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A trajetória de Chloé Zhao

Chloé Zhao fez história no último Globo de Ouro, premiação que aconteceu em fevereiro deste ano, ao ser a primeira mulher não-branca a levar para casa o troféu de Melhor Direção por seu longa Nomadland — na premiação, ela foi apenas a segunda mulher a conquistar o feito visto que a primeira, e até então única, a receber esse troféu foi Barbra Streisand, por Yentl, em 1984. De lá para cá, as atenções ao redor de seu nome e seu filme multiplicaram, culminando nas seis indicações que seu trabalho recebeu no Oscar 2021, cujos troféus serão entregues no próximo dia 25 de abril: Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Atriz para Frances McDormand. Mas, até chegar até aqui, Chloé Zhao trabalhou e não foi pouco.

Nascida em Pequim, em 1982, Chloé na verdade se chama Zhao Ting. Passou a infância e adolescência vivendo com a família na capital chinesa, recebendo influências de seu pai, Zhao Yuji, um executivo de uma das maiores siderúrgicas do país, sua mãe, Huang Tao, que trabalhava em um hospital e, mais tarde, de sua madrasta, a atriz Song Dandan, muito conhecida na China por seus papéis de comédia. Chloé cresceu em um universo relativamente tranquilo e de muitos privilégios e cuidado, influenciada por diferentes aspectos da cultura pop ocidental ao ter se mudado para a Inglaterra para frequentar um colégio interno. Para terminar o ensino médio, Chloé se mudou novamente, dessa vez para Los Angeles e, mais tarde, se graduou em Ciências Políticas no Mount Holyoke College — mas ainda não tinha certeza do que desejava fazer com sua carreira. Nesse interlúdio em que ainda tentava encontrar sua vocação, a jovem Chloé trabalhou como promotora de festas, bartender e até mesmo no setor imobiliário antes de se decidir: o que ela realmente gostava era de contar histórias.

Sendo assim, Chloé se matriculou na Escola de Artes Tisch, da Universidade de Nova York, e começou seus estudos em produção de filmes. Em entrevista à revista Interview, Chloé disse que, enquanto crescia, era uma menina muito rebelde: “I had this tsunami of influences from Western pop culture. I never formed a strong sense of national or cultural identity. My English has issues, my Chinese has issues. It’s a quite liquid form of identity.” [“Eu tive esse tsunami de influências da cultura pop ocidental. Eu nunca formei um senso forte de cultura nacional ou identidade. Meu inglês tem problemas, meu chinês tem problemas. É uma identidade líquida.”]. Ao ter aulas com profissionais de peso da indústria do cinema como Spike Lee, e reunir toda a sua extensa e variada bagagem cultural, Chloé encontrou sua vocação e deu início à sua jornada no universo dos filmes.

Songs My Brothers Taught Me (2015)

Seu primeiro longa é o independente Songs My Brothers Taught Me, lançado em 2015 e atualmente disponível no serviço de streaming da Mubi. O filme, gravado nas oficinas do Sundance Institute, conta a história de dois irmãos que vivem na reserva indígena de Pine Ridge, na Dakota do Sul, nos Estados Unidos. É nesse cenário, de uma das regiões mais pobres do país, que encontramos Johnny (John Reddy) e Jashaun (Jashaun St. John), que moram na reserva com a mãe. Johnny e Jashaun são descendentes dos nativos norte-americanos, os índios sioux (ou dakota), que viveram durante séculos nas Grandes Planícies da América do Norte. Após a independência dos Estados Unidos, conflitos entre colonizadores e os povos sioux aumentaram, e ainda que os nativos tenham resistido de forma corajosa até o final do século XIX, atualmente restam poucos remanescentes de seus respectivos grupos. Os descendentes desses povos vivem em pequenas reservas justamente nos estados de Dakota do Sul e Dakota do Norte, como mostrado em Songs My Brothers Taught Me.

Quando o pai de Johnny e Jashaun morre, bêbado, após um incêndio, eles conhecem no velório seus meio-irmãos. Esse encontro apenas aumenta a determinação de Johnny em deixar a reserva para viver com sua namorada, Aurelia (Taysha Fuller) em Los Angeles. Aurelia logo se tornará estudante na Universidade da Califórnia, UCLA, e o plano do casal é que Johnny se mude junto com ela e consiga um trabalho para que possam morar juntos. Porém, mesmo que a oportunidade pareça o ideal para a tão esperada mudança de vida de Johnny, ele não consegue decidir: ele deve abraçar a chance ou permanecer junto da família? A decisão de Johnny leva muito em consideração os sentimentos de Jashaun, que é sua irmã mais nova e o admira como somente as irmãs mais novas conseguem admirar irmãos mais velhos.

