutir e debater que histórias queríamos contar, quais deveriam ser contadas ou não. Podemos tirar sarro de nós mesmos? E quanto ao elenco, o que podemos fazer? Não entrávamos em acordo e ainda não entramos, mas a questão não era essa. A questão era que essa conversa estava acontecendo. E esse fluxo de conversas tornou-se uma infraestrutura. Havia todos esses grupos diferentes, que tentavam alcançar o mesmo objetivo, e nos uniram nesse tecido conectivo. De novo, não era perfeito, mas era o começo de como nós determinamos nossa própria representação no cinema”.

No caso de Podres de Ricos, a decisão foi por contar uma história centralizada na experiência asiático-americana, mas de forma contemporânea, sob o mundo mais exclusivo da elite singapurense. O filme ironiza, e por vezes escancara, as hipocrisias do mundo dos milionários, mas não tem a pretensão de ser crítico ou questionar essas riquezas. Além das barreiras culturais e dos vários zeros das contas bancárias de seus personagens, a maior força da obra de Chu está em um apelo que acaba sendo universal: o amor e toda sua complexidade, contados no formato que melhor privilegia sua leveza e revela seu poder — a comédia romântica.

Um olhar para as comédias românticas

Basta assistir algumas comédias românticas para entender que elas possuem tropes largamente utilizadas. Fórmulas como o meet cute — uma situação inusitada em que os protagonistas se conhecem — ou a cena de dança, que evidencia a conexão e a atração que os personagens sentem um pelo outro, funcionam e colaboram para criar uma estrutura que é a base da construção dessas narrativas.

Mesmo que outros gêneros cinematográficos tenham, assim como as comédias românticas, suas próprias tropes, foram essas fórmulas as acusadas pela “decadência” do gênero nos últimos anos. A suposição é de que seriam os clichês, repetidamente usados pelas produções, os culpados pelos números menos expressivos nas bilheterias e, consequentemente, menos produções nas salas de cinema.

No entanto, se você é fã de comédias românticas como eu, imagino que vai concordar que as tropes são, de longe, o que menos incomoda no gênero. Culpar e ironizar os clichês do gênero como sendo irreais ou mais do mesmo é ignorar a essência de uma boa comédia romântica: trazer aquele sentimento bom e mágico, que faz a gente enxergar a vida com mais beleza e esperança no maior estilo “edith piafiano” em “La Vie en Rose”. E nós sabemos que, mais uma vez, se trata de uma situação em que produtos sobre, voltados e mais consumidos por mulheres não recebem o mesmo prestígio cultural que os sobre homens (a Vulture explica bem isso).

Ao mesmo tempo em que os clichês não são o problema, é inegável notar que eles são sempre vividos pelas mesmas pessoas: um homem e uma mulher brancos, cis, magros, sem deficiência e em um relacionamento heterossexual. Esta é uma questão que vai além das comédias românticas, mas que abrange toda Hollywood. Um estudo da USC Annenberg publicado em 2018 mostra que dos 1.100 filmes mais populares de 2007 a 2017, 70% dos personagens são brancos. No geral, 29,3% dos personagens falantes eram de um grupo racial ou étnico sub-representado (como negros, asiáticos e latinos) — um número menor comparado a participação desses grupos na população dos Estados Unidos (38,7%) e entre os compradores de ingressos de cinemas (45%).

Como seria, então, trazer comédias românticas em que diferentes tipos de pessoa, de outras raças e orientação sexual, se apaixonam? Especialmente de 2018 para cá, temos visto produções do gênero que trazem esta premissa, tanto nos cinemas como na Netflix. Alguns exemplos são Com Amor, Simon, Para Todos os Garotos que Já Amei, Alguém Especial e claro, Podres de Ricos.

Ainda na pré-produção, em 2016, haviam duas ofertas para o filme: uma da Warner Bros e outra da Netflix, com a última sendo bem mais vantajosa em termos financeiros. Para Kwan e Chu, eles ofereceram liberdade artística, a certeza da realização das sequências e pagamentos antecipados, na casa dos milhões de dólares. Mesmo assim, eles optaram pelos estúdios da Warner — era a oportunidade de trazer para o cinema uma comédia romântica com um elenco de origem asiática e que dialogasse com a vivência asiático-americana, tão sub-representada. Esta experiência tradicional, da tela grande, era simbólica e viria 25 anos depois de O Clube da Felicidade e da Sorte, de 1993. Como diria Chu, Podres de Ricos não seria apenas um filme — mas sim, o início de um movimento.

