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Vida Incompleta: as mulheres e o trabalho dentro e fora do mundo corporativo

Quando o canal sul-coreano tvN exibiu Vida Incompleta (Misaeng, no título original) em 2014, o drama foi um enorme sucesso. Destaque nas principais premiações do ano e com excelentes índices de audiência durante sua transmissão, a história de Jang Geu-rae (Yim Si-wan), ex-jogador de Go, e suas dificuldades na vida como estagiário — e, posteriormente, funcionário da empresa One International — ressoaram com milhares de pessoas na Coreia do Sul, mas em especial com aquelas que trabalham no mundo corporativo.

Não é difícil entender porque o drama, baseado em um webtoon de autoria de Yoon Tae-Ho, foi tão popular. Ao mesmo tempo em que traz, sem floreios, os desafios da vida de um trabalhador comum, Vida Incompleta também faz isso com muita sensibilidade. Mesmo que o drama se passe em uma multinacional, não é preciso ser um funcionário de colarinho branco para entender as dores de Geu-rae e seus colegas — empresas mudam, mas, no fundo, todos elas se parecem um pouco: problemas com chefes, diferenças entre gerações e todos os conflitos e dúvidas da vida adulta — entre aquilo que queremos e o que precisamos fazer —, afinal, não são estranhos para a maior parte de nós.

Se essas são angústias comuns aos trabalhadores, Vida Incompleta também abre espaço para questões que afligem, especificamente, as mulheres e sua relação com o mundo corporativo. No núcleo da One International, o drama aborda esses pontos por meio de duas personagens: Ahn Young-Yi (Kang So-Ra), uma das estagiárias contratadas na One International, e Sun Ji-Young (Shin Eun-Jung), a Sra. Sun, vice-diretora de uma das equipes de vendas. Já fora desse contexto, conhecemos esposas e mães de personagens que com o trabalho doméstico diário, são apoio fundamental para que seus filhos e maridos possam desempenhar seu trabalho.

Atenção: este texto pode conter spoilers!

Ahn Young-Yi e o machismo de cada dia

Vida Incompleta

É preciso de poucos minutos em Vida Incompleta para sabermos que Ahn Young-Yi é uma profissional acima da média. Parafraseando Pet Shop Boys em “Opportunities”: “She’s got the brains, she’s got the looks” (“Ela tem o cérebro e a aparência”, em tradução livre). Inteligente e muito habilidosa, Young-Yi é a única mulher dentre os estagiários recém-admitidos na One International. Com poucos dias na empresa, ela já se destaca pela competência e ganha certa fama — diretores de outras áreas já pensam em tê-la na equipe, após uma possível contratação; os colegas estagiários, por sua vez, sabem que ela é a principal concorrente para uma vaga na multinacional.

No entanto, o currículo invejável e o ótimo desempenho não cegam Young-Yi — suas habilidades não lhe passam despercebidas, mas também não a tornam prepotente. Essa conduta reflete dois pontos: a cultura corporativa na qual ela está inserida e, de modo mais amplo, o tipo de comportamento que se espera e ensina para uma mulher. Enquanto a maioria dos homens de Vida Incompleta, independente de sua posição hierárquica, se vangloriam de seus feitos no trabalho, os reconhecimentos de Young-Yi, em alto e bom-tom, partem dos outros — ela os aceita, mas sempre de modo mais contido.

Como mulher em um ambiente de trabalho majoritariamente masculino, Young-Yi tem plena consciência de que a estrutura da empresa em nada lhe beneficia. Ela sabe que a formação e o desempenho não são, por si só, uma garantia para a contratação: existem outras habilidades importantes em um sistema que ao menor deslize de sua parte, encontra um motivo para não contratar uma mulher. Por isso, Young-Yi não se descuida: mantém o desempenho acima da média e se relaciona com os colegas e superiores conforme o necessário, mas sempre com certa distância. Pensar nessa prudência de Young-Yi dentro da empresa não a transforma em uma personagem fria, que se atém às regras da empresa independente de suas opiniões e valores. Existe cautela em suas atitudes, mas também existe determinação. No fim do dia, ambas são necessárias para que ela consiga sobreviver na One International.

