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Someone Great: as mudanças no gênero da comédia romântica

As comédias românticas baseiam-se, geralmente, em uma grande história de amor — de narrativa leve com pitadas de humor —, com foco no casal protagonista. Algo também característico do gênero é a jornada da personagem em busca desse amor como se outras áreas de sua vida fossem coadjuvantes e não importassem tanto quanto sua vida amorosa.

Someone Great, filme produzido pela Netflix com direção de Jennifer Kaytin Robinson, não tem um roteiro exatamente original, mas é capaz de trazer um novo olhar para a comédia romântica. A narrativa conta a história do término do relacionamento amoroso entre Jenny Young (Gina Rodriguez) e Nate Davis (Lakeith Stanfield) e a consequente busca de Jenny para superar este recente rompimento. No decorrer da saga da protagonista, conhecemos os desdobramentos desse casal, os pontos positivos e negativos do relacionamento e os motivos que levaram a separação dos namorados.

Someone Great fala sobre sofrimento, dor, risadas e momentos felizes do casal, mas não somente isto. Saindo do estereótipo “a vida da mulher se baseia na relação com o homem”, é possível perceber que o roteiro foca muito mais na relação de Jenny com suas amigas Erin Kennedy (DeWanda Wise) e Blair Helms (Brittany Snow), que também possuem seus dramas individuais e acabam convergindo com o desejo de superação de Jenny. Blair tem um relacionamento amoroso fracassado, enquanto Erin não consegue admitir que está apaixonada por Leah (Rebbeca Naomi Jones). E é em meio às peculiaridades de cada uma das amigas que o roteiro se desenrola.

Este é dos principais pontos de Someone Great, a sutil mudança da mulher “em busca do amor de sua vida” em meio aos acontecimentos do filme, para a protagonista que descobre não precisar de um grande amor para ser feliz. Suas amizades, o trabalho e a realização pessoal a suprem e sustentam — e esta parece ser a mensagem que o roteiro quer deixar para seu público, e aqui é importante ressaltar a direção de Jennifer Kaytin Robinson, uma mulher que compreende a importância de trazer esse novo olhar para o gênero.

A saga da resolução dos conflitos de Jenny, Erin e Blair termina pela descoberta da amizade que precisa ser valorizada. Principalmente quando se trata dessa relação entre mulheres, já que a sociedade acolhe a narrativa de disputas de mulheres por diversos fatores, inclusive por homens, o que se classifica como rivalidade feminina. Quem não se lembra de várias histórias em que a mocinha se transforma no alvo das maldades da vilã cujo objetivo é “roubar” o namorado da outra? Por bastante tempo, essa ideia de rivalidade foi vendida e aceita.

Sutilmente, essas pequenas mudanças no gênero na comédia romântica vêm acontecendo. Em meio ao discurso de luta a favor dos direitos das mulheres e da igualdade de gênero, é percebido que filmes comecem a trazer a narrativa de uma mulher que não precisa necessariamente de um relacionamento amoroso para ser feliz. Que amizades, carreira e família também importam para as relações sociais. Acompanhar narrativas que desconstroem os estereótipos e os clichês cinematográficos é um bem-vindo respiro em uma indústria tão saturada de temas batidos.

Um filme como Someone Great, que conta a história de uma mulher se fortalecendo em suas amizades, apoiando-se em sua carreira e família, é importante também na questão da representatividade: mostrar para meninas que elas podem confiar em si mesmas é tão importante quanto mostrar que elas não precisam encarar os relacionamentos amorosos como um sinônimo para a felicidade. A vida real é esta, há diversos tipos de amores que precisam ser vividos, em especial quando esse amor você encontra em suas amizades. E isto, Someone Great consegue, brilhantemente, trazer à tona em sua narrativa.

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