Songs My Brothers Taught Me não deixa de ser um coming of age, e seu diferencial está, precisamente, em mudar o foco dos personagens padrão dessas histórias para adolescentes como Johnny e Jashaun. O longa, que tem pouco mais de 90 minutos, te faz mergulhar em uma história com a qual não estamos habituados, o de uma pequena comunidade indígena no interior dos Estados Unidos, e os relacionamentos que se desenvolvem ali, não apenas entre os personagens, mas também dos personagens com a natureza e o meio em que estão inseridos. Songs My Brothers Taught Me — que foi escrito e dirigido por Chloé Zhao, e produzido por ela e Forest Whitaker — recebeu indicações no Festival de Cannes de 2015 e no Independent Spirit Awards, de 2016.

The Rider (2019)

Dando sequência ao seu trabalho, em 2017 Chloé Zhao retorna com outro longa que usa o cenário da Dakota do Sul como pano de fundo para sua narrativa. The Rider, lançado no Brasil com o título de Domando o Destino, conta a história de Brady Blackburn (Brady Jandreau), um jovem domador de cavalos que sofre um grave acidente que o deixou em coma. Quando Brady desperta, os médicos dizem que ele nunca mais poderá cavalgar, o que é de difícil aceitação para ele. Aqui, Zhao aborda o universo dos caubóis e rodeios para criar uma narrativa emocionante e sensível, repaginando um ambiente — o do faroeste — que vive no imaginário de todos que já tiveram algum contato com o western estadunidense, em algo muito mais emotivo e delicado do que se possa imaginar quando falamos de filmes dentro do gênero.

Para além da narrativa de Chloé e seu modo de contar histórias, que é interessante por conta própria, outro ponto que chama atenção em The Rider é o fato de que a trama de Brady Blackburn é inspirada pela vida de Brady Jandreau, que interpreta o personagem principal no filme. Chloé conheceu Brady Jandreau quando estava em Dakota do Sul, e decidiu que ele seria perfeito para interpretar um papel inspirado nele mesmo. Em The Rider, além do próprio Brady Jandreau, seu pai, sua irmã e um amigo também estão em cena, o que transforma a produção é uma mistura intricada de ficção e realidade, documentário e vida real. Brady, impossibilitado por sua recuperação de fazer o que ele acha que as pessoas esperam dele, sente vergonha de sua situação mas segue adiante enquanto anseia por retomar sua vida. Assim como foi feito em Songs My Brothers Taught Me, em The Rider Chloé Zhao também opta por usar pessoas reais, e locais, para estrelar suas produções do que atores renomados — o que muda parcialmente quando a diretora partiu para Nomadland, ao trabalhar com Frances McDormand. E, assim como em Songs My Brothers Taught Me, Brady, sua família e seus amigos também são parte dos sioux da Reserva Pine Ridge.

The Rider recebeu indicações no Film Independent Spirit Awards e ganhou os prêmios de Melhor Filme no National Society of Film Critics e Gotham Independent Film Award em 2018.

Eternals (2021)

Na página de Chloé Zhao no iMDB, Os Eternos consta como em fase de pós-produção, pronto para estrear em 2021 (se a pandemia permitir). O fato é que parece um caminho natural para a diretora colocar em seu currículo um filme grandioso e tão aguardado quanto Os Eternos, que fará parte da Fase 4 do Universo Cinematográfico da Marvel. Zhao, que se consagrou no universo dos filmes independentes, encarará pela primeira vez uma audiência pop que tem muito o que esperar por parte de seus personagens favoritos. A diretora, que foi considerada inclusive para o filme da Viúva Negra, que estreia em maio diretamente no serviço de streaming da Disney após diversos adiamentos devido à pandemia, encara Os Eternos como uma oportunidade de ouro para criar um universo expandido, algo que ela já disse adorar fazer.

Não sabemos muito a respeito do que nos aguarda em Os Eternos além das figuras de renome que encabeçam o elenco, como Angelina Jolie, Salma Hayek e Gemma Chan. O longa, que já leva o peso de ser o responsável por mudar drasticamente o MCU como conhecemos, é um projeto altamente antecipado pelos fãs, e explorará de maneira intensa o universo cósmico, tão presente nos quadrinhos e que se revelou por enquanto apenas em filmes como Capitã Marvel, Thor: Ragnarok e Guardiões da Galáxia. Além disso, Os Eternos poderá englobar flashbacks ainda mais distantes do que já vimos no MCU, visto que o grupo de heróis é tão antigo quanto a própria Terra, e ampliação do conceito de multiverso, algo que filmes e séries, como WandaVision, começaram a ambientar.

De maneira geral, uma coisa é certa: a trajetória curta, porém meteórica, de Chloé Zhao, reverbera o talento da diretora como uma das vozes mais promissoras de sua geração. De um início um pouco incerto, tentando encontrar seu lugar, Zhao criou narrativas únicas que joga luz para minorias e histórias não contadas. Ainda não sabemos se as estatuetas do Oscar 2021 estarão com Chloé ao final da cerimônia, mas seu futuro é promissor.


** A arte em destaque é de autoria da editora Ana Luíza. Para ver mais, clique aqui!

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