Se a ideia de sobrevivência nesse contexto pode parecer exagerada, Vida Incompleta mostra que não há termo que se encaixe melhor. Sobreviver, pela definição do Oxford Languages, é permanecer vivo depois de (algo); continuar a viver ou existir. É isto que, diariamente, ao chegarem na One Internacional, os funcionários precisam fazer — continuar exercendo suas funções, apesar de tudo. Na teoria, parece uma tarefa simples; mas, na prática, envolve suprimir dilemas e questões pessoais em prol de um meio de sustento.

Para Young-Yi e as outras mulheres da One International, sobreviver na empresa envolve obstáculos a mais. Enquanto a experiência da jovem como estagiária foi relativamente tranquila, a vida como funcionária não é a mesma. Do setor têxtil, ela passa a trabalhar no time de recursos. No entanto, enquanto na primeira ela consegue se relacionar bem com os colegas, na segunda já ocorre o contrário. A ideia de ter Young-Yi, a melhor estagiária de sua turma, era o sonho de muitas equipes, mas não da de recursos. A competência e a proatividade da jovem não são vistas com bons olhos pelo seu gestor direto, o gerente Ha Sung-Joon (Jun Suk-Hoo), também chamado de Sr. Ha. Frequentemente, vemos que ele possui um comportamento abusivo com Young-Yi: ele a ofende, grita com ela e, até mesmo, em dado momento, joga os papéis de um relatório no rosto da jovem.

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Outros membros da equipe, Jung Hee-Seok (Jung Hee-Tae) ou Sr. Jung — este, vice-diretor da equipe e superior ao Sr. Ha — e Yoo Hyeong-Gi (Shin Hae-Joon), apesar de não serem tão agressivos com Young-Yi, também não diferem muito do gerente. Mesmo nas ocasiões em que não concordam com o comportamento do Sr. Ha, a solidariedade com a jovem é mínima — quando tentam apaziguar a situação, fazem isso de forma tão branda que nada se parece com uma advertência. Esse comportamento é tão naturalizado que se não toma proporções maiores, não é visto como uma prática abusiva, mas algo normal e próprio do ambiente de trabalho. Além de Young-Yi, vemos outros personagens passarem pela mesma situação, mas em diferentes níveis. Geralmente, o modo mais grave ocorre nas relações entre superior e subordinado, em que a hierarquia acaba por legitimar esse tipo de conduta. No entanto, isso também ocorre em outros contextos, mas no qual existe uma dinâmica de poder não tão explícita — vemos isso com Geu-rae e sua relação com Lee Sang-Hun (Yoon Joong-Hoon) durante o período do estágio, por exemplo.

Entender esse comportamento como uma forma de violência psicológica e criar ações para combatê-lo é algo recente na Coreia do Sul, do ponto de vista institucional. Exemplo disso é a lei específica para combater a conduta, instaurada em 2019, depois que um relatório da Comissão Nacional de Direitos Humanos do país revelar que 70% dos trabalhadores já foram vítimas, ao menos uma vez na vida, de bullying no ambiente de trabalho. No entanto, ao mesmo tempo que a presença desse comportamento em Vida Incompleta é um reflexo da cultura de trabalho sul-coreana, também não foge de ser uma questão mais ampla, em um nível global. O Fórum Econômico Mundial, por exemplo, destaca estudos que mostram como Estados Unidos, Japão e o Reino Unido também têm altos índices de bullying no local de trabalho.