Investir na produção de uma comédia romântica, um gênero que já não via as graças da bilheteria há algum tempo, e com um elenco de origem asiática, sem nomes tão familiares ao grande público (uma questão que também entra na sub-representatividade do grupo e, consequentemente, na pouca oferta de papéis para esses atores) era uma aposta arriscada. O peso do lançamento de Podres de Ricos ia além do que outras comédias românticas possuíam. Enquanto elas precisavam mostrar ser ainda um gênero relevante pelo qual o público estava interessado, o filme de Chu precisava mostrar algo ainda mais importante: a lucratividade que um longa com um elenco de origem asiática poderia ter em Hollywood. Se ele não funcionasse, quantos anos mais teria que se esperar por uma nova produção como essa? O próprio diretor disse, para o The New York Times, que a bilheteria do primeiro fim de semana influenciaria no destino de outros seis filmes com protagonistas asiático-americanos que estão sendo produzidos em outros estúdios.

Mesmo que o livro tenha sido um best-seller internacional, as expectativas eram de que Podres de Ricos conseguisse 20 milhões de dólares na primeira semana de estreia — um número otimista e que superava o arrecadado por outras comédias românticas recentes. Na realidade, o valor chegou a ser ainda maior, com cerca de 26 milhões de dólares, segundo o Box Office Mojo. Ou seja: em poucos dias, apenas nos Estados Unidos, o filme conseguiu alcançar o orçamento total da produção, de 30 milhões de dólares. No total, a bilheteria estadunidense foi de 174 milhões de dólares, se tornando atualmente a 6º maior de todos os tempos entre as comédias românticas do país.

A importância histórica do filme, marketing e a própria cobertura da mídia norte-americana, com direito a uma capa na revista Time, contribuíram para o sucesso, mas não se sustentariam sem um roteiro autêntico e um elenco e uma produção que acreditam na história. Constance Grady, da Vox, explica isso perfeitamente no texto “Why Romantic Comedies Matter”:

“É porque podemos sentir que esses filmes amam seus personagens que podemos nos apaixonar por eles também, e esse amor é algo que não pode ser fingido. Tem que vir de um lugar de respeito e afeto honestos” (tradução livre)

Podres de Ricos nos entrega isso com os clichês, cenas de grandes gestos e tudo aquilo que fazem as comédias românticas serem o que são — a mágica que é a conexão entre duas pessoas e o amor que, irremediavelmente, nasce entre elas.

Conexão e identidade

Conexão é uma palavra-chave em Podres de Ricos. Trabalhada, ao mesmo tempo, em um aspecto individual e coletivo, o filme apresenta as diferentes nuances que essa palavra representa por meio das experiências de Rachel em Singapura. A protagonista, como professora de economia da NYU, é um perfeito exemplo de uma história de imigrantes nos Estados Unidos que deu certo. No entanto, sua vasta educação e sua própria origem chinesa, que a aproximaria de parte desse grupo, não são suficientes para que ela seja aceita. Estamos falando de pessoas que não só são riquíssimas, mas também possuem um status além desse dinheiro, validado por meio das conexões que existem entre os membros do seleto grupo. Em outras palavras: para fazer parte do 1%, não basta você cumprir todos os requisitos — você precisa ser aceito e visto como um deles.

Rachel, por estar em outro país, já carrega o status de forasteira quando conhece o mundo de Nick. No entanto, não importa o quanto ela se esforce para participar e compreender melhor esse mundo, tudo ainda parece distante, além do aspecto cultural. Se, nos Estados Unidos, que é sua terra natal, ela seria vista como asiática, em Singapura, ela não é encarada dessa forma — seus traços físicos podem ser asiáticos, mas ela é uma norte-americana, com os valores e ideais de lá. Ou, como Peik Lin descreve grosseiramente, ela é “como uma banana: amarela por fora, mas branca por dentro”.

Mesmo que Rachel tenha descendência chinesa e traga essas referências simbólicas consigo, ela ainda nasceu e cresceu nos Estados Unidos, imersa em uma cultura diferente, com outros valores. É apenas quando ela está em um país estrangeiro e é confrontada diretamente por Eleanor que ela ganha, de fato, consciência disso. Para Rachel, Eleanor deveria aceitá-la pensando na vontade e na felicidade de seu filho — estar com ela. Como mãe, é claro que ela considera isso; no entanto, com a responsabilidade de ser uma das matriarcas dos Young, é preciso pensar além do individual, mas no todo.