Não por acaso, na última Conferência Internacional do Trabalho, realizada em 2019, foram adotadas pela primeira vez normas para combater a violência e assédio no local de trabalho. A convenção reconhece que essas são ações “de ocorrência única ou repetida, que visem, causem, ou sejam susceptíveis de causar dano físico, psicológico, sexual ou econômico, e inclui a violência e o assédio com base no gênero”. Nesse sentido, mesmo que outros funcionários da One International sejam vítimas do mesmo comportamento agressivo que Young-Yi sofre, o caso da jovem ganha outros contornos quando pensamos na questão de gênero. Em uma conversa de Young-Yi com a Sra. Sun, a vice-diretora conta a jovem que essa não é primeira vez que uma mulher tem experiências ruins na equipe de recursos — na verdade, eles são conhecidos na empresa por discriminar mulheres.

A sugestão de que esse é um cenário recorrente e de conhecimento de outras áreas reforça a naturalização desse tipo de violência psicológica no ambiente corporativo, bem como também transparece outras questões: a ausência de punições, por parte da empresa, a esse comportamento; a impotência, por parte dos funcionários, de denunciar a prática; e a discriminação institucionalizada às mulheres. O menosprezo ao trabalho das mulheres está presente, repetidas vezes, nas interações da equipe de recursos com Young-Yi. As ofensas são direcionadas a ela e também a outras mulheres do escritório, com comentários como “Ela não tem senso de honra” e “É por isso que não confio em mulheres”. Para ser aceita na equipe e ouvir menos críticas, Young-Yi até se dispõe a fazer serviços que fogem das atribuições do seu cargo, como buscar os sapatos do vice-diretor na sapataria. Esses favores em nada incomodam a equipe — na verdade, muito pelo contrário. O Sr. Jung encara com bons olhos e, até mesmo, considera parte do treinamento dela na empresa — uma mulher, diga-se de passagem, graduada em ciências políticas.

Esse momento é simbólico, porque traduz como esses homens veem as mulheres com que trabalham. Para eles, só é cabível trabalhar com uma mulher quando elas estão abaixo deles ou ao seu dispor, mas nunca de igual para igual ou em uma posição hierárquica maior. Esse é um ponto que até mesmo o Sr. Kang (Oh Min-Suk), um dos gerentes da equipe de Aço, ironiza sobre o Sr. Ha: ele é agressivo com Young-Yi, mas com uma funcionária da empresa que acha atraente, ele é gentil. O Sr. Ha responde que “ele gosta de mulheres que aquecem o ambiente e tornam felizes as pessoas ao redor”, o que o Sr. Kang replica: na verdade, o que ele gosta são de “mulheres que sorriem e obedecem”.

No fim, a tática de Young-Yi, assim como mais algum tempo na empresa, diminui a agressividade na forma com que seus colegas a tratam. É um comportamento que, de modo superficial, pode parecer apenas uma forma de resignação; no entanto, é também o modo que ela encontra de resistir a tudo isso. É uma escolha feita por sobrevivência, em sua mais pura definição — continuar a viver ou existir — e que embora possa ser o caminho mais fácil para seguir na empresa (ou seja, aquele em que ela menos é perturbada), é também o mais penoso para ela. Esse conflito traduz um dos principais pontos de Vida Incompleta: as escolhas difíceis que os trabalhadores fazem, todos os dias, para seguir adiante.

Vida Incompleta

Um olhar para o assédio sexual

A experiência da mulher no mercado de trabalho ganha mais uma camada quando o drama aborda assédio sexual. Em Vida Incompleta, a agressão é mencionada pela primeira vez durante uma reunião, na qual Oh Sang-Sik (Lee Sung-Min), o Sr. Oh, relembra que foi testemunha contra o Sr. Ma (Son Jong-Rak), líder do departamento de recursos, no caso de assédio sexual em que ele foi acusado. A denúncia, feita pela associação de mulheres da empresa, foi em decorrência ao comentário que o gerente fez sobre o decote de uma das funcionárias. Como punição, ele teve o salário reduzido por três meses.

A penalidade não muda o comportamento do Sr. Ma. Ao longo do drama, vemos ele sendo repetidamente desrespeitoso com mulheres — inclusive, na mesma ocasião em que é mencionada a agressão. Na reunião, ele grita com as duas únicas mulheres presentes — Young-Yi e Sra. Sun — e as encurrala ao questioná-las, diretamente, se o seu comentário poderia ser mesmo classificado como assédio sexual, afirmando que a culpa seria da vítima, por usar um decote revelador. As duas não recuam e em troca, ouvem mais gritos do gerente. Reclamando aos quatro cantos, ele solta: “Eu não posso sobreviver por causa dessas mulheres malucas!”

Se com o Sr. Ma, o tom agressivo e a discriminação às mulheres é escancarada, com o Sra. Park (Kim Hee-Won), o assédio sexual ocorre de forma sorrateira — pelo menos, à vista dos outros. Em um dos espaços de convivência da empresa, ele faz diversos comentários com teor sexual à Shin Da-In (Park Jin-Seo), que estava tomando café no local com outras funcionárias. Todos os presentes — ela, suas colegas e o Sr. Sung (Tae In-Ho), que acompanhava o Sr. Park — percebem as insinuações, mesmo que ele tente disfarçá-las como meras observações sobre um carro de uma revista. As mulheres ficam claramente incomodadas, mas isso não interrompe o assédio. Depois de todos os comentários, o Sr. Park ainda faz Da-In fazer um café para ele, com o argumento de que o “café servido por mulheres é mais gostoso”. Toda a situação deixa a funcionária abalada, que então aconselhada pelas colegas a denunciá-lo. A história chega até a Sra. Sun, que adverte o Sr. Oh, líder da equipe que o Sr. Park faz parte, a tomar alguma providência.

Posteriormente, não vemos uma cena em que esse assédio chega a ser formalizado como uma denúncia. O Sr. Park até chega a sair da One International, mas devido a um caso de corrupção. Mesmo que não seja a intenção do drama, pensar nessa falta de conclusão nos leva a refletir sobre os empecilhos que impedem a formalização de uma denúncia. As possíveis represálias, bem como a impunidade dos casos, perpetuam o silêncio sobre o assédio sexual no mundo corporativo, que não oferece uma estrutura efetiva para prevenir, combater e ouvir as vítimas. Prova disso é uma pesquisa do governo sul-coreano feita em 2015, em que 8 a cada 10 trabalhadores, entre homens e mulheres, revelaram ter sido assediados sexualmente no ambiente de trabalho. As principais vítimas, segundo os dados, eram mulheres jovens, geralmente empregadas em trabalhos irregulares.

Essas barreiras e o silêncio em torno do assédio sexual no mundo corporativo também se traduz de outras formas. É notável que em todas as vezes que a agressão é abordada no drama, apenas dois personagens assumem uma posição mais combativa: a Sra. Sun e o Sr. Oh. O posto que os dois ocupam na empresa, como vice-diretores, concedem um poder maior na estrutura hierárquica, o que permite um posicionamento mais incisivo. Além disso, algumas particularidades de cada personagem — a Sra. Sun é uma mulher em um cargo de chefia; o Sr. Oh é conhecido por desafiar as convenções da empresa e, por isso, é até mesmo visto como pária por alguns superiores e colegas — também contribuem para que sejam justamente os dois a terem essa posição.

Sun Ji-Young: a vida de uma mãe que trabalha fora

Vida Incompleta

Vida Incompleta estende mais um olhar a experiência da mulher no mundo corporativo com a Sra. Sun. Uma das únicas mulheres que vemos em cargos de liderança no drama, ela é vice-diretora de um dos times de vendas e conhecida na empresa por ser uma profissional exemplar. O cargo de chefia, no entanto, não torna a experiência da Sra. Sun no mundo corporativo mais fácil. Estar nesta posição, ao mesmo tempo que lhe concede mais poder e espaço dentro da empresa, também traz mais responsabilidade. Qualquer falha de sua equipe recai sobre os ombros dela, mas com maior peso — além de mulher, ela também é casada e mãe. Ou seja: basta um erro para que o casamento e a filha virem argumento para contestarem sua competência.