Ter a mente em um contexto mais amplo significa, no filme, pensar na família. A importância que isso possui em Podres de Ricos tem ligação com o confucionismo — afinal, estamos falando de uma família de origem chinesa e de um país que, política e socialmente, também teve uma grande influência da filosofia. Os princípios éticos e morais de Confúcio privilegiam a família, na qual a hierarquia e a harmonia devem prevalecer acima de valores individuais. Ruiwen Zheng explica essa concepção com mais detalhes em sua tese:

“O fracasso em manter a família unida e em seu funcionamento normal é considerado como o fracasso de sua vida. A conquista da harmonia familiar requer a primazia da família, o que significa que a busca pelos interesses e objetivos da família é priorizada em vez de seguir interesses e necessidades individuais. É necessário fazer um sacrifício pessoal para atender às necessidades da família”. (tradução livre)

Essa responsabilidade de manter a família harmônica recai, principalmente, nos ombros de mulheres como Eleanor. Para Rachel, ela explica que sua sogra também não a aceitava  — suas conexões não eram as melhores e ela não parecia preparada para ser uma boa esposa. Eleanor reconhece que, depois, entenderia que as preocupações da avó de Nick eram válidas, já que ela, de fato, não tinha noção do trabalho e do sacrifício que seria necessário para o papel que ocuparia. Se ela, que já fazia parte desse universo, lidou com isso de uma maneira tão dura, como seria então para Rachel? Criada em uma cultura na qual o individual e o imediatismo tem mais força, seria ela capaz de compreender e fazer as mesmas escolhas que Eleanor?

É aqui que o conflito se aprofunda e vai além das questões identitárias de Rachel. Ela e Nick podem estar apaixonados e não verem o dinheiro nem o status social como grandes obstáculos no seu relacionamento, mas e quando falamos de família? São conexões que fazem parte deles, que os definem antes mesmo do seu nascimento. É possível fechar os olhos para elas e seguir em frente sem culpa?

Essas questões, da sensação de não pertencimento aos conflitos das escolhas individuais e os valores familiares, ressoam de forma muito particular para os asiáticos-americanos e são a força motriz da conexão que o público consegue ter no filme. É fato: não haveria como abarcar todas as vivências da diáspora asiática em um longa de duas horas. No entanto, é possível trazer para as telas um sentimento que une os diferentes grupos dessa comunidade, mesmo com suas diferenças culturais. Esse foi um dos pontos principais da trama, como Adele Lim, uma das roteiristas do filme, diz em entrevista à NBC:

“Queríamos encontrar uma maneira de dizer: ‘O que foi específico das nossas experiências enquanto estávamos crescendo e que podemos trazer e você nunca viu em uma comédia romântica antes?’ Queríamos que parecesse verdadeiro.” (tradução livre)

O sentimento de não pertencer e a complexidade que envolve as relações familiares vão, até mesmo, além do que é ser asiático-americano. A sensação de não se encaixar em algum lugar ou achar que você não é o suficiente são dores comuns que nos unem em torno de uma experiência que, no fim dos contas, diz muito sobre o que procuramos como seres humanos — nos conectar e sermos aceitos.

Um caminho para novos diálogos

Podres de Ricos, de fato, simboliza o início de um movimento em Hollywood. Desde a estreia do filme, em 2018, até hoje, temos visto mais produções com protagonistas asiáticos, em histórias contemporâneas e que também não sejam, necessariamente, centradas apenas na questão racial. Alguns exemplos são os filmes Para Todos os Garotos que Já Amei e Meu Eterno Talvez (e que também são comédias românticas), da Netflix; As Golpistas, que também tem Constance Wu como protagonista; e até mesmo super produções como Shang Chi e a Lenda dos Dez Anéis, primeiro filme da Marvel com um protagonista asiático (isso, vale lembrar, depois do caso de whitewashing em Doutor Estranho, com a escalação de Tilda Swinton como Ancião).

No entanto, apesar de estarmos vendo essas mudanças, é importante lembrar que Podres de Ricos não foi fruto de uma indústria cinematográfica benevolente, que ativamente sempre buscou por mais representatividade — se o longa pôde existir da forma como foi lançado, foi pela determinação e empenho dos asiáticos-americanos, tanto da classe artística como do próprio público, em se fazerem vistos.