Assim como Young-Yi, a Sra. Sun conhece as regras do jogo e as cartas não estão a seu favor. Esse é um ponto que fica claro em uma conversa das duas personagens, que ocorre após Su-jin, uma funcionária da empresa que está grávida, seguir com as longas horas de trabalho e desmaiar por exaustão. Quando Young-Yi pergunta porque a colega não anunciou a gravidez e continuou fazendo as horas extras, a Sra. Sun é direta:

“Ela provavelmente não pode. Um terceiro filho é demais. Mesmo que as coisas tenham melhorado neste mundo, não é fácil criar filhos e trabalhar ao mesmo tempo. Mães trabalhadoras são sempre vilãs. Em casa, no trabalho.”

Vida Incompleta explora essa vilania da mulher, atrelada a culpa, no episódio cinco. O drama faz isso de diferentes formas: primeiro, com a discussão sobre o caso de assédio sexual do Sr. Ma; em segundo, com a relação da maternidade e trabalho, tanto com Su-Jin mas, especialmente, com a Sra. Sun. Invés de começar o expediente mais cedo, como sempre faz, a Sra. Sun precisa levar a filha So-Mi (Lee Go-Eun) até a escola. Antes mesmo dela estar na empresa, já vemos que o trabalho começou: apressada, ela fala ao celular e deixa a filha com a professora, que entrega para ela um desenho que So-Mi fez no dia anterior. Na correria do trabalho, a Sra. Sun só vê o desenho quando, enquanto se arruma no banheiro, o papel cai de sua bolsa e Young-Yi lhe entrega, comentando que as pessoas do desenho não têm rosto. A observação deixa a Sra. Sun reflexiva, especialmente quando ela sabe que as pessoas sem rosto no desenho são ela e seu marido: ela aparece em pé e ele, deitado em um sofá.

Este momento no banheiro, inclusive, é uma ocasião em que vemos nascer uma solidariedade entre as duas personagens, mesmo que elas não trabalhem diretamente uma com a outra. Ambas se encontram em momentos vulneráveis: enquanto a Sra. Sun discute com o marido pelo celular sobre quem deve buscar a filha na escola, Young-Yi chora depois de mais uma bronca injusta do Sr. Ha. Mesmo que uma não conheça todo o contexto do incidente que levou a outra para o banheiro, elas não precisam se explicar para que haja uma compreensão mútua — o olhar e as palavras gentis, de uma para a outra, são conforto suficiente. Irônico também observar que somente no espaço mais privado de toda a empresa — um banheiro — e que é exclusivo para mulheres, elas se sentem confortáveis o suficiente para sentirem suas emoções.

De lá, Young-Yi segue para mais um dia de trabalho; a Sra. Sun, por sua vez, consegue encontrar alguém para buscar a filha na escola quando o Sr. Oh, ao saber de sua situação, é solidário e pede que Geu-rae fique com So-Mi até a Sra. Sun finalizar o expediente. Mesmo quando chega em casa, o trabalho da Sra. Sun não acaba: ela coloca a filha para dormir, recolhe e dobra as roupas limpas, lava a louça e limpa a estante de livros. É uma rotina pós-expediente completamente diferente da que os homens do drama possuem: enquanto a noite dela é ocupada por tarefas domésticas, os homens encontram com os colegas, clientes e parceiros em restaurantes e bares.

Essas confraternizações, chamadas de hoesik, são comuns na cultura de negócios sul-coreana. Participar não é uma questão de escolha, já que são essenciais para as relações no mundo corporativo — estar presente nelas é uma forma de demonstrar respeito à hierarquia, mas também de estreitar relacionamentos e fechar acordos. Não é à toa que o hoesik possui sua própria etiqueta e é incluído como uma prática importante para as negociações com sul-coreanos. A simbologia que o hoesik possui na cultura empresarial também é diretamente ligada à desigualdade de gênero do mundo corporativo. Para mulheres como a Sra. Sun, que são casadas e mães, frequentar confraternizações como essa não são uma opção. Após finalizarem o expediente na empresa, elas possuem uma nova jornada de trabalho: a das atividades domésticas e o cuidado com a família, que são, aos olhos da sociedade, responsabilidade delas. Como, então, participar desses encontros quando eles acontecem nos dias de semana e terminam tarde da noite?

Mais uma vez, percebemos como o ambiente corporativo é centrado nas experiências masculinas. Ser casado e pai não são obstáculos para um homem frequentar o hoesik, já que, em teoria, eles não possuem obrigações pós-expediente como uma mulher casada e mãe tem com as atividades domésticas. Ao não participar dessas confraternizações, as mães que trabalham fora, segundo uma pesquisa sobre os desafios profissionais das mulheres coreanas contemporâneas realizada na Universidade de São Francisco, acabam excluídas de redes de contatos estabelecidas nesses encontros e, também, dos processos de decisão em negociações. Isso prejudica o crescimento delas na empresa — é o “teto de vidro”, expressão que denomina as barreiras invisíveis que as mulheres encontram para ascender profissionalmente. Aqui, nos deparamos com a vilania que a Sra. Sun menciona sempre acompanhar as mães trabalhadoras. De um lado, quando não participam do hoesik, não fazem horas extras ou precisam adaptar a agenda e se ausentar por alguma urgência relacionada aos filhos, a mulher é vista vilã no trabalho. Se elas priorizam o trabalho, também são vilãs, por, em teoria, não se dedicarem como deveriam aos filhos.

O desenho de So-mi, com os pais sem rosto, é também uma expressão dessa vilania, designada pelo olhar alheio, mas que também é autointitulada. O desenho sem rosto da filha, para a Sra. Sun, representa como a criança raramente vê os pais de fato. No dia a dia, suas interações com eles são tão rápidas e distantes, por conta da rotina exigida pelo trabalho, que seus rostos são como borrões. Quando se dá conta disso e nota que a filha sempre a vê de costas nas despedidas da escola, a Sra. Sun se coloca na mesma altura de So-mi e, com os olhos marejados, abraça a menina, prometendo que nunca irá afastá-la. A cena é simbólica: ao mesmo tempo que representa a força que um momento simples para a relação mãe e filha, mas que é facilmente perdido no frenesi diário, também transparece um sentimento de culpa materna, tão presente nas mães que trabalham fora.

No fim, a dupla jornada de trabalho leva a Sra. Sun ao colapso — ela desmaia no meio da rua devido à combinação de estresse, cansaço e insônia. Inicialmente, pensamos ser a rotina da Sra. Sun a culpada pelo desmaio; depois, descobrimos que além disso, também há um incidente a mais por trás da crise: o marido dela foi promovido no trabalho e pede a ela que se demita, já que com a promoção, a família teria renda suficiente para se sustentar sem o trabalho dela. Esta parece ser uma encruzilhada que as mães que trabalham fora inevitavelmente sempre chegam (ou nunca saem): a escolha entre o trabalho e a vida doméstica. Inicialmente, a Sra. Sun resiste à ideia, contra-argumentando que está há 15 anos na empresa e gosta do trabalho. Depois, ela decide se demitir e chega até a falar com seu superior, mas reconsidera e retira o pedido de demissão. Esse conflito, que se resolveria aí, ganha novos contornos quando ela ouve os membros de sua equipe lamentarem que ela continuaria, pois não poderiam ser promovidos para o cargo dela.

Ao confidenciar essa ocasião ao Sr. Oh, a Sra. Sun comenta como fica chateada ao ouvir eles dizerem isso, já que ela pensa neles como familiares. Esse é um momento emblemático na temática de Vida Incompleta: no fim, o quanto o hoesik e o convívio por horas a fio permitem que se conheça, de fato, a pessoa que trabalha ao seu lado? O quão autêntico é esse companheirismo e até onde ele existe fora do escritório? Essas são perguntas que ecoam em todas as relações do núcleo da One International (e, consequentemente, do mundo corporativo), mas que também são um retrato da própria forma como nós, seres humanos, nos relacionamos socialmente: quais relacionamentos mantemos como forma de sobrevivência?