O que isso significa na prática? Que para Kwan garantir a adaptação da sua história para o cinema e da melhor maneira possível, ele vende os direitos do seu livro best-seller por apenas um dólar. Que mesmo a raça de Rachel sendo um ponto central da trama, ainda houve um produtor que achou válido sugerir ao autor que ela fosse branca no filme. Que a Warner Bros, estúdio que produziu o longa, tinha na época um homem asiático-americano como CEO e presidente. Que quando vemos quem são os autores das resenhas e matérias sobre Podres de Ricos na imprensa norte-americana, muitos deles têm descendência asiática.

Trazendo para o contexto local, é interessante observar que mesmo com uma notória comunidade asiática, o Brasil não foi visto como um mercado potencial para o filme. Por aqui, o longa estreou quase dois meses e meio depois dos Estados Unidos, em 70 das 3.347 salas de cinema que existiam no país em 2018, conforme dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual (OCA). Aqui, inclusive, o nome do longa perdeu o “asiáticos” e ficou só como Podres de Ricos — mesmo que o livro, que já havia sido lançado no país, tenha a palavra no seu título.

Quando fazemos um comparativo com outras comédias românticas contemporâneas, lançadas de 2018 para cá também por grandes estúdios, a diferença da distribuição que Podres de Ricos teve no Brasil é gritante. Mesmo que o filme, com um mês de exibição nos Estados Unidos, já fosse uma das maiores bilheterias de comédias românticas de todos os tempos por lá, ele ainda demorou mais para estrear e em menos salas de cinema do que filmes que tiveram um lucro doméstico muito menor que ele, como Com Amor, Simon e Uma Segunda Chance Para Amar. Por aqui, os dois filmes (o último que inclusive também tem Golding como um dos protagonistas), chegaram em menos de um mês depois de sua estreia nos EUA e no total, ocuparam 377 e 596 salas de cinema, respectivamente (também segundo dados da OCA). O que levaria a essa disparidade?

Nos bastidores, também ainda existe um longo caminho a ser trilhado. Depois do sucesso, Podres de Ricos garantiu a adaptação do segundo livro da trilogia, Namorada Podre de Rica, para o cinema; no entanto, perdeu Adele Lim, a grande responsável por trazer a essência cultural ao roteiro do filme. Sua saída se deve a disparidade salarial com o outro roteirista do longa, Peter Chiarelli — segundo a Hollywood Reporter, as ofertas para ele eram em torno de 800 mil a 1 milhão de dólares, enquanto para ela, o valor foi de apenas 110 mil.

Independente da diferença de experiência entre os dois, a enorme disparidade entre os salários dos dois roteiristas — ele, um homem branco, e ela, uma mulher asiática — mostra o quanto Hollywood precisa caminhar quando o assunto é desigualdade de gênero e racial. Enquanto Chiarelli já havia sido escalado para o roteiro pelos produtores do filme, a contratação de Lim veio por parte de Chu — o que reforça como o empenho por mais diversidade vem, em sua maioria, daqueles que são seus pares.

A alegação de que a oferta de Chiarelli foi maior por ele ser mais experiente, enquanto Lim, apesar de já ser veterana na televisão, era novata no cinema, cai por terra quando pensamos que foi ela a responsável pela autenticidade que era necessária ao roteiro (a famosa cena do mahjong, por exemplo, é obra dela). Mesmo que sua contribuição tenha sido essencial, seu trabalho é mais visto como aquilo que ela chama de “molho de soja” — contratar mulheres e pessoas de minorias raciais para cuidar de detalhes culturalmente específicos em um roteiro — do que pelo papel substancial que ela teve na elaboração da história.

Pensar em todas essas questões diz muito sobre o que, de fato, significa representatividade e em toda a responsabilidade que é se comprometer a trazê-la para as telas. Podres de Ricos, sozinho, não pode — e não é justo que seja exigido isso — ser a resposta absoluta para todos os problemas quanto a representação dos asiáticos em Hollywood. O filme ainda faz parte de uma indústria bilionária nas quais as decisões, em sua maioria, continuam sendo feitas pelas mesmas pessoas de sempre: homens brancos. No entanto, nada lhe tira a força e o significado que ele carrega para aqueles que, pela primeira vez, conseguiram se ver nas telas além dos mesmos estereótipos. É um impacto que reverbera em um âmbito mais profundo: é sobre sentir que, finalmente, o seu lugar é como protagonistas de suas histórias.

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