Na mesma conversa com o Sr. Oh, a Sra. Sun explica que no trabalho, ela encontra uma forma de se amar — e que ela precisa disso para amar sua família. Este é outro ponto-chave na trama de Vida Incompleta, mas especialmente para o arco narrativo da Sra. Sun. Aqui, apesar de não se aprofundar, é um momento em que o drama abre espaço para abordar o trabalho com realização pessoal: o quanto essa ideia ganha mais força na vida de uma mulher que também é mãe e esposa, em que se espera que ela sempre coloque o outro como prioridade? É uma fala que nos leva a refletir sobre os papéis sociais da mulher e de como, dentre todos, é no trabalho que a Sra. Sun encontra espaço para desenvolver sua autoestima.

“It’s a Man’s, Man’s, Man’s World?”

Em “It’s a Man’s, Man’s, Man’s World”, James Brown canta como o homem criou o carro, o trem, a eletricidade e o barco, que trouxeram grandes conquistas para a humanidade — mas, que no fim, nada seria o homem sem uma mulher ao lado. É uma canção que fala primariamente de amor, mas em Vida Incompleta, vemos que o mundo dos colarinhos brancos também funciona assim — inclusive, podemos ir além. Para estar na One International fechando negócios milionários durante o dia, a maioria dos homens recebe cuidados diários de uma mulher na sua vida — no geral, em uma relação mais direta, de suas mães ou esposas. É aqui que entra o conceito de trabalho de cuidado. Conforme explica o relatório da Oxfam sobre o tema:

“O trabalho de cuidado é essencial para nossas sociedades e para a economia. Ele inclui o trabalho de cuidar de crianças, idosos e pessoas com doenças e deficiências físicas e mentais, bem como o trabalho doméstico diário que inclui cozinhar, limpar, lavar, consertar coisas e buscar água e lenha.”

Apesar da maior parte dessas atividades não serem remuneradas ou sequer serem reconhecidas como trabalho, elas são fundamentais para que possamos — veja só ela mais uma vez — sobreviver. Sem alguém para realizar essas tarefas diárias, ressalta a Oxfam, “comunidades, locais de trabalho e economias inteiras ficariam estagnadas”. A One International não escapa disso. Do que seria Geu-Rae sem sua mãe? Ou do Sr. Oh sem sua esposa, que cuida dele, dos três filhos e da casa? São personagens que mesmo secundárias, são essenciais para a trajetória de dois dos personagens mais importantes do drama. No entanto, ao longo de 20 episódios de Vida Incompleta, nem chegamos a conhecer seus nomes.

De certa forma, podemos traçar um paralelo desse apagamento com a própria realidade do trabalho de cuidado: invisível, mas sempre presente. Também apenas conhecemos essas mulheres nos seus papéis de mães e esposas — fora desses papéis, não sabemos nada sobre quem elas são. Até outros personagens secundários e que também não são identificados com nome, como o marido da Sra. Sun, nós conhecemos mais — sabemos que ele joga golfe, por exemplo. Pensar na anulação da identidade dessas mulheres na trama de Vida Incompleta também se relaciona com a importância que o trabalho possui para a Sra. Sun — é onde ela encontra espaço, na sua rotina, para ser definida por ela mesma, além de esposa e mãe de alguém. É também no arco narrativo dela que o trabalho de cuidado é visto na realidade de uma mãe que trabalha fora, quando a vemos realizando os trabalhos domésticos depois do expediente.

No fim, pode parecer que o universo de Vida Incompleta é como James Brown cantou: as glórias do mundo vieram dos homens. Porém, na prática, todas essas conquistas existem não porque as mulheres são a companhia desses homens, mas por estarem envolvidas, direta ou indiretamente, no trabalho que tornou tudo isso possível. Sejam os feitos da nossa sociedade, da One International e até mesmo da própria “It’s a Man’s, Man’s, Man’s World”  — a compositora da canção é Betty Jean Newsome, uma mulher — todos eles também são frutos das mulheres.

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